31 maio 2014

A Comunidade presente na Feira do Livro de Lisboa

(Fotos da Zé) 

A Feira do Livro desafiou-nos e nós aceitámos o repto: uma sessão pública da nossa Comunidade de Leitores em plena Feira.

"A Redenção das Águas" foi o livro em carteira e a presença de Carlos Querido emprestou uma boa dinâmica ao grupo. 

O romance, debatido entusiasticamente na véspera na nossa sessão mensal, ganhou uma nova vida pela voz do autor que de forma apaixonada nos esclareceu as dúvidas, acrescentando novos detalhes às nossas interpretações. 

A conversa fez-se em bom ritmo e a Comunidade esteve presente com um número alargado de membros. Foi gratificante perceber que a plateia (com algumas dezenas de pessoas), seguiu a sessão com muito interesse e sobretudo foi agradável verificar que prendemos a atenção dos passeantes que paravam para ler os nossos cartazes, ficando muitos deles a assistir, com um ar curioso e interessado. 

Obrigado ao Carlos Querido. Cá estamos à espera do próximo romance!

28 maio 2014

MODELAR O AMOR - O REGRESSO A UMA CASA CHAMADA MULHER

Releitura acabada.  «Voltou. Discreto, quase clandestino, vejo-o à entrada da olaria, rodeado de silêncio e de penumbra. Por um momento receio estar a ser traída pelo desejo urgente de o ver, ali, naquele local, a entrar por aquela porta. (...) Pedro diz-me que está de regresso a casa, que sou eu.» --- A Redenção das Águas, capítulo "O Regresso a Casa", pp. 173 e 174.

23 maio 2014

MARIO QUINTANA (1906-1994)


A morte é que está morta

                                            PARA JOSÉ RÉGIO

A morte é que está morta.
Ela é aquela Princesa Adormecida
no seu claro jazigo de cristal.
Aquela a quem, um dia – enfim – despertarás…

E o que esperavas ser teu suspiro final
é o teu primeiro beijo nupcial!

– Mas como é que eu te receava tanto
(no teu encantamento lhe dirás)
e como podes ser assim – tão bela?
Nas tantas buscas, em que me perdi,
vejo que cada amor tinha um pouco de ti…

E ela, sorrindo, compassiva e calma:

E tu, por que é que me chamas Morte?
Eu sou, apenas, tua Alma…

MARIO QUINTANA, Apontamentos de História Sobrenatural, Rio de Janeiro, Editora Objetiva, 2012, p. 95.
Centro Mario Quintana, Porto Alegre (RS), Outubro de 2012

20 maio 2014

3 PERGUNTAS A CARLOS QUERIDO

1- O que representa, no contexto da sua obra o livro “A Redenção das Águas”?
 
R - As duas obras anteriores (Salir d’Outrora e Praça da Fruta) versavam sobre história regional. Na mesma temática se inseria o objectivo inicial de “A Redenção das Águas”, visando contar a história das 13 peregrinações de D. João V às termas das Caldas após a manifestação da sua doença, e da forma como a presença do rei mudou a face da pequena vila termal, entre 1742 e 1750. No entanto, a figura imensa deste rei não se conteve nas fronteiras da vila que é hoje a minha cidade, e acabou por transbordar nas histórias que se cruzam ao longo desses oito anos, entre a doença e a morte. E eis que da sombra do rei magnânimo surgem outras figuras, que ganham o estatuto de personagens numa história que não lhes era inicialmente dedicada: como o Infante D. Manuel, aventureiro e herói esquecido; como o Infante D. Francisco, tão odiado, quanto temido, falecido nas Gaeiras no Verão de 1742; como Pedro Rates de Henequim, que veio do Brasil para convencer o Infante D. Manuel a assumir o destino de chefe do mítico V Império, e que acabou na fogueira da Inquisição no dia de solstício de Verão do ano de 1744; como John Coustos, o primeiro mestre maçónico torturado pela Inquisição, que saiu em auto de fé no mesmo dia fatídico; como os “Meninos de Palhavã”, filhos ilegítimos do rei, frutos de aventuras com as freiras de Odivelas, reconhecidos nas Caldas no dia 6 de Agosto de 1742; e como tantos outros que se revelam nas páginas do livro.
No contexto da minha escrita, lateral (porque se realiza apenas nos tempos livres que a minha actividade profissional me concede) e pouco significativa, “A Redenção das Águas” acabou por representar um pequeno passo, em que um tema de história regional se converte em história nacional, não por mérito nem por prévio desígnio do autor, mas pela imensa força da imagem do personagem central, o rei absoluto e magnânimo.
 
