Natalya Bondarchuck (Hari) em Solaris (1972) de Andrei Tarkovsky
Blogue da Comunidade de Leitores da Biblioteca de S. Domingos de Rana - Cascais - Portugal
29 outubro 2011
24 outubro 2011
SER OU NÃO SER
Qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.
Se os novos partem e ficam só os velhos
e se do sangue as mãos trazem a marca
se os fantasmas regressam e há homens de joelhos
qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.
Apodreceu o sol dentro de nós
apodreceu o vento em nossos braços.
Porque há sombras na sombra dos teus passos
há silêncios de morte em cada voz.
Ofélia-Pátria jaz branca de amor.
Entre salgueiros passa flutuando.
E anda Hamlet em nós por ela perguntando
entre ser e não ser firmeza indecisão.
Até quando? Até quando?
Já de esperar se desespera. E o tempo foge
e mais do que a esperança leva o puro ardor.
Porque um só tempo é o nosso. E o tempo é hoje.
Ah se não ser é submissão ser é revolta.
Se a Dinamarca é para nós uma prisão
e Elsenor se tornou a capital da dor
ser é roubar à dor as próprias armas
e com elas vencer estes fantasmas
que andam à solta em Elsenor.
MANUEL ALEGRE
Se os novos partem e ficam só os velhos
e se do sangue as mãos trazem a marca
se os fantasmas regressam e há homens de joelhos
qualquer coisa está podre no Reino da Dinamarca.
Apodreceu o sol dentro de nós
apodreceu o vento em nossos braços.
Porque há sombras na sombra dos teus passos
há silêncios de morte em cada voz.
Ofélia-Pátria jaz branca de amor.
Entre salgueiros passa flutuando.
E anda Hamlet em nós por ela perguntando
entre ser e não ser firmeza indecisão.
Até quando? Até quando?
Já de esperar se desespera. E o tempo foge
e mais do que a esperança leva o puro ardor.
Porque um só tempo é o nosso. E o tempo é hoje.
Ah se não ser é submissão ser é revolta.
Se a Dinamarca é para nós uma prisão
e Elsenor se tornou a capital da dor
ser é roubar à dor as próprias armas
e com elas vencer estes fantasmas
que andam à solta em Elsenor.
MANUEL ALEGRE
23 outubro 2011
O MANEQUIM
Quando Hamlet, Grã Senhor predestinado,
Ressuscitou em mim sua Loucura,
Quis eu, para o trazer de braço dado,
Modernizar-lhe o espírito e a figura:
Pondo-lhe um riso frígido e afiado
Nos lábios retorcidos de amargura,
Modelei-o num fraque bem talhado
Que lhe vincasse os gestos e a estatura.
Depois lhe abri o enigma da Ironia
Para que a sua atroz melancolia
Calçasse luvas… e ostentasse o ar fino.
Hoje, ó meu Grande! ó Príncipe de todos!
Já te posso exibir: Tens belos modos,
E sofres… mas consoante o figurino.
JOSÉ RÉGIO, Biografia
Ressuscitou em mim sua Loucura,
Quis eu, para o trazer de braço dado,
Modernizar-lhe o espírito e a figura:
Pondo-lhe um riso frígido e afiado
Nos lábios retorcidos de amargura,
Modelei-o num fraque bem talhado
Que lhe vincasse os gestos e a estatura.
Depois lhe abri o enigma da Ironia
Para que a sua atroz melancolia
Calçasse luvas… e ostentasse o ar fino.
Hoje, ó meu Grande! ó Príncipe de todos!
Já te posso exibir: Tens belos modos,
E sofres… mas consoante o figurino.
JOSÉ RÉGIO, Biografia
20 outubro 2011
"Hamlet" no cinema
A pedido de uma leitora, aqui se deixam estes linques:
http://www.imdb.com/title/tt0099726/
http://www.imdb.com/title/tt0116477/
http://www.imdb.com/title/tt0171359/
http://www.imdb.com/title/tt0099726/
http://www.imdb.com/title/tt0116477/
http://www.imdb.com/title/tt0171359/
18 outubro 2011
Ser ou Não Ser
O célebre monólogo, numa excelente interpretação do actor brasileiro Daniel Oliveira...
08 outubro 2011
SÉCULO DAS LUZES...
Abro um espaço para referir a leitura, ontem, no Museu Ferreira de Castro, do romance A Religiosa de Diderot. A escolha da obra foi de um prezado elemento da nossa Comunidade que na altura própria disse o que tinha a dizer de tão discutido texto.
