09 maio 2017

"Novelas Eróticas" de Manuel Teixeira-Gomes - 2 Junho às 21h00


A abrir o conto sem nome ou chamado apenas "?"

"O meu quarto na hospedaria Fra Giaccomo em Smirna, era uma gaiola de vidro suspensa sobre o mar, e isso concorreu muito para que eu aí me demorasse mais do que projectara. Não que o panorama fosse risonho; bem pelo contrário. A desarmónica imensidade do golfo, a disposição das esmagadoras montanhas vizinhas, a cidade que não brilha, com o seu casario escuro apinhado nas encostas, nas alturas recortadas de ameias, restos de arruinadas fortificações antigas, todo este conjunto formava um quadro melancólico. E a pretensiosa fachada italiana da cidade (existiria ela ainda?) que levantaram sobre o cais, a semelhança de Messina, era mais um engano que a ninguém alegrava nem contentava. Depois, a situação moral dos habitantes (domínio de dez mil turcos sobre trezentos mil italianos, gregos, arménios e judeus), os receios, os terrores mal disfarçados da população cristã, a qual dir-se-ia que julgava próxima e inevitável a chacina exterminadora com que os muçulmanos a ameaçavam, diariamente e sem rebuço, junto a uma profunda crise económica, alimentavam a atmosfera de tristeza que a paisagem, com os seus inúmeros ciprestes, por seu turno acentuava..."

in "Novelas Eróticas" de Manuel Teixeira-Gomes

03 maio 2017

Sessão de Maio, que será em ... Junho!


Caros Amigos

Por razões devidamente justificadas e mais do que válidas, a sessão de 26 de Maio ("Novelas Eróticas" de Manuel Teixeira Gomes) passa para 2 de Junho. Atentai, pois então! E obrigada!


27 abril 2017

SOBRE LITERATURA E LEITURAS

JOSÉ RÉGIO há perto de 90 anos:
 
Literatura é pura e simplesmente um meio de expressão artística - como a pintura, a escultura, o cinema, a dança, a arquitectura, a música.
 
O que então inspira a obra de arte - é a paixão; e uma paixão considerada infamante ou uma paixão considerada nobre - podem da mesma forma inspirar Obras elevadas sob o ponto de vista que nos interessa : estético. O ideal do Artista nada tem a ver com o do moralista, do patriota, do crente, ou do cidadão: Quando sejam profundos e quando se tenham moldado a uma certa individualidade, tanto o que se chama um vício como o que se chama uma virtude podem ser igualmente poderosos agentes da criação artística: podem ser elementos de vida duma Obra.
 
Acuso aqui os nossos críticos de não se interessarem pelas Obras de Arte que pretendem criticar.
 
E dir-se-ia que eles exigem tudo da literatura - a morigeração dos costumes; a formação do carácter; a solidificação das convenções sociais; o robustecimento da raça; a certificação do dogma da Imaculada; a extirpação da hidra jesuítica; a defesa do feminismo; o progresso da Associação dos Scotes; a propaganda da república, da monarquia, do anarquismo, do socialismo, do bolchevismo, do óleo de rícino, dos pós de Keating, do calçado Atlas, das calças largas, dos milagres de Fátima, ou das predilecções particulares de cada um - tudo, menos o que se deve exigir à literatura, como à pintura, à dança, à escultura, ao cinema, à arquitectura, à música: satisfação à nossa necessidade de emoções estéticas.
 

24 abril 2017


CARÍSSIMOS LEITORES, ATENTEM NO SEGUINTE:

www.ccb.pt/Default/pt/DiasDaMusica/Sabado/Evento?a=978

(Lá estaremos, "algumas" de nós, para dar testemunho?)


10 abril 2017

"Ronda das mil belas em frol" de Mário de Carvalho, 28 de Abril às 21h00


A Sinopse diz assim:

"Eis um livro de ficção sobre sexo. Todas as histórias nele contidas narram percalços, espantos e sobressaltos de ligações íntimas entre homens e mulheres. O que se desvenda, o que se oculta. Rasgos perversos. Permanências e rupturas.

