Uns estão de costas, outros de perfil; há até aqueles que fugiram das fotografias:
http://www.cyberjornal.net/index.php?option=com_content&task=view&id=11569&Itemid=30
Blogue da Comunidade de Leitores da Biblioteca de S. Domingos de Rana - Cascais - Portugal
26 fevereiro 2011
22 fevereiro 2011
ETNIAS DE ANGOLA
Sem Medo: kikongo; Comissário, Chefe de Operações, Ingratidão do Tuga e Milagre: kimbundos; Ekuikui: umbundo; Lutamos: cabinda; Mundo Novo e Muatiânvua: destribalizados. [Personagens de Mayombe]
19 fevereiro 2011
Book - a revolução tecnológica !
Uma mão amiga fez-me chegar o link. Achei tão fantástico que não resisti a publicá-lo aqui. Na era das tecnologias, esta é uma preciosidade, como nós bem sabemos!
17 fevereiro 2011
04 fevereiro 2011
Literatura da Memória Colonial
Sendo este o nosso tema do primeiro trimestre deste ano e em dia do 50º Aniversário do início da Guerra Colonial, deixo uma ligação ao DN e à forma como noticiou esse histórico 4 de Fevereiro de 1961.
Diz Pepetela ao abrir “Mayombe”, o nosso livro do mês:
"Aos guerrilheiros de Mayombe,
que ousaram, desafiar os deuses
abrindo um caminho na floresta obscura,
Vou contar a história de Ogun, o Prometeu africano..."
28 janeiro 2011
Fogo e ritmo (Jornada de África)
Sons de grilhetas nas estradas
cantos de pássaros
sob a verdura húmida das florestas
frescura na sinfonia adocicada
dos coqueirais
fogo
fogo no capim
fogo sobre o quente das chapas do Cayatte.
Caminhos largos
cheios de gente cheios de gente
em êxodo de toda a parte
caminhos largos para os horizontes fechados
mas caminhos
caminhos abertos por cima
da impossibilidade dos braços.
Fogueiras
dança
tantan
ritmo
Ritmo na luz
ritmo na cor
ritmo no movimento
ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços
ritmo nas unhas descarnadas
Mas ritmo
ritmo.
Ó vozes dolorosas de África!
Agostinho Neto - in Jornada de África de Manuel Alegre
21 janeiro 2011
CRISTO E ENDOVÉLICO
Cabeça do deus Endovélico, século I d. C., mármore
Portalegre e a Casa-Museu de José Régio; S. Miguel da Mota (Alandroal) e o local onde estaria o santuário pré-romano do deus Endovélico.
Régio era um heterodoxo que coleccionava Cristos, mas só acreditava no Cristo humano, não no divino; e os Romanos eram uns ortodoxos que acreditavam em todos os deuses, até nos dos povos que iam submetendo.
Dará isto para uma passeata de Primavera?
Triste do desassossegado Bernardo Soares que só sabia viajar com a alma!
18 janeiro 2011
Ainda o João Tordo e o Bom Inverno
Entrevista da Geração C ao João Tordo, aquando da sua passagem pela Biblioteca, com a excelente apresentação do nosso mentor Manuel, ouvidos com prazer pela Comunidade de Leitores e não só.
17 janeiro 2011
"JORNADA DE ÁFRICA" II
--- Enviado pela Maria José. Acrescentei-lhe música e voz ----
Nambuangongo meu amor, de Manuel Alegre
http://delta4.no.sapo.pt/malegre17.html
Nambuangongo meu amor, de Manuel Alegre
http://delta4.no.sapo.pt/malegre17.html
"JORNADA DE ÁFRICA" I
----- Enviado pela Maria José ------
Abaixo el-rei Sebastião
É preciso enterrar el-rei Sebastião
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado já não pode vir.
É preciso quebrar na ideia e na canção
a guitarra fantástica e doente
que alguém trouxe de Alcácer Quibir.
Eu digo que está morto.
