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11 março 2014

LEITURA E DESEJO

“Sobre a leitura” é um escrito de Roland Barthes para a Writing Conference de Luchon, de 1975. Está publicado em O Rumor da Língua, Edições 70, pp. 31-35.
Na terceira parte deste texto, o crítico francês aborda as relações entre leitura e desejo, dizendo: “(…) não há dúvida de que existe um erotismo da leitura (na leitura, o desejo está ali com o seu objecto, o que é a definição do erotismo).”
Dois traços são apresentados em defesa da tese: a identificação do sujeito humano que lê (o lente) com o sujeito amoroso e o sujeito místico; e a presença na leitura-desejo de todas as emoções do corpo, desde a dor à volúpia.
Teresa de Ávila fazia da leitura o substituto da oração mental; o lente isola-se e fecha-se (como o jovem narrador da Recherche que se fechava na casa de banho, segundo um conhecido episódio daquela obra, para se entregar ao “prazer solitário” de ler) numa relação dual com o objecto da leitura que não é distinta do recolhimento da oração (orador-Deus) ou da fruição do prazer amoroso (amante-amado).
A relação da leitura com a analidade, deduzida da referida passagem da Recherche, é finalmente sustentada por Barthes. E isto é matéria que certamente provocará ou indignará os nossos leitores em função das suas respectivas sensibilidades (uns mais sensíveis que outros, atrevo-me a admitir) –  se é que vão ler este escrito, do que sou obrigado a duvidar não só pelas escassas visitas ao blogue, como pela poalha de silêncio solene e frio que grassa no espaço virtual dos comentários.