22 janeiro 2013

JÚLIO DINIS E A ARTE DO ROMANCE


Embora de diferentes formas e em extensão variável, todos os grandes escritores reflectiram e escreveram sobre a literatura. Schiller, Garrett, Eça, T. S. Eliot, Pessoa, Régio, Pamuk e Kundera estão entre esses poetas e romancistas autores de vários textos sobre a condição da poesia e a arte do romance.  
Júlio Dinis também não fugiu a tal exercício, o que demonstra ser de facto um grande romancista, preocupado com o que escrevia e a com a recepção dos seus escritos por parte do público.
Durante a sua segunda permanência na città dolente (como chamou, numa referência a Dante, à cidade do Funchal), entre 17 de Outubro de 1869 e Maio de 1870, foi escrevendo uma série de textos que figuram nas suas “Obras Completas” com o título “Ideias que me ocorrem”.
Excerto dum desses textos sobre a arte do romance:
“O romance é um género de literatura essencialmente popular. É necessário que na leitura dele as inteligências menos cultas encontrem atractivos, instrução e conselho e que, ao mesmo tempo, os espíritos cultivados lhe descubram alguns dotes literários para que se possa dizer que ele satisfez à sua missão.
Romances exclusivamente apreciados por eruditos não realizam o seu fim, romance que pela contextura literária revolta a crítica ilustrada, embora fascine o povo por certas qualidades prestigiosas, é um instrumento perigoso que deprava o gosto e às vezes a moral.
A verdade parece-me ser o tributo essencial do romance bem compreendido, verdade nas descrições, verdade nos caracteres, verdade na evolução das paixões e verdade enfim nos efeitos que resultam do encontro de determinados caracteres e determinadas paixões.
Realizados estes desideratos, pode ter-se a certeza de que, ainda sem grande complicação de enredo, o romance há-de agradar aos leitores, que a cada momento estão vendo no livro reflexos de si próprios, de seus pensamentos, de suas paixões e avivando memórias de passados episódios da sua vida.” *
Estes tópicos são coerentes com o que percebemos de Uma Família Inglesa, As Pupilas do Senhor Reitor e demais construções romanescas do escritor portuense.
 
*JÚLIO DINIS, Inéditos e Esparsos, 7º volume das “Obras Completas”, Lisboa, Círculo de Leitores, 1992, p. 11.

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