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28 dezembro 2025

Balanço Anual e Feliz 2026

 

(imagem da net)

2025 começou com o habitual ágape anual da Comunidade, desta vez um almoço de Dia de Reis. Um convívio de celebração de amizade, de partilha de muitas conversas sobre livros, música, cinema e as artes em geral.

O 1º Trimestre veio com o mote “Nascidos há 100 anos” e por isso janeiro trouxe José Cardoso Pires e o seu corrosivo “Dinossauro Excelentíssimo”.  Uma sátira ácida, de humor negro, de ironia intensa. Se por um lado se pode considerar um retrato de Salazar, num formato muito cáustico, mas a deixar alguma amargura nas entrelinhas, pode também sentir-se de uma forma mais livre a representação de qualquer ditadura. Apesar de se poder referir que é um livro datado, foram encontrados muitos paralelismos com a atual situação mundial (líderes políticos centralizadores que com discursos populistas começam a arrastar multidões). As ilustrações de João Abel Manta fizeram lembrar as atuais novelas gráficas. 21 leitores presentes dos quais apenas 3 não tiveram oportunidade de ler o livro. 

Fevereiro deu luta com os contos da Flannery ’Connor, incluídos no seu “Um Bom Homem é Difícil de Encontrar”. Histórias que nos apresentaram personagens assustadoras que roçam o grotesco, o selvagem, o sádico, mas também o cómico. Histórias passadas no ambiente rural do sul da América com muitas personagens femininas de carácter dominador, mas que acabam por ser enganadas pelas personagens masculinas que se revelam cruéis e manipuladoras. Uma escrita gótica que nos deixa numa tensão inquietante à medida que se avança na leitura, acabando sempre por nos surpreender com os seus finais inesperados. Uma escrita muito boa que seduziu a maior parte dos leitores, deixando alguns (poucos) inquietos e sem vontade de repetir. 25 presenças, onde só 1 leitor leu apenas 1 conto. 

A terminar o trimestre, março trouxe-nos “O Templo Dourado” de Yukio Mishima, o que nos fez mergulhar numa muito tradicional cultura nipónica. Acompanhámos Mizoguchi, um jovem atormentado pela gaguez e pela solidão em luta constante com o mundo exterior que nunca encontra o seu espaço, estando sempre à beira do vazio. No fio condutor da narrativa encontra-se o templo Rokuon-ji “uma estrutura delicada, sombria e repleta de dignidade”, cujos alicerces sustentam todo o peso de uma era que já não existe. Fascinado pela beleza do templo e pelos valores que ele representa, Mizoguchi luta para se libertar do domínio absoluto que esse monumento exerce sobre sua vida. Alguns leitores consideraram uma leitura ensaísta e filosófica outros um romance histórico. Entre outros, falou-se de um triângulo de infortúnio: valorização da beleza, do conhecimento e da ética e amor.  Alguém referiu uma impotência afetiva provocada pela gaguez e uma visão negra sobre algo idealizado. Leituras diferentes e um ponto comum, a beleza da escrita. Um romance do agrado geral dos 21 leitores presentes, em que 2 que não tiveram oportunidade de ler.

O segundo trimestre chegou sob o desafio “Romance, para que te quero?”. Começámos em abril, mês de celebração da Liberdade, com “Não há Morte nem Princípio” de Mário Dionísio. Os 14 leitores presentes, dos quais 3 não leram o romance, encontraram pela frente uma leitura desafiante. Esse foi um ponto comum na discussão. Todos gostaram de ler, mas com alguma dificuldade no entendimento das ideias do escritor. Colocaram-se, no entanto, várias e interessantes questões: é um romance neorrealista? Existencialista? De reflexões filosóficas? Foi escrito no âmbito do movimento “Nouveau Roman”? Alguém disse que, enquanto vai lendo, o leitor constrói o romance realçando um eterno retorno. Durante a sessão leram-se ainda alguns dos poemas de Mário Dionísio. 