2. - Qual a ideia que esteve na origem deste livro?
 
R - Na origem deste livro esteve inicialmente a ideia que enunciei na resposta anterior. No entanto, à medida que se foi revelando a figura do rei e a dimensão religiosa da liturgia do seu poder, num ambiente de crepúsculo, de finitude nostálgica, e de pavor da morte, tornou-se irresistível a abordagem desta figura controversa numa perspectiva diferente da habitual. Eis então que surge, perante alguma surpresa do autor, um rei vergado sob o insuportável peso do pecado, em busca da redenção que no seu tempo estava, sempre esteve, associada à água, benzida ou termal. As peregrinações do rei tornam-se uma busca incessante dessa redenção. É assim que surge a explicação das obras pias, das infindáveis dádivas a igrejas, capelas, irmandades, ordens religiosas e imagens santas, da delapidação dos recursos do reino, com o único objectivo de salvação da alma do rei. Tudo isto com a fervorosa compreensão do povo, porque, como questiona o narrador, se a alma (colectiva) do rei não se salva, quem se salvará?
Depois, com a revelação das figuras do Infante D. Manuel e de Pedro Rates de Henequim, tornou-se também irresistível a convocação do velho mito, tão universal e tão lusitano, do V Império, do desejo de restauração da unidade perdida, defendido por poetas e por profetas e que, segundo alguns, esteve na génese dos Descobrimentos e confere inteligibilidade a esse imenso feito luso.

3. - Pensando no futuro: o que está a escrever neste momento?
 
R - Quanto a futuros escritos, por ora estão previstos apenas os acórdãos no meu tribunal. Depois, nunca se sabe quando, talvez uma qualquer figura histórica me possa surpreender e arrastar para outras aventuras.
__________
Carlos Querido
A Redenção das Águas
Arranha Céus. 17€
______________
 

18 maio 2014

PEREGRINAÇÃO À "VILA DAS CALDAS"


«Apelo ao meu conhecimento rudimentar da língua romana e soletro a frase esculpida em relevo na pedra, na tentativa de compreender a mensagem: Coeli beneficio salubrium regis munificentia perennium / Pleiadum que aliae quinque sat unde bibas.
Por cima do meu ombro, a voz suave de Manuel da Maia traduz: das cinco Plêiades, saudáveis por benefício do céu, perenes por mercê do rei, e as outras, de onde poderás beber abundantemente.»

CARLOS QUERIDO, A Redenção das Águas, p. 11.
 
 

17 maio 2014

VIAJAR COM AS PERNAS = VALA REAL DE AZAMBUJA E PALÁCIO DAS OBRAS NOVAS

Caros Leitores,
O reconhecimento do percurso, com vista à possível excursão de dia 24, foi feito por dois denodados membros desta Comunidade: 5 quilómetros para cada lado, entre a estação ferroviária de Azambuja e o Palácio das Obras Novas, cerca de 1 hora e 15 minutos de marcha a multiplicar por 2. Também é possível ir de automóvel ou de barco, desconhecendo-se a existência de outros meios de transporte. Para aguçar o interesse, aqui ficam algumas fotografias tiradas ontem.
 

14 maio 2014

NOITE EUROPEIA DOS MUSEUS


Este sábado, 17 de Maio, será assinalada a Noite Europeia dos Museus.
No Museu Ferreira de Castro, às 21 horas, será exibido o documentário «Vida e Obra de Ferreira de Castro», de Faria de Almeida, seguindo-se uma visita conduzida por Ricardo Alves, director do museu, e comentada pelo Prof. Vítor Viçoso *.
* Vítor Viçoso, professor aposentado da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, é director da revista Nova Síntese – Textos e Contextos do Neo-Realismo e autor entre outros, de A Máscara e o Sonho: Vozes, Imagens e Símbolos na Ficção de Raul Brandão (1999) e A Narrativa no Movimento Neo-Realista – As Vozes Sociais e os Universos de Ficção (2011).
--- (Adaptado de um texto emitido pelo Museu Ferreira de Castro) ---

12 maio 2014

"SELFIES" E TÚMULOS

II Encontros Ferreira de Castro, concelho de Oliveira de Azeméis.  Os castrianos da nossa Comunidade à entrada da biblioteca local onde apresentaram as suas originais, arrojadas e poéticas teses sobre a obra do grande escritor de A Selva e Emigrantes.
No dia seguinte, no cemitério de Ossela, em redor dos túmulos de Diana de Liz e Elena Muriel. REQUIESCANT IN PACE.
 

