23 janeiro 2014

Azulejos do Mundo

Já que estamos «numa» de interligar assuntos, que globalmente farão sentido e se tocarão aqui e ali, remeto-vos agora para o «nosso» humilde e habitual, bem português, azulejo, fabricado em série por ordem pombalina para revestir o interior e exterior das casas reconstruídas dos escombros do terramoto; revestindo qualquer fachada de prédio de Lx, por inteiro ou em elegante e desapercebido friso de Arte Nova, até ao início do séc. XX;decorando as casas de emigrantes, com muitas reticências estéticas, há 30 anos e agora, descendo ao subsolo e ornamentando, sob a égide e desenho de grandes nomes, o metro lisboeta. Isto para nomear apenas alguns casos. Houve tantas e tão ricas utilizações do azulejo em Portugal! É uma arte decorativa e de revestimento, por vezes de qualidade artística desigual, mas com um encanto «naif» muito especial. Uma arte de pequenos pormenores... E de narrativa pela imagem por excelência.

Mas não é apenas nossa: é isso que a exposição da Fundação Gulbenkian nos demonstra. Arte que fez o esplendor das cidades e construções, numa rota que vem do Oriente e, via a «estrada» do Mediterrâneo, se encontra presente no Sul e Norte da Europa. Desde os «Inícios» no Oriente Próximo, passando pelas «Paredes que Falam», quais cartazes e quadros de outras épocas; a sua «Decoração e Mensagem» revelam muito sobre quem os produziu; são veículos de «Poética Narrativa» nessa sempre constante ligação  entre literatura e arte, espécie de bandas desenhadas de temas bíblicos, mitológicos ou outros (das fábulas de La Fontaine, até compêndios de Matemática e Geometria); e, finalmente  «Sob o Signo do Progresso: nos séc. 19 e 20», fábricas, técnicas, designs, utilizações... tais são os núcleos temáticos do passeio pela Rota do Azulejo.
 Rota que acompanhou outras, certamente, e que não deixa de nos maravilhar, estendendo-se  da Pérsia dos azuis turquesa, à China; da Turquia dos brilhantes Iznik, à Síria; dos alicatados do Magrebe,  aos coloridos de  Valência e Sevilha, às cidades italianas e seus elegantes pavimentos, à Flandres e Holanda e os seus avulsos a azul e sépia  e painéis de desenho de fino traço e a Portugal, da esfera armilar do palácio de Sintra, espaldares de bancos para descansos conventuais, frontais de altares imitando intrincadas taperias, damas sofisticadas no toucador, «chinoiseries», deusas e musas, produção seriada da Fábrica do Rato de delicadas florinhas; das fábricas de  cerâmica de Bordalo  e de Sacavém à Grã- Bretanha de William Morris e Alemanha da Villeroy & Bosch.
Aqui ficam alguns exemplos:



Friso dos Arqueiros, Susa, Irão, c. 522-486 ac, Museu do Louvre

Azulejo em estrela, com dourados, Kashan, Irão, c. 1270 , Gemeentemuseum, Den Haag


Pavimento, oficina italiana, Antuérpia, entre 1512 e 1541, Gemeentemuseum, Den Haag

Azulejo em estrela com figuras, Kashan, Irão, 1296/1297, Museu do Louvre

Esfera armilar, Palácio Nacional de Sintra

Azulejo didáctico, Coimbra (?), c. 17/1750, Museu Machado de Castro, Coimbra

A Kaaba, em Meca, Kütahya, Turquia, primeira metade do séc. XVIII, Museu do Louvre

Revestimento, Magrebe, c. 1450,  Museu del Disseny  de Barcelona



Azulejos Isnik, Turquia , segunda metade séc. XVI,  museu Calouste Gulbenkian

Azulejo chinês, c. 1700/1730,  Tegelmuseum, Otterlo, Holanda

Cercaduras com crianças brincando,  Talavera de la Reina, c. 1564/1565,  Colecção Família Cardoso Pinto

Painel La Xocolatada (pormenor), Barcelona , 1710, Museu del Disseny  de Barcelona


Painel La Xocolatada , Barcelona , 1710, Museu del Disseny  de Barcelona
Revestimento de parede, William Frend De Morgan e William Morris, 1876/77, Museu d' Orsay

Rafael Bordalo Pinheiro, 1904, Museu Rafael Bordalo Pinheiro

Max Laeuger , Kandern, Alemanha, 1908/10, Tegelmuseum, Otterlo, Holanda

Bülent Erkmen, Painel,  Azulejos Iznik, Instambul, 2009, Museu do Azulejo

Figura de Convite: Minerva, primeira metade séc. XVIII, Portugal

7 comentários:

MANUEL N., bloguista disse...

Boa ligação, Paula. Alô, alô.
Aí está uma exposição que muitos distraídos ainda não foram ver. E já não têm muito tempo- 26 de Janeiro o último dia, não é?
Safa! O blogue está carregadinho de ideias... e de imagens.
Pela minha parte, prometo não colocar nada nas próximas 2 horas.
:) :) :)

Custódia C.C. disse...

Paula
Ainda bem que lembraste!
Cativante a tua prosa sobre a exposição

Vou tentar lá ir na hora de almoço de Domingo ...

Paula M. disse...

Nem todo(a)s andam distraídas. Tive o prazer de encontrar algumas das nossas amigas e companheiras quando lá estive dia 12 :)

MANUEL N., bloguista disse...

Sim, Paula, eu sei. Elas andam caladas, mas vão a todas (lol).

Joca disse...

Camarada, ando caladinha e a trabalhar. Entro no blog e fico tonta com tanta troca de comentários, que não consigo dar conta do recado. Vamos lá continuar a bombar cultura! Pela cultura, também vamos :)

MANUEL N., bloguista disse...

Camarada, concordo inteiramente. O calado é o melhor!
Lembra-te daquele dito: "Eles falarem, falarem, mas não dizerem nada de se aproveitar" LOL

Maria Amélia disse...

Apreciei, Paula, a partilha de conhecimentos e algum deslumbramento com a arte azulejar. Acontece-me que fui sempre adiando o aprofundar conhecimentos sobre este tema, para o qual pontua o especialista reconhecido à mão, o José Meco. Mas o teu post levou-me a rememorar um momento muito denso: a visita (repetida) à Mesquita Azul, em Istambul... Talvez publique alguma coisa, também para puxar por quem também tem memórias...