Deixai em paz el-rei Sebastião
deixai-o no desastre e na loucura.
Sem precisarmos de sair o porto
temos aqui à mão
a terra da aventura.
Vós que trazeis por dentro
de cada gesto
uma cansada humilhação
deixai falar na vossa voz a voz do vento
cantai em tom de grito e de protesto
matai dentro de vós el-rei Sebastião.
Quem vai tocar a rebate
os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater em quem nos bate
é preciso enterrar el-rei Sebastião.
Manuel Alegre
Abaixo el-rei Sebastião
É preciso enterrar el-rei Sebastião
é preciso dizer a toda a gente
que o Desejado já não pode vir.
É preciso quebrar na ideia e na canção
a guitarra fantástica e doente
que alguém trouxe de Alcácer Quibir.
Eu digo que está morto.
Deixai em paz el-rei Sebastião
deixai-o no desastre e na loucura.
Sem precisarmos de sair o porto
temos aqui à mão
a terra da aventura.
Vós que trazeis por dentro
de cada gesto
uma cansada humilhação
deixai falar na vossa voz a voz do vento
cantai em tom de grito e de protesto
matai dentro de vós el-rei Sebastião.
Quem vai tocar a rebate
os sinos de Portugal?
Poeta: é tempo de um punhal
por dentro da canção.
Que é preciso bater em quem nos bate
é preciso enterrar el-rei Sebastião.
Manuel Alegre
16 janeiro 2011
Palavras para que vos quero...
Efeitos de uma tertúlia!
Com amor o fiz
Derramado depois
Em taça depositado
Pelas mãos de Amelie
Em amor de canela de novo o cobri
Sossego então, vozes, conversas, calor da lareira
Aromas, sabores, vinhos, sentidos
Quietos
Suspensos ouvindo
Fraterna alegria
Pensamentos de um homem
Fragmentos de vida
Se de "L de D" ou dele, nem ele o sabia
Manuel em Pessoa assim nos dizia...
Derramado depois
Em taça depositado
Pelas mãos de Amelie
Em amor de canela de novo o cobri
Sossego então, vozes, conversas, calor da lareira
Aromas, sabores, vinhos, sentidos
Quietos
Suspensos ouvindo
Fraterna alegria
Pensamentos de um homem
Fragmentos de vida
Se de "L de D" ou dele, nem ele o sabia
Manuel em Pessoa assim nos dizia...
A inspiração da nossa Leitora Graça!
13 janeiro 2011
Uma coisa, traz a outra ...
Henri Matisse
No passado mês de Dezembro o Manuel (o nosso) trouxe-nos (aqui mais em baixo) este belo poema do Herberto Helder. E agora, ao travar conhecimento com Sebastião, o protagonista da história do Manuel (o Alegre), deparamo-nos novamente com o poema de HH... deram por isso ?
05 janeiro 2011
"Jornada de África" Manuel Alegre - 28 de Janeiro - 21h00
A abrir:
“Estrada da Beira, Dezembro, mil novecentos e sessenta: é um dia cinzento, cai uma chuva miudinha, Lázaro Asdrúbal olha tristemente as águas barrentas do Mondego, que vêm da serra carregadas de destroços. Conseguiu finalmente falar com o Chefe, teve de esperar quase quinze dias, apesar da urgência. Veio de propósito de Luanda para o informar do levantamento que se prepara no Norte da Província. Agora tem de guardar a resposta só para si: «Deixe andar, é um sacrifício necessário, só assim poderemos contar com o apoio do país e do Ocidente.» Os óculos na ponta do nariz, os esses quase assobiados. Lázaro Asdrúbal não esquecerá a frieza, a secura e a determinação dos olhos de peneireiro com que o Chefe o fitou…”
04 janeiro 2011
CARTA DO PAI NATAL - publicada no blogue "Emoções Básicas" pela mão de Cristina Leimart
Carta do Pai Natal a um disperso escrevedor (Ao abrigo do direito de resposta e ainda a tempo do Dia de Reis)
Meu Caro Jovem
Perdoe-me a demora na resposta. Sucede que, polémicas à parte, continuo muito solicitado e andei ocupadíssimo, primeiro nas lides habituais, depois compensando a minha mulher pelas longas horas fora de casa.
