22 janeiro 2014

VOLTAR ATRÁS: AINDA CAPRI (1)

É verdade: não me dou bem com a passagem vertiginosa dos assuntos, embora admire quem assim passa com facilidade de uma coisa a outra, completamente diferente. Defeito ou não, desta vez detive-me a rever mentalmente algumas coisas a propósito de Henrique Pousão e Capri...

Em primeiro lugar, a evocação de Henrique Pousão, trazida aqui a propósito da exposição do MNAA: o que queria acrescentar é a minha impressão pessoal, construída sobre os interesses temáticos que me costumam guiar. A ideia sobre o que foi a sua breve vida, é-nos dada por qualquer pesquisa, ainda que elementar. Saliento assim apenas alguns pormenores: de aluno brilhante na Academia de Belas Artes do Porto, passa, por concurso, a pensionista do Estado no estrangeiro (as atuais e famigeradas Bolsas...), para completar a sua formação. Parte para Paris em 1880, mas "demora-se quatro dias em Madrid, para apreciar as obras dos grandes mestres no Museu do Prado" (quem sabe não se terá detido frente aos mesmos quadros que nos fascinam hoje, aqui tão perto? A especialização dele era a paisagem!). É precisamente na sequência do rigoroso inverno parisiense que H.P. adoece, para, praticamente, nunca mais recuperar inteiramente. Trabalha desalmadamente, pois consegue entrar na École de Beaux Arts e os concursos académicos não param. Aconselhado a voltar a Portugal, sai de Paris e, após estanciar ainda em França, em Dezembro de 1881 já está em Roma, de onde partirá para Capri. É então nesta ilha, refúgio já famoso de muitos artistas  e onde voltará em 1883, que ele produz uma parte (talvez a mais importante) da sua obra. Os exemplos já foram aqui exibidos; o que gostava de salientar é a extraordinária sensibilidade e intuição que o artista demonstra para a paisagem urbana ou humanizada e para a arquitetura, utilizando os assuntos para aprofundar as pesquisas sobre a relação entre a matéria e a luz. Atente-se que ele está numa ilha extremamente acidentada,-- deslocamo-nos ali praticamente sempre a pique sobre o mar, em vistas abertas sobre o horizonte... E o artista vai voltar as costas  a esse horizonte, que apenas lhe vai traçar o limite de paisagens tetónicas, como é o caso de As Casas Brancas de Capri. Esta apetência pela arquitetura já havia sido demonstrada pela classificação final (19 valores) em Arquitetura, no curso da Academia, atribuída a um Projeto de Café Concerto. Mas o seu virtuosismo tudo lhe permitia, conforme a sua obra comprova. Inclusivamente, entre 1879 e 1880 executa, para a revista O Occidente, desenhos de reportagem, que se utilizavam à falta da fotografia na imprensa. 
Reservo então para uma próxima oportunidade aquilo que gostaria de expor em 2º lugar... se me permitem.
Fonte: Silveira, C. ( 2010) Henrique Pousão. Quidnovi (Lisboa)

                             Página de O Occidente, nº 29, 1 de Março de 1979, Hemeroteca Digital

LITERATURA E ECOLOGIA

Para além de uma novela que explora os domínios do social e do psicológico, Bastardos do Sol aflora, já no ano distante de 1959, a questão da sustentabilidade e do equilíbrio ecológico. Veja-se, no capítulo 13, as alusões à "nova barragem" e à monda química feita por avião. Interessante é que estas referências sejam apresentadas no discurso indirecto livre de uma personagem infeliz e perturbada que, em princípio, deveria estar mais preocupada com os seus problemas que com os da comunidade: Além, todas aquelas terras iam ser submersas, por causa da nova barragem. Para bem, para mal? E mais adiante: (...) o resultado  dessa tal monda química, que matara as perdizes e até as oliveiras... 
Um grande texto, este de Urbano T. Rodrigues. Um estilo impecável, uma arte narrativa difícil de superar. Era para ficar calado, mas não fui capaz.