08 maio 2014

SÁ DE MIRANDA (1481-1558)

AO AMOR E À FORTUNA

Amor e Fortuna são
dous deuses que os antigos
ambos os pintaram cegos;
ambos não seguem rezão;
ambos aos mores amigos
dão mores desassossegos;
ambos são sem piedade;
ambos não lhes tomais tino
do querer ou não querer;
ambos não falam verdade:
Amor é cego minino,
Fortuna é cega mulher.

06 maio 2014

ESTE MÊS É A DOBRAR: 30 de Maio na biblioteca e no dia seguinte na Feira do Livro

 
"O rei morreu. O dobre de finados dos 114 sinos do convento de Mafra espalha a notícia pelos céus do Oeste com uma cadência grave e desolada, que se propaga por um vasto território, para norte, entre a serra e o mar, até à vila das termas, até aos sinos de Nossa Senhora do Pópulo."



04 maio 2014

PELA GRAÇA É QUE VAMOS

Diz-se no Memorial do Convento, por estas ou outras parecidas palavras, que cada qual procura, por seu próprio caminho, a graça. Difícil é acertarmos sobre o que seja a graça, a dos teólogos ou a dos homens simples, aqueles cujo pensamento raramente se eleva acima da sombra rasa dos seus corpos.
A graça pode ser uma mulher, ou um homem, pode ser um poema ou uma canção, mas seja o que for é por ela que vamos e é por ela que sempre nos salvamos.
D. João, quinto do nome na tabela real, rei de arrojados propósitos, procurou a graça naquela sinfonia de pedra desenhada por um arquitecto ourives, composta com a  carne e o sangue de vilões e servos,  volutas e capitéis triunfantes sobre a brutidade arrancada aos veios de mármore de Pero Pinheiro, a mãe da pedra, Benedictione, as pedras filhas que saíram das demais pedreiras do ditoso reino. Uma vila, Mafra, que subiu do vale à montanha, cada letra um nome, outra variante possível, talvez inexacta: m de maravilhosa, a de abnegada, f de feliz, r de religiosa, a de albergue das estátuas dos santos, as que de Itália vieram, dezoito, uma dúzia e meia de milagres de mármore transportados desde o porto de Santo António do Tojal até à fábrica do alto da Vela, passando por Pintéus, Cabeço de Monte Achique e Alcainça Pequena, entre eles os de São Domingos e Santo Inácio, inspiradores de torturas humanas, ou, melhor dizendo, desumanas torturas, de corpos o primeiro, de almas o segundo.
          O padre Bartolomeu Lourenço, Gusmão por vaidade, procurou a graça no voo de uma passarola trágica, Ícaro que nem do Sol logrou aproximar-se, nave de sonhos, ferro e vimes entrançados, uma vela preta, bolas de âmbar amarelo e duas esferas de metal carregadas de vontades, nave ferida num declive rombo da serra de Barregudo e Monte Junto, ali ao pé do cenóbio dominicano de onde saiu o frade que quis violar, bem caro lhe saiu o apetite da carne, a filha da feiticeira Sebastiana Maria de Jesus, um quarto de cristã-nova que não passou despercebido ao olho vivo e jugulador do Santo Ofício.
            Domenico Scarlatti e a música do seu cravo, os anjos a ouviriam de bom grado, não fossem eles mesmos os grandes músicos da corte celestial, sentados à mão direita e única de Deus Pai com as suas harpas e liras, tocando como quem reza, que tudo é música, se não é oração tudo, isto mesmo se diz a páginas tantas do Memorial do Convento. Não foi concedida ao napolitano a graça de tocar no céu, a passarola voou sem ele e o seu cravo de Abril, mas a sua música soou na casa que foi construída sobre a ponte de pedra do rio Caia, Arno e ponte Vecchio peninsulares, cerimónia de troca das princesas. Ouviu-a, sem saber que a ouvia, João Elvas, mendigo vagabundo que privou, caminho do Alentejo, com um fidalgo da corte de D. João, explicador de coisas que o explicando não podia entender sem a sua ajuda, ai dos que por soberba, ao contrário deste fidalgo, não se chegam aos pobres de espírito e entendimento, difícil será, para esses, encontrar os seus caminhos da graça.   
E Blimunda, a que sabia ver, e Baltasar, o que sentia as coisas, até a mão que lhe faltava, Vulcano e Vénus  procurando-se na graça do amor e do desejo, que sem um não existe o outro, embora não se saiba qual manda mais, qual está antes e qual está depois, se é o amor ou se é o desejo.
Pelos caminhos da graça, procurando-a, andaram os que viram o Espírito Santo a sobrevoar Mafra em dia de assombro e maravilha. Não sabiam que o Espírito Santo só sobrevoa as cabeças do apostolado, línguas de fogo desembargando as línguas falantes dos sobrevoados, pedreiros, canteiros e lavrantes, oficiais e mestres-de-obra da fábrica real, nenhum tomou o dom das línguas estranhas, português e do pior falavam, assim continuaram a falar.
Procura da graça acrescida a do rei magnânimo, fazer nascer o milagre catedralesco de São Pedro de Roma na Lisboa de vielas e becos, Rossio na Rua da Betesga. É verdade que cada um procura a graça por seus próprios caminhos, mas alguns são ínvios, infelizmente, como este do grande rei, como aquele do povo trabalhador de Mafra.
Que caminho da graça foi o teu, António José da Silva, judeu de comédias de bonifrates? Desceram sobre ti os gaviões de São Domingos, não os de Rana, que estes são pombas sem fel, relaxado em carne ao lado de Baltasar Sete-Sóis, voador de sonhos e quimeras, rastejante de trabalho e dor, uma nuvem fechada no centro do corpo, viu-a Blimunda Sete-Luas e o seu jejum revelador, mulher tão cheia de graça não há nem nunca houve na terra e nos céus.
É pelo sonho que vamos, disse o poeta. Pelo sonho e pela graça, porque o sonho está dentro da graça, como a poesia está dentro do coração dos homens.