A 30 de maio, lemos “Baumgartner” de Paul Auster. O último livro do escritor, publicado poucos meses antes de sua morte, narra a história de Sy Baumgartner, explorando uma vida definida pelo profundo amor à sua mulher Anna, com quem esteve casado durante 40 anos e pela partilha da beleza das pequenas coisas do dia a dia. É um romance que nos envolve na velhice e nos fantasmas do passado. Do muito que se falou ficaram algumas questões relativas ao romance, mas que se poderiam colocar a qualquer um de nós: seriam as memórias de Baumgartner coincidentes com as de Anna? E de que são feitas as nossas próprias memórias? O que lembramos? O que esquecemos? De que são feitas as histórias pessoais de cada um? A escrita fluida e bonita de Auster foi unanimemente elogiada, embora houvesse um sentimento partilhado de que algo faltava em termos de profundidade, uma característica tão presente nos seus outros romances. Levantou-se a hipótese de que esta perceção pudesse estar ligada ao seu estado de saúde e à consciência da sua mortalidade iminente. Entre os 18 leitores presentes (2 que não leram), alguns expressaram uma ligeira deceção. No entanto, a maioria reconheceu e apreciou a escrita dinâmica e cativante do autor. 

Em junho e a terminar o trimestre lemos “A Cidadela Branca” de Orhan Pamuk, que nos trouxe uma história passada no século XVII, onde um jovem estudante italiano que viajava tranquilamente de Veneza para Nápoles, foi capturado por piratas turcos, sendo vendido mais tarde como escravo a um cientista turco, conhecido como o Mestre e estranhamente parecido com o jovem. Seguiram-se anos de troca de troca de conhecimentos e culturas, com um final surpreendente em que ambos acabam a trocar de personalidade e de vida.  Romance do agrado geral dos leitores que levantou questões de introspeção, da relação do eu com o outro, do amor / ódio, da atração oriente / ocidente e da progressão com as aprendizagens de cada um. 16 leitores presentes e 1 que não leu. 

O 3º Trimestre teve como tema “Romancistas Prémio Camões”, pelo que julho trouxe “Leite Derramado” de Chico Buarque, onde é construída uma saga familiar, caracterizada pela decadência social e económica, tendo como pano de fundo a história do Brasil dos últimos dois séculos. Uma escrita muito própria, onde se identifica a genialidade da poesia de Chico, o romance trouxe emoções tão diversas como o amor, a posse, o ciúme, a inveja, a solidão e a tristeza e sobretudo os efeitos da memória na recordação da história. 17 pessoas presentes e 4 que não leram. 

Em agosto, lemos o doce Mia Couto com o seu “Compêndio para Desenterrar Nuvens”. Na Bertrand Livreiros online, o livro vem com o seguinte diagnóstico: Indicado para: combater processos de desumanização, injustiça, extremismo/fanatismo religioso, desigualdade, exclusão, ciúme, humilhação, ódio e formas diversas de violência; aliviar tiques de snobismo, arrivismo e excesso de correção política; amparar quadros de envelhecimento, luto, orfandade, saudade, solidão ou desenraizamento; Efeitos secundários: recuperação de memórias remotas; possível nostalgia; sentimentos de ternura, carinho, aconchego, solidariedade, sororidade, empatia e compaixão; predisposição para a amizade, o amor, o diálogo, o riso, o perdão e a paz; acréscimo de resiliência; Posologia: Leitura de um conto por dia, à hora de almoço.” 

Estiveram presentes 21 leitores, dos quais 4 não leram o livro. Quem leu só teceu elogios. 

A terminar o trimestre, setembro chegou com “Maina Mendes” de Maria Velho da Costa. Um romance que nos traz uma mulher silenciada num mundo de homens e dos homens. Que se impõe a si própria um silêncio, numa mudez introspetiva, levando a sua voz apenas ao mundo dos sonhos, onde aí pode ser ouvida de forma justa. Um livro de difícil leitura face ao experimentalismo linguístico utilizado pela escritora. A maior parte dos 16 leitores presentes, sentiu desconforto por não compreender o puzzle em que a leitura se tornava. Era necessário desconstruir para depois se compreender. Ficou um sentimento de que é um romance direcionado a uma muito específica faixa de leitores. Mesmo assim houve quem considerasse o livro, um poema e quem conseguisse fazer um Haiku a seu propósito. 

O último trimestre do ano englobou outros géneros, sendo o primeiro a poesia. Assim em outubro lemos “Homem de Palavra(s)” de Ruy Belo. Partindo do seu olhar sobre aquilo que o rodeia, o autor constrói os seus poemas entre o real e a imaginação habitada pelo que lê e observa. Alguém disse que é a arte da escrita no quotidiano, numa utilização acertada das palavras. Um poeta desigual, mas não irregular. Foi uma escolha que agradou aos 14 leitores presentes sendo que 3 não conseguiram acabar de ler.  