A ARTE DE SEDUZIR


Desculpem as minhas queridas leitoras, isto pode parecer despropositado, mas não é. Lembrem-se de que temos um livro - para 31 de Janeiro, republicana data! - em que se narra a história de um sedutor e de uma seduzida.
Detesto sedutores, arte na qual nunca consegui vingar. De resto, também nunca fiz nada por isso.
Quero que saibam que estou solidário com elas.

ARTE ARTE ARTE


Já que andamos a surfar em ondas de pintura – altas e rápidas como as da Praia do Norte da Nazaré –, aqui fica mais esta: Un enterrement à Ornans (1849-1850), de Gustave Courbet (1819-1877), pintor citado por Eça de Queiroz na sua conferência do Casino Lisbonense (1871) intitulada “O Realismo como nova expressão de arte”.
Pus-lhe a vista em cima – ao quadro, não à conferência –, vai para cinco anos, no Museu d´Orsay.
A influência de Courbet sobre Eça foi de tal ordem que há quem admita que o enterro de Amélia em O Crime do Padre Amaro tem os traços descritivos desta pintura realista. Aliás, ainda no mesmo romance, há uma descrição que lembra Les casseurs de pierre do mesmo artista. Estou a referir de memória, daquilo que li, não disponho agora de tempo para mais precisões.
Mas isto leva-me a outro ponto, e vou ser maçador mais uma dúzia de linhas. A conferência de Eça – que se perdeu, só sabemos dela através de notícias de jornais – teria um outro título: “A Nova Literatura”. Porém, o mais referido, parece-me, é o acima citado: “O Realismo como nova expressão de arte”. A arte como totalidade, a Literatura como arte, tal como a Pintura ou a Escultura. E daí o arrojado subtítulo da presença de José Régio, João Gaspar Simões e Branquinho da Fonseca: Folha de Arte e Crítica. Na arte e na crítica está contida a Literatura. As pontes – umas suspensas, outras de pesados arcos – lançam-se entre todas as artes numa heterofagia estética (grande e original tirada!) que me faz lembrar um dito de Picasso em Vallauris, lido ontem em O amor da pintura, de Claude Roy: “Se tivesse nascido chinês, não seria pintor, mas escritor. Escreveria os meus quadros.” (Não sei se este remate é pertinente, mas tinha de acabar isto de qualquer maneira).
 

URBANO E TORGA


 
Afinal, já terminei a leitura de Bastardos do Sol. Direi que se me impôs de imediato uma relação com o conto "A Paga", de Miguel Torga, lido por nós para a sessão inaugural da Comunidade de Leitores de Miranda do Corvo. Lembram-se?
E no dia seguinte, de manhã, o Arlindo entrou em Vale de Mendiz numa manta, capado. ("A Paga", Contos da Montanha)
Fora então que lhe metera as mãos e a navalha pelo baixo-ventre e numa volta – zás – como fazia aos cevados, lhe cortara e torcera os testículos. (Bastardos do Sol)
A mesma história, ou talvez não: um sedutor, uma seduzida e um ou mais justiceiros. A honra é uma coisa muito bonita, tanto nas montanhas do norte como nas planícies meridionais.
Se há quem diga que o escritor escreve sempre o mesmo livro, parece que os mesmos temas estão sempre a repetir-se nos livros dos grandes escritores. Mas se calhar nada disto é como diz o escrevente. Ora que fique calado e guarde as suas contas coloridas para o colar da sessão.
 
 


21 janeiro 2014

POESIA

Pelo seu interesse, apresento o texto do nosso camarada JOSÉ LAURINDO GÓIS publicado recentemente em www.acurvadoslivros.blogspot.com , blogue do Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro.


