26 julho 2009

AS CIDADES INVISÍVEIS

DIOMIRA imaginada por Colleen Brannigan

Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.

- Mas qual é a pedra que sustém a ponte? - pergunta Kublai Kan.

- A ponte não é sustida por esta ou por aquela pedra - responde Marco, - mas sim pela linha do arco que elas formam.

Kublai Kan permanece silencioso, reflectindo. Depois acrescenta: - Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.

Polo responde: - Sem pedras não há arco.

AS CIDADES INVISÍVEIS


DIOMIRA imaginada por Mauricio Pettinaroli
Marco Polo contava a Kublai Kan aquilo que via, mas, sobretudo, aquilo que não via ou julgava ver. Era por isso que o imperador dos tártaros o escutava com tanta atenção.

Diomira

Cidades (In)visíves

Aqui seguem algumas representações das cidades de Italo Calvino que descobri num blog de um jovem arquitecto brasileito, Lutero Proscholdt:ascidadesvisitadas.blobspot.com:




Cidades [in]Visíveis! busca uma nova interpretação, sem pretensões, são apenas estudos gráficos de uma obra repleta de multiplicidade que é “Cidades Invisíveis” do Ítalo Calvino, que é um completo exemplo de suas propostas para o novo milênio.





Valdrada




Isaura

















Andria



"As cidades invisíveis", de Calvino, é uma espécie de "bíblia" para o entendimento das cidades e, consequentemente, de quem as habita. Se desejamos entender algum discurso que explique as cidades, e não somente o discurso mas diferentes formas de interpretação, ler este romance é quase que fundamental. É um livro delicioso de ser lido, pois são vários textos curtos nos quais Marco Polo, o famoso viajante veneziano, descreve para o imperador Kublai Khan, diversas cidades que havia visitado. Todas têm nome de mulher e, em cada uma, a linguagem mostra que podemos percorrer as ruas como se estas fossem páginas escritas. Dependendo somente do que se procura em cada cidade. Por exemplo, quais são os lugares que desejamos ir, quem gostaríamos de encontrar, se é dia ou noite... são infinitas as possibilidades de leitura. Interessante também é perceber como uma cidade ajuda a ler outra, pois há conexões entre os meios urbanos, por mais distantes que estejam. As cidades também são duplas, e isso aparece em Calvino como "cristal e chama". O traçado da cidade moderna tenderia para o cristal uma vez que é o lado racional e ideal. Já a presença do homem, com suas experiência próprias e inter-relacionadas, a transforma em chama. Na cidade e no homem, o cristal não vive sem a chama. É a duplicidade da descrição, da vida e da percepção humana.O desejo do imperador Kublai Khan é que, após as descrições, fosse possível montar um império perfeito. Fato que não pode acontecer. As cidades nunca serão perfeitas porque nós, homens, não o somos e nunca seremos. Por mais que se tente."
Postado por Lutero



Paula

25 julho 2009

ITALO CALVINO: "As Cidades Invisíveis"

NORA STURGES: Travels with Marco Polo
Kublai pergunta a Marco, – Quando tornares ao Poente, repetirás à tua gente as mesmas histórias que me contas a mim?
– Eu falo falo – diz Marco, – mas quem me ouve só fixa as pérolas que deseja. Outra é a descrição do mundo a que dás benignos ouvidos, outra a que correrá os grupos dos estivadores e gondoleiros nos canais da minha cidade no dia do meu regresso, e outra ainda a que poderei ditar em tardia idade, se fosse feito prisioneiro pelos piratas genoveses e posto a ferros na mesma cela com um escrivão de romances de aventuras. Quem comanda o conto não é a voz: é o ouvido.

08 fevereiro 2009

20 DE FEVEREIRO: "AS BICICLETAS EM SETEMBRO" DE BAPTISTA-BASTOS



AS BICICLETAS EM SETEMBRO fala de trajectórias amorosas e de que todos os destinos sentimentais ocultam histórias subterrâneas. Fala, também, da beleza perversa das relações humanas, e de que as pessoas suportam tudo, menos a solidão, a separação e a perda. É uma parábola sobre perdedores - todos nós. Porque cada um de nós perdeu alguma coisa.