Levei o meu livrinho, comprado em 1972 ou 1973, cuja fotografia aqui deixo sobre um lavor em renda de uma tia que já está na Eternidade. Admire-se o belíssimo rosto de Anna Karina, a religiosa do filme de Jacques Rivette no ano já distante de 1966.
Diderot e Grimm, filhos de Belial, lá levaram ao engano o bondoso marquês de Croismare, o qual creditou como verdadeira uma história inventada por aqueles refinados malandros. Diga-se lá que de uma brincadeira não pode sair uma obra séria.
(O romance La religieuse começou a ser redigido por Diderot em 1760. Em Outubro de 1780 iniciou-se a sua publicação na revista Correspondance littéraire.)
07 outubro 2011
28 setembro 2011
AMORES CANINOS
A cadela cocker spaniel da E.C. no jardim da Casa das Palmeiras
O Mundo à minha procura, pp. 188-191.
27 setembro 2011
A PIETÁ MAIS BONITA DA NOSSA ESTATUÁRIA
Fotografia tirada em Amarante em 7 de Setembro de 2011. Já não me recordava de que Ruben A. falava disto.
(...) de Amarante, onde era mais raro irmos, misturávamos o olhar para aquelas velharias da praça onde só mais tarde vim a descobrir a Pietá mais bonita da nossa estatuária, ali em plena esquina da ponte - de lá trazíamos as lérias e os foguetes.
O Mundo à minha procura, p. 127.
Casa Andresen
Mas a simetria no Campo Alegre era uma simetria ampliada, um máximo de simetria, tanto no tamanho e altura do edifício, como nas suas janelas e portas. Acima daquilo só a loucura. E a casa, para quem conhecer de íntimo a sua extraordinária história - que não cabe nas páginas de uma autobiografia - vacilou sempre com os seus personagens numa espécie de loucura humana que lembra em flagrante a Casa dos Manons na Electra de Eugene O´Neill. Nos limites da loucura arquitectónica sentia-se que qualquer coisa de demente teria de habitar aquele casarão.
24 setembro 2011
"NUNCA NADA É INVENTADO"
Esta casa desmesurada, cheia de gente mas também cheia de lugares vazios e quartos desabitados e fechados, cheia de vozes, silêncios, ressonâncias, mistérios, medos e encantações e assombros aparece assim como o jardim o parque o pinhal e a quinta em muitos os poemas e contos que ao longo dos anos escrevi. É a casa de Hana do conto “Saga”, o jardim do Rapaz de Bronze. E, múltipla, a casa é também “um dos palácios do Minotauro” de que falo num dos meus poemas. É igualmente esta a casa que o meu primo Ruben A. descreve no seu livro O mundo à minha procura: uma óptima descrição, tão exacta e veemente que poderá parecer inventada. Mas nunca nada é inventado.
(Sophia de Mello Breyner Andresen – Excerto de um texto autobiográfico inédito, in Paula Morão, “Nunca nada é inventado”, COLÓQUIO/Letras nº 176, Janeiro/Abril de 2011.)
23 setembro 2011
A QUINTA DO CAMPO ALEGRE
Ruben A. com a prima Sophia e Isabel da Nóbrega, 1958
(fotografia de Biblioteca Nacional Digital, http://www.purl.pt/)
A infância e adolescência, passou-a Sophia na quinta portuense do Campo Alegre, adquirida pelo seu avô Andresen no final do século XIX. "Um território fabuloso", assim a evocaria mais tarde a própria autora. É claro que um exíguo quintalejo pode ser, para uma criança, um território fabuloso. Mas não era bem o caso. Uma parte do que dele resta é hoje o Jardim Botânico do Porto. "Era tão grande a Quinta dos Andresen que o filho primogénito, João Henrique [pai de Sophia], administrador das minas de S. Pedro da Cova, não precisava de galgar os muros para atirar à caça de arribação", escreve Fernando Assis Pacheco, num belo texto intitulado "Sophia, a vida tirada a limpo", que a "Visão" publicou em 1995.
Um dos costumes da casa, como recorda o escritor Ruben A., primo de Sophia, nos seus volumes autobiográficos, era o de se organizar, pelo Natal, um espectáculo protagonizado pelas crianças da família. Foi justamente uma destas celebrações que originou o primeiro contacto de Sophia com a poesia. Tinha três anos e ainda não sabia ler, mas uma criada, desgostosa por ver a menina excluída do elenco de artistas, ensinou-a a recitar "A Nau Catrineta".
