Mais uma conversa informal na nossa Biblioteca, no âmbito dos ciclos de encontros com escritores. No próximo Sábado às 16h00.
Blogue da Comunidade de Leitores da Biblioteca de S. Domingos de Rana - Cascais - Portugal
06 janeiro 2018
05 janeiro 2018
"a máquina de fazer espanhóis" de Valter Hugo Mãe, 26 Janeiro às 21h00
" ... naquela tarde o carteiro chegou e encostou a bicicleta no lugar de sempre e foi ao encontro do américo que andava cima e baixo a passear os velhos, o carteiro entregou ao américo um molho de cartas onde estava a que eu falsificara cuidadosamente para a dona marta. levei umas horas a redigir aquela carta. não porque fosse longa, que não era, era breve como tudo, mas porque era importante que dissesse algo bem pensado, algo para lhe fazer um agrado, uma carta segura com garantias de fornecer alegria à velha calada..."
in "a máquina de fazer espanhóis" , capítulo nove "o tempo não é linear", de Valter Hugo Mãe
28 dezembro 2017
A FEBRE DE SENTIR
«Vivo uma era anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele. Por ali arrasto, até haver noite, uma sensação de vida parecida com a dessas ruas. De dia elas são cheias de bulício que não quer dizer nada; de noite são cheias de uma falta de bulício que não quer dizer nada. Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu.»
14 dezembro 2017
INSANUS OU A INSÂNIA DO QUOTIDIANO
Insanus, de Carlos Querido, é um livro de contos editado em Julho deste ano pela Abysmo.
Anteriormente, o autor publicara Salir de
Outrora (2007), Praça da Fruta (
2009), A Redenção das Águas (2013) e Príncipe Perfeito-Rei Pelicano, Coruja e
Falcão (2015). Se o primeiro destes livros se apresenta como uma pesquisa
em torno de documentos históricos relativos aos coutos do Mosteiro Cisterciense
de Alcobaça, Praça da Fruta é uma
narrativa cuja acção decorre nos nossos dias, remetendo embora para os marcos
históricos fundamentais das Caldas da Rainha (em cuja região nasceu e reside o
autor), enquanto os dois últimos livros são romances históricos em torno das
figuras reais de D. João V e D. João II, ambas com ligações conhecidas ao burgo
caldense.
O conto, género
literário agora trabalhado pelo autor, radica «em ancestrais tradições
culturais que faziam do ritual do relato um factor de sedução e de aglutinação
comunitária» (Dicionário de Narratologia de
Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes), processo bem patente em duas obras da
tradição europeia: Decameron, de
Boccaccio (séc. XIV), e Heptameron, de
Margarida de Navarra (séc. XVI). É caracterizado pela concisão, brevidade e unidade de efeito (Allan Poe). Certa crítica realça-lhe a capacidade de criar
uma atmosfera em detrimento da acção.
Os contos de Insanus não têm uma leitura linear e
unívoca. Há a considerar uma história de superfície (em que o estranho ou o
fantástico quase sempre imperam) e outra escondida, de segundo nível, a que não
se acede directamente. Neste sentido, é compreensível que a epígrafe da
colectânea tenha sido retirada de Edgar Allan Poe, autor de contos fantásticos
e teorizador do género literário short
story. São vinte e nove contos narrados na primeira e na terceira pessoa
com as vozes das personagens fundidas no discurso do narrador. Tratando-se de
contos curtos (entre duas a sete páginas), estabelece-se um relação próxima com
o poema, o fragmento e até o sketch, tendo
em conta o humor amargo que transparece em alguns deles. As marcas da
ambiguidade e do inesperado estão presentes nas alusões aos universos paralelos
e às dicotomias sombra/luz e mundo real/mundo fictício. A referência em
diversos textos à figura da “Repartição”, opressora e castradora dos sonhos das
personagens, sugere a dimensão do desejo irrealizado face ao desencanto da vida
quotidiana, trazendo à lembrança o poema “O Funcionário Cansado”, de António
Ramos Rosa, do livro Viagem através de
uma Nebulosa (1960): «Sou um funcionário apagado / um funcionário triste /
a minha alma não acompanha a minha mão» – da mesma forma que a sombra não
acompanha o corpo da personagem do conto “Sombras”, antes se solta dele num
registo paradoxal e inquietador.
Não sendo possível
abordar todos os textos da colectânea, referir-nos-emos de forma breve a
“MitoLógico”, “Legião é o Meu Nome” e “Insanus”.