Foi com profunda tristeza, alguma complacência e a máxima arterial a 170 que li e reli as suas desalentadas palavras. Vasculho na minha história, sondo de ponta a ponta a minha consciência, e não encontro passos merecedores de tamanha diatribe. Creio que apenas a sã irreverência, própria da juventude cinquentenária do meu amigo, justifica tal tratamento a um idoso como eu. Bem me avisou em tempos certa astróloga: por volta dos meus 115 anos, uma grande arrelia chegaria por correio e, de tão contundente, far-me-ia crescer (Ainda perguntei "Crescer mais?? Para quê? Mas ela lançou-me um olhar reprovador).
Sou pessoa sensível e magoaram-me algumas das suas farpas, quer as de natureza mais filosófica, quer as alusivas à minha aparência. Sem cerimónias, eis o que se me oferece dizer sobre as primeiras:
Mas agora tenho de levar a toda a hora com a lengalenga anti-consumo, a pretexto dos primórdios da minha existência? Por dá cá aquela palha, salta alguém a responsabilizar-me pela agressividade mercantil da marca que me inventou? É injusto e é absurdo.
Injusto, porque eu não tenho culpa das minhas origens. O meu amigo responde pelas suas? Não podemos arcar pela vida fora com o ónus das opções e acções dos nossos progenitores. Absurdo, pela questão dos prazos de validade: as alianças fazem-se e desfazem-se. No meu caso, mergulhei directamente do acto de criação para uma tarefa especificamente comercial, é verdade. Foi nos anos 30 do século passado. Mas onde é que isso já vai! Há que tempos ninguém me vê agarrado a um dístico de refrigerantes. É como um indivíduo divorciar-se e passada uma década ainda lhe falarem constantemente da ex-mulher. Desagradável. Ainda por cima são essas vozes de revolta mal dirigida que alimentam, nesta quadra e gratuitamente, o portentoso caudal de publicidade à referida marca, pois, como sabe, nos códigos do marketing o que importa é ser-se falado, bem ou mal.
Quanto a promover o consumismo: Eu? Eu, que só saio da toca duas ou três semanas em Dezembro? Então os outros onze meses do ano? Sou eu que canalizo milhares para formigarem pelos centros comerciais das vilas e cidades nos fins-de-semana de sol, nas tardes de primavera? (Dou este exemplo, por me constar que o seu país vai à frente nesse distinto passatempo).
E antes que lhe ocorra imputar-me as enormes desigualdades materiais das famílias, digo-lhe já que reclame noutra secção, com quem fez o mundo assim. Limito-me a entregar o que me mandam - sou apenas o estafeta. Abracei o projecto de distribuir prendas aos miúdos porque me identifiquei com ele. Comecei como mero assalariado, nunca subi na hierarquia, não pedi para ser a estrela do consumismo sazonal do ocidente, e há muito que opero na base do voluntariado responsável. Faço o melhor que posso.
Acredito ter conquistado, assim, o direito a uma existência autónoma, digna e íntegra. Não sou avalista de todas as palermices que inventam a meu respeito, mas sou alheio às réplicas da minha pessoa empoleiradas aí pelas varandas. Alguém, nesta época de twitters e facebooks, poderá assumir os usos indevidos da sua imagem globalizada? Se vamos a matutar nisso, será melhor eu pôr-me a despejar tranquilizantes pelas chaminés abaixo.
