15 janeiro 2013

DIANA DE AVELEDA e RAMALHO ORTIGÃO


Júlio Dinis, pseudónimo literário de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, não foi o único usado pelo autor de Uma Família Inglesa. Numa série de cartas e textos publicados em diversos jornais, o jovem escritor adoptou o pseudónimo feminino de Diana de Aveleda.
Diana de Aveleda, tanto nas suas cartas a Cecília (personagem fictícia), como nas que dirigiu a articulistas da imprensa portuense, assumia o papel de uma mulher inteligente, com alguma cultura, que se demarcava do discurso masculino e da forma de sentir e agir típica dos homens.
Foi assim que enganou Ramalho Ortigão numa carta que lhe enviou depois de o futuro obreiro de As Farpas ter escrito um artigo no Jornal do Porto. Não me dei ao trabalho de procurar esse artigo, mas devia exprimir ideias sobre a condição feminina, exaltando, dentro do espírito do século, as mulheres culturalmente activas, atributos que não agradaram a Diana de Aveleda.
Aqui fica um excerto dessa carta enviada a Ramalho Ortigão em Fevereiro de 1863:
“A mulher digna de o ser é aquela em cuja ortografia os eruditos tenham que lamentar a ignorância absoluta das letras gregas e latinas, a que dos jornais políticos só lê o folhetim, a que dum livro passa em claro os prólogos, que põe de parte as condições filosóficas dos romancistas para seguir o entrecho do romance; que perde de vista a ideia metafísica do autor, para não ver nos acontecimentos narrados senão acontecimentos; a que não tem o ridículo descoco de repetir após a leitura o qu´est ce que cela prouve de filosófica e insuportável memória. É a que folga com os casamentos no final da novela, chora sinceramente a morte da heroína, sonha com a beleza do herói e odeia do coração o pai, o tio, tutor ou conselho de família que se opõe à realização dos castos desejos dos dois amantes.” [1]
O perspicaz Ramalho embatucou, não desconfiou de nada, mas como cavalheiro que era lá publicou a seguinte nota:
“Recebi ontem o escrito, que hoje se publica com este título [‘Coisas verdadeiras’] e que será concluído na folha de amanhã. Era ele acompanhado de uma carta muito elegante e igualmente assinada pela autora. Aplaudo-me de haver escrito com o título ‘Coisas Inocentes’ a bagatela que me proporcionou  esta honra. Ignoro se Diana de Aveleda é um pseudónimo ou um nome. Basta-me também saber que é uma senhora quem o escreve.
Em um folhetim que hei-de publicar brevemente, buscarei provar que fui mal compreendido pela minha leitora e colaboradora excelente. No entanto curvo-me muito respeitosamente diante da fineza que acabo de receber e ponho o meu cordial agradecimento aos pés de Diana de Aveleda.” [2]
Assim mesmo. Joaquim Coelho/Júlio Dinis/Diana de Aveleda tinha na altura 24 anos. Ramalho Ortigão era um pouco mais velho, 27.





[1] JÚLIO DINIS, Cartas e Esboços Literários, Porto, Livraria Civilização, 1946 (d. do prólogo), p. 268.
[2] IDEM, Ibidem, p. 265.

Um comentário:

Custódia C.C. disse...

Estes jovens eram muito arrojados, essa é que é a verdade!