06 dezembro 2012

MACHADO e EÇA

Machado de Assis (1839-1908)
 
As relações entre os dois grandes mestres do realismo de língua portuguesa foram praticamente inexistentes. Porém, uma crítica de Machado de Assis em O Cruzeiro (16 e 30 de Abril de 1878) poderia ter dado origem a uma polémica com Eça de Queiroz. Por razões um tanto enigmáticas, não deu. Eça fez-se de orelhas moucas e só indirectamente veio definir a sua posição sobre o assunto.
Que dizia Machado? Em primeiro lugar, que Eça imitara Zola no seu romance La faute de l’ abbé Mouret ao escrever O Crime do Padre Amaro (2ª versão da obra, que foi a lida pelo escritor brasileiro); depois, que O Primo Basílio, em Luiza e no fundamental da construção romanesca, era concupiscente, repugnante e de um erotismo inaceitável; finalmente, que nada desta literatura era comparável com obras do romantismo português e brasileiro como O Monge de Cister, o Arco de Santana ou o Guarany.
Machado de Assis ainda não tinha publicado, por esta altura, os romances realistas que o tornaram célebre: Memórias Póstumas de Brás Cubas, Quincas Borba, Dom Casmurro, Esaú e Jacó. Também ele fez o seu caminho do romantismo às formas avançadas da nova arte. Eça e Emília (a esposa) liam-no em Paris, e certamente o admiravam.
Diz-nos A. Campos Matos no seu livro Sobre Eça de Queiroz (Lisboa, Livros Horizonte, 2002): “Quando Eça morreu, Machado quebra o seu silêncio escrevendo: ‘Que hei-de eu dizer que valha esta calamidade?’. Nesse mesmo texto, de uma carta, confessou que começara em Eça pela estranheza acabando pela admiração. É caso para dizer, citando Fernando Pessoa, ‘primeiro estranha-se, depois entranha-se’…”.

5 comentários:

Manuel disse...


Extracto da nota da 2ª edição de "O Crime do Padre Amaro", de 1 de Janeiro de 1880 (resposta indirecta de Eça a Machado de Assis a respeito das semelhanças do seu romance com "La Faute de l´Abbé Mouret"):

"O Crime do Padre Amaro" recebeu no Brasil e em Portugal alguma atenção da crítica, sobretudo quando foi publicado, ulteriormente, um romance intitulado – "O Primo Basílio". E no Brasil e em Portugal escreveu-se (sem todavia se aduzir nenhuma prova efectiva) que "O Crime do Padre Amaro" era uma imitação do romance do Sr. Zola – "La Faute de l'Abbé Mouret" – ou que este livro do autor do "Assommoir" – e de outros magistrais estudos sociais, sugerira a ideia, os personagens, a intenção de "O Crime do Padre Amaro".
Eu tenho algumas razões para crer que isto não é correcto. "O Crime do Padre Amaro" foi escrito em 1871, lido a alguns amigos em 1872, e publicado em 1874. O livro do Sr. Zola, "La Faute de l'Abbé Mouret" (que é o quinto volume da série Rougon-Macquart ), foi escrito e publicado em 1874.
Mas (ainda que isto pareça sobrenatural) considero esta razão apenas como subalterna e insuficiente. Eu podia, enfim, ter penetrado no cérebro, no pensamento do Sr. Zola, e ter avistado, entre as formas ainda indecisas das suas criações futuras, a figura do abade Mouret –exactamente como o venerável Anquises, no vale dos Elísios, podia ver, entre as sombras das raças vindouras, flutuando na névoa luminosa do Lete, aquele que um dia devia ser Marcelo! Tais coisas são possíveis. Nem o homem prudente as deve julgar mais extraordinárias do que o carro de fogo que arrebatou Elias aos Céus –e do que outros prodígios provados.

Custódia C.C. disse...

Picardias entre escritores ...

Paula M. disse...

E o Eça? Leria ele M. de Assis?

Paula M. disse...

oops, já está respondido no texto. Liam-no e em Paris, que dá sempre outro gosto...

Maria Amélia disse...

No outro dia, num daqueles soturnos e amplos corredores da Faculdade de Letras, comprei, a um alfarrabista ali aboletado, um livro esgotadíssimo do meu interesse académico; saltou-me entretanto à vista uma edição popular
sem data do citado Zola, que o vendedor fez o obséquio de incluir no preço do outro livro. Tempo para o ler é que se torna difícil incluir no tempo normal das muitas e decorrentes coisas. O que nunca me falta é a curiosidade e gostei de ter um vislumbre mais aproximado da questão do presumível plágio (da parte de alguém?). Obrigada, Manuel.