Realizou-se em novembro, na Biblioteca Central de Almada, o 2º Encontro dos Grupos de Leitores da Rede de Bibliotecas Municipais da Área Metropolitana de Lisboa e, pela segunda vez, a nossa Comunidade foi convidada a fazer-se representar. Esteve presente um pequeno grupo dos nossos leitores, cabendo-me a mim, desta vez, o convite para estar na mesa. Para além da nossa Comunidade, estiveram presentes grupos e comunidades de leitores do Barreiro, do Feijó, de Loures, da Maia, de Oeiras e da Quinta do Anjo (Palmela). O encontro foi um agradável espaço de partilha, onde os membros e dinamizadores dos diversos grupos de leitura, apresentaram as suas melhores práticas e desafios enfrentados na dinamização das suas comunidades, tendo ficado mais uma vez evidente, o potencial destas comunidades de leitores como catalisadores para o fomento e dinamização dos livros e da leitura. 

A leitura neste mês de novembro focou-se em “Ferreira de Castro, Uma Biografia” de Ricardo António Alves. A sessão que contou com a presença de 25 leitores, teve também a participação do autor que nos falou da vida e obra do escritor Ferreira de Castro, focando-se, nos anos de 1898 a 1919, período abrangido neste primeiro volume. Entre perguntas e respostas percorremos os diferentes romances do escritor e viajámos pelo Brasil, com particular destaque nos 4 anos passados no seringal “Paraíso” em plena floresta amazónica.

E finalmente dezembro chegou e veio com uma tragédia grega “Antígona”, escrita por Sófocles por volta de 441 a.C.. É uma das obras mais influentes do teatro grego e encerra a trilogia de Tebas (embora tenha sido a primeira a ser escrita), focando-se no conflito insolúvel entre a lei humana e a lei divina. A destacar a submissão imposta às mulheres num estado dominado pelos homens, a luta individual contra o poder do estado, o orgulho excessivo que leva à catástrofe e uma maldição (destino) a que não se pode escapar. Uma leitura diferente, mas do interesse dos 20 leitores presentes onde apenas 2 não acabaram de ler. 

E assim terminamos mais um ano de leituras partilhadas e estimulantes, ótimas discussões e troca de conhecimento, tudo com muito entusiasmo. Também durante este ano demos as boas-vindas a novos leitores, uns de forma pontual e outros acabando por se tornar membros assíduos desta Comunidade. Continuamos a registar uma boa média de presenças. Neste ano andámos entre o mínimo de 14 e o máximo de 25 leitores por sessão.

De novo uma palavra de agradecimento para a Biblioteca de São Domingos de Rana e os seus responsáveis que continuam a acolher-nos, disponibilizando o espaço para as nossas reuniões. 

Bom Ano 2026!

30 dezembro 2024

Balanço Anual e Feliz 2025

 

2024 começou com o habitual jantar anual da Comunidade que teve lugar no Dia de Reis. Celebrámos a chegada de tão emblemáticas majestades e celebrámos, sobretudo, o nosso amor pelos livros e tudo o que vem no seu caminho.

O primeiro trimestre recebeu o mote “Talvez Romance Histórico” e por conta disso o mês de janeiro começou em grande: “Um Deus Passeando pela Brisa da Tarde” do escritor Mário de Carvalho fez as delícias de todos e foram muitos os que leram e estiveram presentes nesta sessão: 28 leitores! Numa autêntica jornada pela língua portuguesa, o escritor apresenta-nos o dia a dia da fictícia cidade romana de Tarcisis, mas que mostra toda a estrutura e organização sociopolítica de uma qualquer real cidade romana. Os acontecimentos descritos decorrem no séc II e são-nos expostos pela voz de Lúcio Valério, magistrado da cidade, um homem bom que tenta desenvolver o seu trabalho de forma justa, mas sem deixar de corresponder à ordem emanada de Roma, numa época em que os primeiros grupos de Cristãos se começam a manifestar, colocando em causa tudo o que até aí era norma em termos de Deuses e religiões. Uma imensa riqueza de detalhes, fazem do romance quase que um manual de história sobre a civilização romana.   