“MitoLógico” retoma a
imagem do unicórnio de Júlio Pomar, pintura realizada em 1955 para o Café
Central das Caldas da Rainha, já referida pelo autor em Praça da Fruta. Porém, a atenção do leitor é conduzida neste conto para
a lição de Kafka, precisamente a que é dada em A Metamorfose. Com uma diferença assinalável: se o infeliz Gregor
Samson não encontra forma de resolver a sua monstruosa transformação, acabando
por morrer para alívio de toda a família, a inominada personagem de
“MitoLógico” descobre talvez a salvação no relacionamento com a sua colega de
curso. Neste sentido, apesar do final ambíguo, regista-se uma mensagem que
diríamos de esperança. História de recorte fantástico, deve ser vista com mais
propriedade na sua dimensão metafórica e simbólica. O género conto, pela concisão
e brevidade, presta-se à transmissão de um conceito moral ou um exemplo. Vários
títulos testemunham esta aptidão que lhe é normalmente reconhecida: Contos & Histórias de Proveito & Exemplo
(Gonçalo Fernandes Trancoso), Novelas
Exemplares (Cervantes), Contos
Exemplares (Sophia). Em “MitoLógico” há indiscutivelmente uma história de
proveito e exemplo: a do adolescente incompreendido pelos seus progenitores, o
recurso a psicólogos para suprir as consequências da falta de amor, a
necessidade de encontrar fora da família, entre os da sua idade, o amparo que
lhe falta em casa. Há aqui, sob a narrativa de superfície, uma mensagem não
explícita para o leitor desvendar. Aliás, a introdução da letra capital L no
cerne do título, desintegrando a estrutura semântica do vocábulo e transformando-o
no sintagma “mito lógico”, estabelece um paradoxo indiciador de que muito mais há
a ler e a compreender para além da peripécia do aparecimento do corno na testa
do protagonista.
“Legião É o Meu Nome”
representa, de certa fora, um diálogo intertextual com o episódio do geraseno
endemoninhado, segundo os evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas. De que maneira
pode aceitar um defensor dos direitos dos animais, como é o caso do
protagonista do conto, o sacrifício da vara de porcos a que se acolheu, por
vontade de Jesus, a legião de demónios? O conto questiona a mensagem dos
evangelhos e a insensibilidade do Filho de Deus que deixou afogar no mar os
indefesos animais. Marcos dá-nos conta do desespero dos próprios gerasenos perante
aquele “massacre” de consideráveis consequências económicas (a vara tinha cerca
de dois mil porcos), tendo suplicado a Jesus que abandonasse os seus territórios
(Marcos, 5-17). Assim, a alusão ao hermético episódio dos evangelhos e a
incompreensão dos pastores da Igreja (padre Serafim) perante a crise psíquica
do protagonista traduzem-se numa crítica aos que, confundidos por princípios
religiosos, abandonam os homens à solidão e ao sofrimento sem remédio. Aspecto
interessante deste conto é o facto de a narração se efectuar em registo epistolar
através de carta dirigida pelo protagonista à sua mulher, carta datada de
Rilhafoles, 13 de Maio de 2013 ( curioso, tanto o local como a data), não
faltando mesmo um post scriptum.
Finalmente, “Insanus”, o último conto que dá título à colectânea.
Neste texto, segundo um efeito de mise en
abyme, há um narrador que conta uma história sobre o autor-narrador dos
vinte e oito contos antecedentes. Mais uma vez, estão presentes as alusões a
lugares das Caldas da Rainha (fonte das Cinco Bicas) e da sua região (feira
medieval de Óbidos). É na noite da cidade termal, entre o «cheiro tépido de
cinza e enxofre», que ocorre a revolta das personagens contra o criador que
lhes deu a vida (vida de cão, como se lê em diversos contos). É grande o rol
das criaturas: «um tipo que cheira a cinza, um unicórnio, náufragos, suicidas,
uma mulher que tem o corpo do marido a apodrecer em casa, um pistoleiro sem
nome, dois pregadores, um surfista, etecetera, etecetera» – todas saídas das
páginas do livro. Protestam as infelizes por não lhes ter sido dada uma
existência decente, fazendo-as protagonistas de enredos tristes e desgraçados. O autor-narrador sente-se culpado, tem dúvidas
sobre a legitimidade das histórias e pensa em outras soluções que poderia ter
encontrado para não fazer tão infelizes as suas criaturas. Tomado pelas
dúvidas, talvez se tenha lembrado da conhecida frase de Nietzsche: «Não é a
dúvida, mas a certeza que nos torna loucos»
– ele que havia criado os seus contos
ao abrigo de uma frase peremptória sobre a insânia: I became
insane, with long intervals of horrible sanity. E sente-se aliviado quando por fim amanhece e as
personagens contestatárias desaparecem «para cumprir os enredos que são os seus
destinos».
