09 junho 2018

LA BELLE DAME SANS MERCI

Ilustração de JOHN WILLIAM WATERHOUSE para o enigmático poema de JOHN KEATS.
Assim se vai fazendo a leitura de A Mancha Humana, de PHILIP ROTH. Uma mulher fogosa e um decrépito professor aposentado; a dama impiedosa e o cavaleiro ajoujado de anos: «Sou um homem de 71 anos com uma amante de 34, o que me incapacita, na comunidade de Massachussetts, de instruir seja quem for. Tomo Viagra, Nathan. Aí está  La Belle Dame sans Merci. Devo toda esta turbulência, toda esta felicidade, ao Viagra.» Aqui chegados, quem é esse Nelson Primus, advogado insípido que ainda não viu nada do mundo, para procurar cercear a sensual turbulência do classicista Coleman Silk? Leitura feita até às primeiras páginas do capítulo 2, "Jogo de Esquiva". Veremos o que nos reserva o adiantado da obra.



04 junho 2018

"A Mancha Humana" de Philip Roth, 29 Junho às 21h00


Ao acaso

" ... Nada dura e, todavia, nada acaba, também. E nada acaba precisamente porque nada dura..." 

in "A Mancha Humana" de Philip Roth

29 maio 2018

MÁRIO DE CARVALHO

O autor de "Casos do Beco das Sardinheiras", "A Inaudita Guerra da Avenida Gago Coutinho" e "Ronda das Mil Belas em Frol" tem novo livro de contos. O título é extraído de um poema de Mário Cesariny, podendo ler-se na sinopse da contracapa: « Um marido recalcitrante ludibriado pela esposa defunta; um casal num jantar de amigos, elas amigas íntimas dele; um recém-viúvo percorrendo a lista das suas conquistas mais assíduas (...)» Aqui, ao dar com as palavras «lista» e «conquistas», como que me soou uma campainha de alarme: veio-me à memória aquela epígrafe das "Belas em Frol" retirada do libreto de "Don Giovanni", de Mozart: « Osservate, leggete con me.» 
Listas e conquistas à parte, este é, provavelmente, um livro a propor para as leituras de 2019.`

21 maio 2018

03 maio 2018

DANDO CONTINUIDADE AO "ELOGIO..."

Para fazer o retrato íntimo de certos personagens e das suas relações especiais (para não as classificar de outro modo, fazendo juízos de valor), Vargas Llosa socorre-se da arte, de obras de arte sugestivas, que servem de mote ao desenvolvimento de algumas ideias (perniciosas?). Claro que, na sequência de "O Elogio da Madrasta", também vamos encontrar, desta feita, um artista cuja obra talvez não seja muito divulgada... pelos motivos que vamos descobrir! Mas sobre esse artista poderemos voltar a falar mais tarde. Por enquanto, quero partilhar a experiência de ter visto e fotografado ao vivo, na National Gallery em fevereiro último, uma das obras evocativas da nossa primeira leitura, "O Elogio...". Lembram-se?





01 maio 2018

02 abril 2018

"O Deus das Pequenas Coisas", de Arundhati Roy - 27 de Abril às 21h00


Abri o livro ao acaso e este parágrafo despertou-me a atenção:

" ... Pequenos acontecimentos, coisas vulgares, destruídas e reconstituídas. Investidas de novo significado. Subitamente tornam-se nos ossos descorados de uma história..."

in "O Deus das Pequenas Coisas", de Arundhati Roy

13 março 2018

FILOMENA MARONA BEJA

A escritora de "A Cova do Lagarto", "O Eléctrico 16", "Franceses, Marinheiros e Republicanos...", "Um Rasto de Alfazema" e "Avenida do Príncipe Perfeito" na Biblioteca Municipal de São Domingos de Rana. Sábado, 24 de Março, às 16 horas.


11 março 2018

"Enseada Amena" de Augusto Abelaira, 23 de Março às 21h00


A abrir

"Só agora Ana Isa dá por isso: o casaco de lã que, momentos antes, ao sentar-se muito cansada naquele banco da Avenida, pôs de lado ao alcance da mão, poderia parecer (a olhos estranhos) que guardava um lugar. Para um amigo? Uma amiga? Por exemplo (ideia que não lhe passou pela cabeça): um lugar para o Osório - o Osório que nesse preciso instante a observa, o Osório que duas ou três vezes já, nos últimos anos, a tem visto aqui ou ali, sentada ou a andar, e não vai ter com ela, o que é (ele bem o sabe) uma fuga..."