Logo no início de fevereiro, alguns dos nossos leitores marcaram presença no Supremo Tribunal de Justiça, para a apresentação do romance “Alegações Finais” do nosso conhecido e estimado Carlos Querido. Durante a sua intervenção, o escritor aludiu à nossa Comunidade de Leitores e à nossa participação em anteriores sessões sobre obras suas, nomeadamente as que tiveram lugar na Feira do Livro em torno do romance histórico “A Redenção das Águas” e da coletânea de contos “Habeas Corpus”. Ficou no ar a possibilidade de o convidarmos a participar numa futura sessão, sobre este seu último romance.

O livro do mês remeteu-nos para a II Guerra Mundial e a participação de um grupo de mergulhadores de combate da Regina Marina italiana neste conflito. “O Italiano” de Arturo Pérez-Reverte trouxe-nos a história dos Maiali, autênticos torpedos humanos que detonaram vários navios aliados no Mediterrâneo. O enredo conta-nos a história da livreira Elena Arbuès e do seu envolvimento com o oficial Teseo Lombardo e a ação desenrola-se na Baía de Algeciras e no Rochedo de Gibraltar. Baseado em facto reais esta história aparece-nos sobre a perspetiva do lado contrário aos aliados, o que não é muito comum, trazendo à superfície o facto dos bons não estarem todos do lado ganhador nem os maus do lado perdedor. Um romance muito bem escrito com algumas descrições quase cinematográficas, deu-nos a conhecer um lado pouco falado da guerra. 25 pessoas presentes e 5 que não leram.

Março começou bem, logo no dia 1, com a apresentação do livro de poesia “Pó Ético” da nossa companheira de leituras Marta Meireles. Um momento bonito partilhado por familiares, amigos, alunos e muitos dos membros desta Comunidade. Ficámos a conhecer as palavras que escreve de forma interventiva, ora mordaz ora irónica, divertida, inteligente, acutilante e muito inconformada. Que boa surpresa que foi!

A meio do mês mais uma atividade fora de portas: manhã de poesia no Cemitério dos Prazeres, onde homenageámos alguns dos poetas, ali eternamente residentes: Mário Cesariny, Jorge de Sena, Cesário Verde, Al Berto, António Ramos Rosa e Alcipe, Marquesa de Alorna. Com um programa bem delineado e coordenado pelo Manuel Nunes e pela Paula Silva, para além de ficarmos a saber um pouco mais da vida daqueles poetas, foram ditos vários dos seus poemas pelos nossos inspirados leitores. Uma bonita manhã de quase Primavera que terminou com mais um salutar almoço convívio.

O autor do mês foi Alves Redol com o livro “Os Reinegros”. Publicado 3 anos depois da sua morte, o romance neorrealista debruça-se mais uma vez sobre as vidas sofridas dos mais desfavorecidos. Um romance urbano, passado nos tempos conturbados e febris da implantação da primeira república, oferece-nos algumas personagens de grande densidade psicológica, nomeadamente Alfredo e Luísa, o casal Reinegros. Uma luta constante, mas algo inglória, contra a miséria, a pobreza e o surgimento do que se pode chamar de consciência política e social, foram os temas centrais da trama. 21 leitores, dos quais 3 não leram, proporcionaram uma discussão bem viva e entusiasmante.

Para o segundo trimestre o mote foi “Nos 50 Anos do 25 de Abril”. Em consonância entrámos em abril com “Portugal, a Flor e a Foice” de J. Rentes de Carvalho. Um mergulho em alguns factos da nossa história, com a desconstrução de mitos e dados tidos como adquiridos e uma visão muito crítica sobre a revolução dos cravos, os seus antecedentes e consequências. Um olhar de fora para dentro, de alguém que vivendo a maior parte da sua vida nos Países Baixos, beneficiou necessariamente de uma aculturação muito própria. Estiveram presentes 18 leitores (3 que não leram o livro), numa sessão muito animada, a qual contou com poemas e uma instalação comemorativa da Liberdade.

Maio trouxe de novo Agustina Bessa-Luís e o seu “Os Meninos de Ouro”. A escritora raramente é consensual e numa avaliação mais radical, está um pouco na onda do “ou se ama ou se odeia”. Mas que a sua escrita é intemporal, ninguém duvida. Com este romance as opiniões voltaram a dividir-se e houve quem gostasse muito e quem se tivesse arrastado na leitura.  A história desenrola-se em torno de José Matildes, menino de uma grande e tradicional família do Douro, homem político no pós-revolução e advogado de formação, que enquanto se dedica à sua atividade política, contradizendo a sua carga de homem extremamente rígido nos seus valores morais, acaba por abandonar a sua mulher Rosamaria, juntando-se a Marina, uma mulher sofisticada, em quem José projeta a sua ânsia de libertação dos seus fantasmas. José é facilmente identificado como o malogrado primeiro ministro de Portugal, Sá Carneiro. Estiveram presentes 18 elementos e 7 não leram ou não terminaram a leitura.

