26 março 2014

BALTASAR DIAS E O ABECEDÁRIO DA MULHER VIRTUOSA: D de Devota à Virgem; H de Humilde a seu marido; Z de Zelosa da honra

BALTASAR DIAS, poeta cego, oriundo da ilha da Madeira, viveu entre os últimos anos do reinado de D. Manuel e os primeiros do de D. Sebastião, cerca de 1515 a 1560. D. João III outorgou-lhe o privilégio da impressão e venda das folhas volantes com que ganhava a vida, estabelecendo penas para os usurpadores da sua propriedade intelectual.
Mário Cláudio, no romance Oríon, apresenta-o em São Tomé, deslumbrando  colonos e africanos com a representação de autos e tragédias, nomeadamente a Tragédia do Marquez de Mantua e do Emperador Carlos Magno. Ficção pura a passagem do madeirense pelas ilhas do Equador, o que estes romancistas inventam!
A obra de Baltasar Dias divide-se em autos de devoção, tragédia, romances e trovas. Segundo alguns autores, é um continuador da escola de Gil Vicente, um homem do Renascimento com uma concepção ainda medieval da arte.
Tem duas obras satíricas, Malícia das Mulheres e Conselhos para Bem Cazar. É-lhe atribuída uma carta escrita a uma senhora que queria aprender a ler. Reza assim:
 
«Señora:
«Agora me derão hum recado da parte de V.M. em que me pedia lhe mandasse hum ABC, feito de minha mão, que queria aprender, porq se acha triste, quando vê senhoras de sua qualidade, q na Igreja rezão por livros & ella não. (…) V.M. deve (…) deixar o desejo de saber ler, pois já he cazada, & passa de vinte annos de idade. Porem se este conselho não lhe parece bom ou ainda que o he, se não satisfaz por obedecer a seu rogo , fazendo o que me pede, lhe mando aqui com esta hum ABC, que V.M. aprenda de cór, & sabido levemente com ajuda de Deos, aprenderá o mais que lhe for necessário.
«O qual, he que o A quer dizer que seja Amiga de sua caza; & o B, Bem quista da vizinhança; & o C, Caridosa com os pobres; & o D, Devota da Virgem: & o E, Entendida em seu ofício; & o F, Firme na fé; & o G, Guardadeira da fazenda; & o H, Humilde a seu marido; & o I, Inimiga de mixiricos; & o L, Leal; & o M, Mança; & o N, Nobre; & o O, Onesta; & o P, Prudente; & o Q, Quieta; & o R, Regrada; & o S, Sezuda; & o T, Trabalhadora; & o V, Virtuosa; & o X, Xpâa [sic]; & o Z, Zelosa da honra.
«E quando tiver tudo isto anexo a si, que lhe fiquem proprios, crea que sabe mais letras que todos os philosophos. E porque confio em V.M. que os experimentará os achará certo, nam me alargo; mais rogo a nosso Senhor a tenha de sua mão, & a mim me dê graça com que o sirva até o fim.»
 
Obra consultada: BALTASAR DIAS – Autos, Romances e Trovas, Lisboa, IN-CM, 1985

À VOLTA DE "ORÍON"

Parte da oração de Valdovinos, sobrinho do Marquez de Mantua, antes de expirar -- uma pérola:

Salve, Senhora benigna,
madre de misericórdia,
paz da nossa grã discórdia,
dos pecadores mezinha,
vita dulce e concórdia,
spes nostra, a ti invocamos,
salva-nos de escuras trevas,
a ti, Senhora, chamamos
desterrados filhos de Eva,
a ti, Virgem, suspiramos,
a ti gemendo e chorando
em aqueste lacrimoso
vale sem nenhum repouso,
sempre, Virge, a ti chamamos
que és nosso prazer e gozo.

BALTASAR DIAS - Autos, Romances e Trovas, Lisboa, Imprensa Nacional-Casa da Moeda, 1985, p. 324.

