– Eu falo falo – diz Marco, – mas quem me ouve só fixa as pérolas que deseja. Outra é a descrição do mundo a que dás benignos ouvidos, outra a que correrá os grupos dos estivadores e gondoleiros nos canais da minha cidade no dia do meu regresso, e outra ainda a que poderei ditar em tardia idade, se fosse feito prisioneiro pelos piratas genoveses e posto a ferros na mesma cela com um escrivão de romances de aventuras. Quem comanda o conto não é a voz: é o ouvido.
Blogue da Comunidade de Leitores da Biblioteca de S. Domingos de Rana - Cascais - Portugal
25 julho 2009
ITALO CALVINO: "As Cidades Invisíveis"
– Eu falo falo – diz Marco, – mas quem me ouve só fixa as pérolas que deseja. Outra é a descrição do mundo a que dás benignos ouvidos, outra a que correrá os grupos dos estivadores e gondoleiros nos canais da minha cidade no dia do meu regresso, e outra ainda a que poderei ditar em tardia idade, se fosse feito prisioneiro pelos piratas genoveses e posto a ferros na mesma cela com um escrivão de romances de aventuras. Quem comanda o conto não é a voz: é o ouvido.
08 fevereiro 2009
20 DE FEVEREIRO: "AS BICICLETAS EM SETEMBRO" DE BAPTISTA-BASTOS

AS BICICLETAS EM SETEMBRO fala de trajectórias amorosas e de que todos os destinos sentimentais ocultam histórias subterrâneas. Fala, também, da beleza perversa das relações humanas, e de que as pessoas suportam tudo, menos a solidão, a separação e a perda. É uma parábola sobre perdedores - todos nós. Porque cada um de nós perdeu alguma coisa.
(Da contracapa do livro)
DOIS POEMAS COM BICICLETAS
As bicicletas de Setembro rolam
no asfalto quente (...)
........................................................
Vamos assim em roda livre
e os peixes mordem o isco
nas águas mais profundas. Bicicletas
voltam ao parque fechado. Vem
também habitar este palácio de ócio
onde o ópio transpira das paredes.
Risco maior não é a velocidade
mas o estilo bom da pedalada.
EDUARDO GUERRA CARNEIRO
"Profissão de Fé"
Epígrafe do romance de Baptista-Bastos, "As Bicicletas em Setembro"
II
O CICLISTA
O homem que pedala, que ped' alma
com o passado a tiracolo,
ao ar vivaz abre as narinas:
tem o por vir na pedaleira.
ALEXANDRE O' NEILL
"Poemas com Endereço"
25 janeiro 2009
"Azul Cobalto" ("Ripley Under Ground") de PATRÍCIA HIGHSMITH
No livro, Héloïse é uma personagem enigmática. Não se percebe bem o que andou a fazer lá pelas ilhas gregas no iate do milionário Zeppo. Em Belle Ombre tinha um quarto próprio, e embora o marido (o excitante Ripley) acreditasse na sua fidelidade, não deixou de estranhar a jaqueta da marinha americana que ela trazia sobre o corpinho no dia do regresso a casa. (Naquele tempo da Grécia dos coronéis, a armada dos States devia ter apreciável número de homens nas águas do Mediterrâneo…). Quase sempre dócil, houve um momento, porém, em que mostrou a sua fibra: quando obrigou o marido a escolher entre ela e o fou (Bernard ) – e saiu porta fora para casa dos pais. Gostei bastante desta personagem. E os meus companheiros de leitura?
M.N.
19 janeiro 2009
DIA 30 DE JANEIRO, 21 HORAS
11 dezembro 2008
Lista de Obras a Saborear em 2009
1-Janeiro, dia 30- Patricia Highsmith, Azul Cobalto
2-Fevereiro, dia 20- Baptista Bastos, Bicicletas em Setembro
3- Março, dia 27 - Sandór Márai, As Velas Ardem até ao Fim
4-Abril, dia 17 - José Riço Direitinho, Breviário das Más Inclinações
5- Maio, dia 29-Orhan Pamuk, Instambul
6- Junho, dia 26- Mário Cláudio, Camilo Broca
7- Julho, dia 31- Italo Calvino, As Cidades Invisíveis
8- Agosto, dia 28- Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano
9- Setembro, dia 25- Boris Vian, Outono em Pequim
10- Outubro, dia 30- Manuel da Silva Ramos, A Ponte Submersa
11- Novembro, dia 27- Dinis Machado, O que diz Molero
12- Dezembro, dia 18- Rosa Montero, A Louca da Casa
O nosso encontro mantém-se, sempre que possível, na última sexta-feira de cada mês, às 21h, no local de sempre. Bom Ano de novas e velhas leitura!
06 dezembro 2008
Sexta-feira, dia 19 de Dezembro, 21 horas
16 novembro 2008
"O ÚLTIMO CABALISTA DE LISBOA" de Richard Zimler
29 outubro 2008
22 outubro 2008
12 outubro 2008
21 setembro 2008
26 DE SETEMBRO, 21 HORAS - POESIA DE MIGUEL TORGA
04 setembro 2008
26 DE SETEMBRO, 21 HORAS