(Da contracapa do livro)

DOIS POEMAS COM BICICLETAS

I

As bicicletas de Setembro rolam
no asfalto quente (...)
........................................................
Vamos assim em roda livre
e os peixes mordem o isco
nas águas mais profundas. Bicicletas
voltam ao parque fechado. Vem
também habitar este palácio de ócio
onde o ópio transpira das paredes.
Risco maior não é a velocidade
mas o estilo bom da pedalada.

EDUARDO GUERRA CARNEIRO
"Profissão de Fé"
Epígrafe do romance de Baptista-Bastos, "As Bicicletas em Setembro"

II

O CICLISTA

O homem que pedala, que ped' alma
com o passado a tiracolo,
ao ar vivaz abre as narinas:
tem o por vir na pedaleira.

ALEXANDRE O' NEILL
"Poemas com Endereço"

25 janeiro 2009

"Azul Cobalto" ("Ripley Under Ground") de PATRÍCIA HIGHSMITH

JACINDA BARRETT
(no papel de Héloïse no filme Ripley Under Ground)


No livro, Héloïse é uma personagem enigmática. Não se percebe bem o que andou a fazer lá pelas ilhas gregas no iate do milionário Zeppo. Em Belle Ombre tinha um quarto próprio, e embora o marido (o excitante Ripley) acreditasse na sua fidelidade, não deixou de estranhar a jaqueta da marinha americana que ela trazia sobre o corpinho no dia do regresso a casa. (Naquele tempo da Grécia dos coronéis, a armada dos States devia ter apreciável número de homens nas águas do Mediterrâneo…). Quase sempre dócil, houve um momento, porém, em que mostrou a sua fibra: quando obrigou o marido a escolher entre ela e o fou (Bernard ) – e saiu porta fora para casa dos pais. Gostei bastante desta personagem. E os meus companheiros de leitura?

M.N.

19 janeiro 2009

DIA 30 DE JANEIRO, 21 HORAS

É esta a leitura: Ripley Under Ground ou Azul Cobalto. Mas há alguém que resista à vertigem da intriga policial? Dizia o crítico do Times: "Os livros da série Ripley despertam maravilhosamente, insensatamente, o desejo de os ler."

11 dezembro 2008

Lista de Obras a Saborear em 2009

Aqui vai a lista das obras que pretendemos «saborear» no já muito próximo ano de 2009:

1-Janeiro, dia 30- Patricia Highsmith, Azul Cobalto

2-Fevereiro, dia 20- Baptista Bastos, Bicicletas em Setembro

3- Março, dia 27 - Sandór Márai, As Velas Ardem até ao Fim

4-Abril, dia 17 - José Riço Direitinho, Breviário das Más Inclinações

5- Maio, dia 29-Orhan Pamuk, Instambul

6- Junho, dia 26- Mário Cláudio, Camilo Broca

7- Julho, dia 31- Italo Calvino, As Cidades Invisíveis

8- Agosto, dia 28- Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano

9- Setembro, dia 25- Boris Vian, Outono em Pequim

10- Outubro, dia 30- Manuel da Silva Ramos, A Ponte Submersa

11- Novembro, dia 27- Dinis Machado, O que diz Molero

12- Dezembro, dia 18- Rosa Montero, A Louca da Casa

O nosso encontro mantém-se, sempre que possível, na última sexta-feira de cada mês, às 21h, no local de sempre. Bom Ano de novas e velhas leitura!

06 dezembro 2008

Sexta-feira, dia 19 de Dezembro, 21 horas

Nasceu em Boliqueime, berço de políticos da melhor extracção. Mas não é isso que nos interessa. Vamos ler o seu romance O Vale da Paixão. Como alguém disse, a literatura é a confissão de que a vida não basta.

16 novembro 2008

"O ÚLTIMO CABALISTA DE LISBOA" de Richard Zimler

Ano hebraico de 5266, dia 6 de Abril de 1506 para os cristãos: massacre, em Lisboa, de cerca de dois mil judeus.

