18 junho 2013

A PRISÃO DE GOA E O INJUSTO MANDO

Camões na prisão de Goa em 1556, segundo pintura anónima de que já se disse ser um auto-retrato.  Episódio não totalmente esclarecido da sua vida, não foi a última vez que sofreu perseguição e castigo judicial. Retornando sob prisão de Macau, cerca de 1565, acusado de crimes que hoje denominaríamos de “colarinho branco”, naufraga na foz do rio Mecom, Camboja.

Este receberá, plácido e brando,
No seu regaço o Canto que molhado
Vem do naufrágio triste e miserando,
Dos procelosos baxos escapado,
Das fomes, dos perigos grandes, quando
Será o injusto mando executado
Naquele cuja Lira sonorosa
Será mais afamada que ditosa.

X, 128

8 comentários:

Maria Amélia disse...

Pensarmos nós que desta estrofe doutamente se deduziu que o náufrago tinha conseguido, a custo, salvar o manuscrito--ainda me lembro de umas gravuras patuscas em que o dito, já com os atributos que o distinguem, a coroa de louros e a venda no olho, aparecia no meio das ondas, a nadar um crawl muito assimétrico, segurando numa das mãos, a livrar do húmido elemento, o famoso rolo! Ou sonhei?

Custódia C.C. disse...

Então sonhámos as duas Maria Amélia :)

Manuel José disse...

O sonho comanda a vida, e sempre que um homem sonha (aliás, uma mulher)o mundo pula e avança, etc., etc., etc.

Laurindinha disse...

Oh Sr Adamastor: não devia escrever antes, "atual" Camboja? Ou já tinha esse nome?

ADAMASTOR disse...

L...indinha:
É o Épico que diz, estrofe 127 do Canto Décimo,
"Vês, passa por Camboja Mecom rio,/
Que «capitão das águas» se interpreta;"
Quanto à interjeição "Oh", sempre lhe digo o seguinte: - se exprime surpresa, está bem escrito; se pretende exprimir um chamamento ou uma interpelação então devia ter usado "ó".
E para remate:
"Ó Ninfa, a mais fermosa do Oceano, / Já que a minha presença não te agrada, / Que te custava ter-me neste engano,/Ou fosse monte, nuvem, sonho ou nada"
(V, 57)

Custódia C.C. disse...

Ui ... melhor mesmo é que não se metam com o Adamastor ... embora ele tenha mais fama que proveito ou seja um aspecto feroz, mas um interior eternamente apaixonado pela sua Tétis!

Manuel Nunes disse...

Uns são por Inês, outros por Adamastor. Valha-nos a bela Citereia e o menino das flechas.
:)

Maria Amélia disse...

É verdade: o Sr Adamastor adiantou-se, pois era meu propósito vir corrigir a Laurindinha, coitada, que não tinha atentado bem no poema! Lá está, com efeito, a referência clara a Camboja! Quanto a calinadas gramaticais e outras, dê-lhe forte, companheiro, que esta iliteracia merece.