EÇA DE QUEIRÓS, Civilização
A porta ficava ao fim do corredor, tinha uma chapazinha esmaltada, números pretos sobre fundo branco, não fosse isto um recatado quarto de hotel, sem luxos, fosse duzentos e dois o número da porta, e já o hóspede poderia chamar-se Jacinto e ser dono duma quinta em Tormes, não seriam estes episódios de Rua do Alecrim mas de Campos Elísios, à direita de quem sobe, como o Hotel Bragança, e só nisso é que se parecem.
JOSÉ SARAMAGO, O Ano da Morte de Ricardo Reis
Mas o palácio onde Jacinto nascera, e onde sempre habitara, era em Paris, nos Campos Elísios, nº 202.
EÇA DE QUEIRÓS, A Cidade e as Serras
17 agosto 2008
Poemas de MANUEL DA FONSECA, 29-8-2008, 21 horas
.
A menina tonta passa metade do dia
a namorar quem passa pela rua,
que a outra metade fica
pra namorar-se ao espelho.
A menina tonta tem olhos de retrós preto,
cabelos de linha de bordar,
e a boca é um pedaço de qualquer tecido vermelho.
A menina tonta tem vestidos de seda
e sapatos de seda,
é toda fria, fria como a seda:
as olheiras postiças de crepe amarrotado,
as mãos viúvas entre flores emurchecidas,
caídas da janela,
desfolham pétalas de papel...
No passeio em frente estão os namorados
com os olhos cansados de esperar
com os braços cansados de acenar
com a boca cansada de pedir...
A menina tonta tem coração sem corda,
a boca sem desejos,
os olhos sem luz...
E os namorados cansados de namorar...
Eles não sabem que a menina tonta tem a cabeça cheia de farelos.
.
Manuel da Fonseca
16 agosto 2008
FERNANDO NAMORA, 29-8-2008, 21 HORAS
Fernando Namora : romancista, ensaísta, poeta e também pintor (1919-1989). Detentor de uma obra vasta e multifacetada, iniciou-se na prosa em 1938 com As Sete Partidas do Mundo, ficção em moldes presencistas. Notabilizou-se com Fogo na Noite Escura (1943). Mais tarde, em 1948, escreveu a 1ª série de Retalhos da Vida de um Médico, e em 1963 escreveu a 2ª série. Trata-se de uma obra marcada pela vivência da sua profissão de clínico. Em 1954 saiu O Trigo e o Joio. Nessa mesma década sofreu Namora a influência do existencialismo, visível em obras como O Homem Disfarçado (1957) e Cidade Solitária (1959). O Rio Triste, publicado em 1982, é, porventura, um dos seus melhores romances.(www.webboom.pt)
15 agosto 2008
DIA 29 DE AGOSTO, 21 HORAS
22 março 2008
Mês de Março: Na América