Junho, foi mês de feira do livro em Lisboa, com diversas atividades aliciantes para os leitores e também o términus do trimestre comemorativo da revolução, com “Os Memoráveis”, de Lídia Jorge. Um romance bem recebido por todos, que nos devolveu à memória acontecimentos que não devem ser esquecidos. Através do olhar de três jovens e a partir de uma fotografia de grupo, embarcamos numa viagem evocativa dos caminhos da revolução dos cravos, através de um conjunto de entrevistas às pessoas que nela constam, todos com um papel mais ou menos relevante nos acontecimentos daquela “bela madrugada que tantos esperavam”. Houve quem visse uma visão melancólica da revolução com alguma ambiguidade e ironia. Quem dissesse que trocava a melancolia pelo desencanto. Quem sentisse algum desalento, mas mesmo assim uma esperança. E todos tentaram identificar as personagens ficcionais com as personagens reais dos acontecimentos. Foi uma sessão bonita em que estiveram presente 21 elementos, dos quais 3 não leram o livro.

O 3º Trimestre veio sob o mote - Romance! Romance! Romance! – pelo que, em julho, chegou “Justine” de Lawrence Durrel. Sendo o primeiro dos quatro romances que formam “O Quarteto de Alexandria”, esta foi uma leitura que alguns consideraram de excessos até mesmo a roçar o barroco. Encontros e desencontros de um grupo de pessoas relacionadas entre si sob diferentes formas: amizade; amor; paixão e mesmo ódio, tendo como personagem central a excêntrica e algo decadente cidade de Alexandria. Justine, mulher exótica, linda, rica, misteriosa e judia, com um passado doloroso, é a personagem em torno de quem gravitam homens e mulheres eroticamente obcecados por ela que, por sua vez os usa para saciar os seus próprios demónios. Entre os que gostaram muito e os que nem por isso, apenas 2 dos 19 presentes não leram ou não acabaram.

Agosto é por sinónimo, mês de férias. Talvez por isso, surgiu uma leitura mais leve do que o habitual. “Praça do Rossio, Nº 59” de Jeannine Johnson Maia, trouxe-nos um tema muito sério e importante, mas apresentado de uma forma ligeira. Em 1940, numa cidade de Lisboa, então uma placa giratória para a saída daqueles que fugiam da Guerra, desenrola-se durante 9 dias, uma história romanceada entre os jovens António, português, empregado de mesa no café Chave d’Ouro e carteirista nas horas vagas e Claire uma refugiada franco-americana que chega à estação do Rossio, em trânsito para apanhar um barco para a América. As suas vidas cruzam-se numa intriga de espionagem e política numa Lisboa salazarista, supostamente neutra, mas…onde ninguém está seguro, sobretudo os que estão do lado certo da guerra. 20 leitores presentes, tendo todos lido o romance e considerado uma leitura agradável apesar da sua ligeireza.

Em setembro conhecemos a escrita de Javier Marías e o seu “Berta Isla”. Uma avalanche de reflexões, uma avalanche de parágrafos, uma avalanche de palavras. Uma imensa densidade de escrita, transporta-nos através da vida de Berta Isa e do seu muito ausente marido Tomas Nevinson. Um ambiente de espionagem, de suposições, de mil perguntas e poucas ou quase nenhumas respostas.  Aprender a viver com a espera e construirmos o nosso eu através dela. Foi muito do agrado das 25 pessoas presentes, das quais, 4 não conseguiram ler ou acabar de ler o livro.

Entrámos no último trimestre do ano sob o mote “Outros Géneros”. Assim, Outubro trouxe-nos o conto de Karen Blixen “A Festa de Babette”. Parafraseando o nosso coordenador Manuel Nunes este é “…um conto de proveito e exemplo. Proveito por nos instruir sobre tantas coisas da vida, exemplo por nos indicar caminhos a seguir, e isto sem deixar de nos deleitar pelos lances curiosos e engraçados com que nos deparamos ao longo do texto…”. Uma escrita suave e encantadora, uma história que celebra a vida e que reconcilia. Um prazer imenso na leitura, foi a conclusão dos 22 leitores presentes, onde apenas 1 não teve oportunidade de ler.

