ADOLPHE-WILLIAM BOUGUEREAU (1825-1905), Jovem defendendo-se de Cupido
NAS ERVAS
Escalar-te lábio a lábio,
percorrer-te: eis a cintura,
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso,
descer aos flancos, enterrar
os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta
aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão
porque é terrível
subir assim às hastes da loucura,
de fogo descer à neve,
abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho –
a glande leve.
EUGÉNIO DE ANDRADE, Variações Sobre um Corpo, antologia de
poesia erótica contemporânea, Porto, Editorial Inova, pp. 37 e 38.