Veríssimo e Keats

A thing of beauty is a joy for ever: Its loveliness increases; it will never Pass into nothingness; but still will keep A bower quiet for us, and a sleep Full of sweet dreams, and health, and quiet breathing. Therefore, on every morrow, are we wreathing A flowery band to bind us to the earth, Spite of despondence, of the inhuman dearth
Uma coisa bela é uma alegria para sempre:
A sua graça aumenta; nunca
Desaparecerá; mas sempre manterá
Um abrigo sossegado para nós, e um sono
Cheio de doces sonhos, e saúde, e calma respiração.
Portanto, em cada dia, entrelaçamos
Uma fita florida que nos liga à terra,
Apesar do desânimo, da inumana penúria
Outra obra citada de Keats é A SONG ABOUT MYSELF (c.1818), da qual reproduzo a 1ª parte:
I.
There was a naughty boy,
A naughty boy was he,
He would not stop at home,
He could not quiet be —
He took
In his knapsack
A book
Full of vowels
And a shirt
With some towels,
A slight cap
For night cap,
A hair brush,
Comb ditto,(idem)
New stockings
For old ones
Would split O!
This knapsack
Tight at’s back
He rivetted close
And followed his nose
To the north,To the north,
And follow’d his nose
To the north.
O poema que escolhi para ilustrar a sua obra foi o sugestivo
La Belle Dame Sans Merci, John Keats, 1795-1821
(A Bela Dama sem Piedade)(1819)

Oh, o que te pode torturar, triste criatura ,
Vagueando solitária e desoladamente?
O junco do lago murchou
John William Waterhouse, 1893E o canto dos pássaros cessou.
Oh, o que te pode torturar, triste criatura,
Tão desalentada e desditosa
O esquilo fechou o seu celeiro,
E a colheita foi feita.
Vejo um lírio na tua fronte,
Com angústia orvalhada e gotas de febre,
E na tua face uma rosa esmaecida,
Também cedo definhada.
Encontrei uma dama nos prados,
Tão bela, uma criança das fadas:
O seu cabelo era longo, o andar leve,
E os seus olhos selvagens.
Segui-a a passo no meu cavalo,
E nada mais vi todo o dia;
Pois ela inclinava-se de relance, e cantava
Uma canção de fadas.
Fiz uma grinalda para a sua fronte,
E também pulseiras, e fragrâncias do local;
Ela fitou-me como se de verdade amasse ,
E gemeu docemente.
Ela descobriu raízes de doces delícias,
E mel selvagem, e orvalho como maná,
E numa língua estranha certamente disse,
‘Amo-te de verdade!’
Conduziu-me à sua gruta de elfos,
E ali mirou-me e profundamente suspirou,
E ali fechei-lhe os olhos selvagens e tristes--.
Beijado até adormecer.
E ali descansamos no musgo,
E ali sonhei, oh! Maus desígnios,
O último sonho que jamais sonhei
Na fria colina.
Vi reis pálidos, e também príncipes,
Pálidos guerreiros, todos pálidos de morte;
Que gritavam--.’A bela Dama sem piedade
Mantém-te em servidão!’.
Vi os seus lábios esfomeados no crepúsculo,
Com horríveis bocas que abertas me avisavam,
E acordei e ali me encontrei,
Na fria colina.
Por isso aqui permaneço,
Vagueando solitária e desoladamente,
Apesar do junco do lago ter murchado,
E o canto dos pássaros ter cessado.
Na obra de Veríssimo, Um Lugar ao Sol, o nosso Amaro, amante dos românticos ingleses, resolve a sua vidinha de forma bem prosaica abdicando da beleza em prol do estômago e do aconchego da carne... Os tempos estavam difíceis. Como sempre estão...