Em novembro, um pequeno grupo da nossa Comunidade, esteve na Biblioteca Central de Almada, a propósito da programação relativa à comemoração do seu 27º Aniversário, que incluiu o 1º Encontro dos Grupos de Leitores da Rede de Bibliotecas Municipais da Área Metropolitana de Lisboa. A nossa leitora Maria José Correia (Joca), foi convidada a participar na mesa do encontro. O testemunho da sua participação que também funciona como registo histórico da vida desta Comunidade de Leitores até aos dias de hoje, foi objeto de uma publicação própria neste blogue.


Por sugestão da nossa Biblioteca (BSDR), em novembro acompanhámos as memórias de Emília Amor, relacionadas com a área geográfica do concelho e sobretudo da freguesia de São Domingos de Rana. O livro “Pura Memória”, é uma narrativa biográfica mas também ficcional, que abrange um período de quatro anos – 1952 a 1956 – vividos em Caparide, aldeia do concelho de Cascais, onde a autora residiu até aos dezoito anos. Estiveram 20 leitores presentes, tendo alguns deles feito uma visita a Caparide, para reconhecimento dos locais referidos no livro. Os livros foram gentilmente oferecidos aos leitores desta Comunidade pela Livraria Municipal de Cascais.

Dezembro chegou de forma poética. O último livro do ano encerrou o mesmo de um jeito bonito e até mesmo encantador. “O Eremita Viajante” de Matsuo Bashô, encantou a Comunidade, com a beleza dos seus haikus, a poesia tradicional japonesa, que num formato curto de apenas 3 versos, capta o instante em que cada palavra assume uma força maior. Falou-se, por exemplo de escassez lexical, de minimalismo, da beleza do pormenor e da plenitude do instante, entre outros. Uma leitura feliz para a maior parte dos 20 leitores presentes, dos quais apenas 5 não leram ou não completaram a leitura.

E terminou assim mais um ano de leituras em comum, em que a partilha de ideias, de conhecimento e de opiniões nos entusiasmou ao longo das diferentes sessões, sempre muito concorridas. Novos leitores foram aparecendo, uns de forma pontual, outros acabando por se tornar “residentes”.  

Agradecemos mais uma vez à Biblioteca de São Domingos de Rana e aos seus responsáveis, pela cedência do espaço e pela disponibilidade, essenciais para a continuidade desta Comunidade.

Bom Ano 2025

 

31 dezembro 2023

Balanço Anual e Feliz 2024

 

(Cartaz de divulgação da CMC)

2023 veio com nuvens negras a pairar sobre o mundo em geral e em particular na Europa, resultantes de uma grande crise económica e social relacionada ainda com a pandemia do Corona Vírus e, sobretudo, com a guerra Rússia /Ucrânia, cujo final não tem fim à vista. Lá mais para o final do ano outra guerra veio adensar as preocupações e aumentar as angústias globais, com o conflito Israel/Palestina. O mundo está a mudar e não é para melhor e todos estamos envolvidos nessa mudança.

Felizmente, no que toca a esta Comunidade e ao seu amor pelas leituras, a palavra crise não entra neste cenário e arrancámos para mais 365 dias de bons livros. Antes disso, realizámos um animado jantar convívio para celebrar a chegada do novo ano.

Janeiro chegou muito friorento, mas isso não impediu que 17 leitores estivessem presentes na BSDR, para mais uma sessão animada em torno da sátira de André Gide “As Caves do Vaticano”. O primeiro livro do trimestre, que tinha o mote “Romance e Modernismo”, agradou bastante aos leitores (apenas um não tinha ainda terminado a leitura) que se divertiram com as personagens criadas pelo escritor francês. Partindo de um rumor de que o Papa tinha sido sequestrado, Gide constrói uma trama, em que um grupo de vigaristas tenta ganhar dinheiro para libertar o Pontífice. Uma rede de personagens algo perturbadoras, cujos sentimentos e escolhas apontam a uma crítica social e moral, ajudam a construir uma estrutura narrativa aliciante, que à época entrou na lista negra da igreja católica. Para nós foi mais uma boa opção de leitura.