S. Domingos de Rana e Comunidade de Leitores, 30-4-2014

03 maio 2014

"BARRANCO DE CEGOS"

Então os discípulos aproximaram-se e disseram a Jesus: «Sabes que os fariseus ficaram escandalizados com o que disseste?». Jesus respondeu: «Toda a planta que não foi plantada por meu Pai celeste será arrancada. Não vos preocupeis com eles. São cegos guiando cegos. Ora se um cego guia outro cego, ambos vêm a cair no barranco.» Mateus, 15, 12-14.
 
Um dos nossos grandes romances do século XX ontem discutido no Clube de Leitura do Museu Ferreira de Castro, Sintra.

29 abril 2014

D. JOÃO V , O FASCÍNIO DOS CONVENTOS

Anda uma pessoa desacautelada e vai senão quando, em visita à Madre de Deus, no espírito martirológio de Santa Auta, tropeça com o olhar atónito em mais uma possível encomenda prodigiosa. Ei-la, exemplo cabal de todo o brilho, ouro sobre ouro, de que as mentes barrocas são capazes...

 

LISBOA DO MEMORIAL

D. JOÃO V, NUNO ABECASIS E AS CATEDRAIS DE LISBOA

«Estão numa pausa, o rei não fala, o arquiteto não diz nada, desta maneira se desvanecem no ar os grandes sonhos, e nunca viríamos a saber que D. João V quis um dia construir S. Pedro de Roma no Parque Eduardo VII, se não fosse a inconfidência de Ludovice, (...)»

JOSÉ SARAMAGO, Memorial do Convento

24 abril 2014

AI O DESTINO DAS FLORES

 
(...) deixe-se ficar Baltasar onde está, a ver passar a procissão, os pajens, os cantores, os cubiculários, os dois tenentes da guarda real, um, dois, com prima farda, diríamos hoje de gala, e a cruz patriarcal levando ao lado as virgas rubras, os capelães de varas levantadas e molhos de cravos nas pontas delas, ai o destino das flores, um dia as meterão nos canos das espingardas, (...)

JOSÉ SARAMAGO, Memorial do Convento, 53ª edição, Lisboa, Caminho, 2013, p. 210.

23 abril 2014

Dia mundial do livro e dos direitos de autor

23 de Abril: Dia mundial do livro e dos direitos de autor
São Jorge: Dia do livro e da rosa

É muito difícil definir a data exata que marcou o início da tradição popular de oferecer rosas no dia de São Jorge. Deve ser muito antiga, já que, desde o século XV há notícias da celebração da Feira das Rosas no dia de São Jorge. Esta mesma antiguidade traz a tentação de buscar uma relação entre uma tradição popular e o simbolismo do amor cortês que a rosa representa. Mas além das possíveis teorias que possam justificar a tradição, o mais importante é que se tenha mantido viva e seja um símbolo indiscutível da Catalunha. Em 1926 a Espanha instituiu o dia 23 de Abril como Dia do Livro pois esta data coincide com a morte de Cervantes, imitando a Inglaterra, que já o celebrava no mesmo dia porque também coincide com a morte de Shakespeare. Assim, na Catalunha, o 23 de Abril é o dia de São Jorge, da rosa e do livro: o dia do Santo Padroeiro, do amor e da cultura. As mulheres presenteiam os homens com livros e os homens presenteiam as mulheres com rosas.