Pela nossa parte, não
tendo motivo para recear personagens de ficção, ficamos a aguardar com
interesse os próximos contos de Carlos Querido.
10 dezembro 2017
Vichy em estilo vintage
Alguns postais ilustrativos das Termas de Vichy, que deixam perceber o ambiente de charme que se vive na história do Comissário Maigret ...
06 dezembro 2017
"Maigret nas Termas" de Georges Simenon, 29 de Dezembro às 21h00
"...
- Reparaste no número de calistas e de ortopedistas?
- Se toda a gente andar tanto como nós... !"
"Então Monsieur Maigret têm-no tratado bem, em Vichy? Até se esmeraram em arranjar-lhe um belo crime ..."
Apontamentos de humor em "Maigret nas Termas" de Georges Simenon
30 novembro 2017
DO OUTRO LADO DO ESPELHO
Exposição na Galeria Principal do Museu C. Gulbenkian. O tema é o espelho na Arte. Organizado em função de algumas ideias, deixa-nos a pensar nas possíveis e ausentes extensões de tema tão aliciante, que não se esgota, bem longe disso, no quadro desta exposição, nem sequer se esgota, naturalmente, no quadro das artes visuais (ou plásticas?). Mas ali, logo no segundo espaço expositivo, depara-se-nos O Espelho de Vénus, de Sir Edward Burne-Jones, da coleção do fundador neste mesmo Museu.
Ilustra a ideia "Quem sou eu?"O Espelho Identitário, na senda do mito de Narciso. Mas esta obra, uma pintura tão expressiva, faz-nos evocar uma leitura, Adoecer, de Hélia Correia, que lemos em setembro, e a saga liderada pelos Pré-Rafaelitas.
Ilustra a ideia "Quem sou eu?"O Espelho Identitário, na senda do mito de Narciso. Mas esta obra, uma pintura tão expressiva, faz-nos evocar uma leitura, Adoecer, de Hélia Correia, que lemos em setembro, e a saga liderada pelos Pré-Rafaelitas.
26 novembro 2017
Das boas surpresas
Alexandre, ascensorista
"São cinco metros do rés-do-chão ao primeiro piso, quatro até ao segundo, outros tantos até ao terceiro. Por dia são mais ou menos setenta viagens completas (treze metros), cinquenta até ao segundo piso (nove metros) e trinta até ao primeiro (cinco metros). Cerca de mil e quinhentos metros a subir e os mesmos a descer. Três mil metros por dia, dez mil e quinhentos por semana, quase três mil e duzentos quilómetros verticais por ano (descontando os dias de pouca afluência)..."
in "Se Eu Fosse Chão", de Nuno Camarneiro
A sessão de sábado de "O Escritor no seu Labirinto" com o Nuno Camarneiro, deu-me a conhecer o escritor. E que boa surpresa que está a ser este "Se Eu Fosse Chão". Histórias soltas, de hóspedes que vão passando pelos diferentes quartos de um hotel e outras, que nos apresentam alguns dos seus funcionários.
25 novembro 2017
Plano de leituras 2018
"La liseuse" H. Matisse 1895
1º Trimestre - Escritores Portugueses
26 Jan - A máquina de fazer espanhóis, de Valter Hugo Mãe
23 Fev - Nem todas as Baleias voam, de Afonso Cruz
23 Mar - Enseada amena, de Augusto Abelaira
2º Trimestre - Literatura do Mundo
27 Abr - O Deus das Pequenas Coisas, de Arundhati Roy
25 Mai - Os cadernos de Dom Rigoberto, de Mario Vargas Llosa
29 Jun - Mancha Humana, de Philip Roth
3º Trimestre - Literatura de Viagens
27 Jul - Viagens, de Marco Polo
31 Ago - Na Patagónia, de Bruce Chatwin
28 Set - O caminho imperfeito, de José Luís Peixoto
4º Trimestre - Nuestros Desconocidos Vecinos
26 Out - A Velocidade da Luz, de Javier Cercas
30 Nov - O pintor de batalhas, de Arturo Pérez-Reverte
28 Dez - Crónica do rei pasmado, de G. Torrente Ballester
22 novembro 2017
Conversas na biblioteca
No próximo Sábado, 25 de Novembro, pelas 16h00. Mais informação na Agenda Cascais:
http://www.cm-cascais.pt/evento/o-escritor-no-seu-labirinto-nuno-camarneiro
15 novembro 2017
CRIMES CAPITAIS
Primeiro foi o casal ilícito Magda Gomes da Luz e António Júlio dos Reis Lopes. Depois, o génio informático Illan Levan e a sua irmã Carolina. São muitos crimes juntos! Estou praticamente no fim da leitura, naquele ponto em que o inspector Jaime Ramos anda à procura de um jota. E que dizer da aparição do ex-ministro Carrilho? Não é que parece uma premonição das pulsões criminais da filosofante figura? Felizmente que nada se confirmou, era alguém que se mascarava de filósofo. Bem, não digo mais para não estragar a surpresa dos leitores.