Quando na década de 70 do século XX iniciei a aventura da escrita confrontei-me com a Poesia Experimental. O tempo era de experimentações. Os artistas foram e são intérpretes e motores das mais diversas tendências culturais. Poetas como Melo e Castro, Salete Tavares, António Aragão ou Herberto Helder desempenharam bem, os seus papéis. A sua gramática poética era variável. Alternava entre a desconstrução dos textos, a fragmentação e os espaçamentos, e as artes gráficas e colagens. Igualmente se pretendia uma interacção com públicos/leitores obviamente activos e participantes.
Os actos performativos de hoje, as instalações e as montagens em vídeo , são uma presença  da Poesia Experimental no   quotidiano. O nosso movimento pelas cidades, por exemplo, compõe-se de leituras múltiplas e decisões hábeis. Num virar de página constante quando lemos, utilizamos, ou transformamos os objectos que as povoam.
 A própria publicidade reinventa e muito o texto citadino. Por isso, para compreendermos o quotidiano e os seus fenómenos foi e é importante o trabalho poético dos experimentalistas. Essa função poética aproxima-nos da realidade. Neste contexto há uma poetisa que me parece paradigmática: chama-se Ana Hatherly. Tem uma poética avassaladora de entusiasmos, trabalho persistente, possibilidades de leituras, e reinvenções na arte de comunicar.
A Ruptura é uma intervenção da poetisa. Esta vestida de operária sobe e desce um escadote com o objectivo de cortar em altura a tela representada por um plano de papel pardo. A Ruptura tem uma mensagem forte. Forte mas actual. A necessidade de romper com preconceitos culturais. E assim nos implicamos na construção da sociedade e da arte com responsabilidade. Como poema visual é notável. Observamos o movimento corporal, a expressão fisionómica em esforço e gradual cansaço; os ritmos ora brandos ora violentos; as sonoridades e as reacções dos observadores. É  poema total. Até pela valorização não elitista da função do artista e a democratização do trabalho intelectual.
Ana Hatherly, possivelmente,  influenciou os textos que publiquei em 76 na Exposição de Livre Poesia, no átrio da Câmara Municipal funchalense. Depois, em 77, os da antologia Da Ilha Que Somos. Sendo uma trabalhadora incansável da palavra é simultaneamente uma inovadora da lírica portuguesa. É, igualmente, uma crítica da cultura e mentalidade portuguesas. O tecido dos  textos dispersos e as inúmeras tisanas que criou são habitados não só pelo humor mas também pela sátira, e pela mordacidade.  A 4ª variação do poema Leonorana é experimentada a partir do conhecido vilancete de Camões descalça vai para a fonte/Leonor pela verdura/Vai formosa e não segura.  A autora construiu 31 variações.  Nesta temos a particularidade de encontrar uma leitura simétrica, do conhecido poema camoniano.
JOSÉ LAURINDO GÓIS

A PALETA E O MUNDO, 3º CICLO

Ontem, na Casa da Achada, mais uma leitura da obra de Picasso feita por Eduarda Dionísio. Livro de bordo: O Amor da Pintura, de Claude Roy. Trabalho em apreciação: o duplo quadro A Guerra e a Paz , realizado em Vallauris, em 1952, em pleno período da guerra da Coreia.  
Diz-nos Roy: “Não se entra nesses dois quadros como em nossa casa, não se penetra neles do pé para a mão.” E, de seguida, deixa-nos a seguinte história: “A criaturinha volta da igreja. O pai pergunta-lhe: «De que falou o cura? – Do pecado. – E que disse ele? – É contra.» Apetecia-me, ao voltar de Vallauris, responder a quem me interrogasse exactamente como a heroína desta história: «De que fala Picasso? – Da guerra. – E que diz ele da Guerra? – É contra.» Mas não é assim tão fácil.”
 