17 abril 2014

O "MEMORIAL DO CONVENTO" E AS FREIRAS DE SANTA MÓNICA

“É contudo um tempo de contrariedades. Agora sairão as freiras de Santa Mónica em extrema indignação, insubordinando-se  contra as ordens de el-rei de que só pudessem falar nos conventos aos pais, filhos, irmãos e parentes até segundo grau, com o que pretende sua majestade pôr cobro ao escândalo de que são causa os freiráticos, nobres e não nobres, que frequentam as esposas do Senhor e as deixam grávidas no tempo de uma ave-maria, que o faça D. João V, só lhe fica bem, mas não um joão-qualquer ou um josé-ninguém.”
JOSÉ SARAMAGO, Memorial do Convento
Esta passagem do romance – em que Saramago põe o freirático D. João V a decidir em causa própria – é possivelmente inspirada no cisma das religiosas de Santa Mónica do convento de Goa.
Por volta de 1730, tinha aquele convento cerca de noventa religiosas, sendo possuidor de uma notável riqueza. A autoridade eclesiástica, arcebispo D. Inácio de Santa Teresa (1682-1751), determinou então, como resposta a alguma devassidão existente na casa, a nomeação de confessores e procuradores não agostinhos, decisão que, por ser contrária ao estatuto do convento, não foi aceite pela maioria das religiosas. Estas, dirigidas pela prioresa Madalena de Santo Agostinho, quebraram a clausura, o que foi motivo de grande escândalo.
O conflito arrastou-se por longo tempo e, ao que parece, o rei até exerceu, a distância, um papel conciliador, não desautorizando o arcebispo, mas procurando compreender as razões das desobedientes.
Pesquisa efectuada em:
- "O Reyno de Deus e sua Justiça", de Ana Maria Mendes Ruas Alves, tese de doutoramento, Universidade de Coimbra, 2012.
- Inácio de Santa Teresa-Construção da biografia dum arcebispo, de José Maria Mendes, dissertação de mestrado, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2012.
Até agora, não encontrei para a época qualquer registo de insubordinação de religiosas de Santa Mónica, quer em Lisboa, quer no restante território metropolitano. Mas pode ser que se tenha verificado. Se alguém souber, que fale.

15 abril 2014

A VISITA ÀS IGREJAS

Saibam os meus caros confrades que prossigo a investigação das fontes de Saramago para a escrita de Memorial do Convento. Eu sei que estas ou outras coisas parecidas estão em exposição na Casa dos Bicos, lugar a cuja porta passo frequentemente, e, talvez por isso, nunca tenha lá entrado para ver a dita exposição. Portanto, estou por conta própria.
O meu problema é que ainda não passei do admirável relato do médico e naturalista suíço Charles Fréderic de Merveilleux, Memórias Instrutivas sobre Portugal (1723-1726).
Merveilleux esteve várias vezes entre nós, a convite do rei Magnânimo. Este encomendara-lhe uma história natural de Portugal, o que o fez viajar pelo país profundo, tendo chegado a ir à serra da Estrela.
As suas impressões de Lisboa são do máximo interesse. Já que estamos na semana da Páscoa, vejam-se estas:
“A visita às igrejas durante a semana santa faz, num só dia, mais cornudos do que na vida habitual durante todo o ano. As mulheres têm a liberdade de andar pelas ruas durante toda a noite, apenas embuçadas nos seus mantos negros; os galãs disfarçam-se com trajos de mulher e misturam-se na multidão. Os maridos tomam a precaução de fazer acompanhar suas mulheres por escravas que eles julgam fiéis à honra dos seus senhores. Essa fidelidade, porém, não está à prova dos presentes que recebem dos galãs, acabando por serem essas mesmas escravas que conduzem as beldades a casa dos seus amantes.”
Queiram comparar com a prosa do nosso Nobel, terceiro capítulo, salvo erro:
“(…) talvez que o costume de deixar que as mulheres corram as igrejas sozinhas na quaresma, contra o uso do resto do ano, que é tê-las em casa presas, salvo se são populares com porta para a rua ou nesta vivendo (…), talvez que o dito costume mostre, afinal, quanto é insuportável a quaresma, que todo o tempo quaresmal é tempo de morte antecipada, aviso que devemos aproveitar, e então, cuidando os homens, ou fingindo cuidar, que as mulheres não fazem mais que as devoções a que disseram ir, é a mulher livre uma vez no ano, e se não vai sozinha por não o consentir a decência pública, quem a acompanha leva iguais desejos e igual necessidade de satisfazê-los, por isso a mulher, entre duas igrejas, foi encontrar-se com um homem, qual seja, e a criada que a guarda troca uma cumplicidade por outra, e ambas, quando se reencontram diante do próximo altar, sabem que a quaresma não existe e o mundo está felizmente louco desde que nasceu.”