03 novembro 2017
"Um Crime Capital" de Francisco José Viegas, 24 de Novembro às 21h00
O suicídio (ou a falta dele) e aponte
"... A ponte do Freixo não Isaltino. Um suicídio a sério precisa de cenário, de ambiente, de um certo ar romântico. Ninguém vai suicidar-se da Ponte do Freixo. Daqui a uns anos não digo que não, mas por enquanto aquilo é muito betão. Um suicídio no Porto precisa de um bocadinho de história, de sombras, de folhas mortas e até de gente à volta...."
in "Um Crime Capital" de Francisco José Viegas
25 outubro 2017
Perspicácia, meus senhores, perspicácia…
imagem da net
E quem é que a partir da observação de umas simples lunetas, consegue chegar a estas conclusões? Elementar meu caro Watson! Mr. Holmes, é claro!
“ … Deve procurar uma mulher
de bom porte, elegantemente vestida, com um nariz bastante largo e os olhos
juntos. Com a pele franzida, expressão inquisidora e provavelmente também um
pouco corcunda. Parece que visitou um oculista, duas vezes pelo menos, durante
os últimos dois meses, e, visto que as suas lentes são de considerável
graduação e os oculistas não são muitos, não será muito difícil localizá-la” …
in "A Aventura da Luneta de Ouro"
11 outubro 2017
"As Aventuras de Sherlock Holmes" de Arthur Conan Doyle - 27 de Outubro às 21h00
Então vamos lá testar os nossos dotes de detectives e o nível da nossa argúcia.
Em apreciação:
A Aventura dos Seis Napoleões
A Aventura da Escola da Abadessa
A Aventura da Luneta de Ouro
A Aventura de Abbey Grange
A Aventura dos Bonecos Dançantes
A Aventura da Casa Vazia
A Aventura da Ciclista Solitária
Todos incluídos no livrinho acima...
25 setembro 2017
JOHN RUSKIN EM "ADOECER"
John Ruskin, o influente crítico inglês, pintado por Millais junto das quedas de água dos Trossachs. Na verdade, o retrato só seria apurado em Londres, meses mais tarde. «Foi o trabalho mais odioso que fiz», confessou John Millais. Era no ano de 1854, o da anulação do casamento do crítico com a sua esposa Euphemie. Casamento não consumado. Entre a senhora Ruskin e Millais corria «uma linguagem eloquente», todos os sabiam. A inteligência e a carne têm destas coisas, não tentemos explicá-las.
22 setembro 2017
WILL YOU WALK INTO MY PARLOUR?
Uma das
muitas referências literárias contidas em Adoecer,
de Hélia Correia, é a do poema The
Spider and the Fly, de Mary Howitt (1799-1888), sobre uma aranha que
convida uma ingénua mosca a visitar a sua teia: «Will you walk into my
parlour?» Exemplo do método usado pelos sedutores para atingirem os seus
objectivos, a referência surge na parte da narrativa em que Lizzie permanecia “aprisionada”
na teia de Chatham Place e Gabriel, por imperativos da criação artística, partira para casa de
William Bell Scott em Newcastle. «A aranha do poema é masculina», diz-se no
texto de Hélia e vê-se na imagem.
20 setembro 2017
RED HOUSE, Bexleyheath, England
Significativa para a história da Arquitetura e do Design, a "Red House", situada em Bexleyheath, foi projetada em co-autoria pelo arquiteto Philip Webb e William Morris, fundador do movimento "Arts and Crafts". Construída em 1860, surgiu do desejo de Morris de viver numa casa rural, fora do ambiente insalubre de Londres, e corresponde às ideias que defendia, inspiradas num certo medievalismo, mas sustentando um retorno ao essencial, aos materiais primitivos e ao artesanato, como reação à prevista uniformização industrial, mas sobretudo ao gosto dominante, eivado de ecletismo e falho de caráter. Morris, assim como Ruskin (um dos muitos personagens de "Adoecer", de Hélia Correia) e seus seguidores, são considerados pioneiros do Movimento Moderno (Nicolaus Pevsner). Também aqui pontua o paradoxo, tema que não cabe agora tratar.
