04 abril 2014

EDWARD HOPPER (1882-1967), Room in New York
 
EM FRENTE DO MAR
 
Pergunto a mim próprio em que noite nos perdemos?,
que desencontro nos levou de um a outro lado das
nossas vidas? e que caminhos evitámos para que os nossos
passos se não voltassem a cruzar? Mas as perguntas que
te faço, hoje, já não têm resposta. Sento-me contigo,
nesta mesa da memória, e partilho o prato da solidão. Tu,
na cadeira vazia onde te imagino, sacodes o cabelo com
um aceno de ironia. E dou-te razão: as coisas podiam
ter sido de outro modo. Não te disse as palavras que
esperaste; e havia o mar, com as suas ondas, nessa tarde
em que me puxaste para longe da cidade, como se
a noite não nos obrigasse a voltar, quando o horizonte
se apagou à nossa frente. Depois disso, nenhuma
pergunta tem resposta. O que é absurdo há-de continuar
absurdo, como o horizonte não se voltou a abrir,
trazendo de volta os teus olhos que me pediam que
os olhasse, até que a noite me impedisse de o fazer.
 
NUNO JÚDICE, O Estado dos Campos (2003)


2 comentários:

Manuel Nunes disse...

Ora veja lá a comentadora dos amores extremosos se se inspira com estes Hopper e Júdice. :)

Custódia C.C. disse...

Colocaste um Hopper a ilustrar ... tocaste-me no coração.
Gosto muito, muito!
Nos seus quadros vejo histórias do quotidiano que podem ser reais. No caso presente é quase que o texto (belíssimo)do Júdice em imagem. Numa palavra: Perfeito!