14 abril 2014

BLIMUNDA, A SENHORA PEDEGACHE E OS SEDUTORES PARISIENSES

 
Blimunda na fachada da residência lisboeta de Pilar e José Saramago. Painel de azulejos de ROGÉRIO RIBEIRO (1930-2008). Foto obtida hoje.
 
 
Excertos de O Portugal de D. João V visto por três forasteiros, relato do médico naturalista CHARLES FRÉDERIC DE MERVEILLEUX.
 
«Vem aqui a ponto falar da Pedegache, mulher não só extraordinária mas também muito sedutora. Por forma alguma tinha aspecto de uma bruxa, embora pelos seus encantos fosse muito bem capaz de embruxar um homem. Confesso que não me atrevo a explicar o dom que ela tinha de ver o corpo humano, bem como o dos animais, por dentro e outrossim o interior da terra a uma grande profundidade, e creio bem que seriam vãos os esforços de todos os filósofos juntos para explicar este fenómeno.
(...)
Julgou-se a princípio que andava ali obra do demo, mas depois de um exame rigoroso abandonou-se tal suspeita, contentando-se todos em admirar um dom tão extraordinário acerca do qual as luzes da inteligência humana não alcançavam explicação que satisfizesse.
(...)
Admiro-me muito que a Academia de Ciências de Paris não tenha aceite o oferecimento que lhe fez o senhor Pedegache de conduzir sua mulher a França, mediante um abono de mil escudos para os gastos de viagem e estabelecimento de uma pensão de cem luíses de ouro graciosamente garantida pelo rei, se os talentos de sua mulher ficassem bem comprovados. Resignou-se, porém, facilmente com a recusa, reflectindo em que, sendo sua mulher muito formosa, além de bastante comunicativa e os franceses muito dados à sedução do belo sexo e não existindo para eles obstáculo à satisfação dos seus desejos, teria constituído uma imprevidência expor-se ao perigo que corre em Paris todo o marido de uma mulher encantadora.»


11 abril 2014

UM "LEGO" DO SÉCULO XVIII

De Roma enviaram ao rei uma "maquette" da Basílica de S. Pedro que, embora executada em pequena escala, ocupa um salão onde também existiam todos os modelos e raridades da cidade eterna. Os seus embaixadores gastaram nestas bagatelas o que bastava para erigir uma magnífica catedral.

--- O Portugal de D. João V visto por três forasteiros, relato do médico naturalista CHARLES FRÉDERIC DE MERVEILLEUX, "Memórias instrutivas sobre Portugal, 1723-1726", Lisboa, Biblioteca Nacional, 1989, p. 188.

Quase tão grande como Deus é a basílica de S. Pedro de Roma que el-rei está a levantar. É uma construção sem caboucos nem alicerces, assenta em tampo de mesa que não precisaria ser tão sólido para a carga que suporta, miniatura de basílica dispersa em pedaços de encaixar, segundo o antigo sistema de macho e fêmea, que, à mão reverente, vão sendo recolhidos pelos quatro camaristas de serviço.

--- JOSÉ SARAMAGO, Memorial do Convento.

07 abril 2014

"Memorial do Convento" de José Saramago, 30 de Abril às 21h00

  O meu Memorial!

Edição de Novembro de 2002, comemorativa do vigésimo aniversário da primeira edição (Outubro de 1982) do "Memorial do Convento" de José Saramago, ilustrada com pinturas de José Santa Bárbara, que se incluem no ciclo "Vontades. Uma leitura de Memorial do Convento"

DOMENICO SCARLATTI - SONATA PARA CRAVO


DOMENICO SCARLATTI (1685-1757), em Lisboa nos anos de 1720 e 1721 como professor de música da infanta Maria Magdalena Bárbara Xavier Leonor Antónia Josefa de Bragança, filha de D. João V, futura rainha consorte de Espanha.
 
