25 fevereiro 2013

Garrett «Não te amo»- Entre a Luz e a Cruz


Não te Amo

Não te amo, quero-te: o amar vem d’alma.
E eu n’alma - tenho a calma,
A calma - do jazigo.
Ai! não te amo, não.

Não te amo, quero-te: o amor é vida.
E a vida - nem sentida
A trago eu já comigo.
Ai, não te amo, não!

Ai! não te amo, não; e só te quero
De um querer bruto e fero
Que o sangue me devora,
Não chega ao coração.

Não te amo. És bela; e eu não te amo, ó bela.
Quem ama a aziaga estrela
Que lhe luz na má hora
Da sua perdição?

E quero-te, e não te amo, que é forçado,
De mau, feitiço azado
Este indigno furor.
Mas oh! não te amo, não.

E infame sou, porque te quero; e tanto
Que de mim tenho espanto,
De ti medo e terror...
Mas amar!... não te amo, não.

Almeida Garrett, in 'Folhas Caídas'
 
Viscondessa da Luz
 

 

Garrett, as folhas, a Viscondessa e a «chama impura»



«Gomes de Amorim refere-se ao aparecimento de Folhas Caídas, em 1853, como
um assombroso sucesso. Segundo ele, “todos queriam saber quem era ignoto deo”,
título do poema que abre o livro. Folhas Caídas tem íntima relação com as cartas de
Garrett a Rosa Montufar. (...)
 
Amorim refere-se ao juízo de Alexandre Herculano, logo que Folhas Caídas saiu:
“Não há senão um homem em Portugal capaz de fazer tais versos! São do Garrett?!”
(Amorim, 1884, t. III: 399). E acrescenta: “Parece que tem vinte anos!” (Amorim,
1884, t. III: 400). Garrett acabara de completar cinquenta e quatro.
A primeira edição (sem indicação de autoria) saiu em Abril de 1853, com trinta
e quatro poemas. Em Maio estava esgotada. Fez-se a segunda edição, neste mesmo
mês, e esta voou como a outra. Em quase todos os poemas aparecem as palavras
ROSA E LUZ. (...)
 
Gomes de Amorim narra os comentários dos salões: as mulheres eram
indulgentes, os homens qualificavam de pouca vergonha. Enquanto isso, liam-se às
escondidas os versos, cochichava-se pelos cantos. E Garrett retomava hábitos e
costumes de homem novo e elegante. (...)
 
Se o romance de Garrett com a Viscondessa da Luz fez escândalo, culminando com a publicação de Folhas caídas, isto se deve em parte à moral vitoriana que regia
o Portugal oitocentista. Mas não é só disso que se trata. Garrett inclui o sexual, seja
como for, em poemas como “Não te amo”, “Coquete dos prados”, “Víbora”, “Anjo
és”, “Seus olhos”. Mas a novidade de Folhas caídas, que já estava apontada em Flores
sem fruto, é fazer desta inclusão algo que o afeta de modo muito íntimo e particular.
Ainda assim, permanece o sintoma que o dilacera: entre a repulsa ao sexo e a recusa
de amar (quando a força do sexual insiste e resiste).
Este drama de Garrett termina por inquietar também seu próprio biógrafo. É
assim que Gomes de Amorim comenta este poema verdadeiramente sensacional
intitulado “Cascais”: “apesar de serem essas estrofes admiráveis, sente-se que elas
nasceram de uma chama impura” (Amorim, 1884, t. III: 412).  À época da morte de Garrett, ficou famoso o chiste atribuído a Rodrigo da Fonseca Magalhães, então ministro na pasta do Reino: “Morreu abraçado à CRUZ, com os olhos na LUZ.” Teria sido no Cemitério do Prazeres, segundo Gomes de Amorim, que Rodrigo “proferiu (...) [o] epigrama” (Amorim, 1884, t. III: 687). O chiste vale pelo que consegue resumir do drama que se abateu sobre Garrett, que se impõe a renúncia e o sofrimento em nome de um Ideal de amor.»
 