"Enseada Amena" de Augusto Abelaira

05 fevereiro 2018

"Nem Todas as Baleias Voam" de Afonso Cruz, 23 de Fevereiro às 21h00

Sinopse (na Wook)

Em plena Guerra Fria, a CIA engendrou um plano, baptizado Jazz Ambassadors, para cativar a juventude de Leste para a causa americana. É neste pano de fundo que conhecemos Erik Gould, pianista exímio, apaixonado, capaz de visualizar sons e de pintar retratos nas teclas do piano. A música está-lhe tão entranhada no corpo como o amor pela única mulher da sua vida, que desapareceu de um dia para o outro. Será o filho de ambos, Tristan, cansado de procurar a mãe entre as páginas de um atlas, que encontrará dentro de uma caixa de sapatos um caminho para recuperar a alegria. 


Entrevista ao autor aqui (blog literário da Wook)

12 janeiro 2018

Encontros inesperados

Teofilo Cubillas

"Teofilo Cubillas, o peruano sorridente. Isaltino de Jesus pasmou perante o poster e não queria acreditar. Era o Teofilo Cubillas a sorrir exactamente no mesmo poster que o Norte Desportivo oferecera aos portistas devotos nos idos anos setenta do século passado...............................
Durante décadas enquanto Isaltino discutia no gabinete do seu chefe as estratégias dos casos que investigavam, via um poster de Cubillas exactamente igual àquele, colado na parede com pedacinhos de fita-cola, acusando inúmeros rasgões, já sem pontas, cheio de vincos de mil dobras diferentes, motivadas por arquivamentos esquecido no tempo e com manchas de fumo, deixadas ali pelos charutos da praxe do inspector... "

in Capítulo cinco de "a máquina de fazer espanhóis", de Valter Hugo Mãe.

E quando menos se espera, damos de caras com os nossos conhecidos inspector Jaime Ramos e agente Isaltino de Jesus, com quem nos cruzámos em Novembro passado, no decorrer de "Um Crime Capital" de Francisco José Viegas. A ver vamos como se dão com os residentes do lar feliz idade...

06 janeiro 2018

05 janeiro 2018

"a máquina de fazer espanhóis" de Valter Hugo Mãe, 26 Janeiro às 21h00


" ... naquela tarde o carteiro chegou e encostou a bicicleta no lugar de sempre e foi ao encontro do américo que andava cima e baixo a passear os velhos, o carteiro entregou ao américo um molho de cartas onde estava a que eu falsificara cuidadosamente para a dona marta. levei umas horas a redigir aquela carta. não porque fosse longa, que não era, era breve como tudo, mas porque era importante que dissesse algo bem pensado, algo para lhe fazer um agrado, uma carta segura com garantias de fornecer alegria à velha calada..."

in "a máquina de fazer espanhóis" , capítulo nove "o tempo não é linear", de Valter Hugo Mãe

28 dezembro 2017

A FEBRE DE SENTIR

«Vivo uma era anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele. Por ali arrasto, até haver noite, uma sensação de vida parecida com a dessas ruas. De dia elas são cheias de bulício que não quer dizer nada; de noite são cheias de uma falta de bulício que não quer dizer nada. Eu de dia sou nulo, e de noite sou eu.»