Em Fevereiro fomos à descoberta de um daqueles autores que todos conheciam, mas que poucos tinham lido: James Joyce e o seu “Retrato do Artista quando Jovem”. Foi uma leitura corajosa, tendo em conta as dificuldades que a maioria encontrou pelo caminho. No entanto, a história (que todos consideram autobiográfica) de crescimento do escritor, que acompanha a sua infância até à idade de jovem adulto, agarrou-nos e não nos fez desistir. Resistimos a todos os considerandos políticos irlandeses e à longa ambiência da educação jesuíta. Os contributos dados pelos leitores na sessão, acabaram por tornar mais lúcida e compreensível a apreciação do romance. Tanto que, houve quem começasse a perfilar a leitura de “Ulisses”. No final ficou uma questão: terá Fernando Pessoa lido James Joyce? Algumas pistas no romance, justificavam a pergunta. Uma investigação posterior confirmou o facto, mas com aparente pouco entusiasmo (na leitura do Pessoa, não na investigação). A sessão contou com 20 presenças e 5 que não tiveram tempo de concluir a leitura.

O trimestre terminou com mais uma densa narrativa introspetiva. O "Jogo da Cabra Cega" de José Régio, tornou longo o mês de Março para a maioria dos leitores. Um romance, também ele autobiográfico, que deixou na maior parte dos leitores uma impressão de cansaço, devido a uma procura do “eu” muito conturbada e por vezes confusa. Régio não foi um escritor de agrado global, mas teve o mérito de ocupar animadamente as duas horas e meia da sessão, levantando muitas questões pertinentes, sentimentos diferentes e reações diversas à leitura. 18 presenças, sendo que, 4 dos participantes, não acabaram a leitura.

O segundo trimestre chegou sob o mote “Romance e Contos de Autores Portugueses”, iniciando em Abril com “Os Amantes e outros Contos” de David Mourão-Ferreira. Os contos foram do agrado geral, embora quase todos reconhecessem alguma dificuldade em seguir o labiríntico pensamento dos mesmos e a utilização frequente do fantástico. Uma escrita escorreita, elegante, delicada e poética foram também alguns dos adjetivos usados pelos leitores. Outros sentiram a leitura como uma espécie de flashes contínuos, a proporcionarem uma experiência cinematográfica em forma de escrita.  Estiveram presentes 20 leitores, sendo que 2 não leram o livro. 

Em Maio, foi a vez do romance de Manuel da Fonseca, “Cerromaior”. Obra do neorrealismo (apesar de questionado pelos puristas do estilo), centra-se numa imaginária vila alentejana, retratando o espaço social, ético e político dos anos 30/40. Da família de latifundiários, classe social dominante, a uma GNR aliada aos poderosos, tudo se conjuga para a exploração do proletariado rural que vive numa constante miséria humana onde tudo falta e nada parece ter futuro. Há, no entanto, alguma réstia de esperança, no facto de Adriano, personagem principal do romance, ter um percurso de crescimento e evolução que o levam a questionar as injustiças sociais e a falta de dignidade existente no tratamento dado aos trabalhadores. 20 presenças e 3 leitores que não leram o romance.

A terminar o segundo trimestre, Junho trouxe-nos “Sombras da Raia” de Nuno Franco Pires. A presença do escritor que amavelmente aceitou o nosso convite, trouxe-nos uma outra dinâmica, acrescentando informação e muitas outras histórias relacionadas com o romance.  Começando com o início da sangrenta guerra civil espanhola (que provocou centenas de mortos em Badajoz), acompanhamos uma história de gerações que atravessa a vida de 3 famílias da raia, entre 1936 e 1918. Entre Badajoz e Elvas cruzam-se os destinos de Clara, Miguel e Inês. Através deles descobrimos uma teia de enganos e segredos, há muito escondidos pelas suas famílias. Um enredo bem trabalhado, com todo um naipe de personagens fortes, dá-nos ainda a conhecer, a evolução da doçaria mais conhecida da região, a famosa ameixa de Elvas. Ficou em aberto a organização de uma deslocação a Elvas, para seguirmos os roteiros que nos são dados a conhecer no romance. 22 presenças e 3 que não leram.      