(Excerto de um texto de Luís Miguel Queirós)
09 setembro 2011
O Mundo à Minha Procura – 30 de Setembro às 21h00
Busto de Ruben A. no Jardim Botânico do Porto
A propósito desta sua autobiografia, Ruben A. afirmou o seguinte, numa entrevista dada em 1965, ao Diário Popular: "O Mundo à Minha Procura representa uma necessidade urgente de arrumar a minha vida sentimental, de ver a novela que dentro do meu ser transporto. A forma autobiográfica é a mais pura do romance, a criação permanente de um estado de espírito que traz presentes os fantasmas que se acolheram no sótão da sensibilidade”.
Dos três volumes que compõem a obra, vamos ler o primeiro e encerrar o capítulo “Crónicas e Autobiografias” no final deste mês.
30 agosto 2011
BOSCH E A RETÓRICA DO DESEJO
Na visita que se impunha ao MNAA, com a intenção de revisitar o Tríptico de Hieronimus Bosch — As Tentações de Sto Antão (c.1500), desta feita em destaque, pela presença de outras duas obras congéneres, aproveitei para, mais demoradamente, me perder no labirinto daquelas paisagens de ficção delirante.
“Esta exposição, realizada em parceria com o Museu Groeninge (Bruges, Bélgica), coloca o Tríptico das Tentações de Santo Antão do MNAA criticamente em confronto com o Tríptico do Juízo Final e o Tríptico das Provações de Job, ambos da colecção do museu de Bruges”.
Estas duas obras serão, uma, provavelmente da mesma escola e a outra de um continuador da sua inventiva. Do confronto que nos é proposto, ressalta naturalmente a superioridade do “nosso” Bosch, uma obra espantosa que ninguém sabe como veio parar a Portugal, a Lisboa, mais propriamente. Mesmo que nos pareça atraente pensar que foi pela mediação de Damião de Góis.
Podemos, no entanto, considerar que este confronto seria um pouco diferente se tivéssemos, por exemplo, O Jardim das Delícias, do Museu do Prado, ou outra pintura igualmente emblemática do mesmo autor, nomeadamente entre as que, para além desta, Filipe II de Espanha (I de Portugal), terá coleccionado e encomendado a Hieronimus Bosch. É aliás interessante notar a surpresa que o rei manifesta a suas filhas (Cartas para Duas Infantas Meninas: Portugal na Correspondência de D. Filipe I a suas Filhas, 1581-1583), descrevendo a grandiosidade e sobretudo as figurações, pantominas e espectáculos, que a procissão anual de Corpus Christi, em Lisboa, incluía. Ele lamenta que os filhos não possam também apreciar vários aspectos originais da procissão, incluindo os diabos, que lhe recordam as figuras de Bosch.
Podemos então pensar que o rei identificava na procissão o mesmo espírito que o fascinava no imaginário que o pintor lhe proporcionava: espírito que marcava talvez um fim de época— o artista traduzia, libertando-os através da obra de arte, os medos, o pavor do desconhecido, que a Idade Média preservava, evitando enfrentá-los.
É como se descobrisse (e nós com ele) que, afinal, o verdadeiro desconhecido mora dentro de cada um e é revelado pela expressão possível da luta insana entre os desejos e a sua realização, entre os desejos e a sua repressão. Sendo que nada disto é humanamente controlável e manifesta-se sempre como um mundo às avessas, eventualmente produto de lucubrações oníricas, lá, onde o inconsciente se revela. Por isso reina uma intensa confusão, como uma perda generalizada de identidade— o pobre santo, no centro da turbulência, parece quase resignado.
A dualidade escatológica, Bem e Mal, Paraíso e Inferno, presente nas três obras, resulta realisticamente misturada, porque aquelas duas faces estão tão interligadas, que uma começa onde a outra parece não ter acabado. Exactamente como na vida. Mesmo que se nos deparem horizontes, comuns aos três Trípticos, de promissoras auroras, a que se sucedem incendiados entardeceres apocalípticos, e as situações a que correspondem— o desejo, a tentação, a luta interior, a superação ou a queda, e a respectiva iconografia, que é como quem diz, os seus demónios. E, enquanto o Juízo Final apresenta um ensaio de redenção, iconograficamente marcado pela centralidade do Cristo Pantocrator, o que encontramos seguramente nestas obras é um discurso pictórico, ficção aberta a muitas leituras; fábula, alegoria, delírio metafórico, lugar comum de muitos imaginários, obra sem data. Para usufruir Hoje.
27 agosto 2011
UM ESCRITO BACALHOEIRO
Os meus romances, no fundo, são franceses, como eu sou, em quase tudo, um francês, - excepto num certo fundo sincero de tristeza lírica que é uma característica portuguesa, num gosto depravado pelo fadinho, e no justo amor do bacalhau de cebolada.