14 dezembro 2017

INSANUS OU A INSÂNIA DO QUOTIDIANO

Insanus, de Carlos Querido, é um livro de contos editado em Julho deste ano pela Abysmo. Anteriormente, o autor publicara Salir de Outrora (2007), Praça da Fruta ( 2009), A Redenção das Águas (2013) e Príncipe Perfeito-Rei Pelicano, Coruja e Falcão (2015). Se o primeiro destes livros se apresenta como uma pesquisa em torno de documentos históricos relativos aos coutos do Mosteiro Cisterciense de Alcobaça, Praça da Fruta é uma narrativa cuja acção decorre nos nossos dias, remetendo embora para os marcos históricos fundamentais das Caldas da Rainha (em cuja região nasceu e reside o autor), enquanto os dois últimos livros são romances históricos em torno das figuras reais de D. João V e D. João II, ambas com ligações conhecidas ao burgo caldense.
O conto, género literário agora trabalhado pelo autor, radica «em ancestrais tradições culturais que faziam do ritual do relato um factor de sedução e de aglutinação comunitária» (Dicionário de Narratologia de Carlos Reis e Ana Cristina M. Lopes), processo bem patente em duas obras da tradição europeia: Decameron, de Boccaccio (séc. XIV), e Heptameron, de Margarida de Navarra (séc. XVI). É caracterizado pela concisão, brevidade e unidade de efeito (Allan Poe). Certa crítica realça-lhe a capacidade de criar uma atmosfera em detrimento da acção.
Os contos de Insanus não têm uma leitura linear e unívoca. Há a considerar uma história de superfície (em que o estranho ou o fantástico quase sempre imperam) e outra escondida, de segundo nível, a que não se acede directamente. Neste sentido, é compreensível que a epígrafe da colectânea tenha sido retirada de Edgar Allan Poe, autor de contos fantásticos e teorizador do género literário short story. São vinte e nove contos narrados na primeira e na terceira pessoa com as vozes das personagens fundidas no discurso do narrador. Tratando-se de contos curtos (entre duas a sete páginas), estabelece-se um relação próxima com o poema, o fragmento e até o sketch, tendo em conta o humor amargo que transparece em alguns deles. As marcas da ambiguidade e do inesperado estão presentes nas alusões aos universos paralelos e às dicotomias sombra/luz e mundo real/mundo fictício. A referência em diversos textos à figura da “Repartição”, opressora e castradora dos sonhos das personagens, sugere a dimensão do desejo irrealizado face ao desencanto da vida quotidiana, trazendo à lembrança o poema “O Funcionário Cansado”, de António Ramos Rosa, do livro Viagem através de uma Nebulosa (1960): «Sou um funcionário apagado / um funcionário triste / a minha alma não acompanha a minha mão» – da mesma forma que a sombra não acompanha o corpo da personagem do conto “Sombras”, antes se solta dele num registo paradoxal e inquietador.      
Não sendo possível abordar todos os textos da colectânea, referir-nos-emos de forma breve a “MitoLógico”, “Legião é o Meu Nome” e “Insanus”.
“MitoLógico” retoma a imagem do unicórnio de Júlio Pomar, pintura realizada em 1955 para o Café Central das Caldas da Rainha, já referida pelo autor em Praça da Fruta. Porém, a atenção do leitor é conduzida neste conto para a lição de Kafka, precisamente a que é dada em A Metamorfose. Com uma diferença assinalável: se o infeliz Gregor Samson não encontra forma de resolver a sua monstruosa transformação, acabando por morrer para alívio de toda a família, a inominada personagem de “MitoLógico” descobre talvez a salvação no relacionamento com a sua colega de curso. Neste sentido, apesar do final ambíguo, regista-se uma mensagem que diríamos de esperança. História de recorte fantástico, deve ser vista com mais propriedade na sua dimensão metafórica e simbólica. O género conto, pela concisão e brevidade, presta-se à transmissão de um conceito moral ou um exemplo. Vários títulos testemunham esta aptidão que lhe é normalmente reconhecida: Contos & Histórias de Proveito & Exemplo (Gonçalo Fernandes Trancoso), Novelas Exemplares (Cervantes), Contos Exemplares (Sophia). Em “MitoLógico” há indiscutivelmente uma história de proveito e exemplo: a do adolescente incompreendido pelos seus progenitores, o recurso a psicólogos para suprir as consequências da falta de amor, a necessidade de encontrar fora da família, entre os da sua idade, o amparo que lhe falta em casa. Há aqui, sob a narrativa de superfície, uma mensagem não explícita para o leitor desvendar. Aliás, a introdução da letra capital L no cerne do título, desintegrando a estrutura semântica do vocábulo e transformando-o no sintagma “mito lógico”, estabelece um paradoxo indiciador de que muito mais há a ler e a compreender para além da peripécia do aparecimento do corno na testa do protagonista.
“Legião É o Meu Nome” representa, de certa fora, um diálogo intertextual com o episódio do geraseno endemoninhado, segundo os evangelhos de Marcos, Mateus e Lucas. De que maneira pode aceitar um defensor dos direitos dos animais, como é o caso do protagonista do conto, o sacrifício da vara de porcos a que se acolheu, por vontade de Jesus, a legião de demónios? O conto questiona a mensagem dos evangelhos e a insensibilidade do Filho de Deus que deixou afogar no mar os indefesos animais. Marcos dá-nos conta do desespero dos próprios gerasenos perante aquele “massacre” de consideráveis consequências económicas (a vara tinha cerca de dois mil porcos), tendo suplicado a Jesus que abandonasse os seus territórios (Marcos, 5-17). Assim, a alusão ao hermético episódio dos evangelhos e a incompreensão dos pastores da Igreja (padre Serafim) perante a crise psíquica do protagonista traduzem-se numa crítica aos que, confundidos por princípios religiosos, abandonam os homens à solidão e ao sofrimento sem remédio. Aspecto interessante deste conto é o facto de a narração se efectuar em registo epistolar através de carta dirigida pelo protagonista à sua mulher, carta datada de Rilhafoles, 13 de Maio de 2013 ( curioso, tanto o local como a data), não faltando mesmo um post scriptum.   
Finalmente, “Insanus”,  o último conto que dá título à colectânea. Neste texto, segundo um efeito de mise en abyme, há um narrador que conta uma história sobre o autor-narrador dos vinte e oito contos antecedentes. Mais uma vez, estão presentes as alusões a lugares das Caldas da Rainha (fonte das Cinco Bicas) e da sua região (feira medieval de Óbidos). É na noite da cidade termal, entre o «cheiro tépido de cinza e enxofre», que ocorre a revolta das personagens contra o criador que lhes deu a vida (vida de cão, como se lê em diversos contos). É grande o rol das criaturas: «um tipo que cheira a cinza, um unicórnio, náufragos, suicidas, uma mulher que tem o corpo do marido a apodrecer em casa, um pistoleiro sem nome, dois pregadores, um surfista, etecetera, etecetera» – todas saídas das páginas do livro. Protestam as infelizes por não lhes ter sido dada uma existência decente, fazendo-as protagonistas de enredos tristes e desgraçados.  O autor-narrador sente-se culpado, tem dúvidas sobre a legitimidade das histórias e pensa em outras soluções que poderia ter encontrado para não fazer tão infelizes as suas criaturas. Tomado pelas dúvidas, talvez se tenha lembrado da conhecida frase de Nietzsche: «Não é a dúvida, mas a certeza que nos torna loucos»   ele que havia criado os seus contos ao abrigo de uma frase peremptória sobre a insânia:  I became insane, with long intervals of horrible sanity. E sente-se  aliviado quando por fim amanhece e as personagens contestatárias desaparecem «para cumprir os enredos que são os seus destinos».
Pela nossa parte, não tendo motivo para recear personagens de ficção, ficamos a aguardar com interesse os próximos contos de Carlos Querido.
 