25 março 2014

"CONSOLAÇÃO ÀS TRIBULAÇÕES DE ISRAEL"


27. Portugal Ano 5253.
Quando mandaram os mininos
aos lagartos.

DEPOIS desta assi temerosa fortuna e tempestade,
não tardou outra sobre mi muito maior, porque
desejando este rei achar alg~ua razoada ocasião de
avexar-me, mandou saber se havia entrado mais
gente no reino que aquelas das seis centas casas
como fora o acordo, e como quer que a pressa
com que de Castela saíam estes corridos filhos
meus não lhe deu lugar a entrar por conto nem
esperar algum a ser o derradeiro, acharam-se mor
número; todos estes que sobejaram disse El-rei
que lhe ficavam cativos e escravos seus, porque
como a taes os podesse magoar a sua vontade, e
esecutar neles sua má tenção, e não bastando
quererem-se resgatar pelo preço que os mais
haviam entrado nem per outro algum, havendo-
-se por minha desventura descuberto naquele
tempo a ilha de São Tomé, cujos moradores eram
lagartos, serpes e outras muito peçonhentas bichas
e deserta de criaturas racionaes, onde desterravam
os malfeitores que à morte eram já obrigados per
justiça, em sua companhia quis também que entrassem
as inocentes criaturas de todos estes judeos,
cujos paes parece que ante o juizo divino eram
condenados.
Chegada esta infelice e miserável hora em que se
havia ~ua tão fera crueldade de esecutar, vereis
ensanguentar os rostos com as mãos as coitadas
madres que dos braços lhe tiravam seus filhos de
até tres anos, depenar as barbas os honrados velhos
porque lhe arrebatavam suas entranhas de ante os
olhos, e as mal afortunadas criaturas levantar seus
vivos gritos té o céo, vendo-se afastar tão despiadosamente
de seus amados padres em idade
assi tenra e lastimosa. Lançavam-se aos pés de El-
-rei alg~uas, cramando que ao menos as deixassem
ir acompanhar seus filhos, e nem inda a isto sua
piadade se inclinava. Entre estas houve ~ua mai que,
considerada a horrenda e nova crueza sem mestura
de alg~ua misericórdia a seus cramores, arrebatando
seu filho nos braços da alta nao, dentro no tempestuoso
mar se lançou e fundio com a sua única
criatura abraçada.
(…)

SAMUEL USQUE, Consolação às Tribulações de Israel, edição de Ferrara, 1553.

24 março 2014

CRÓNICA DE D. JOÃO II

CAPÍTULO LXVIII
 
Ida dos moços que foram judeus à ilha de São Tomé
 
E no ano de mil quatrocentos e noventa e três, em Torres Vedras, deu el-rei a Álvaro de Caminha a capitania da ilha de São Tomé de juro e herdade; e porque aos judeus castelhanos que em seus reinos dentro do termo limitado não saíram mandou tomar por cativos, segundo a condição da entrada, todos os meninos e moços e moças pequenas que tinham, depois de os mandar tornar todos cristãos, os enviou à dita ilha com o dito Álvaro de Caminha, por tal que sendo apartados terem razão de serem melhores cristãos e haver por isso causa de a ilha ser melhor povoada, como por este respeito o foi em grande crescimento.



23 março 2014

A Senhora de Rocamador

Notre Dame de Rocamadour ou a Virgem Negra. Pode visitar-se no Santuário de Rocamadour na Vallée de la Dordogne, em terras gaulesas.

Isto a propósito de Benjamim

“ …E precisavam os francos que tão luminoso se estendia o arrebol que rodeava o rapaz que os tolheu um misto de respeito e de pânico, igual ao que costumavam experimentar na sua nação em face do rosto sombrio da Senhora de Rocamador…”

In Oríon  de Mário Cláudio

22 março 2014

Ai os pés ...

A rainha de Sabá perante Salomão - Johann Friedrich August Tischbein (1750-1812, Holanda)

"... Se na donzela não fixava eu os olhos, atentava no rasto dos seus pés, marca tão perfeita, tão perfeita que nem a Rainha de Sabá na areia do deserto, e a caminho do palácio de Salomão ..."

Assim fala Abel, a apresentar-nos Perpétua...

in "Oríon" de Mário Cláudio


21 março 2014

A propósito da Primavera, da Poesia e de Oríon

"Alegoria da Primavera", Sandro Boticelli
A primeira namorada, tão alta
que o beijo não alcançava,
o pescoço não alcançava.
nem mesmo a voz a alcançava.
Eram quilómetros de silêncio.