Nem sempre se encontra o que se espera, nem se espera o que se encontra. A variedade é avassaladora. A diferença inevitável. Neste jogo de corpos enlaçados, não poucas leitoras ficarão admiradas com certo olhar masculino. Talvez passem a conhecer ainda melhor outras mulheres. E os leitores também não perdem nada em saber o que pode surpreendê-los nas voltas do mundo."

A ver vamos ...

Livro em curso: "Ronda das mil belas em frol" de Mário de Carvalho

04 abril 2017

Vamos voltar à Sexta-feira!


 Amigos

Como já será do conhecimento da maior parte dos membros da Comunidade de Leitores de SDRana e face à nova disponibilidade da nossa Biblioteca, vamos voltar a reunir na última sexta-feira de cada mês entre as 21h00 e as 23h45.

Assim, as sessões da Comunidade para o segundo trimestre serão em

Abril, dia 28
Maio, dia 26
Junho, dia 30

01 março 2017

"Quantas Madrugadas Tem a Noite" de Ondjaki - 25 de Março às 15h00

A abrir

"Sabes o que é não sentir o coração e sentir o coração, tud’uma batida só, sangue leve no peito e lágrimas limpas a escorrer? Faz conta foste na pesca, rede e tudo, e em vez do peixe grande meteste a rede na água e te veio uma nuvem? Se é impossível? Eu sei lá, avilo, eu sei lá... Desde candengue que ando então a ver as nuvens dançar nas peles do mar, e me pergunto: assim calminho, liso tipo carapinha com desfrise, o mar não tem as nuvens dele também? De onde eu venho é muito longe, por isso, juro mesmo, nasci de novo. Vou te confessar: espanto é só aquilo que ainda nunca tínhamos vivido com a nossa pele!
Avilo, desculpa tanta filosofia, o que tenho é sede mesmo..."

in "Quantas Madrugadas Tem a Noite" de Ondjaki

26 fevereiro 2017

PÓS-SESSÃO, ONTEM, NO CCB

«O teu amor quando palpita / verdade seja dita / faz-me atrasar os ponteiros /como a ostra esconde a pérola / aos viveiros.» - Sérgio Godinho cantado por Cristina Branco.
Sessões de autógrafos: a de ontem e a antiga
 
 

25 fevereiro 2017

Três dezenas de leitores...

 
 
 
 
 
 
... é o número médio que andamos a registar nas nossas sessões mensais. Hoje marcaram presença 29 leitores. Tendo presente realidades de outras comunidades de leitores, constato que a nossa está bem cimentada, com um grupo coeso e cada vez mais interessado nas leituras propostas. Reunir nesta Biblioteca, uma vez por mês  numa tarde de Sábado, 3 dezenas de pessoas que vão pelo prazer de falar sobre um livro (e tudo o mais que daí advém), começa a ser digno de registo. A magia dos livros tem destas coisas! 

Hoje, Agualusa levou-nos pelos caminhos da construção de memórias, de passados imaginados tornados reais. Pelo caminho veio Eça, Borges, a lusofonia, o riso das osgas asiáticas e os meandros negros da política, entres outros. Para alguns, com reais vivências africanas, as memórias que vieram à luz, foram emotivamente partilhadas com os demais. Foi mais uma sessão, forte na partilha do conhecimento em que, a diferença das opiniões não divide, mas une e enriquece. Que venha a próxima!

17 fevereiro 2017

"O VENDEDOR DE PASSADOS", de José Eduardo Agualusa


--- Transcrevo a introdução de um trabalho académico feito por este escrevente no ano lectivo de 2007/2008, ano curricular do mestrado, seminário de Literaturas de Língua Portuguesa:

INTRODUÇÃO

Ao pretendermos estudar o romance O Vendedor de Passados, de José Eduardo Agualusa, não podemos deixar de ter em consideração a visão dicotómica de Pires Laranjeira em relação à actualidade literária de Angola:

«No pós-independência, há na literatura um discurso ideológico do poder e outro do contra-poder. O discurso do poder procura legitimá-lo pelo poder do enraizamento e da nacionalidade. O discurso do contra-poder não discute a nacionalidade, mas pode discutir o modo como ela se legitimou, recuando às origens. Ou pode simplesmente silenciá~la, enquanto tema, ou secundarizá-la.»

