05 abril 2014

AS IRRELEVANTES MEMÓRIAS (I)

ANTÓNIO QUADROS, Auto-retrato
 
Lourenço Marques, assim se chamava, pérola do Índico ou coisa parecida, foi lá que me encontrei com João Pedro Grabato Dias, na verdade António Quadros, pintor (1933-1994), também conhecido pelos falsos nomes de Frey Ioannes Garabatus e Mutimati Barnabé João, corria o anno Domini 1972, o Outono floria a sul do Equador, e toda a esperança era ainda possível. O encontro deu-se numa livraria, como convinha, livros que apareciam e desapareciam numa fugacidade austral de fazer suar os poros dos trópicos. As acácias rescendiam nas avenidas e eu pouco sabia da vida, estado em que, felizmente, ainda me mantenho.
 
MÁRTIRMONIAL, MATRIARMORIAL, MATRIHORMONAL
 
Cavalheiro distinto, e modesto,
com alguma cultura, em pousio,
de boagnífica família e lavradio
passável, lutador ambidextro
 
com ursos superiores, bastante lesto
nas também duas pernas, de assobio
em coisas musicais e sem fastio
ou outro desarranjo; ainda intesto
 
por falta de vagares ou vícios; vivo
em jogos de sala e outro desporto
procura jovem fêmea com lascivo
 
andar, dotada quanto a dote e a dotes
glúteas nalgas de alevantar um morto
e, se possível, algo que decote.
 
JOÃO PEDRO GRABATO DIAS, Sonetos de Amor e Circunstância e uma Canção Desesperada, Lourenço Marques, edição do autor, 1970, p. 44.
Nº 1 dos Cadernos de Poesia Caliban, de 1971, de que João Pedro Grabato Dias e Rui Knopfli foram coordenadores, e edição de autor, de 1970, dos Sonetos de Amor e Circunstância.


3 comentários:

Anônimo disse...


... e eis senão quando eu já pensava que isto era mais um blog de "funcionários da leitura", o Manel me surpreende com este magnífico texto. Triplamente surpreendente: em si mesmo, porque curto, e no que respeita o autor lembrado.

É que, cá para mim, estas coisas da arte - escrita, pintada, teatralizada ou outra - têm antes de mais de ser capazes disso: de surpreender. O "espanto", reclamado por Platão para princípio fundador da filosofia, tem de ser ao menos partilhado com a arte.

abraço aqui da província (Miranda do Corvo)

nelson


Anônimo disse...

Bia diz...
Se estivesse no Facebook, poria um gosto.

Conheci António Quadros como Mutimati Barnabé João, num pequeno livro "Eu, o povo" (Moçambique, 1984).
No poema, 24 horas por dia, ele diz:
...... .......... ......
"Estou a dormir. Estou acordado. Estou sempre vivo.
É possível trabalhar 24 horas por dia
E estar muito descansado.
Não pensar Nada é que cansa Tudo."

Manuel Nunes disse...

Amigo Nelson: Abraço para si e para todos os amigos de aí, terra serrana de Miranda. Vamos fazendo o que se pode: o blogue é modesto.
Entretanto já tenho ao pé de mim "A Brasileira de Prazins". Cá por umas coisas, peguei também n´"O Retrato de Ricardina". Depois darei notícias.