Luzia na janela do sobradão.
"Orion", Carlos Drummond de Andrade

DIA DA POESIA É QUANDO UM HOMEM QUISER

GAIO VALÉRIO CATULO (Verona, 84 a. C. – Roma, 54 a. C.)
Vivamos, minha Lésbia, e nos amemos.
Sem que o que digam murmurantes velhos
Importe para nós mais que uma palha.
Podem morrer e renascer os sóis.
A nós, quando se apaga a breve luz,
Noite é perpétua que dormir havemos.
Oh dá-me beijos mil, depois um cento,
Depois mais outros mil, e um outro cento,
Depois ainda outros mil, e mais um cento.
Depois, quando os milhares forem já muitos,
Erraremos a conta, a não saibamos,
Para que a inveja não nos leve a mal,
Sabendo quanto foi de beijos dado.

Versão de JORGE DE SENA, obtida aqui: http://viciodapoesia.com/2013/04/03/beijos-mil-o-poema-v-de-catulo/

20 março 2014

ADOLPHE-WILLIAM BOUGUEREAU (1825-1905), Jovem defendendo-se de Cupido
 
NAS ERVAS
 
Escalar-te lábio a lábio,
percorrer-te: eis a cintura,
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso,
descer aos flancos, enterrar
 
os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta
 
aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão
 
porque é terrível
subir assim às hastes da loucura,
de fogo descer à neve,
 
abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho –
a glande leve.
 
EUGÉNIO DE ANDRADE, Variações Sobre um Corpo, antologia de poesia erótica contemporânea, Porto, Editorial Inova, pp. 37 e 38.


19 março 2014

"HISTÓRIAS DE POUCAS PALAVRAS"

Tenho andado em viagens à volta do meu quarto: limpando o pó, arredando móveis, arrumando livros. E é neste frenético sair de mim que topo com o livrinho da nossa amiga Cristina Leimart. Estava entalado entre o Moby Dick, de Melville, e o Guide des Caresses, de um tal Pierre Valinieff, texto especioso e raro que não recomendo a pessoas decentes.
Como bem notam, o opúsculo tem um cordel, mas não é literatura de cordel. As histórias de Cristina Leimart são simples e bonitas como as flores do bosque. Do bosque da ficção, diria Umberto Eco.
A dedicatória, de 2009, está escrita a tinta roxa. Interrogo-me sobre o simbolismo do colorido e sou levado a pensar que não deve augurar nada de bom. Para mim, claro, não para ela.
--- CRISTINA LEIMART, Histórias de Poucas Palavras, Lisboa, Apenas Livros, 2009.

A BELEZA, SIMPLESMENTE

MUSEU DO LOUVRE, 02/2014

Mais as imagens que as palavras, apenas com duas notas: uma, para a emoção de (re)ver Miguel Ângelo nas esculturas inacabadas dos "escravos", revelando, a propósito, toda a pujança da beleza (masculina, tal como ele próprio preferia); a outra observação refere-se a Anne-Louis Girodet de Roussy-Trioson: o nome sugere que se poderia tratar de uma pintora... puro engano. Os alvores do romantismo despontam pelas mãos e mentes masculinas...




"AS CANÇÕES DE ANTÓNIO BOTTO"

Sobre este livro, começo por referir o texto de FERNANDO PESSOA que lhe serve de prefácio: "António Botto e o Ideal Estético em Portugal". Este texto foi publicado na revista Contemporânea, vol. I, nº 3, ano I, 1922, e deu origem a uma célebre polémica.

Depois a epígrafe, retirada de Winckelmann: Como é confessadamente a beleza do homem que tem de ser concebida sob uma ideia geral, assim tenho notado que aqueles que observam a beleza só nas mulheres, e pouco ou nada se comovem com a beleza dos homens, raras vezes têm um instinto imparcial, vital, inato, da beleza na arte. A pessoas como essas, a beleza da arte grega parecerá sempre falha, porque a sua beleza suprema é antes masculina que feminina.

Finalmente, transcrevo o primeiro poema do livro - de Adolescente, Livro Primeiro:

Não. Beijemo-nos, apenas,
Nesta agonia da tarde.

Guarda - 
Para outro momento,
Teu viril corpo trigueiro.

O meu desejo não arde
E a convivência contigo
Modificou-me - sou outro...

A névoa da noite cai.

Já mal distingo a cor fulva
Dos teus cabelos - És lindo!

A morte
Devia ser
Uma vaga fantasia!

Dá-me o teu braço: - não ponhas
Esse desmaio na voz.

Sim, beijemo-nos, apenas!,
- Que mais precisamos nós?