José Eduardo Agualusa nasceu na cidade do Huambo (Nova Lisboa na toponímia colonial) em 1960 e é considerado um escritor da diáspora. De facto, já residiu em Olinda, Brasil, país aonde se desloca com frequência e onde desenvolve, ao que julgamos saber, projectos editoriais. Estanciou em Berlim, onde escreveu, ao abrigo de uma bolsa de criação literária da Deutscher Akademischer Austausschdienst, o romance O Ano em que Zumbi Tomou o Rio (2002). Reside actualmente em Lisboa.

Perpassa pela sua obra, logo desde o primeiro romance, A Conjura (1989), e, em especial , em Nacão Crioula (1998) - onde se revela a “correspondência secreta” de Fradique Mendes e a surpreendente adaptação daquela personagem queirosiana ao mundo tropical – a afirmação dos valores da miscigenação, não apenas rácica mas, sobretudo, cultural, o que o leva a desenvolver um projecto literário onde já se apontaram indícios das teorias luso-tropicalistas de Gilberto Freyre ou, no mínimo, as marcas da crioulidade que Mário António Fernandes sustentou na sua produção ensaística.

Pesará nesta inclinação intelectual a origem do escritor, nascido em Angola mas filho de pai com raízes portuguesas e de mãe com ascendência brasileira. A própria repartição espacial da sua vida e as iniciativas que desenvolve no triângulo Angola-Portugal-Brasil, contribuem para a imagem de um escritor dividido pelos espaços da lusofonia, essa comunidade de falantes em que os Portugueses tendem a ver o que sobrou dos estilhaços do Império  e que Eduardo Lourenço já apresentou como uma miragem cultural ou a imagem actual do nosso mapa cor-de-rosa. É, de resto, esse território mítico desfeito pelo ultimato inglês de 1890 que, de certa forma, surge no seu último livro, As Mulheres de Meu Pai, uma viagem de Angola à contracosta, realizada desta feita pelo litoral africano, de Luanda à Ilha de Moçambique.

Em O Vendedor de Passados opera-se uma dessacralização da terra natal e da sua História, tocando-se  em complexos motivos como a invenção da memória ou o vazio dela na emergente nação angolense. O livro é marcado por uma epígrafe de Jorge Luís Borges e um narrador que nos atreveríamos a chamar borgiano, embora o modelo não se possa considerar original.

Assim, o nosso trabalho sobre a obra e o autor escolhidos, desenvolver-se-á segundo as seguintes linhas temáticas:

1. O mito da nação crioula.

2. Nação angolense e valores identitários.

3. O 27 de Maio de 1977.

4. Queirosianismo e ironia queirosiana.

5. Processos narrativos: as sombras de Jorge Luís Borges e Lygia Fagundes Teles.

--- Aqui fica a introdução, há mais 10 páginas.  Desculpem qualquer coisinha, ó leitores, que isto é trabalho de simples escolar. A nota até não foi má.

04 fevereiro 2017

O Berço

"...À noite, no quarto de engomar, a minha criada Gervásia sentou-me no chão, embrulhado num saiote. De quando em quando, rangiam no corredor as botas do João, guarda da alfândega, que andava a defumar com alfazema. A cozinheira trouxe-me uma fatia de pão-de-ló. Adormeci; e logo achei-me a caminhar à beira de um rio claro, onde os choupos, já muito velhos, pareciam ter uma alma e suspiravam; e ao meu lado ia andando um homem nu, com duas chagas nos pés, e duas chagas nas mãos, que era Jesus, Nosso Senhor. 
Passados dias, acordaram-me, numa madrugada em que a janela do meu quarto, batida do sol, resplandecia prodigiosamente como um prenúncio de cousa santa. Ao lado da cama, um sujeito, risonho e gordo, fazia-me cócegas nos pés com ternura e chamava-me brejeirote. A Gervásia disse-me que era o Senhor Matias, que me ia levar para muito longe, para casa da tia Patrocínio; e o Senhor Matias, com a sua pitada suspensa, olhava espantado para as meias rotas que me calçara a Gervásia. Embrulharam-me no xale-manta cinzento do papá; o João, guarda da alfândega, trouxe-me ao colo até à porta da rua, onde estava uma liteira com cortinas de oleado..." 

