15 maio 2013

Arte de Amar- Engenho e Sedução II

Módulo 1- A Sedução

Para começar, os objectivos do nosso percurso formativo são perfeitamente  passíveis de serem atingidos, como adverte o nosso excelso formador:

«Antes de mais, tem confiança no teu coração de que todas podem ser conquistadas;(...) basta que estendas as redes. Mais depressa, na Primavera, se hão-de calar os pardais,e, no Verão, as cigarras (...) do que resistirá a mulher ao jovem que com doçura a quer namorar.»

Portanto, uma atitude optimista impõe-se: todas estão dispostas e são alcançáveis. Mas cuidado, pois as paixões femininas podem ser violentas e irracionais :«(...) é mais intensa que a nossa e possuí fúria bem maior.». Veja-se o caso de Pasífae e o Minotauro (há gostos para tudo).



Metodologia a seguir:
A) Seduzir a criada, sempre tão íntima da ama, mas atenção : «Se ela (...) te for aprazível pelo corpo e não apenas pelo zelo [com que leva e traz as tabuinhas com os escritos amorosos], trata de possuir, primeiro, a senhora; ela seguir-se-á, depois, em sua companhia(...)»;

B) Escolher bem a ocasião: o tempo certo é de grande importância  para que o sedutor não incorra em gastos inconvenientes, sendo que em matéria de presentes as mulheres são mercenárias inexcedíveis ;

C) É preferível  cultivar as belas letras e enviar cartas/tábuas de amor: «Siga, portanto, a carta e leve inscrita palavras de ternura e toque fundo no coração e comece por desbravar caminho.» , mesmo que as esperanças que desvelam sejam enganadoras:« Trata de fazer promessas; pois que mal pode vir de prometer? Em promessas qualquer um pode ser rico.». Mas nada de retórica enfadonha: «Usa linguagem credível e palavras comuns, embora delicadas, por forma a parecer que estás ali a falar , em pessoa.» E persistência!



Outros aspectos da estratégia: estar sempre presente; cuidado com a aparência (nada de exageros efeminados pois «Uma beleza desarranjada é o que fica bem aos homens.»); o convívio gastronómico regado a vinho; a lisonja à beleza feminina, à qual nenhuma é imune; juras falsas, que muitas merecem; choro  («(...) se as lágrimas não aparecerem, pois nem sempre surgem no tempo certo, esfrega os olhos com as mãos molhadas.»); uso de força q.b., pois elas gostam; pro-actividade  temperada com retiradas estratégicas, perante casos mais difíceis; um certo tom de palidez que dá crédito à paixão.

Atenção- a concorrência está  perto: « Não é seguro gabares a um amigo o objecto dos teus amores; quando acredita em ti, que tanto gabas, ele próprio te passa a perna.».

É ainda necessário ser maleável pois « (...) são variados os corações das mulheres; mil corações, tens de apanhá-los de mil maneiras.(...) Aqui, apanham-se os peixes com tarrafa, ali com anzol, acolá as redes fundas os arrastam puxadas por cordas retesadas. E não te convém uma técnica, apenas, para todas as idades; de mais longe se apercebe da armadilha a corça velha, se te dás ares de sábio ao pé de uma ignorante ou de atiradiço ao pé de uma reservada, logo ela desconfia  de que estás a humilhá-la.»

Há, por conseguinte, o seu teor de dificuldade; é uma arte, como outra qualquer, como a metáfora piscatória ilustra certeiramente.

Seguindo estes passos e sendo eles bem sucedidos, «(...) é tempo de lançar âncora e fundear o meu navio.»

Avançaremos pois para um novo módulo: se alcançar o amor exige técnica e arte e considerável esforço, como conservá-lo, que âncora o prenderá?



Ovídio, Arte de Amar, Lisboa,Livros Cotovia, 2006, pp.37,39,41,43,45, 49,52 e 53

Um comentário:

Manuel Nunes disse...

Já tomei as minhas notas. Conteúdos programáticos muito interessantes. Espero o módulo seguinte.