(Eça de Queiroz, de uma carta a Oliveira Martins)
23 agosto 2011
UMA FAINA (AINDA) MAIOR
UMA FAINA (AINDA) MAIOR
Enquanto me afasto até à distância regulamentar do barco-mãe, o imponente lugre, no pequeno Dori que me foi atribuído, remando automaticamente através da bruma matinal, vou remoendo peripécias da vida que me trouxeram até aqui. Lanço a pequena âncora; o ruído surdo do desenrolar da corda sobrepõe-se por instantes ao chape-chape da ondulação contra o casco de madeira da frágil embarcação.
A extensão de mar e a névoa que varre a superfície gelada destas águas setentrionais, onde tudo me é tão alheio e tão estranho, puseram uma distância real e arrepiante de solidão atroz, entre mim e o pequeno mundo de segurança, porto oscilante que não posso perder de vista, o navio de quatro mastros, de velas arriadas, balançando docemente à viração, como se fosse uma miragem.
Por instantes julgo poder ainda distinguir-lhe o nome, impresso lateralmente à proa: “Biblioteca do Bacalhau”.
Pelas abertas do nevoeiro, que ameaça cerrar-se, diviso os meus companheiros de faina— lá está o João Grandão, o dirigente sindical que em segredo nos vai industriando para a luta por melhores condições de trabalho e salários, contra a prepotência dos Henriques Tendeiros... mas o que é isto? Tenho de me despachar, começar a faina, pôr as armações a funcionar! Ali andam, o Carlão, a Cristalina, a Custóia, a Ardete, a Manola e os outros, nos seus botes, já atarefados a lançar as linhas e eu aqui, a perder-me em conjecturas!
Ainda corro o risco de acabar a faina e do cimo da amurada o capitão, o Manuel Tunes, a avaliar a olho a pescaria, me dizer: que é lá isso? Volta para trás, vai pesc(quis)ar mais!
Mas que trapalhada! Afinal, esqueci-me de completar a palamenta; e agora, como é que vou dar conta do recado? Está um frio paralisante; emaranham-se as linhas, o bacalhau pica, come a lula e dá à sola! Não é possível! Qual é a Nossa Senhora ou deus do Olimpo que me acode?
Vejo ao longe os meus companheiros a içarem os grandes peixes estrebuchantes, vão acolchoando o fundo dos barcos, e eu aqui, abandonada da sorte, ou do talento... Mas espera! A linha estremece... é desta! Só pode ser um dos grandes, é puxar, é puxar!
Que grande estrondo!
Acordo em sobressalto... o livro “Uma Crónica...” escorregou e caiu ao chão!
20 agosto 2011
Uma Crónica da Pesca do Bacalhau – 26 de Agosto às 21h00
«… Antes de entrar a bordo, dei uma rápida olhadela à proa e vi o casco cheio de amolgadelas, que, soube depois por experiência própria, eram causadas pelos embates contra os growlers, assim chamados os blocos de gelo flutuantes …» in “Uma Crónica da Pesca do Bacalhau” de Joaquim Rebordão Leitão.
Esta será uma Sessão especial. Por um lado, contamos com a presença do Autor. Por outro, contamos com as habilidades culinárias de alguns leitores, para uma ceia especial em torno do famoso espécimen …
19 agosto 2011
Na senda de Luísa…
No dia 13 de Agosto, pelas 14h30, marcámos encontro no Cais do Sodré. Daí desbravámos caminhos antes percorridos (ou por nós imaginados), pelas personagens do “Primo Basílio”.
Lugares como a Rua do Ferragial de Cima, a Patriarcal, Rua do Moinho de Vento, o Hotel Gibraltar, a Pastelaria Baltreschi ou o Passeio Público, tornaram-se tão familiares como se também nós por lá tivéssemos vivido momentos gloriosos.
Do roteiro, cuidadosamente preparado pelas competentes “Organizações Pandeireta” constaram:
Cais do Sodré e Aterro
Rua do Ferragial (terramoto)
Rua Vítor Cordon
Teatro Nacional S. Carlos (Ópera do Tejo)
Grémio Literário e Hotel Gibraltar
Basílica dos Mártires
Casa Havaneza/Pastelaria Baltreschi
Largo do Loreto/Praça Luís de Camões
Rua da Misericórdia/ Rua Larga de S. Roque
Igreja de S. Roque/ da Misericórdia
Jardim S. Pedro de Alcântara/Convento de S. Pedro de Alcântara
Moinho de Vento
Patriarcal Queimada
Jardim do Príncipe Real (com lanche a rigor)
Praça da Alegria
Passeio Público /Avenida da Liberdade
Convento da Encarnação
No final da visita e chegada a noite, ainda vimos surgir por trás do Castelo S. Jorge uma lua lindíssima, que nos iluminou o caminho para o ágape costumeiro. Foi mais um dia sublime, na vida desta Comunidade. A repetir…
27 julho 2011
RUA D. PEDRO V, antiga Rua do Moinho de Vento
R. D. Pedro V, Arco do Evaristo
A RUA D. PEDRO V pertence a três freguesias. À freguesia da ENCARNAÇÃO os números 1 a 57, à freguesia de S. JOSÉ todos os números pares, à freguesia de SANTA CATARINA do número 59 em diante.