20 janeiro 2014

"... e na Itália pintam a luz" - HENRIQUE POUSÃO

Excerto de um artigo interessante que pode ser consultado no endereço indicado. Reproduzem-se algumas pinturas do grande artista.
O pintor Henrique Pousão (1859-1884) foi um artista singular na arte portuguesa do século XIX, que na sua breve carreira descobriu uma via original no seio da pintura do Naturalismo, finalmente triunfante nas academias do Porto e de Lisboa no último quartel do século. A sua pesquisa ampliou as possibilidades de um estilo que cedo se normalizara na descrição e no inventário de temas ruralistas, abrindo-o a valores autónomos e a um cosmopolitismo que desenvolveu em contexto internacional.
Pensionista do Estado português no estrangeiro, a partir de 1880, nos três anos seguintes Pousão absorve com rara sensibilidade os estímulos dos diferentes locais onde estuda, em Paris, Roma, Nápoles e na ilha de Capri, reinventando com originalidade os modelos tradicionais da paisagem e da pintura de costumes. É um percurso fulgurante que será interrompido com a sua morte precoce, aos 25 anos de idade, sem poder terminar o terceiro ano de estudos no estrangeiro.



 

17 janeiro 2014

MUSEU DO PRADO NO MNAA

Dois curiosos núcleos temáticos da Primeira Exposição do Museu do Prado em Portugal são os que se intitulam “Paisagem de Gelo e Neve”. Um quadro de Pieter Brueghel, o Jovem, inscrito nesta temática (Paisagem de Neve com Armadilha para Pássaros, c. 1601), é reproduzido no folheto da exposição.
Estas paisagens da pintura europeia, pouco ou nada vistas entre nós, estão  presentes em museus como o Rijksmuseum de Amesterdão.
Mal percebido por mim – talvez por falta de concentração, ou algo parecido – foi o último núcleo da exposição:  “… e na Itália pintam a luz”.  A luz de Itália, que foi nutriente artístico do pintor português Henrique Pousão (1859-1884) – ver, por exemplo, Casas Brancas de Capri –, como que a não senti ali, naquele derradeiro reduto das Janelas Verdes. Admito, porém, a minha possível falha. A esclarecer proximamente.

PINTURA PORTUGUESA NO MNAA

Deixai toda a esperança, vós que entrais.
                                       DANTE, Divina Comédia, III,9

Painel O Inferno, de um mestre desconhecido, executado por volta de 1515. A diabolização dos índios, embora por esta imagem não se perceba bem. Lá o veremos no museu, "ao vivo".
 

16 janeiro 2014

A CUSTÓDIA

 















Tem semelhanças miniaturais com o portal dos Jerónimos.
O Gama extorquiu o ouro ao rei de Quíloa durante a sua segunda viagem à Índia. Gil Vicente, ourives, foi encarregado de fazer a obra pelo rei Venturoso. D. Fernando II, Príncipe de Saxe-Coburgo-Gotha, marido da rainha D. Maria II, tirou-a da Casa da Moeda, onde corria perigo, levando-a para o Paço das Necessidades. D. Maria Amélia de Bourbon Orleães e Bragança, esposa do rei D. Carlos, fez um desenho dela. (Portanto, rei e rainha sabiam desenhar). Pode ser vista no MNAA, jóia rara.
 

PINTURA PORTUGUESA NO MNAA bis

Os chamados "Painéis de S. Vicente", uma obra muito longe da unanimidade crítica. Será esta a disposição das tábuas do políptico, como defendeu, entre outros, Almada Negreiros? Políptico, ou duplo tríptico? As querelas são antigas e já deram origem a uma cena de pugilato na Brasileira do Chiado. Espero esclarecimentos dos selectos comentaristas deste blogue.
Enquanto os comentários não chegam, vou pondo mais umas cenas gaias nas páginas da Net. Duas horas de trabalho, uma de brincadeira - só assim se consegue aguentar a febre dos dias. Quem disser [o contrário] é porque mente. Ah, Florbela! 