In, SÉRGIO NAZAR DAVID, GARRETT: ENTRE A CRUZ DO DESEJO E A LUZ DO
AMOR
DISCURSOS. SÉRIE: ESTUDOS PORTUGUESES E COMPARADOS - Universidade Aberta
repositorioaberto.uab.pt/bitstream/10400.2/408/1/discursosAlmeidaGarrett105-126.pdf.pdf
 



Júlio Dinis (ainda) poesias e morenas - nosso património intangível

Se bem que desfasada no tempo, pois Janeiro já lá vai, mas a propósito da nossa terra e das diferentes viagens que por elas fazemos e seus naturais, aqui deixo a minha contribuição ao nosso escritor, em transição (será?) entre o Romantismo e as pinturas escritas do real: à loura e britânica Jenny ( « Belezas, como ela, foram por certo as que inspiraram as imagens de virgens dos cantos de Ossian ao espírito de quem quer que fosse o seu autor, daquelas virgens que o bardo comparava à neve da planície e cujos cabelos imitavam o vapor do Cromla, dourado pelos raios do ocidente.»), contrapõe a portuguesíssima Cecília: « (...) um modelo de da beleza portuguesa, e portuense talvez, nas suas mais felizes realizações.», e mais à frente:« Cecília não era loira nem trigueira, nem daquela cor pálida que sonham os poetas, e que os médicos desconfiam(...) os cabelos que , por um ondulado natural, se erguiam levemente no alto da fronte, vacilavam entre o negro e o castanho-escuro; os olhos ,sim, esses eram negros deveras(...)».
Nem a propósito, vasculhando nas navegações «internaúticas», encontrei num certo blog, o seguinte poema de Júlio Dinis (uma vez que os nossos últimos autores não desprezavam a poesia), em apoio das trigueiras, sejam elas escalabitanas,portuenses, ribatejanas, alentejanas, algarvias ou quiçá lisboetas ( que ninguém é de Lisboa, mas que as há, há), com ou sem «pelo na venta». Ora aqui vai ele:


TRIGUEIRA

Trigueira! Que tem? Mais feia
Com essa cor te imaginas?
Feia! Tu, que assim fascinas
Com um só olhar dos teus!
Que ciumes tens da alvura
D’esses semblantes de neve!
Ai, pobre cabeça leva!
Que te não castigue Deus.

Trigueira! Se tu soubesses
O que é ser assim trigueira!
D’essa ardilosa maneira
Por que tu o sabes ser;
Não virias lamentar-te,
Toda sentida e chorosa,
Tendo inveja à cor da rosa,
Sem motivos para a ter.

Trigueira! Porque és trigueira
É que eu assim te quis tanto,
Daí provem todo o encanto
Em que me traz este amor.
E suspiras e murmuras!
Que mais desejavas inda?
Pois serias tu mais linda,
Se tivesses outra cor?

Trigueira! Onde mais realça
O brilhar duns olhos pretos,
Sempre húmidos, sempre inquietos,
Do que numa cor assim?
Onde o correr duma lágrima
Mais encantos apresenta?
E um sorriso, um só, nos tenta,
Como me tentou a mim?

Trigueira! E choras por isso!
Choras, quando outras te invejam
Essa cor, e em vão forcejam
Por, como tu, fascinar?
Ó louca, nunca mais digas,
Nunca mais, que és desditosa,
Invejar a cor da rosa,
Em ti, é quase pecar.

Trigueira! Vamos, esconde-me
Esse choro de criança.
Ai, que falta de confiança!
Que graciosa timidez!
Enxuga os bonitos olhos,
Então, não chores, trigueira,
E nunca dessa maneira
Te lamentes outra vez.
 
E diz-nos o autor do blog em questão que «Este poema, cuja popularidade, hoje, desconheço, figurou entre as 100 Melhores Poesias (Líricas) da Língua Portuguesa, escolhidas por Carolina Michaelis de Vasconcellos em 1910. »
E logo a seguir, Guerra Junqueiro (não resisti):
MORENA
Não negues, confessa
Que tens certa pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena.
Pois eu não gostava,
Parece-me a mim,
De ver o teu rosto
Da cor do jasmim.
Eu não… mas enfim
É fraca a razão,
Pois pouco te importa
Que eu goste ou que não.
Mas olha as violetas
Que, sendo umas pretas,
O cheiro que têm!
Vê lá que seria,
Se Deus as fizesse
Morenas também!
Tu és a mais rara
De todas as rosas;
E as coisas mais raras
São mais preciosas.
Há rosas dobradas
E há-as singelas;
Mas são todas elas
Azuis, amarelas,
 
De cor de açucenas,
De muita outra cor;
Mas rosas morenas,
Só tu, linda flor.
E olha que foram
Morenas e bem
As moças mais lindas
De Jerusalém.
E a Virgem Maria
Não sei… mas seria
Morena também.
Moreno era Cristo,
Vê lá depois disto
Se ainda tens pena
Que as mais raparigas
Te chamem morena!
Segundo o mesmo autor,«Sendo um poema conhecido na sua época, foi escolhido como representativo do estro de Guerra Junqueiro por Cabral do Nascimento para a antologia COLECTÂNEA DE VERSOS PORTUGUESES  do século XII ao século XX, publicada em 1964(...)». 
 