Começa na Rua Luísa Todi em frente do número 1 e termina na Praça do Príncipe Real no número 35.
A Rua D. Pedro V, antiga Rua do Moinho de Vento, foi assim chamada por estar muito perto do campo e ser ventosa.
Segundo se lê na obra de Norberto de Araújo em "Peregrinações em Lisboa", «esta artéria era uma estrada de terra batida que corria entre (terras de semeadura)». Já tinha servido causas patrióticas pois «os ingleses de Maria Tudor, auxiliares de D. António Prior do Crato, quando cercaram Lisboa em 1589, tempo de Filipe II de Espanha, estiveram aqui acampados».
Segundo se lê na obra de Norberto de Araújo em "Peregrinações em Lisboa", «esta artéria era uma estrada de terra batida que corria entre (terras de semeadura)». Já tinha servido causas patrióticas pois «os ingleses de Maria Tudor, auxiliares de D. António Prior do Crato, quando cercaram Lisboa em 1589, tempo de Filipe II de Espanha, estiveram aqui acampados».
No início da antiga Rua do Moinho de Vento (actual Rua D. Pedro V), encontramos o Convento de S. Pedro de Alcântara e sua Capela, também chamada dos Lencastres. Datam do século XVII e reproduzem a grandeza de um Arcebispo de Braga e Primaz de Espanha, "Cardeal Inquisidor" D. Veríssimo de Lencastre, descendente de D. João II.
A sua Capela dedicada aos Santos Veríssimo, Máxima e Júlia Mártires de Lisboa, testemunho de uma cristandade bastante antiga. ( o percurso da vida destes Mártires, impossível de averiguar com rigor, aparecem descritos num códice quatrocentista na Biblioteca Pública de Évora, -cód. CV/1-23d).
O espaço deste Convento e Igreja é pertença da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, é um exemplo de coesão entre diferentes manifestações de arte decorativa do Barroco português, no que diz respeito ao ornamental de mármore policromados que os revestem.
Foi nesta rua, no Pátio do Tijolo, que existiu a Litografia de Portugal fundada no ano de 1803. Hoje com 105 anos de idade, fomos encontrar a referida firma no Cabeço de Montachique (LOURES), muito bem estruturada (de notório prestígio Nacional e Internacional) e ainda, com o mesmo nome: «LITOGRAFIA DE PORTUGAL, S.A.».
No Pátio do Tijolo está instalado o Palácio Braamcamp, edifício datado do século XVIII, onde funcionou o primeiro Liceu Francês.
Desde 1963 está nesse mesmo Palácio a funcionar a Caixa de Previdência do Pessoal de Câmara Municipal de Lisboa.
Neste Palácio viveu além de Anselmo Braamcamp (que lhe deu o nome) o Fontes Pereira de Melo.
Segundo o Itinerário Lisbonense, esta rua «é a continuação da Patriarcal Queimada, vindo da parte do Rato e termina no Largo de São Pedro de Alcântara». Pertencia à freguesia da Pena em 1780.
Em 1885 a rua acompanhou os sinais do tempo, mudando o nome para D. Pedro V.
CALÇADA DO MOINHO DE VENTO
A Calçada do Moinho de Vento é um arruamento no limite das freguesias da Pena e de São José, em Lisboa.Num processo da Inquisição, de 1594, é mencionada a existência de um moinho de vento na encosta do Campo de Santana. O topónimo «Moinho de Vento» já data, pelo menos, do século XVIII.
Localização: do Campo dos Mártires da Pátria à Rua de Santo António dos Capuchos.
Freguesia: São José(Fonte: Wikipédia)
Nessa noite pelas nove horas o conselheiro Acácio, muito abafado, descia o Moinho de Vento, quando encontrou Julião, que vinha de ver um doente na Rua da Rosa.