Memorial erguido ao lado do Rossio (imagem copiada do blogue Abencerragem de Ricardo Alves)

29 outubro 2008

PRIDE & PREJUDICE - O livro e o filme

No princípio do filme, vemos Elizabeth (Keira Knightley) a ler um livro cujo título é First Impressions. Foi o primeiro título que Jane Austen atribuiu a Pride and Prejudice.

22 outubro 2008

ORGULHO & PRECONCEITO

Keira Knightley

Confesso que estou a gostar do filme.
Um leitor devidamente identificado

21 setembro 2008

26 DE SETEMBRO, 21 HORAS - POESIA DE MIGUEL TORGA



LEZÍRIA

São duzentas mulheres, cantam não sei que mágoa
Que se debruça e já nem mostra o rosto.
Cantam, plantadas n`água,
Ao sol e à monda neste mês de Agosto.

Cantam o Norte e o Sul duma só vez.
Cantam baixo, e parece
Que na raiz humana dos seus pés
Qualquer coisa apodrece.

04 setembro 2008

26 DE SETEMBRO, 21 HORAS


Eu possuo preciosamente um amigo (o seu nome é Jacinto) que nasceu num palácio, com quarenta contos de renda em pingues terras de pão, azeite e gado.

EÇA DE QUEIRÓS, Civilização


A porta ficava ao fim do corredor, tinha uma chapazinha esmaltada, números pretos sobre fundo branco, não fosse isto um recatado quarto de hotel, sem luxos, fosse duzentos e dois o número da porta, e já o hóspede poderia chamar-se Jacinto e ser dono duma quinta em Tormes, não seriam estes episódios de Rua do Alecrim mas de Campos Elísios, à direita de quem sobe, como o Hotel Bragança, e só nisso é que se parecem.

JOSÉ SARAMAGO, O Ano da Morte de Ricardo Reis


Mas o palácio onde Jacinto nascera, e onde sempre habitara, era em Paris, nos Campos Elísios, nº 202.

EÇA DE QUEIRÓS, A Cidade e as Serras

17 agosto 2008

Poemas de MANUEL DA FONSECA, 29-8-2008, 21 horas

Poema da menina tonta
.
A menina tonta passa metade do dia
a namorar quem passa pela rua,
que a outra metade fica
pra namorar-se ao espelho.
A menina tonta tem olhos de retrós preto,
cabelos de linha de bordar,
e a boca é um pedaço de qualquer tecido vermelho.
A menina tonta tem vestidos de seda
e sapatos de seda,
é toda fria, fria como a seda:
as olheiras postiças de crepe amarrotado,
as mãos viúvas entre flores emurchecidas,
caídas da janela,
desfolham pétalas de papel...
No passeio em frente estão os namorados
com os olhos cansados de esperar
com os braços cansados de acenar
com a boca cansada de pedir...
A menina tonta tem coração sem corda,
a boca sem desejos,
os olhos sem luz...
E os namorados cansados de namorar...
Eles não sabem que a menina tonta tem a cabeça cheia de farelos.

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Manuel da Fonseca

16 agosto 2008

FERNANDO NAMORA, 29-8-2008, 21 HORAS

Fernando Namora : romancista, ensaísta, poeta e também pintor (1919-1989). Detentor de uma obra vasta e multifacetada, iniciou-se na prosa em 1938 com As Sete Partidas do Mundo, ficção em moldes presencistas. Notabilizou-se com Fogo na Noite Escura (1943). Mais tarde, em 1948, escreveu a 1ª série de Retalhos da Vida de um Médico, e em 1963 escreveu a 2ª série. Trata-se de uma obra marcada pela vivência da sua profissão de clínico. Em 1954 saiu O Trigo e o Joio. Nessa mesma década sofreu Namora a influência do existencialismo, visível em obras como O Homem Disfarçado (1957) e Cidade Solitária (1959). O Rio Triste, publicado em 1982, é, porventura, um dos seus melhores romances.
(www.webboom.pt)