António Botto (Alvega, Abrantes, 1897 - Rio de Janeiro, 1959) foi um poeta que recebeu as atenções críticas de Fernando Pessoa, José Régio e João Gaspar Simões. Sobre ele escreveu José Régio, em 1925, em As correntes e as individualidades na moderna poesia portuguesa: "(...) Mas é em António Botto - grande poeta e grande artista - que o esteticismo se afirma com mais pureza. António Botto é um clássico - no mais amplo sentido da palavra." No final da sua vida literária, doente e atormentado, publicou Fátima, poema do mundo (1955), escrito "aprovado por Sua Eminência o senhor Cardeal Patriarca de Lisboa D. Manuel Gonçalves Cerejeira", demonstração de uma degenerescência artística difícil de classificar. São seus os versos laudatórios dirigidos àquela figura da hierarquia religiosa: O grande Cardeal, o Cerejeira, / Como diz toda a gente de Lisboa, / Com aquela ternura verdadeira, / Dada só por paixão a uma pessoa, / Levantou uma obra tão inteira / Na grandeza da fé com que a povoa, / Que até serve de freio e de bandeira / Aos que tentam ainda apanhar Goa. / Humilde gigante que sobeja, / Em vencer pela música de sinos, / Agravos a Jesus e à igreja. / Um santo que nasceu para ficar - / Nos povos e nos cânticos divinos, / Nas estrelas, no Céu, na voz do mar.

18 março 2014

COLUNAS TRIUNFAIS



Referir a Place Vendôme, que não revisitei nesta última Peregrinação, fez-me evocar, não só as especiais circunstâncias da sua génese e desenvolvimento urbano, mas também uma selecção de colunas que me prenderam a atenção, em diferentes lugares e momentos. Uma das mais  enigmáticas é a coluna de Constantino em Istambul, mandada erigir por aquele imperador, no ano de 330, em honra da declaração de Bizâncio como a nova capital do Império; a outra é a coluna de Trajano, em Roma, inaugurada em 113, no forum do mesmo imperador e modelo da que Napoleão fez erguer em Paris, na Place Vendôme, entre 1806 e 1810, em comemoração do triunfo sobre os seus pares europeus.
Estas três colunas têm muitas coisas em comum: do ponto de vista material e físico, sendo construídas com materiais nobres, respectivamente, pórfiro vermelho trazido de  Roma (hoje irreconhecível), mármore e bronze (a partir dos canhões capturados em Austerlitz?), apresentam alturas idênticas, entre 37-38m e 44m; as bases em que assentam constituem-se como elementos integrantes, estruturais, com alguma singularidade icónica. Mas é quando passamos para os aspectos conotativos que nos apercebemos da sua dimensão, talvez porque aparecem como recorrentes e convidam a uma certa generalização, ou porque insistimos em fazer, por conta própria, o percurso que nos leva à construção dos Símbolos. Estas 3 colunas têm em comum serem obras de arte e referências urbanas erigidas mormente em nome do auto engrandecimento, assinalando, de forma que se pretendia duradoura ou quiçá eterna, o poder, o êxito, a superioridade. Mas, na realidade, podemos reflectir que estas colunas, por mais ricas e mais altas e significativas, todas elas castigadas ao longo dos séculos por diferentes vicissitudes e apropriações, não fazem mais do que repetir o símbolo ancestral, primevo e sempre actual, da potência, da virilidade, portanto da tomada de posse, atravessando a História: dos menires do Megalítico aos arranha-céus da modernidade, passando por todos os exemplos que vos ocorrerem. 
Dado porém o surto de erotismo poético que tem feito farfalhar estas páginas, podemos questionar-nos sobre a diversa mas excepcional dimensão, e poder simbólico que as palavras, por sua vez, podem atingir.

(Nota: as fotografias não são minhas e, colhidas na Net, não aparentavam ter direitos autorais, correspondendo à imagem que tenho de cada uma das situações)

16 março 2014

"VARIAÇÕES SOBRE UM CORPO", antologia de poesia erótica contemporânea


SEGREDO

Não contes do meu
vestido
que tiro pela cabeça

nem que corro os
cortinados
para uma sombra mais espessa

Deixa que feche o
anel
em redor do teu pescoço
com as minhas longas
pernas
e a sombra do meu poço