(Eça de Queirós, O Primo Basílio)
CONVENTO DA ENCARNAÇÃO DAS COMENDADEIRAS DE SÃO BENTO DE AVIS
Localização
Largo do Convento da Encarnação
Freguesia: Pena
Data
Século XVII - XVIII
A construção primitiva do convento data de 1630, em terrenos de D. Aleixo de Meneses, e tinha como principal objectivo abrigar as Comendadeiras da Ordem Militar de São Bento de Avis.
Em 1643, é instituída a Irmandade das Escravas do Santíssimo Sacramento sob a protecção de Nossa Senhora da Encarnação, funcionando na igreja do convento.
O edifício ficou parcialmente destruído com o terramoto de 1755 o que o deixou inabitável, transferindo-se as freiras para a cerca do convento de Santo Antão.
As obras de recuperação terminaram em 1758 altura em que as religiosas regressaram solenemente ao seu convento em coches reais cedidos por D. José I.
Bibliografia
SANTANA, Francisco e SUCENA, Eduardo (dir.), Dicionário da História de Lisboa, 1.ª ed., Sacavém, Carlos Quintas & Associados – Consultores, 1994, pp. 336-338.
(Fotografia e texto: http://revelarlx.cm-lisboa.pt/gca/?id=585)
(...) Ao Loreto, Julião parou subitamente, e exclamou:
- Ai, esquecia-me! Sabe a novidade, conselheiro? A D. Felicidade recolhe-se à Encarnação.
(...)
O Conselheiro disse:
- Sempre conheci naquela senhora ideias retrógradas. É o resultado das manobras jesuíticas, meu amigo! - E ajuntou com a melancolia do liberal descontente. - A reacção levanta a cabeça!
(Eça de Queirós, O Primo Basílio)
26 julho 2011
OS JARDINS ADORMECIDOS DA PATRIARCAL
Imagem de "Lugares Queirosianos", sítio da Biblioteca Nacional
No século XV este local era conhecido por Alto da Cotovia, onde, em finais do século XVII, o filho do marquês de Alegrete - João Gomes da Silva Teles, projectou a construção de um palácio, depois abandonado e ficando em ruínas, sendo em 1740 a lixeira do Bairro Alto.
Estas terras foram então vendidas à Companhia de Jesus, cujos padres limparam o local e mandaram construir o Colégio das Missões, depois destruído com o terramoto de Lisboa, de 1755. Aí se iniciou a nova Sé Patriarcal, mas sofreu um incêndio que a destruiu, ficando ao abandono. Por volta de 1789, o visconde de Vila Nova de Cerveira sugeriu o aproveitamento destas ruínas para a construção do Real Erário, a Tesouraria Central do Reino, mas cujas obras se tornaram tão dispendiosas que o projecto acabou por ser esquecido em 1797. Em 1830 era um local de entulho, que a Câmara mandou limpar para ali colocar uma praça. Construiu-se então um jardim com características românticas, segundo uma traça datada de 1853 e designada por Praça do Príncipe Real em 1859. Nos anos 50, foi chamada por Largo de D. Pedro V; e entre 1911 e 1919, de Praça Rio de Janeiro, tendo retomado o seu nome em homenagem ao filho primogénito de D. Maria II. Em 1861 iniciaram-se os trabalhos de terraplanagem da praça; em 1863 a Companhia das Águas terminou a construção do Reservatório de Água da Patriarcal que, para além de abastecer o jardim fazia a ligação com diversos chafarizes de Lisboa: Século, Loreto e S. Pedro de Alcântara. Em 1869 promoveu-se à iluminação e ajardinamento do local, segundo projecto do jardineiro João Francisco da Silva. O jardim com um área de 1,2 ha, foi concebido segundo o gosto romântico inglês e organizado à volta de um grande lago octogonal com repuxo. Nele se destacam várias espécies arbóreas, salientando-se o enorme cedro-do-Buçaco, o ex-libris da praça, com 20 metros de diâmetro. Possui canteiros de recorte simétrico com plantas e flores multicolores e pequenos arbustos. Oficialmente designado Jardim França Borges em 1915 quando ali colocaram um busto dedicado a este jornalista republicano em sua homenagem.
(Texto do sítio LISBOAVERDE, Câmara Municipal de Lisboa)
18 julho 2011
RUA DO FERREGIAL DE CIMA
Estarão recordadas as nossas leitoras daquela manhã em que o Conselheiro Acácio visitou Luiza, encontrando-a acompanhada do seu dilecto primo. Esta gente de oitocentos era basicamente bem intencionada, pelo que houve cenas de piano e cantorias, amabilidades de cavalheiros e, no final, depois de saber que Bazilio estanciava no Hotel Central, o Conselheiro ofereceu a sua casa: Rua do Ferregial de Cima número três, terceiro. - Era nesta rua que hoje se chama Vítor Cordon.
