29 julho 2013

Dulcineia, dulcineia

Dulcineia, dulcineia

Poema de José Gomes Ferreira (A Morte de D. Quixote, in Poeta Militante / Viagem do Século Vinte em Mim - 1º volume, 1977)
Música de Manuel Freire

Dulcineia, Dulcineia,
volte ao que era:
uma plebeia
sem primavera

Volte aos redis,
coberta de chagas
- sem espuma em gomis
nem brilho de adagas.

Volte ao que foi,
pois ainda conserva
um cheirinho a boi,
um cheirinho a erva...

Volte a apanhar pinhas
e bosta para os fornos.
E a tanger cabrinhas
com flores nos cornos.

Volte a andar de gatas
como os outros bichos...
E esqueça as serenatas
aos seus caprichos.

Esqueça o castelo
onde os donzéis
se batiam em duelo
à século XVI...

E volte à aldeia
da sua labuta.

Dulcineia, Dulcineia,
deixe de ser Ideia
e torne-se a carne e a alma
da nova luta.

Um comentário:

Manuel Nunes disse...

Uma Dulcineia militante. É assim mesmo!