09 maio 2017

"Novelas Eróticas" de Manuel Teixeira-Gomes - 2 Junho às 21h00


A abrir o conto sem nome ou chamado apenas "?"

"O meu quarto na hospedaria Fra Giaccomo em Smirna, era uma gaiola de vidro suspensa sobre o mar, e isso concorreu muito para que eu aí me demorasse mais do que projectara. Não que o panorama fosse risonho; bem pelo contrário. A desarmónica imensidade do golfo, a disposição das esmagadoras montanhas vizinhas, a cidade que não brilha, com o seu casario escuro apinhado nas encostas, nas alturas recortadas de ameias, restos de arruinadas fortificações antigas, todo este conjunto formava um quadro melancólico. E a pretensiosa fachada italiana da cidade (existiria ela ainda?) que levantaram sobre o cais, a semelhança de Messina, era mais um engano que a ninguém alegrava nem contentava. Depois, a situação moral dos habitantes (domínio de dez mil turcos sobre trezentos mil italianos, gregos, arménios e judeus), os receios, os terrores mal disfarçados da população cristã, a qual dir-se-ia que julgava próxima e inevitável a chacina exterminadora com que os muçulmanos a ameaçavam, diariamente e sem rebuço, junto a uma profunda crise económica, alimentavam a atmosfera de tristeza que a paisagem, com os seus inúmeros ciprestes, por seu turno acentuava..."

in "Novelas Eróticas" de Manuel Teixeira-Gomes

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