(Capítulo IV de O Primo Bazilio, p.110 da edição Livros do Brasil)
13 julho 2011
Noite palaciana
No passado Sábado, algumas leitoras desta Comunidade, foram até ao Forte de S. Julião da Barra assistir a um espectáculo de música clássica, que nos trouxe “Os concertos para cravo, flauta e orquestra de Johann Sebastian Bach”. Momentos mágicos, proporcionados por um grupo de músicos excelentes que souberam tirar partido de um local tão especial como é a Cisterna do Forte. Viemos encantadas com a harmonia do espaço, da música e dos próprios instrumentos. Ficam as fotos da Maria Amélia para ilustrar a beleza da noite…
Programa
CONCERTO EM RÉ MENOR PARA 3 CRAVOS E ORQUESTRA BWV 1063
Mafalda Nejmeddine, cravo 1; Júlio Dias, cravo 2; Marcos Magalhães, cravo 3
CONCERTO EM FÁ MAIOR PARA 2 FLAUTAS, CRAVO E ORQUESTRA BWV 1057
António Carrilho, flauta de bisel 1; Gonçalo Freire, flauta de bisel 2; João Paulo Janeiro, cravo
CONCERTO PARA 4 CRAVOS E ORQUESTRA BWV 1065
Mafalda Nejmeddine, cravo 1; Júlio Dias, cravo 2; Marcos Magalhães, cravo 3; João Paulo Janeiro, cravo 4
Flores de Música
Florian Deuter, violino e direcção
Mónica Waisman, Álvaro Pinto, Raquel Cravino e Maria Bonina, violinos
Tera Shimizu, viola
Hilary Alper, violoncelo
Duncan Fox, violone
João Paulo Janeiro, cravo e direcção
08 julho 2011
A pedido de Luiza...
“A malaguenha” de Ernesto Lecuona. Direcção de Orquestra de Placido Domingo.
"...
- Psiu, Sebastião! A malaguenha, faz favor?
Sebastião começou a tocar a malaguenha. Aquela melodia cálida, muito arrastada, encantava-a. Parecia-lhe estar em Málaga, ou em Granada, não sabia: era sob as laranjeiras, mil estrelinhas luzem; a noite é quente, o ar cheira bem; por baixo de um lampião suspenso a um ramo, um cantador sentado na tripeça mourisca faz gemer a guitarra; em redor as mulheres com os seus corpetes de veludilho encarnado batem as mãos em cadência; e ao largo dorme uma andaluza de romance e de zarzuela, quente e sensual, onde tudo são braços brancos que se abrem para o amor, capas românticas que roçam as paredes sombrias vielas onde luz o nicho do santo e se repenica a viola, serenos que invocam a Virgem Santíssima cantando as horas...
- Muito bem Sebastião! Gracias..."
in "O Primo Basílio" de EQ
05 julho 2011
"O Primo Basílio" de Eça de Queiroz, 29 de Julho às 21h00
A abrir:
“Tinham dado onze horas no cuco da sala de jantar. Jorge fechou o volume de Luís Figuier que estivera folheando devagar, estirado na velha voltair de marroquim escuro, espreguiçou-se, bocejou e disse:
- Tu não te vais vestir, Luísa?
- Logo.
Ficara sentada à mesa a ler o Diário de Notícias, no seu roupão de manhã de fazenda preta, bordado a soutache, com largos botões de madrepérola; o cabelo louro um pouco desmanchado, com um tom seco do calor do travesseiro, enrolava-se, torcido no alto da cabeça pequenina, de perfil bonito; a sua pele tinha a brancura tenra e láctea das louras; com o cotovelo encostado à mesa acariciava a orelha, e, no movimento lento e suave dos seus dedos, dois anéis de rubis miudinhos davam cintilações escarlates…”
O Primo Basílio, em versão cinematográfica (3)
Última longa metragem de António Lopes Ribeiro, realizada em 1959 e que, segundo consta, teve um certo fracasso. O actor principal, António Vilar, era o galã da época...
O Primo Basílio, em versão cinematográfica (2)
Em versão de cinema mudo Português, "O Primo Basílio", de Georges Pallu (Col. Cinemateca Portuguesa). Mais aqui
O Primo Basílio, em versão cinematográfica (1)
Seguindo os passos da Joca, aqui ficam algumas imagens dos filmes sobre "O primo Basílio". Primeiro, o filme do realizador Brasileiro Daniel Filho, com intérpretes excelentes e cenários a rigor.