"Ao fim de uma hora levantou-se Scarlatti do cravo, cobriu-o com um pano de vela, e depois disse para Baltasar e Blimunda, que tinham interrompido o trabalho, Se a passarola do padre Bartolomeu de Gusmão chegar a voar um dia, gostaria de ir nela e tocar no céu, e Blimunda respondeu, Voando a máquina, todo o céu será música, e Baltasar, lembrando-se da guerra, Se não for inferno todo o céu."
 
JOSÉ SARAMAGO, Memorial do Convento
 

06 abril 2014

AMEDEO MODIGLIANI

Sobre o oportuno comentário de Leal de Góis, aí num "post" de há poucos dias, trago à colação esta tentativa poética de um tal "Disperso Escrevedor".
O poetastro viu o nu de Modigliani não há 40 anos, mas há apenas 9; e não ficou 15 minutos calado, falou em 16 versos:

Toco o teu corpo impudentemente puro
deformação expressiva
em almofadas de luminosos cetins
de escarlates sedas
e deixo-me ir na corrente líquida dos olhos
na embriaguez dos lábios
as mãos cheias do volume dos seios
Tacteio os músculos finos dos braços
dobrados em delta
sinto o anel da cintura
o recorte lume das ancas
a massa pujante das coxas
Repouso no centro do corpo
onde
o triângulo púbico
é um trapézio de Vénus
 
D.E.
 
 
Peço que o desculpem, o homem não sabe fazer melhor. A publicação original pode ser vista aqui:


05 abril 2014

AS IRRELEVANTES MEMÓRIAS (I)

ANTÓNIO QUADROS, Auto-retrato
 
Lourenço Marques, assim se chamava, pérola do Índico ou coisa parecida, foi lá que me encontrei com João Pedro Grabato Dias, na verdade António Quadros, pintor (1933-1994), também conhecido pelos falsos nomes de Frey Ioannes Garabatus e Mutimati Barnabé João, corria o anno Domini 1972, o Outono floria a sul do Equador, e toda a esperança era ainda possível. O encontro deu-se numa livraria, como convinha, livros que apareciam e desapareciam numa fugacidade austral de fazer suar os poros dos trópicos. As acácias rescendiam nas avenidas e eu pouco sabia da vida, estado em que, felizmente, ainda me mantenho.
 
MÁRTIRMONIAL, MATRIARMORIAL, MATRIHORMONAL
 
Cavalheiro distinto, e modesto,
com alguma cultura, em pousio,
de boagnífica família e lavradio
passável, lutador ambidextro
 
com ursos superiores, bastante lesto
nas também duas pernas, de assobio
em coisas musicais e sem fastio
ou outro desarranjo; ainda intesto
 
por falta de vagares ou vícios; vivo
em jogos de sala e outro desporto
procura jovem fêmea com lascivo
 
andar, dotada quanto a dote e a dotes
glúteas nalgas de alevantar um morto
e, se possível, algo que decote.
 
JOÃO PEDRO GRABATO DIAS, Sonetos de Amor e Circunstância e uma Canção Desesperada, Lourenço Marques, edição do autor, 1970, p. 44.
Nº 1 dos Cadernos de Poesia Caliban, de 1971, de que João Pedro Grabato Dias e Rui Knopfli foram coordenadores, e edição de autor, de 1970, dos Sonetos de Amor e Circunstância.


04 abril 2014

AMMAIA, A RECONSTITUIÇÃO POSSÍVEL



Cidade romana de Ammaia, situada na freguesia de S. Salvador de Aramenha, concelho de Marvão, tão escassa hoje de ruínas, estaleiro que foi, por séculos, de pedras aparelhadas a comporem outras cidades, outras construções. Abrigos outros dos mesmos anseios, paixões, sofrimentos e esperanças. Muitas e diferentes gerações e uma mesma humanidade. Situada no Parque Natural da Serra de S. Mamede, aprofundar um pouco a história deste sítio, leva ao reconhecimento de muitas referências que já são nossas, na Comunidade, por motivos ou motivações: Portalegre, a casa de José Régio; a Ponte de Alcântara; Leite de Vasconcelos e o Museu Nacional de Arqueologia... Para além de tudo o que se possa acrescentar, a partir desta notável reconstituição. Veja-se, por exemplo, o modelo de porta da cidade, que tudo leva a crer fosse o mesmo de Lisboa, com cujo desenho nos deparamos no pavimento de uma rua, algures em Alfama...

