A abrir:
“A
estação de Ovar, no caminho de ferro do Norte, estava muito silenciosa, pelas
seis horas da tarde, antes da chegada do comboio do Porto.
A
uma extremidade da plataforma, um rapaz magro de olhos grandes e melancólicos,
a face toda branca da frialdade de Outubro, com uma das mãos metida no bolso de
um velho paletó cor de pinhão, a outra vergando contra o chão uma bengalinha
envernizada, examinava o céu. De manhã chovera e a tarde ia caindo com uma
suavidade muito pura. Laivos rosados esbatiam-se nas alturas como pinceladas de
carmim muito diluído em água, e longe, sobre o mar, para além da linha escura
dos pinheirais, por trás de grossas nuvens tocadas ao centro de tons de
sanguínea e orladas de ouro vivo, subiam quatro fortes raios de sol,
divergentes e decorativos que o rapaz magro comparava às flechas ricamente
dispostas de um troféu luminoso…”
In “A
Capital” de Eça de Queirós




