Não contes do meu
novelo
nem da roca de fiar

nem o que faço
com eles
a fim de te ouvir gritar

 
MARIA TERESA HORTA

15 março 2014

L´ AFFAIRE DU CHEVALIER DE LA BARRE

Relativamente ao link
colocado num comentário deste blogue, aqui fica, para quem esteja interessado, uma indicação bibliográfica (livrinho de 129 páginas adquirido numa livraria de Montmartre pela módica quantia de 2€).
Tradução do texto da contracapa (peço desculpa por qualquer erro):
Abbeville, 1765. O chevalier de La Barre é acusado de ter profanado uma imagem de Cristo. Vítima de um ajuste de contas, condenado sem provas e ao arrepio da lei, o jovem foi torturado, decapitado e queimado com um livro interdito nas mãos: o Dictionnaire philosophique de um certo Voltaire...
Directamente posto em causa neste caso, Voltaire insurgiu-se e utilizou a sua melhor arma para denunciar a injustiça: a pena.

APETECE COMO UM BARCO


Dá a surpresa de ser.
É alta, de um louro escuro.
Faz bem só pensar em ver
Seu corpo meio maduro.

Seus seios altos parecem
(Se ela estivesse deitada)
Dois montinhos que amanhecem
Sem ter que haver madrugada.

E a mão do seu braço branco
Assenta em palmo espalhado
Sobre a saliência do flanco
Do seu relevo tapado.

Apetece como um barco.
Tem qualquer coisa de gomo.
Meu Deus, quando é que eu embarco?
Ó fome, quando é que eu como?


FERNANDO PESSOA

14 março 2014

NO(C)TURNOS







LÚBRICAS

Poemas de Cesário Verde e Camilo Pessanha com o mesmo título - "Lúbrica". Alguns versos:

= De Cesário:
   =========

(...)
Teus olhos sensuais
Libidinosa Marta,
Teus olhos dizem mais
Que a tua própria carta.

As grandes comoções
Tu, neles, sempre espelhas;
São lúbricas paixões
As vívidas centelhas...

Teus olhos imorais,
Mulher, que me dissecas,
Teus olhos dizem mais,
Que muitas bibliotecas!

= De Pessanha:
============

Quando a vejo, de tarde, na alameda,
Arrastando com ar de antiga fada,
Pela rama da murta despontada,
A saia transparente de alva seda,

E medito no gozo que promete,
a sua boca fresca, pequenina,
E o seio mergulhado em renda fina,
Sob a curva ligeira do corpete;

Pela mente me passa em nuvem densa
Um tropel infinito de desejos:
Quero, às vezes, sorvê-la, em grandes beijos.
Da luxúria febril na chama intensa...
(...)

---- Ah, grandes poetas!
Os poemas completos em qualquer boa edição das obras.
 

12 março 2014

PARIS - LES HALLES

Há um mês atrás, em peregrinação à Cidade de tantos Nomes, como V.Hugo, Proust e também  R.Barthes, já agora, no meio das emoções de revisitação deparou-se-me o choque: onde está Les Halles, o Forum? Um estaleiro gigante substituía à superfície a imagem esperada, aquela que perseguia, ainda por cima, a consciência arquitetónica internacional, pois o "buraco" que veio substituir os pavilhões do século XIX não correspondia a nada de realmente importante do ponto de vista da arte e da intervenção urbana. De tal forma que, na sequência eventual deste erro, o local se tinha degradado enormemente. Seria caso para procurar uma solução... Agora este gesto de "bota abaixo e sai uma coisa completamente diferente", só mesmo numa cidade como Paris! Quis então trazer a este forum virtual algumas imagens, para vosso deleite e informação, como primeiro capítulo de outras pequenas surpresas e pormenores que entretanto me aprouver partilhar.

Em relação a Les Halles, temos uma imagem de como era, colhida na Net (não fui à procura das fotos dos anos 80…); igualmente uma ideia do que seriam Les Halles, o grande mercado abastecedor; o conjunto do projeto urbano; a imagem que se colhe no local: uma estrutura pesadíssima, cuja imagem final deverá ser de algo extremamente leve, como uma nuvem sobre a praça central… Quem lá for no ano que vem, poderá trazer a imagem do resultado final.