É verdade que já poderia ter arrumado as botas. Mas, por um simples erro de génese, vestia agora um fato de treino e enterrava a cabeça nas neves da Lapónia? Não. Como é ingénuo o meu amigo, ao pensar que me movem as comissões das grandes multinacionais. O meu intento é outro. É adiar o face-a-face com a solidão na velhice, é resistir ao medo terrível da inutilidade. Há muito que me sinto escorregando num plano untado a sebo de rena, inclinado a 30 graus sobre a fenda escura da morte. Esta sensação é comum na minha idade e até em pessoas mais novas. Passar a noite de Natal voando pelos céus, nas asas da imaginação, nossa ou de outros, é a minha forma de me agarrar a qualquer ressalto ou cavidade que encontre nessa supefície ímpia. É a minha forma de iludir um tempo que corre muitíssimo mais veloz do que me foi prometido no início da minha existência.
Quanto ao menino Jesus, nada contra. Nutro um carinho de avô por esse eterno bebé, e além disso há mercado para os dois. Tenho alguma vaidade por reunir o consenso entre as famílias que não se revêem nos episódios e personagens bíblicas, mas ninguém me ouvirá uma palavra menos cortês sobre a concorrência. Excessos de competição são desaconselhados na minha idade e esvaziam-nos de energia anímica. Já a quebra de popularidade do Pequeno no coração das pessoas, palpita-me que se deve, isso sim, à incorrigível soberba da massa católica, dos marechais aos soldados rasos.
Por fim: A minha fatiota. Que é que tem?? Eu gosto. O vermelho significa alegria e tonicidade, qualidades nada de desprezar num velho. Além disso, como sou forte, nem tudo me assenta bem. Efectivamente, já nasci com este índice de massa corporal, e ninguém se penaliza mais por isso. Não poderia adoptar uma tanga tipo Jesus, que praticamente nasceu nos trópicos, e também não estou para imitar o São Nicolau: o púrpura e o marfim não me favorecem e as vestes compridas travam-me os movimentos.
Dito tudo isto, meu jovem amigo, estou consigo no desalento perante um Natal esvaziado de sentido. Porém, na tresloucaria refinada que é Dezembro, eu não vejo tanto a ânsia de consumir e possuir - vejo mais a urgência das pessoas em quebrar a rotina a todo o custo, em encher os dias com objectivos palpáveis e próximos, passos e palavras especiais, ainda que frívolos e fugazes. O espírito até existe, mas agora é outro. Jesus cresceu. A humanidade está para lá de madura.
Deste, que afectuosamente o compreeende,
Pai Natal
Meu Caro Jovem
Perdoe-me a demora na resposta. Sucede que, polémicas à parte, continuo muito solicitado e andei ocupadíssimo, primeiro nas lides habituais, depois compensando a minha mulher pelas longas horas fora de casa.
Foi com profunda tristeza, alguma complacência e a máxima arterial a 170 que li e reli as suas desalentadas palavras. Vasculho na minha história, sondo de ponta a ponta a minha consciência, e não encontro passos merecedores de tamanha diatribe. Creio que apenas a sã irreverência, própria da juventude cinquentenária do meu amigo, justifica tal tratamento a um idoso como eu. Bem me avisou em tempos certa astróloga: por volta dos meus 115 anos, uma grande arrelia chegaria por correio e, de tão contundente, far-me-ia crescer (Ainda perguntei "Crescer mais?? Para quê? Mas ela lançou-me um olhar reprovador).
Sou pessoa sensível e magoaram-me algumas das suas farpas, quer as de natureza mais filosófica, quer as alusivas à minha aparência. Sem cerimónias, eis o que se me oferece dizer sobre as primeiras:
Mas agora tenho de levar a toda a hora com a lengalenga anti-consumo, a pretexto dos primórdios da minha existência? Por dá cá aquela palha, salta alguém a responsabilizar-me pela agressividade mercantil da marca que me inventou? É injusto e é absurdo.