Alguns artistas pre-rafaelitas, protagonistas de "Adoecer" , nomeadamente Dante Gabriel Rossetti (e Edward Burne-Jones) colaboraram na decoração da casa de William Morris, subsistindo ainda pinturas murais deste último.
Atualmente, a casa está transformada em museu e centro de atividades:
https://www.nationaltrust.org.uk/red-house
12 setembro 2017
CRANBOURN ALLEY, 1850
O primeiro trabalho de Lizzie Siddal como modelo foi para o quadro de Walter Deverell inspirado em Twelfth Night, de W. Shakespeare, cena IV do segundo acto. A figura de Lizzie (Viola) surge à esquerda, disfarçada de rapaz, não passando despercebido o ruivo dos cabelos. No livro Adoecer, de Hélia Correia, é narrado o processo de recrutamento da jovem aprendiza de modista de chapéus, futura musa da Irmandade Pré-Rafaelita.
08 setembro 2017
“Adoecer” de Hélia Correia – 29 de Setembro às 21h00
Sinopse
“Havia nela como que uma falha que provinha talvez da exaustão e da deficiência alimentar, dando-lhe um ar furtivo, de gazela, que fez cair as apresentações.
Lizzie passou para detrás da porta abandonada que servia de biombo e regressou vestida de rapaz. Apanhara o cabelo sobre a nuca. Mostrava as pernas e isso produzia um curioso efeito assexuado. Gabriel adiantou-se e começou a ocupar-se da figura que faltava, não nos papéis de esboço, mas na tela. As personagens masculinas já se achavam muito avançadas. Ele posara para bobo. Os pré-rafaelitas provocavam situações de entreajuda em que existia, a par de exibição, sinceridade.
Deverell e Millais arrefeciam, de pé, imóveis e a perder entusiasmo. Viam em Lizzie a rapariga magra e de feições irregulares que até então não tinham visto. A narrativa de Walter, que avassalara o próprio narrador, deixava de exercer influência e a temperatura dos seus corpos ressentia-se. Esfregavam os braços, percebendo toda a impiedade do Inverno. Observavam Rossetti e Miss Sid que estavam sós, naquilo que talvez fosse o encontro do pintor com o modelo. Porém sentiam desconforto, como se presenciassem uma cena íntima.
Lizzie, que mantivera a posição sem vacilar nos dias anteriores, vergava as costas, inclinada para o chão. Era um abatimento poderoso sob o qual circulava alguma glória. John Everett Millais compreendeu a origem do fascínio de Miss Sid. Tinha um corpo selado na tragédia, um apetite sacrificial. "Hei-de pintar esta mulher", pensou. Imaginava-a num cenário de narcisos. Não sabia que estava a vê-la morta.”
16 agosto 2017
O MAR DOS AÇORES
Ilha de S. Miguel, fotografia de Dezembro de 2015
O MEU MUNDO NÃO É DESTE REINO, capítulo 3, exemplo de uma das diversas alterações introduzidas pelo autor na edição de 2015:
«Cadete
garantia, por um sofisma da sua mente complicada, que a cor do mar dos Açores
era o branco. Porém, as crianças sustentavam que não existia nenhuma cor para
definir a eternidade da água. A sua contínua convulsão, ao ser remexida pelos
ventos invernosos da Ilha, com o branco da espuma a sobrepor-se à cinza do
Inverno, fazia com que o mar se assemelhasse a uma contínua e laboriosa
sucessão de ninhos de répteis em movimento flutuante sobre as cristas das
águas. Mais parecia uma paisagem picotada a pontos brancos, em toda a extensão
visual. » ------- 8ª edição, revista e
reescrita pelo autor.
«Cadete garantia, por uma espécie de sofisma da sua mente
complicada, que o mar dos Açores era branco. Porém, as crianças sustentavam que
nenhuma cor deste mundo podia definir a eternidade da água, porquanto essa
contínua convulsão aproximava o seu aspecto não da saliva das cobras e dos seus
ninhos, mas da humidade sem cor de qualquer réptil. Era um mar de rodilhas, um
mar asmático, de lixívia em tecidos puídos e sem obra, e a sua magríssima água,
rochosa e salina, expelia para a terra uma respiração de sono sem pálpebras.»
------- edições anteriores.
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