in "A Relíquia" de Eça de Queirós

"...O mulato Fausto Bendito Ventura, alfarrabista, filho e neto de alfarrabistas, encontrou numa manhã de domingo um caixote à porta de casa. Lá dentro, estendido sobre vários exemplares d’ A Relíquia de Eça de Queirós, estava uma criaturinha nua, muito magra e deslavada, com um cabelo de espuma incandescente, e um límpido sorriso de triunfo. Viúvo, sem filhos, o alfarrabista recolheu o menino, criou-o e educou-o, seguro de que um desígnio superior armara a improvável trama. Guardou o caixote, bem como os respectivos livros. O albino falou-me disto com orgulho: – Eça foi o meu primeiro berço. ..."

in "O Vendedor de Passados" de José Eduardo Augualusa

01 fevereiro 2017

“O Vendedor de Passados” de José Eduardo Agualusa, 25 de Fevereiro às 15h00

A abrir:

“Nasci nesta casa e criei-me nela. Nunca saí. Ao entardecer encosto o corpo contra o cristal das janelas e contemplo o céu. Gosto de ver as labaredas altas, as nuvens a galope, e sobre elas os anjos, legiões deles, sacudindo as fagulhas dos cabelos, agitando as largas asas em chamas. É um espectáculo sempre idêntico. Todas as tardes, porém, venho até aqui e divirto-me e comovo-me como se o visse pela primeira vez. A semana passada Félix Ventura chegou mais cedo e surpreendeu-me a rir enquanto lá fora, no azul revolto, uma nuvem enorme corria em círculos, como um cão, tentando apagar o fogo que lhe abrasava a cauda.
– Ai, não posso crer! Tu ris?!
Irritou-me o assombro da criatura. Senti medo mas não movi um músculo. O albino tirou os óculos escuros, guardou-os no bolso interior do casaco, despiu o casaco, lentamente, melancolicamente, e pendurou-o com cuidado nas costas de uma cadeira. Escolheu um disco de vinil e colocou-o no prato do velho gira-discos. “Acalanto para um Rio”, de Dora, a Cigarra, cantora brasileira que, suponho, conheceu alguma notoriedade nos anos setenta. Suponho isto a julgar pela capa do disco. É o desenho de uma mulher em biquíni, negra, bonita, com umas largas asas de borboleta presas às costas. “Dora, a Cigarra – Acalanto para um Rio – O Grande Sucesso do Momento”. A voz dela arde no ar. Nas últimas semanas tem sido esta a banda sonora do crepúsculo…”

“O Vendedor de Passados” de José Eduardo Agualusa


25 janeiro 2017

PALAVRAS PARA QUE VOS QUERO

A propósito de Luuanda e do papagaio Jacó, vede isto, ó leitores, publicado pelo escrevente há 11 anos, era ainda uma criança:

http://sonhocomandavida.blogspot.pt/search?q=Jac%C3%B3

03 janeiro 2017

"Luuanda" de José Luandino Vieira - 28 de Janeiro às 15h00


A abrir

Tinha mais de dois meses a chuva não caía. Por todos os lados do musseque, os pequenos filhos do capim de novembro estavam vestidos com pele de poeira vermelha espalhada pelos ventos dos jipes das patrulhas zunindo no meio de ruas e becos, de cubatas arrumadas à toa. Assim, quando vavó adiantou sentir esses calores muito quentes e os ventos a não querer mais soprar como antigamente, os vizinhos ouviram-lhe resmungar talvez nem dois dias iam passar sem a chuva sair. Ora a manhã desse dia nasceu com as nuvens brancas — mangonheiras no princípio; negras e malucas depois — a trepar em cima do musseque. E toda a gente deu razão em vavó Xíxi: ela tinha avisado, antes de sair embora na Baixa, a água ia vir mesmo. 

A chuva saiu duas vezes, nessa manhã.

in Luuanda de José Luandino Vieira