Injusto, porque eu não tenho culpa das minhas origens. O meu amigo responde pelas suas? Não podemos arcar pela vida fora com o ónus das opções e acções dos nossos progenitores. Absurdo, pela questão dos prazos de validade: as alianças fazem-se e desfazem-se. No meu caso, mergulhei directamente do acto de criação para uma tarefa especificamente comercial, é verdade. Foi nos anos 30 do século passado. Mas onde é que isso já vai! Há que tempos ninguém me vê agarrado a um dístico de refrigerantes. É como um indivíduo divorciar-se e passada uma década ainda lhe falarem constantemente da ex-mulher. Desagradável. Ainda por cima são essas vozes de revolta mal dirigida que alimentam, nesta quadra e gratuitamente, o portentoso caudal de publicidade à referida marca, pois, como sabe, nos códigos do marketing o que importa é ser-se falado, bem ou mal.
Quanto a promover o consumismo: Eu? Eu, que só saio da toca duas ou três semanas em Dezembro? Então os outros onze meses do ano? Sou eu que canalizo milhares para formigarem pelos centros comerciais das vilas e cidades nos fins-de-semana de sol, nas tardes de primavera? (Dou este exemplo, por me constar que o seu país vai à frente nesse distinto passatempo).
E antes que lhe ocorra imputar-me as enormes desigualdades materiais das famílias, digo-lhe já que reclame noutra secção, com quem fez o mundo assim. Limito-me a entregar o que me mandam - sou apenas o estafeta. Abracei o projecto de distribuir prendas aos miúdos porque me identifiquei com ele. Comecei como mero assalariado, nunca subi na hierarquia, não pedi para ser a estrela do consumismo sazonal do ocidente, e há muito que opero na base do voluntariado responsável. Faço o melhor que posso.
Acredito ter conquistado, assim, o direito a uma existência autónoma, digna e íntegra. Não sou avalista de todas as palermices que inventam a meu respeito, mas sou alheio às réplicas da minha pessoa empoleiradas aí pelas varandas. Alguém, nesta época de twitters e facebooks, poderá assumir os usos indevidos da sua imagem globalizada? Se vamos a matutar nisso, será melhor eu pôr-me a despejar tranquilizantes pelas chaminés abaixo.
É verdade que já poderia ter arrumado as botas. Mas, por um simples erro de génese, vestia agora um fato de treino e enterrava a cabeça nas neves da Lapónia? Não. Como é ingénuo o meu amigo, ao pensar que me movem as comissões das grandes multinacionais. O meu intento é outro. É adiar o face-a-face com a solidão na velhice, é resistir ao medo terrível da inutilidade. Há muito que me sinto escorregando num plano untado a sebo de rena, inclinado a 30 graus sobre a fenda escura da morte. Esta sensação é comum na minha idade e até em pessoas mais novas. Passar a noite de Natal voando pelos céus, nas asas da imaginação, nossa ou de outros, é a minha forma de me agarrar a qualquer ressalto ou cavidade que encontre nessa supefície ímpia. É a minha forma de iludir um tempo que corre muitíssimo mais veloz do que me foi prometido no início da minha existência.
Quanto ao menino Jesus, nada contra. Nutro um carinho de avô por esse eterno bebé, e além disso há mercado para os dois. Tenho alguma vaidade por reunir o consenso entre as famílias que não se revêem nos episódios e personagens bíblicas, mas ninguém me ouvirá uma palavra menos cortês sobre a concorrência. Excessos de competição são desaconselhados na minha idade e esvaziam-nos de energia anímica. Já a quebra de popularidade do Pequeno no coração das pessoas, palpita-me que se deve, isso sim, à incorrigível soberba da massa católica, dos marechais aos soldados rasos.
Por fim: A minha fatiota. Que é que tem?? Eu gosto. O vermelho significa alegria e tonicidade, qualidades nada de desprezar num velho. Além disso, como sou forte, nem tudo me assenta bem. Efectivamente, já nasci com este índice de massa corporal, e ninguém se penaliza mais por isso. Não poderia adoptar uma tanga tipo Jesus, que praticamente nasceu nos trópicos, e também não estou para imitar o São Nicolau: o púrpura e o marfim não me favorecem e as vestes compridas travam-me os movimentos.