 
 
 

10 dezembro 2017

Vichy em estilo vintage

 
 
 
 
 

Alguns postais ilustrativos das Termas de Vichy, que deixam perceber o ambiente de charme que se vive na história do Comissário Maigret ...

06 dezembro 2017

"Maigret nas Termas" de Georges Simenon, 29 de Dezembro às 21h00



"... 
- Reparaste no número de calistas e de ortopedistas?
- Se toda a gente andar tanto como nós... !"

"Então Monsieur Maigret têm-no tratado bem, em Vichy? Até se esmeraram em arranjar-lhe um belo crime ..."

Apontamentos de humor em "Maigret nas Termas" de Georges Simenon

30 novembro 2017

DO OUTRO LADO DO ESPELHO

Exposição na Galeria Principal do Museu C. Gulbenkian. O tema é o espelho na Arte. Organizado em função de algumas ideias, deixa-nos a pensar nas possíveis e ausentes extensões de tema tão aliciante, que não se esgota, bem longe disso, no quadro desta exposição, nem sequer se esgota, naturalmente, no quadro das artes visuais (ou plásticas?). Mas ali, logo no segundo espaço expositivo, depara-se-nos O Espelho de Vénus, de Sir Edward Burne-Jones, da coleção do fundador neste mesmo Museu.
Ilustra a ideia "Quem sou eu?"O Espelho Identitário, na senda do mito de Narciso. Mas esta obra, uma pintura tão expressiva, faz-nos evocar uma leitura, Adoecer, de Hélia Correia, que lemos em setembro, e a saga liderada pelos Pré-Rafaelitas.


26 novembro 2017

Das boas surpresas


Alexandre, ascensorista

"São cinco metros do rés-do-chão ao primeiro piso, quatro até ao segundo, outros tantos até ao terceiro. Por dia são mais ou menos setenta viagens completas (treze metros), cinquenta até ao segundo piso (nove metros) e trinta até ao primeiro (cinco metros). Cerca de mil e quinhentos metros a subir e os mesmos a descer. Três mil metros por dia, dez mil e quinhentos por semana, quase três mil e duzentos quilómetros verticais por ano (descontando os dias de pouca afluência)..."

in "Se Eu Fosse Chão", de Nuno Camarneiro

A sessão de sábado de "O Escritor no seu Labirinto" com o Nuno Camarneiro, deu-me a conhecer o escritor. E que boa surpresa que está a ser este "Se Eu Fosse Chão". Histórias soltas, de hóspedes que vão passando pelos diferentes quartos de um hotel e outras, que nos apresentam alguns dos seus funcionários.