EDWARD HOPPER (1882-1967), Room in New York
 
EM FRENTE DO MAR
 
Pergunto a mim próprio em que noite nos perdemos?,
que desencontro nos levou de um a outro lado das
nossas vidas? e que caminhos evitámos para que os nossos
passos se não voltassem a cruzar? Mas as perguntas que
te faço, hoje, já não têm resposta. Sento-me contigo,
nesta mesa da memória, e partilho o prato da solidão. Tu,
na cadeira vazia onde te imagino, sacodes o cabelo com
um aceno de ironia. E dou-te razão: as coisas podiam
ter sido de outro modo. Não te disse as palavras que
esperaste; e havia o mar, com as suas ondas, nessa tarde
em que me puxaste para longe da cidade, como se
a noite não nos obrigasse a voltar, quando o horizonte
se apagou à nossa frente. Depois disso, nenhuma
pergunta tem resposta. O que é absurdo há-de continuar
absurdo, como o horizonte não se voltou a abrir,
trazendo de volta os teus olhos que me pediam que
os olhasse, até que a noite me impedisse de o fazer.
 
NUNO JÚDICE, O Estado dos Campos (2003)


03 abril 2014

HAH!

AMEDEO MODIGLIANI (1884-1920), Nu Deitado

Há a mulher que me ama e eu não amo.
Há as mulheres que me acamam e eu acamo.
Há a mulher que eu amo e não me ama nem acama.

Ah essa mulher!

Tu eras mais feliz, Apollinaire:
montado num obus, voavas à mulher.
Tu foste mais feliz, meu artilheiro:
tiveste amor e guerra.

Eu andei pra marinheiro,
mas pus óculos e fiquei em terra.

Upa garupa na mulher que me acama,
que a outra é contigo, coração que bem queres
sofrer pelas mulheres...

ALEXANDRE O´NEILL, De ombro na ombreira (1969)

 ALEXANDRE O´NEILL (1924-1986)
GUILLAUME APOLLINAIRE (1880-1918)

02 abril 2014

MEMORIAL DO CONVENTO

Dando início a um novo ciclo, desta feita conduzidos, não já pela peregrinação de Oríon no firmamento, mas por outros astros, tendo esta leitura em comum com a anterior o facto de nos remeter para dimensões que vão para além da História. Dimensões que, na realidade, vão para além de nós mesmos, e assim nos ampliam, ao infinito do possível essencial, da vida e da morte. 

Ficamos com Saramago, para já:

“A minha ideia, quando concebi o Memorial do Convento estava limitada à construção do convento e é depois que verifico que nessa mesma época um padre tinha a ideia de fazer uma máquina de voar. Então este facto modificou-o completamente… A partir daí, o romance tinha que ser diferente, completamente diferente. E toda a oposição entre o que cai e o que sobe, entre o pesado e o leve, o que quer voar e o que impede que voe; toda essa relação entre liberdade e autoridade, entre invenção e convenção, ganha uma dimensão que antes não estava nos meus propósitos e que modifica completamente o romance. Com essa figura que está entre os dois mundos, o que significa que está num terceiro, o mundo mais próximo da natureza, isto é, do ser natural, se é que existe. Acho que não existe. Todos somos seres culturais, por um olhar, por um entendimento, conseguimos ir mais fundo que a superfície das coisas. E isso, esse aspecto complexo, é o que impede que o Memorial seja lido em linha recta, porque exige constantemente outras leituras e outras interpretações.”

José Saramago

01 abril 2014

NO DIA DAS MENTIRAS

“Abomino a mentira, porque é uma inexactidão.” – Ricardo Reis, segundo Álvaro de Campos.

Ricardo Reis, pelo traço de Almada
 
Há frases repentinas, profundas porque vêm do profundo, que definem um homem, ou, antes, com que um homem se define, sem definição. Não me esquece aquela em que Ricardo Reis uma vez se me definiu. Falava-se de mentir, e ele disse: « Abomino a mentira, porque é uma inexactidão.» Todo o Ricardo Reis – passado, presente e futuro – está nisto.

-- ÁLVARO DE CAMPOS, “Notas para a recordação do meu mestre Caeiro”, publicado no nº 30, de Janeiro-Fevereiro de 1931, da revista presença. Também em FERNANDO PESSOA, Textos de Crítica e de Intervenção, Lisboa, Ática, 1980, p. 271.