Dito tudo isto, meu jovem amigo, estou consigo no desalento perante um Natal esvaziado de sentido. Porém, na tresloucaria refinada que é Dezembro, eu não vejo tanto a ânsia de consumir e possuir - vejo mais a urgência das pessoas em quebrar a rotina a todo o custo, em encher os dias com objectivos palpáveis e próximos, passos e palavras especiais, ainda que frívolos e fugazes. O espírito até existe, mas agora é outro. Jesus cresceu. A humanidade está para lá de madura.
Deste, que afectuosamente o compreeende,
Pai Natal
01 janeiro 2011
Sorrir em dia de Ano Novo
A minha Alma, fugiu pela Torre Eiffel acima,
- A verdade é esta, não nos criemos mais ilusões
- Fugiu, mas foi apanhada pela antena da T.S.F.
Que a transmitiu pelo infinito em ondas hertzianas…
- A verdade é esta, não nos criemos mais ilusões
- Fugiu, mas foi apanhada pela antena da T.S.F.
Que a transmitiu pelo infinito em ondas hertzianas…
(Em todo o caso que belo fim para a minha Alma!...)
Mário de Sá Carneiro
26 dezembro 2010
As raparigas lá de casa
"Duas irmãs" - Fernando Botero
Como eu amei as raparigas lá de casa
discretas fabricantes da penumbra
guardavam o meu sono como se guardassem
o meu sonho
repetiam comigo as primeiras palavras
como se repetissem os meus versos
povoavam o silencio da casa
anulando o chão os pés as portas por onde
saíam
deixando sempre um rastro de hortelã
traziam a manhã
cada manhã
o cheiro do pão fresco da humidade da terra
do leite acabado de ordenhar
(se voltassem a passar todas juntas agora
veríeis como ficava no ar o odor doce e materno
das manadas quando passam)
aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava a inquieta maresia
dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos
no outono
penteavam-se
e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas
na primavera
não me lembro da cor dos olhos quando olhava
os olhos das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia
o sol
ou se agitava a superfície dos lagos
do jardim com lagos a que me levavam de mãos dadas
as raparigas lá de casa
que tinham namorados e com eles
traíam
a nossa indefinível cumplicidade
eu perdoava sempre e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o lado mau de sua inexplicável bondade
o vício da virtude da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor pelas raparigas lá de casa.
discretas fabricantes da penumbra
guardavam o meu sono como se guardassem
o meu sonho
repetiam comigo as primeiras palavras
como se repetissem os meus versos
povoavam o silencio da casa
anulando o chão os pés as portas por onde
saíam
deixando sempre um rastro de hortelã
traziam a manhã
cada manhã
o cheiro do pão fresco da humidade da terra
do leite acabado de ordenhar
(se voltassem a passar todas juntas agora
veríeis como ficava no ar o odor doce e materno
das manadas quando passam)
aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava a inquieta maresia
dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos
no outono
penteavam-se
e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas
na primavera
não me lembro da cor dos olhos quando olhava
os olhos das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia
o sol
ou se agitava a superfície dos lagos
do jardim com lagos a que me levavam de mãos dadas
as raparigas lá de casa
que tinham namorados e com eles
traíam
a nossa indefinível cumplicidade
eu perdoava sempre e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o lado mau de sua inexplicável bondade
o vício da virtude da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor pelas raparigas lá de casa.
Emanuel Félix, poeta açoreano
(poema extraído do livro «Habitação das Chuvas»)
(poema extraído do livro «Habitação das Chuvas»)
Obrigado ao Helder, por nos ter enviado esta pequena (grande) preciosidade!
24 dezembro 2010
CARTA AO PAI NATAL
Ex.mo Senhor,
Devo dizer-lhe, em primeiro lugar, que não encontrará nesta carta as expressões afectuosas e de submissa pedinchice que está habituado a receber dos seus inúmeros admiradores espalhados por todo o orbe. De facto, não só não nutro qualquer simpatia pela rotunda e esdrúxula pessoa de V. Exa., como, por razões que adiante compreenderá, não me é permitido aceitá-lo como representante supremo desta época festiva em que nos habituámos a viver e a comemorar o nascimento do Filho de Deus.