Aqui fica o meu contributo a este nosso património intangível  (por vezes e de preferência não tingido).
 

11 fevereiro 2013

"VIAGEM À RODA DO MEU QUARTO"

Xavier de Maistre (Chambéry, Sabóia, 1763 - São Petersburgo, 1852)

Irmão do filósofo Joseph Maistre, Xavier de Maistre fez estudos medíocres, alista-se no exército e de seguida, recusando servir a França republicana, foge para a Rússia onde, após várias deambulações, se fixa em 1839. (…) Publicada sem o nome do autor, a Viagem apresenta-se como fruto de 42 dias de detenção; dará origem a um remake de interesse menor: Expedição Nocturna à Roda do Meu Quarto
(De um artigo de SAINTE-BEUVE)
 
 
"Depois da poltrona, caminhando para norte, encontra-se a minha cama, que se situa ao fundo do quarto e oferece a mais agradável perspectiva. Está localizada da maneira mais feliz: os raios de sol vêm cair sobre as cortinas. – Vejo-os, nos belos dias de Verão, avançar ao longo da parede branca à medida que o sol se ergue: os ulmeiros diante da minha janela dividem-nos de mil maneiras e fazem-nos balançar sobre a cama cor de rosa e branca, o que difunde por todo o lado uma tonalidade encantadora devido à reflexão."
XAVIER DE MAISTRE, Viagem à Roda do Meu Quarto seguido de O Leproso da Cidade de Aosta, tradução de Célia Henriques, Lisboa, & etc., 2002, cap. V, p. 27.

07 fevereiro 2013

CASA DA ACHADA - CENTRO MÁRIO DIONÍSIO

Maria Alzira Seixo

Até Junho, na Casa da Achada - Centro Mário Dionísio, sessões mensais sobre o autor de A Paleta e o Mundo apresentadas por Maria Alzira Seixo, professora catedrática da Universidade de Lisboa, ensaísta e crítica literária.

Estivemos na primeira destas sessões, no passado dia 26.
Presente também MANUELA DEGERINE, escritora, 
que se referiu à nossa Comunidade num artigo publicado na página  “A Viagem dos Argonautas”:

06 fevereiro 2013

UMA HISTÓRIA A DOIS TECLADOS (II)

JOÃO ALBERGARIA (texto 3)

 
3
 
O poeta falhado expendeu, entretanto, algumas considerações sobre mulheres que conhecera e amara: a morgadinha dos canaviais, Emma Bovary, a Barbara de Jacques Prévert.
Regurgitava de gente a Cervejaria Virginal, Vaginal se chamaria se o produtor, atento ao assunto, não tivesse intervindo no script para corrigir a enormidade.
– Depois deste filme, que me parece poder descambar em algumas ousadias torpes, só investirei em histórias com meninas do tipo Jenny ou Joaninha dos Olhos Verdes – terá dito.
A anotadora, uma rapariga de cachecol ondulante e saia cor de tijolo da Mango, trocou um olhar de entendimento com o realizador, enquanto a barra zebrada da claquete era movimentada por um assistente, produzindo aquele ruído seco parecido com uma palmadinha no pescoço ou um falso beijo repenicado. Iniciado o take, disse o ajudante de despachante para o poeta falhado:
“Percebes bem pouco de mulheres, meu caro amigo. Fica a saber que as piores gajas são as da alta. Se te decidires a começar com alguma, escolhe uma costureirinha, uma rapariguinha do shopping, uma funcionária municipal com vencimento não superior a 550 euros. O meu patrão é casado com uma tipa cheia de massa, e ainda por cima quinze anos mais nova do que ele, sei bem o que se passa na vida daquele casal, nem me atrevo a falar.  Razão tinha o nosso D. Francisco Manuel de Melo na sua carta de guia de casados!”
O poeta falhado contrapunha:
“Mas o amor, meu amigo, e deixamos de acreditar no amor?”
O ajudante de despachante mandou vir mais uma imperial; abriu a pasta de couro para se se certificar de que não havia perdido o processo de despacho aduaneiro respeitante às peças para submarinos do Ministério da Defesa; tirou de um dente lascado, com a unha do dedo mínimo, um pedaço de tremoço que o afligia; deu liberdade, em discreto flato, a um congestionante gás estomacal.
Ia finalmente falar, mas foi interrompido pela realização. À porta da cervejaria, em grande algazarra de concertinas, violas, cavaquinhos e passinhos, passava o rancho folclórico de Aranda dos Montes, concelho de Alguidares da Beira, que tinha ido a S. Bento cantar as janeiras ao senhor primeiro-ministro. Era nos dias a seguir aos Reis, devem estar recordados.