29 junho 2011
"O PRIMO BAZILIO"
Mais uns endereços enviados pela nossa amiga Joca:
http://www.amordeperdicao.pt/basedados_filmes.asp?FilmeID=250
http://www.interfilmes.com/filme_16659_primo.basilio.html
http://www.amordeperdicao.pt/basedados_filmes.asp?FilmeID=250
http://www.interfilmes.com/filme_16659_primo.basilio.html
28 junho 2011
Há mais Luísas...
Esta é a Luísa operária de Gedeão, não a Luiza burguesa de Eça de Queiroz.
Para 29 de Julho vamos ter “O Primo Bazilio” na nossa sessão de leitura. Um ajustamento do programa que se justifica, dado o encontro recente com a personalidade de Emma Bovary. Livros que despertam livros, leituras que chamam leituras: a infinita tela de poemas e ficções.
21 junho 2011
AINDA À VOLTA DE "MADAME BOVARY"
Execrável Emma, mulher perdida,
pior qu´a de Magdala sem a luz
da postura vera e arrependida
da que s´achou no verbo de Jesus.
Filisteia insana e pervertida,
fêmea de cio que o pecado induz,
deu cabo do lar e de uma vida
e pregou o marido numa cruz.
Tive pena do Charles, pois então,
homem honesto, bom e confiante
que lhe pagava os luxos e a ambição.
Aplicava o emplastro e o expectorante,
enquanto a cabra ia p’ra Ruão
fornicar num fiacre c’ o amante.
Nota:
Soneto inédito encontrado por este modesto investigador nos hypomnemata de um frade arrábido que se fixou em Ruão depois da extinção das ordens religiosas em Portugal, tendo ali falecido em finais de 1858.
Paris, Bibliothèque nationale de France, em 10 de Abril de 2009.
09 junho 2011
EMMA BOVARY
A nossa amiga Joca mandou-nos estes linques sobre "Madame Bovary":
http://www.interfilmes.com/filme_19350_Madame.Bovary-(Madame.Bovary).html
http://interfilmes.com/filme_19154_Madame.Bovary-(Madame.Bovary).html~
Aqui se afixam para desfrute das nossas flaubertianas leitoras.
http://www.interfilmes.com/filme_19350_Madame.Bovary-(Madame.Bovary).html
http://interfilmes.com/filme_19154_Madame.Bovary-(Madame.Bovary).html~
Aqui se afixam para desfrute das nossas flaubertianas leitoras.
05 junho 2011
UM ENLATADO sobre "Madame Bovary" AINDA DENTRO DO PRAZO DE VALIDADE
Em 2008, num dia de Agosto em que tinha razões para andar aborrecido, coloquei esta prosa azeda num blogue de estimação. Ao ver hoje a lição do Professor Samuel Titan (Universidade de São Paulo) lembrei-me de a repescar.
A IMPERTINÊNCIA DE SENTIR ( VI )
Encontramos em Madame Bovary um episódio impressionante, de uma obscenidade excessiva, que atira o adultério de Emma e a perfídia dos seus amantes para o plano singelo das coisas comuns. Trata-se da operação ao pé boto do infeliz Hippolyte, um “acto médico” de Charles Bovary que acarretou ao paciente a consequência natural de uma gangrena: a amputação da perna.
Dificilmente se encontrará em outro romance, como neste de Gustave Flaubert, um libelo tão impiedoso contra os charlatães da medicina.
Dir-se-á que se estava no século XIX, tempo de ideais e filosofias mas de limitado progresso das ciências médicas. É verdade. De resto, não faltam casos de convicções pseudocientíficas na ficção literária de Oitocentos. Veja-se, por exemplo, O Primo Basílio e a morte de Luísa, a “febre cerebral” de que foi acometida, sendo-lhe rapada toda a cabeça para mais eficaz resultado das compressas húmidas com que pretendiam debelar-lhe o mal. Veja-se o uso indiscriminado das flebotomias, a crença nos resultados dos sinapismos e das ventosas, as garrafas de medicamentos preparadas por génios de botica do tipo Eusébio Macário.
A negligência médica de Charles Bovary foi instigada pela inanidade científica do farmacêutico Homais. Ainda hoje os grandes erros médicos resultam, na maioria dos casos, de uma conjugação de equívocos entre a medicina e a farmacêutica – uma indústria poderosa que delapida milhões em estratégias de marketing perante a postura reverencial de investigadores e instituições universitárias. O corrupio de delegados de propaganda médica à porta dos consultórios e os congressos organizados em hotéis de luxo configuram uma medicina submetida à lógica do lucro, onde conta mais o dinheiro que a felicidade das pessoas. E não devia ser assim.
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