Certamente se recordará que na meninice dos homens e mulheres que, neste país, têm hoje cinquenta e mais anos de idade, nunca a pessoa de V. Exa. era chamada para a entrega de prendas ou brinquedos na noite mágica de Natal. Tínhamos para isso uma figura bem mais credível e ajustada à quadra – o Menino Jesus – a quem não escrevíamos cartas, pois tratando-se de um recém-nascido não poderia naturalmente lê-las, mas a quem rezávamos de joelhos no chão, junto às chaminés de nossas casas, pedindo o carrinho de corda, o triciclo, a boneca de cartão ou os chocolates. A personalidade de V. Exa. era praticamente desconhecida das nossas infantis pessoas, só nos chegando notícia sua, eventualmente, através de algum postal de boas-festas remetido do eldorado americano por um qualquer parente ali emigrado.
Nestas últimas décadas, beneficiando da cumplicidade dos poderes constituídos, tem V. Exa. assumido a representação simbólica do Natal. Paulatinamente, como quem não quer a coisa, foi matando o Menino Jesus que sempre habitara os nossos sonhos de criança – um crime tão bárbaro e nefando como a própria morte do Jesus adulto – insinuando-se junto das novas gerações através de agressivas campanhas de publicidade organizadas pelas grandes multinacionais dos electrodomésticos, das consolas, dos jogos de computador e de toda a classe de brinquedos. V. Exa. vendeu a ternura do Natal aos capitalistas da SONY e da NITENDO, aos fabricantes de sonhos de latão e aos oragos anunciadores de promessas de felicidade descartável. Quem o quer ver é a enviar as suas legiões de clones para a porta das superfícies comerciais, incentivando o consumo desregrado, promovendo o endividamento das famílias e assediando as criancinhas com beijos babados de infame consumismo.
Acresce que a figura e os modos apresentados por V. Exa. são do mais grotesco que se pode imaginar. Ri de uma forma estúpida e desconchavada, veste um fato ridículo que mais parece a farpela dum palhaço, não faz a barba, há quem diga que cheira mal dos pés, e, suprema ironia, garantem-nos que desce pelas chaminés para distribuir as prendas e os brinquedos, quando, com a gordura que ostenta, nem pela porta da garagem seria capaz de passar. Depois, contam-nos que viaja num trenó puxado por renas, entre a Lapónia, sua terra de origem, e os lares de cada um de nós, quando é sabido que tal trenó não existe, é pura ficção para dar um toque de romantismo à sua existência árida, pois as únicas viagens que faz, sabemo-lo bem, fá-las de avião entre as grandes praças financeiras, controlando a evolução dos seus negócios e recebendo as chorudas comissões que lhe são atribuídas pelos fabricantes de brinquedos e de electrodomésticos de todo o mundo.
Não tenho dúvidas que, com V. Exa., o Natal, na sua pureza, está irremediavelmente perdido. Porque o Natal não pode ser este falso esplendor de bens de consumo, sabiamente regido pelos interesses do capitalismo industrial e financeiro. O Natal não pode ser este vazio de alma, este deserto de emoções em redor da mesa farta e de uma árvore, dita de Natal, reverberando luminárias espúrias contra a luz verdadeira da estrela de Belém. Não bastava ter V. Exa. arrancado o Menino Jesus do coração dos homens; era preciso também que os reduzisse, como escravos, a um mero instrumento dos seus desígnios de lucro e enriquecimento ilegítimo.
É por tudo isto e pelo mais que se não diz por ser verdade – cito aqui, de cor, o poeta da Pedra Filosofal – que lhe escrevo estas modestas mas inflamadas linhas, como vivo protesto de quem não se conforma com a ditadura materialista que V. Exa. representa.