11 março 2014

LEITURA E DESEJO

“Sobre a leitura” é um escrito de Roland Barthes para a Writing Conference de Luchon, de 1975. Está publicado em O Rumor da Língua, Edições 70, pp. 31-35.
Na terceira parte deste texto, o crítico francês aborda as relações entre leitura e desejo, dizendo: “(…) não há dúvida de que existe um erotismo da leitura (na leitura, o desejo está ali com o seu objecto, o que é a definição do erotismo).”
Dois traços são apresentados em defesa da tese: a identificação do sujeito humano que lê (o lente) com o sujeito amoroso e o sujeito místico; e a presença na leitura-desejo de todas as emoções do corpo, desde a dor à volúpia.
Teresa de Ávila fazia da leitura o substituto da oração mental; o lente isola-se e fecha-se (como o jovem narrador da Recherche que se fechava na casa de banho, segundo um conhecido episódio daquela obra, para se entregar ao “prazer solitário” de ler) numa relação dual com o objecto da leitura que não é distinta do recolhimento da oração (orador-Deus) ou da fruição do prazer amoroso (amante-amado).
A relação da leitura com a analidade, deduzida da referida passagem da Recherche, é finalmente sustentada por Barthes. E isto é matéria que certamente provocará ou indignará os nossos leitores em função das suas respectivas sensibilidades (uns mais sensíveis que outros, atrevo-me a admitir) –  se é que vão ler este escrito, do que sou obrigado a duvidar não só pelas escassas visitas ao blogue, como pela poalha de silêncio solene e frio que grassa no espaço virtual dos comentários.   

08 março 2014

HOJE, 100 ANOS DO DIA TRIUNFAL DE FERNANDO PESSOA - O NASCIMENTO DOS HETERÓNIMOS

"Anno e meio, ou dois annos, depois lembrei-me um dia de fazer um partida ao Sá-Carneiro – de inventar um poeta bucolico, de especie complicada, e apresentar-lh’o, já me não lembro como, em qualquer especie de realidade. Levei uns dias a elaborar o poeta mas nada consegui. Num dia em que finalmente desistira – foi em 8 de Março de 1914 – acerquei-me de uma commoda alta, e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa especie de extase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triumphal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título, “O Guardador de Rebanhos”. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguem em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da phrase: apparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive."
Da carta de Fernando Pessoa para Adolfo Casais Monteiro, datada de 13 de Janeiro de 1935, publicada pela primeira vez no nº 49, de Julho de 1937, da revista presença.

06 março 2014

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ, 6 de Março de 1927, 87 ANOS


O GRITO DE DIGNA PARDO ANTE A QUEDA MORTAL DE SEU AMO JUVENAL URBINO* 

Foi às quatro horas e sete minutos da tarde de Domingo 
de Pentecostes, desciam sobre as casas as línguas flamejantes
do divino Paracleto. O calor anunciava chuva, o mar rumorejava
dentro de todos os búzios. Insolente, o papagaio fugira
para os ramos altos da mangueira, e uma escada romba 
preparava-se para escrever uma página da história da infelicidade.
Nem sequer teve tempo de encomendar a alma: o corpo
desprendeu-se da escada como um fruto podre
caído ao solo em súbita demolição de músculos e ossos,
e nenhum anjo-da-guarda  saiu dos catecismos para  lhe aparar
a queda. O grito da criada Digna Pardo trespassou de pânico
as cúpulas de ouro da cidade velha, os pássaros calaram-se,
enquanto Deus, indiferente ao destino dos homens,
sorria de tédio e ócio à sombra roxa da sua eternidade.

* Digna Pardo e Juvenal Urbino são personagens de Gabriel García Márquez em O Amor nos Tempos da Cólera.

05 março 2014

"ADOECER", de HÉLIA CORREIA

Ofélia (1852), de John Everett Millais
 
Uma obra de ficção inspirada em Elizabeth Eleanor Siddal (1829 – 1862), poeta,  pintora e modelo de artistas da Irmandade Pré-Rafaelita como Walter Deverell,  William Holman Hunt,  John Everett Millais e Dante Gabriel Rossetti. Amanhã na Comunidade de Leitores  “Linguagem Literária e Pictórica”, Biblioteca Municipal de Cascais.


03 março 2014

FALANDO DE "ORÍON"...

Publicado em Ferrara, Itália, no ano de 5313, 1553 da era de Cristo - "Portugal Ano 5253, Quando mandaram os mininos aos lagartos".