04 fevereiro 2013

UMA HISTÓRIA A DOIS TECLADOS (I)

Autores: CRISTINA LEIMART (texto 2)
               JOÃO ALBERGARIA (texto 1)


1
 

“Pois meu amigo, nas relações amorosas há dois géneros de mulheres: as que não iniciam uma nova relação sem acabarem com a anterior, e as que precisam de começar com outra para porem fim àquela que têm. As primeiras são mulheres basicamente honestas, admiro-as de verdade, as segundas não têm carácter, são criaturinhas ínfimas e desprezíveis.”
Quem falava assim era um ajudante de despachante que costumava sentar-se na cervejaria, nas tardes lentas de Verão, à hora em que o pessoal começava a sair dos escritórios e a sede acumulada do dia tomava proporções titânicas. Era um tipo magro, de testa alta e nariz adunco, fazendo lembrar uma ave rapace. Trazia sempre consigo uma grossa pasta de couro, refúgio seguro dos processos que, a mando do seu patrão, diariamente levava à alfândega. Sentia-se ali um caso de amor mal resolvido, um desgosto, talvez uma traição, mas quem somos nós para avaliar essas situações que ensombram as almas dos infortunados amantes? 
Trincava um tremoço e continuava:
“A mentira mais insidiosa é a que opera por omissão: essa é a grande arte da mentira feminina. Digo-te, meu amigo, raras são as mulheres que simulam orgasmos ou se queixam de enxaquecas quando vão para a cama. Expediente mais comum é deixarem-se ficar a ver televisão até às duas da manhã e só recolherem ao leito conjugal quando estão certas de que o marido dorme o sono dos justos. Enganadoras filhas de Eva!”
O homem que o escutava, um poeta falhado, obtemperava de olhos piscos entre duas dentadas num rissol de camarão:
“A poesia, meu caro, é preciso ver isso à luz da poesia.”
 
2
 

“O amor goza de prazo de validade, não se pode congelá-lo por tempo indeterminado. Há quem admire a relação amorosa como um monumento imponente, quando não passa de construção frágil, uma capelinha vacilante.”
 “Achas? Em tempos tive uma paixão de caixão ao chão e…”
- Cortaaa! “Uma paixão de caixão ao chão”?? Onde é que isso está no script? Isto é alguma novela assente no improviso?
- O texto é monótono…
- Pá. És o argumentista? Não és o argumentista. Ontem também meteste a colher no texto e essa atitude já me começa a trabalhar no estômago. Cinge-te ao guião. Fazes favor.
Iam no décimo primeiro take. A cena, que à partida se oferecia simples, expunha-se a contingências variadas. Primeiro um adereço do cenário, o autocolante a imitar azulejo português sinalizando a “Cervejaria Virginal”, começara a descolar-se, lentamente, por trás da cabeça do ator que fazia de empregado, tirando protagonismo ao seu estudado gesto de poisar o pratinho de tremoços sem ressoar no vidro da mesa - Corta!
Cortaram depois ao ver-se a silhueta de um figurante entrar inadvertidamente no frame, ofendendo, segundo justificação do realizador, o delicado equilíbrio luz - sombra. Cortou-se quando o ator da pasta de couro se atrapalhou em pleno diálogo, falando de “ormas… osmargu… ormasgos… Eh pá desculpem, enrolou-se-me a língua”, corando como uma cereja do Fundão por entre a risota geral. Corta! também quando o ruído de uma avioneta abafou a fala grave do narrador e encrespou os nervos da equipa de filmagens, a quem haviam garantido total ausência de sobrevoos ao local entre as sete e trinta e as dezanove horas desse dia. De contratempo em contratempo, a picuinhice do realizador ainda gritou Corta! no instante em que um close-up revelou os pelos eriçados do braço esquerdo do outro ator, pois a cena, embora invocasse um típico dia de Verão, era gravada logo a seguir aos Reis.
Enfim passava das duas e trinta quando o realizador sentenciou:
- Há mais cenas para filmar, vamos lá. Última tentativa: As Horas sem Maria - Take 12 – Ação!
 

02 fevereiro 2013