25 fevereiro 2013

Júlio Dinis (ainda) poesias e morenas - nosso património intangível

Se bem que desfasada no tempo, pois Janeiro já lá vai, mas a propósito da nossa terra e das diferentes viagens que por elas fazemos e seus naturais, aqui deixo a minha contribuição ao nosso escritor, em transição (será?) entre o Romantismo e as pinturas escritas do real: à loura e britânica Jenny ( « Belezas, como ela, foram por certo as que inspiraram as imagens de virgens dos cantos de Ossian ao espírito de quem quer que fosse o seu autor, daquelas virgens que o bardo comparava à neve da planície e cujos cabelos imitavam o vapor do Cromla, dourado pelos raios do ocidente.»), contrapõe a portuguesíssima Cecília: « (...) um modelo de da beleza portuguesa, e portuense talvez, nas suas mais felizes realizações.», e mais à frente:« Cecília não era loira nem trigueira, nem daquela cor pálida que sonham os poetas, e que os médicos desconfiam(...) os cabelos que , por um ondulado natural, se erguiam levemente no alto da fronte, vacilavam entre o negro e o castanho-escuro; os olhos ,sim, esses eram negros deveras(...)».
Nem a propósito, vasculhando nas navegações «internaúticas», encontrei num certo blog, o seguinte poema de Júlio Dinis (uma vez que os nossos últimos autores não desprezavam a poesia), em apoio das trigueiras, sejam elas escalabitanas,portuenses, ribatejanas, alentejanas, algarvias ou quiçá lisboetas ( que ninguém é de Lisboa, mas que as há, há), com ou sem «pelo na venta». Ora aqui vai ele:


TRIGUEIRA

Trigueira! Que tem? Mais feia
Com essa cor te imaginas?
Feia! Tu, que assim fascinas
Com um só olhar dos teus!
Que ciumes tens da alvura
D’esses semblantes de neve!
Ai, pobre cabeça leva!
Que te não castigue Deus.

Trigueira! Se tu soubesses
O que é ser assim trigueira!
D’essa ardilosa maneira
Por que tu o sabes ser;
Não virias lamentar-te,
Toda sentida e chorosa,
Tendo inveja à cor da rosa,
Sem motivos para a ter.

Trigueira! Porque és trigueira
É que eu assim te quis tanto,
Daí provem todo o encanto
Em que me traz este amor.
E suspiras e murmuras!
Que mais desejavas inda?
Pois serias tu mais linda,
Se tivesses outra cor?

Trigueira! Onde mais realça
O brilhar duns olhos pretos,
Sempre húmidos, sempre inquietos,
Do que numa cor assim?
Onde o correr duma lágrima
Mais encantos apresenta?
E um sorriso, um só, nos tenta,
Como me tentou a mim?

Trigueira! E choras por isso!
Choras, quando outras te invejam
Essa cor, e em vão forcejam
Por, como tu, fascinar?
Ó louca, nunca mais digas,
Nunca mais, que és desditosa,
Invejar a cor da rosa,
Em ti, é quase pecar.

Trigueira! Vamos, esconde-me
Esse choro de criança.
Ai, que falta de confiança!
Que graciosa timidez!
Enxuga os bonitos olhos,
Então, não chores, trigueira,
E nunca dessa maneira
Te lamentes outra vez.
 
E diz-nos o autor do blog em questão que «Este poema, cuja popularidade, hoje, desconheço, figurou entre as 100 Melhores Poesias (Líricas) da Língua Portuguesa, escolhidas por Carolina Michaelis de Vasconcellos em 1910. »
E logo a seguir, Guerra Junqueiro (não resisti):
MORENA
Não negues, confessa
Que tens certa pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena.
Pois eu não gostava,
Parece-me a mim,
De ver o teu rosto
Da cor do jasmim.
Eu não… mas enfim
É fraca a razão,
Pois pouco te importa
Que eu goste ou que não.
Mas olha as violetas
Que, sendo umas pretas,
O cheiro que têm!
Vê lá que seria,
Se Deus as fizesse
Morenas também!
Tu és a mais rara
De todas as rosas;
E as coisas mais raras
São mais preciosas.
Há rosas dobradas
E há-as singelas;
Mas são todas elas
Azuis, amarelas,
 
De cor de açucenas,
De muita outra cor;
Mas rosas morenas,
Só tu, linda flor.
E olha que foram
Morenas e bem
As moças mais lindas
De Jerusalém.
E a Virgem Maria
Não sei… mas seria
Morena também.
Moreno era Cristo,
Vê lá depois disto
Se ainda tens pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena!
Segundo o mesmo autor,«Sendo um poema conhecido na sua época, foi escolhido como representativo do estro de Guerra Junqueiro por Cabral do Nascimento para a antologia COLECTÂNEA DE VERSOS PORTUGUESES  do século XII ao século XX, publicada em 1964(...)». 
 
Aqui fica o meu contributo a este nosso património intangível  (por vezes e de preferência não tingido).
 

Um comentário:

Paula M. disse...

Boa intenção...horrível formatação...