15 janeiro 2014

PINTURA PORTUGUESA NO MNAA

Interessante, quando se visita um museu, é tentar compreender as obras naquilo que elas são umas em relação às outras.
Aqui está um exemplo: Deposição no Túmulo (c. 1530), de Cristóvão de Figueiredo, e Martírio de S. Sebastião (1536), de Gregório Lopes.
Foram produzidas – a primeira para o retábulo de Santa Cruz de Coimbra e a segunda para a charola do Convento de Cristo, em Tomar – com apenas seis anos de diferença. No entanto, este diminuto intervalo de tempo encerra uma significativa alteração de ordem estética: a que vai da arte do Renascimento aos primeiros sinais da rebelião maneirista.
Perante o equilíbrio e a serenidade da primeira obra, relacionando o episódio da morte de Cristo com alusões, no facial do túmulo, ao Antigo Testamento, temos em Martírio de S. Sebastião uma pintura claramente violadora da norma clássica, desde a arrojada figuração do mártir (figura serpentinata) ao próprio hermetismo da narrativa.
A não perder a exposição do Museu do Prado no MNAA, mas, se possível, aproveitar para revisitar as grandes obras de pintura portuguesa que fazem parte do seu acervo. 

13 janeiro 2014

CCB, GARAGEM SUL: ÁFRICA...






África: Visões do Gabinete de Urbanização Colonial, é outra proposta, exposição supostamente interessando mais uns quantos que a maioria, mas curiosamente na linha de comentários tecidos à volta d'O Retorno, nossa última leitura, porque também ela evocativa de um ambiente, artificial q.b., mas cuja construção se ia deixando minar pela força da Terra e da Cultura autóctones, sendo que arquitetos como Luís Possolo ou Schiappa de Campos (que ainda foi meu professor na ESBAL, depois de 74) interessavam-se por colher as lições que os Territórios e a sua gente tinham para oferecer. Isto sem falar da inspiração, que a arquitetura moderna aí estava a pedir desenvolvimentos. Mas o entendimento da possibilidade daquele enriquecimento cultural mútuo, vinha tarde, à revelia da censura e das estratégias políticas de unidade nacional... na arquitetura, bem se vê pelos modelos preferenciais: um pouco do Minho, um pouco do sul, a monumentalidade apalaçada. 
Espero voltar, para uma visita guiada.

12 janeiro 2014

MUSEU DO PRADO NO MNAA

Visita hoje de manhã.
A exposição está organizada segundo os seguintes núcleos temáticos: 1. A montanha: cruzamento de caminhos, encontro de viajantes; 2. A vida no campo; 3. e 4. Paisagem de gelo e neve: 5. O bosque como cenário; 6. Rubens e paisagem; 7. No jardim do palácio / Paisagens exóticas, terras longínquas; 8. Paisagem de água: marinhas, praias, portos e rios; 9. ... e na Itália pintam a luz.
A repetir no próximo domingo, porque os bons pratos repetem-se sempre.

10 janeiro 2014

O MÊS DE JANEIRO E O ELEVADOR DA BIBLIOTECA



Do objetivo inicial de chamar a atenção para a data de 31 de janeiro, quando se conta realizar a nossa próxima sessão, passei a outra coisa ainda mais interessante.
Sempre em Janeiro: a 31, em 1891, no Porto, a Revolta que é considerada a mais importante precursora do 5 de Outubro de 1910; a 28 de janeiro, mas de 1908, assinala-se a Intentona do Elevador da Biblioteca, em Lisboa, o antecedente quase imediato do regicídio, levado a efeito no dia 1 de fevereiro desse mesmo ano.
Mas o que me interessa mais do que a História propriamente dita, é perceber onde se passaram os factos e neste caso, cabia perguntar que elevador era este e que biblioteca. É provável que, durante o curso na ESBAL, alguma vez me tenha cruzado com esta informação. Mas é a primeira vez que consciencializo a localização exata e os vestígios desta, nos sítios tantas vezes percorridos. Por isso quis partilhar o que, para alguns, também pode ser surpreendente.
Tal como fica patente na fotografia, o Elevador da Biblioteca, do Município ou de S. Julião, passava por cima da Calçada de S. Francisco, ligando a Praça do Município ao Largo da Biblioteca Pública (era assim no “meu” tempo), hoje Largo da Academia Nacional de Belas Artes (fundadas por um já nosso conhecido, o Passos Manuel…), atravessando na vertical prédios particulares e desembocando ao nível superior no pátio de um Palácio, que tem um portão de ferro, contíguo, penso eu, ao restaurante Tágide. A vista sobre a Baixa é notável.
Ora este elevador, o 7º em Lisboa (quais são os outros?) do mesmo autor (Raoul Mesnier de Ponsard) e tipo do de Santa Justa, funcionou desde a sua inauguração a 12 de janeiro (!) de 1897 até 1915, tendo sido desmantelado em 1920.