Sem outro assunto de momento, e na esperança de topar o menos possível com as execrandas réplicas de V. Exa. que por aí pululam neste período natalício, subscreve-se,
Este que sinceramente o abomina,
(Publicado no blogue "Disperso Escrevedor" em 10 de Dezembro de 2006)
17 dezembro 2010
PROTEU - a propósito de alguém ter apodado de proteiforme a personagem Julian Garmony do romance "Amesterdão"
Deus marinho da mitologia grega, Proteu é filho de Poseidon e de Tétis. Tornou-se guardador dos rebanhos de seu pai, isto é, dos grandes peixes, das focas e dos monstros marinhos.
Este deus-pastor, segundo Eurípides, era rei da ilha de Pharos, no Egipto, onde foi construído o Farol de Alexandria, uma das sete maravilhas do mundo antigo. Proteu tinha o dom da profecia e o poder de se metamorfosear para escapar aos perseguidores ou a quem o buscava para saber os acontecimentos futuros. Se alguém conseguisse vencer o medo perante as formas horríveis e terríveis que assumia, ele revelava a verdade, como sucedeu com Menelau, o rei de Esparta, que queria saber se e como podia voltar à sua terra, após a guerra de Tróia.
Este deus-pastor, segundo Eurípides, era rei da ilha de Pharos, no Egipto, onde foi construído o Farol de Alexandria, uma das sete maravilhas do mundo antigo. Proteu tinha o dom da profecia e o poder de se metamorfosear para escapar aos perseguidores ou a quem o buscava para saber os acontecimentos futuros. Se alguém conseguisse vencer o medo perante as formas horríveis e terríveis que assumia, ele revelava a verdade, como sucedeu com Menelau, o rei de Esparta, que queria saber se e como podia voltar à sua terra, após a guerra de Tróia.
O Padre António Vieira, no Sermão de Santo António aos Peixes, na crítica ao polvo, recorda as transformações extravagantes desta figura mitológica quando diz "as figuras, que em Proteu são fábula, no polvo são verdade e artifício."
(Infopédia da PORTO EDITORA - www.infopedia.pt/$proteu)
12 dezembro 2010
MOLLY LANE
Diz-se que em Culloden, lugar da carnificina
de que fala Hélia Correia em Lillias Fraser,
o fantasma dum guerreiro derrotado costuma
atravessar as noites com o seu lamento de sombra.
E em Tantallon Castle, por mais incrível que pareça,
há quem tenha conseguido fotografar
a tenebrosa aparição de um espectro.
Nada disto afligia Molly na noite
daquele Natal de setenta e oito
quando se divertia com os amigos
num inócuo castelo da Escócia.
À hora em que os fantasmas saíam, vogando
descoloridos sob os tectos das casas,
e o vento gemendo nas highlands
crivava de inquietação
os dedos líquidos dos lochs,
ela ria-se das sombras pálidas dos mortos,
dançando nua sobre uma mesa de snooker.
de que fala Hélia Correia em Lillias Fraser,
o fantasma dum guerreiro derrotado costuma
atravessar as noites com o seu lamento de sombra.
E em Tantallon Castle, por mais incrível que pareça,
há quem tenha conseguido fotografar
a tenebrosa aparição de um espectro.
Nada disto afligia Molly na noite
daquele Natal de setenta e oito
quando se divertia com os amigos
num inócuo castelo da Escócia.
À hora em que os fantasmas saíam, vogando
descoloridos sob os tectos das casas,
e o vento gemendo nas highlands
crivava de inquietação
os dedos líquidos dos lochs,
ela ria-se das sombras pálidas dos mortos,
dançando nua sobre uma mesa de snooker.
08 dezembro 2010
Nessun Dorma em Amesterdão de McEwan
“…A Comissão considerada de gostos medíocres pelo meio musical, ansiava acima de tudo, por uma sinfonia da qual se pudesse extrair pelo menos uma melodia, um hino, uma elegia para o caluniado século que findara que pudesse ser incorporada nos eventos oficiais, tal como nessun dorma o fora, num campeonato de futebol…” in Amesterdão de Ian McEwan.
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