A PRÓXIMA LEITURA, para 28 de Março

Abro no último capítulo, e encontro isto:
" Enriquecido com os proventos da sua mercancia, comprara em Lisboa o nosso Jairo uma fiada de casas, corria o ano de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil quinhentos e dezoito, junto à porta que designam do Corpo Santo. E nas cercanias da sua propriedade passava ele compridas temporadas, transferindo-se a S. Tomé apenas cada biénio, a vigiar qualquer negócio de vulto que se lhe oferecesse. Baixavam-lhe a cabeça os vizinhos, mesteirais de ferro e de latoaria pela sua maior parte, tendo-o por extremado prémio do local. E mudara-se-lhe o estado, isto por efeito das escravas favoritas que sempre o rodeavam, numa perpétua assembleia de bruxas e de onzeneiras, fêmeas que arresolviam quanto cumpria ou não cumpria fazer-se, regaladas pelos doces de tacho e de fornalha que a todo o instante se mandava ir buscar ao mosteiro da Trindade, não longe dali."
Muitas vezes, começo as leituras pelos últimos capítulos.
 

02 março 2014

CARTAGENA DAS ÍNDIAS NOS TEMPOS DA CÓLERA-MORBO


Nas minhas leituras, fico a pensar, às vezes, em pequenos detalhes sem importância. Como este, por exemplo, de o doutor Juvenal Urbino ter sido aluno, em Paris, do mais destacado epidemiólogo do seu tempo, o professor Adrien Proust, pai do autor da Recherche.
No Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro na próxima sexta-feira. Em Dezembro, na nossa Comunidade.

01 março 2014

"TERRA SONÂMBULA", DE MIA COUTO, O ELOGIO DA NARRATIVA


Onze cadernos de histórias encaixados na narrativa matriz, o poder do conto que leva o velho Tuahir a pedir a Muidinga: “(…) leia em voz alta que é para me dormecer”.  O contador de histórias tem esse poder de adormecer os ouvintes, um adormecimento que não é, porém, a recusa ou o cansaço da narrativa, mas a forma mágica de com ela entrar no mundo dos sonhos. Não sonhamos a valer quando estamos acordados. “(…)vamos para dentro desses cadernos. Lá podemos cantar, divertir”, diz Tuahir no sétimo capítulo.
Também o contador de histórias se transporta no dorso do sonho, se sonha. De seu pai, o velho Taímo, diz Kindzu no primeiro caderno: “As estórias dele faziam o nosso lugarzinho crescer até ficar maior que o mundo. Nenhuma narração tinha fim, o sono lhe apagava a boca antes do desfecho”. No segundo caderno, quando o velho é já uma sombra dos mundos do além em súbitas aparições nos caminhos viventes, diz o buscador dos guerreiros naparamas: “ – Pai, fica mais um bocadinho.” A razão deste pedido é explicada da seguinte maneira:  “Eu desejava que ele me contasse as histórias que nunca tinha desfiado”.     
            Uma história fantástica é contada por Quintino no oitavo caderno: o falecido Romão Pinto, seu patrão colonial, forçando a porta do mundo dos vivos.
Uma história de vida e de morte aquela que Farida conta a Kindzu: “–  Por favor, me escuta…”, diz ela. “Ela só tinha um remédio para se melhorar: era contar sua história”, vem  no “Quarto Caderno, A Filha do Céu”, aquele em que “a mulher se trocou por palavra até quase ser manhã.”
É da condição humana trocarmo-nos por palavras, a aventura da narratividade, aedos e rapsodos que somos desde o fundo dos tempos. Narramos e narramo-nos para nos tornarmos melhores, para não esquecermos, porque o esquecimento é a única morte definitiva. E se às vezes narramos certo, outras inventamos, porque, como diz Saramago no Manual de Pintura e Caligrafia, “a invenção não pode ser confrontada com a realidade, logo, tem mais probabilidades de ser exacta”. “ – Irmã, peço: me conte histórias!”, diz Farida quando regressa à Missão e se encontra com a freira Lúcia.
Invenção e efabulação, fontes da narratividade-sonho. As histórias contadas são sonhos ou mentiras em que acreditamos, são cantos de sereia: atraem-nos, agarram-nos, transformam-nos. Por isso Ulisses mandou que o atassem ao mastro da sua nau: nunca chegaria a Ítaca, nunca voltaria aos braços de Penélope se se deixasse prender pelas vozes  melodiosas das filhas do mar.
O mar é o grande livro do conto, os barcos são as suas páginas. Há mar e barcos em Terra Sonâmbula. Foi no mar que se sepultou Taímo, pai de Kindzu, amador de sonhos e de bebidas fortes. Tuahir não quis morrer no mangal, precisava de ficar no autêntico mar: “Ondas Escrevendo Estórias”, título do décimo primeiro capítulo. “Nas ondas estão escritas mil estórias, dessas de embalar as crianças do inteiro mundo”, fecho do capítulo.
A efabulação é uma terapia porque a realidade é, por vezes, insuportável. Só a imaginação nos salva. Virgínia, Virginha, Virgininha, esposa de Romão Pinto, inventa parentes e cartas escritas por eles para poder acreditar que existem. Ou seja, conta histórias a si mesma para se deixar adormecer e sonhar.  No nono capítulo, Tuhair fala a Muidinga no pescador Nipita. O jovem quer conhecer a sua história: “ Conte, tio”, pede. “Se é uma estória me conte, nem importa se é verdade.” O velho conta:

“(…) Nipita, um pescador que fora esfaquinhado pelos bandos armados. Acontecera de noite, o desgraçado voltou de madrugada, vinha buscar as tripas. Deixei-lhes aqui, esbarriguei-me num nadinha, disse num derradeiro sopro. Agora estando quase para morrer, não podia se presentar perante a cova sem estar devidamente completo. Alguém ainda lhe disse: vai que nós te levamos depois as partes que te faltam. E ele se sepultou, assim, destripado. Nunca mais ninguém lhe levou os restos de suas entranhas. O falecido pescador, agora, passava a morte a maldiçoar os viventes.”

Terra Sonâmbula é a voz da narrativa oral africana tornada escrita: árvores fabulosas, aves mágicas que falam, fazedores de rios, espíritos de mortos desconsolados atormentando os viventes, as maldições derramadas nas vidas difíceis dos homens. E, tornando essas vidas ainda mais invividas, a guerra e a fome, os políticos buscando vantagem – os administraidores, como diz Carolinda – , o clima de caos e convulsão social: um país acabado de nascer e já comparado às baleias que vêm agonizar na praia, assinala Kindzu no primeiro caderno.
Na narrativa primeira e nas que dela saem estão presentes símbolos de vidas bloqueadas: Tuahir e Muidinga acolhem-se a um machimbombo queimado que nunca se fará à estrada; Farida vive num navio encalhado, ao lado de uma ilha com um farol sem luz.
A guerra aponta ao povo o destino da animalização: é ver Junhito, irmão de Kindzu, transformado em galo. “Vós vos convertêsteis em bichos, sem família, sem nação”, diz o feiticeiro na arenga apocalíptica do último caderno. Porém, é pela sua voz de ancestralidade mágica que chega uma mensagem de esperança:

“(…) surgirão os doces acordes de uma canção, o terno embalo da primeira mãe. Esse canto, sim, será nosso, a lembrança de uma raiz profunda que não foram capazes de nos arrancar. Essa voz  nos dará a força de um novo princípio e, ao escutá-la, os cadáveres sossegarão nas covas e os sobreviventes abraçarão a vida com o ingénuo entusiasmo dos namorados. Tudo isto se fará se formos capazes de nos despirmos deste tempo que nos fez animais. Aceitemos morrer como gente que já não somos. Deixai que morra o animal em que esta guerra nos converteu.”

Finalmente, Junhito desbicha-se; Kindzu é imaginariamente um guerreiro naparama, os braços cobertos de lenços e uma zagaia nas mãos. Gaspar, procurado e nunca encontrado, é o guardião das histórias quando o seu narrador se apaga. No primeiro caderno, fica dito que seria assim: “Acendo a estória, me apago a mim. No fim destes escritos, serei de novo uma sombra sem voz.” Esta é a condição do contador de histórias perante os seus ouvintes.
            Para além de um país que nasce e de uma guerra que recusa morrer, para além do sofrimento dos homens, há em Terra Sonâmbula o poder desmedido do sonho e da crença, o amor dos ancestrais valores que os sistemas políticos, sempre efémeros, não conseguem matar; e a presença dessa luz forte – talvez  como a do farol que Virgínia queria construir em terra, longe do mar, em lugar aparentemente indevido – que é a que emana da narrativa e dos seus narradores. Uma luz que redime e melhora, sempre abrigada no coração dos homens. Narrar e ouvir narrar é como sonhar, e o sonho, diz-se no livro, é o olho da vida.

(= Lido na sessão de 28/2/2014 =)