Lisboa, cheia de colinas (não podem ser só sete!) e vales, sempre excitou a imaginação dos defensores das circulações verticais e inúmeros planos e projetos de elevadores públicos têm surgido ao longo dos anos, para ficarem simplesmente nas nuvens, mas a povoar ainda e sempre o imaginário da cidade. Se não fosse a história da intentona, eu diria que também este tinha sido apenas mais um contributo virtual. 

Fontes: Foto: AML AF\img194\B096882.jpg

08 janeiro 2014

"Bastardos do Sol" de Urbano Tavares Rodrigues, 31 de Janeiro às 21h00


Na antecâmara:

"On n'a de droit que sur les choses pour les quelles on a souffert" - Robert de Montesquiou

A abrir:

"A sombra das chamas, como um ninho de víboras, floria de remorso - mas que remorso?- e de saudade absurda a alvura em fuga da parede caiada, apojada de grumos que aquele luzeiro avolumava e que sempre eram, um por um, na hora da solidão, referências aos segredos antigos..."

in "Bastardos do Sol" de Urbano Tavares Rodrigues


04 janeiro 2014

JAMES JOYCE

Li há alguns anos como desforra de uma leitura fracassada de Ulisses. Gostei. Revisitação nos próximos dias para a COMUNIDADE DE LEITORES DA BIBLIOTECA MUNICIPAL DE CASCAIS: quinta-feira, 9 de Janeiro, às 18:30 (horário pós-laboral, muito à justa J ).

03 janeiro 2014

A FLOR DA MURTA




Eis que se me deparou hoje a oportunidade de visitar, no dia 29 deste mês, um Palácio, o da Quinta da Terrugem em Paço de Arcos/Caxias, de que tinha notícia mas ignorava o pormenor que aqui trago à colação: trata-se de uma das residências (o outro palácio, com o mesmo nome, é em Lisboa) de D. Clara Luísa de Portugal, uma das numerosas amantes de D. João V, conhecida como A Flor da Murta, da qual teve o soberano uma filha. 
Enfim, o palácio parece merecer a visita, também pela vetustez da sua fundação e quem quiser ir deve inscrever-se já, em dphm@cm-oeiras.pt.
Acrescentando conhecimento sobre a época e caráter do rei do Memorial...

02 janeiro 2014

"NOSSA SENHORA DE PARIS"


Nossa Senhora de Paris (1831) não é só um grande livro, é o livro dum génio. Dois tomos, 560 páginas, uma obra arrebatadora.
No prefácio de Cromwell (1827), Victor Hugo deixara já o manifesto do Romantismo emergente, a nova arte que se afirmava pelo abandono da estética rígida do classicismo, pela liberdade de pensamento e de criação artística. A exaltação da Idade Média como época fundadora das nacionalidades europeias; o românico e o gótico como modos artísticos por excelência.
Romance compósito, de difícil classificação genológica, situa-se entre o histórico e o picaresco, entre o cómico e o trágico. Tem capítulos que são verdadeiras pérolas de erudição, como, por exemplo, o capítulo II do livro terceiro do primeiro tomo, “Paris vista de relance”, tradução possível, ainda que desgostante, do original “Paris à vol d´oiseau”.
Estou a acabar de ler para o Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro (amanhã, 3-1). Abstenho-me de interrogativas: vale a pena!