Julho chegou e com ele demos início ao terceiro trimestre sobre o mote “Romances de Férias”. “Niketche: Uma História de Poligamia”, de Paulina Chiziane, foi o livro escolhido. Uma voz feminina a refletir sobre a condição da mulher moçambicana e a vinculação e submissão a uma sociedade patriarcal muito enraizada, contra a qual é difícil lutar. Uma escrita fluída, por vezes lírica e até bem humorada, a tratar um tema delicado. Uma sessão com bons contributos dos 19 leitores presentes, em que apenas 1 não leu o romance em apreço.

A fechar o mês de Julho e ainda no rescaldo do livro de Maio, um grupo de leitores fez uma visita a Vila Franca de Xira, com particular destaque para o Museu do Neo-Realismo que embora já conhecido pela maior parte da Comunidade, justifica sempre a visita.

Agosto trouxe “Os Anos” de Annie Ernaux, prémio Nobel de 2022. Uma autobiografia num registo muito fotográfico, escrita num formato de pequenos textos que parecem retirados de cadernos diários. Embora com a sua visão muito pessoal, pode dizer-se que é também uma crónica da segunda metade do séc XX focada na vivência francesa, apesar de algumas incursões internacionais. Foi do agrado geral das 20 pessoas presentes, em que 2 não leram o livro.

Em Setembro lemos a “A Trilogia de Nova Iorque” de Paul Auster. Três histórias um pouco sombrias, que nos levam pelo fascinante e misterioso submundo nova-iorquino num formato muito cinematográfico. Quem conhece bem e gosta deste escritor, conseguiu enredar-se facilmente nos labirintos criados por si. Quem teve um primeiro contacto com a sua escrita, sentiu alguma resistência e dificuldade na leitura. 19 pessoas presentes e 6 que não leram.

O último trimestre no ano, cujo mote foi “Outros Géneros”, trouxe-nos em Outubro um livro diferente, mas muito apreciado pela generalidade dos leitores: “O Infinito num Junco” de Irene Vallejo. Uma obra que anda entre o ensaio, o relato ou mesmo uma tese, acaba por ser um romance que nos leva numa longa viagem através do tempo e do espaço, de um objecto criado para transportar as palavras. É um livro sobre a história e a evolução dos livros, da antiguidade clássica até aos nossos dias. 17 pessoas presentes e 4 que não leram.

Ainda em Outubro e na rota do livro lido em Junho, “As Sombras da Raia”, um pequeno grupo desta Comunidade rumou num Domingo até Elvas, tendo seguido os passos de muitas das personagens daquele romance. Como sempre, ficaram memórias boas que vão construindo a história desta Comunidade.

Em Novembro abordámos o teatro, através de uma das tragédias Shakespeariana: “O Rei Lear”. Lear, o monarca que renuncia ao poder, com a intenção de dividir o seu reino pelas três filhas, em função do amor que estas lhe devotam. Gloucester, um conde que vê um dos filhos trair o outro para usurpar o poder. Vaidade, lisonja, adulação, ódio, traição, mentira, loucura fingida, caminham lado a lado com amor filial, razão, lealdade, fidelidade, dever e generosidade. A natureza humana no seu pior e no seu melhor. Uma tragédia, com raios de comédia, sobretudo através das intervenções do Bobo da corte. Apesar da maior parte dos leitores preferir ver teatro a ler teatro, o livro foi bem recebido e do agrado de todos, proporcionando uma sessão agradavelmente participada. 27 presenças e 4 pessoas que não leram.

Para terminar o ano numa forma mais lúdica e poética, continuando no tema – outras leituras-, Dezembro trouxe com ele a poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen e o livro “Dual”. Como diz Eduardo Lourenço no prefácio deste livro, “… Sophia foi musa de si mesma e talvez a isso se refira o misterioso e luminoso título Dual, dualismo de natural fusão de duas faces de si mesma…”. A casa, Delphos, o mar, os nossos poetas, a mitologia grega e a memória, entre outros, espelham-se ao longo da poética de Dual. No início da sessão questionava-se se a escolha de um livro de poesia teria sido acertada e que tipo de discussão daí poderia surgir. Os 21 leitores presentes (onde apenas 2 não leram) não desiludiram e todos tiveram algo a dizer e também a aprender, com esse Universo único que é Sophia.

E foi assim este ano de leituras partilhadas, num entusiasmo permanente dos muitos leitores que mensalmente marcaram presença nestas sessões. A Comunidade está de boa saúde e tem crescido com a chegada de novos leitores ao longo do ano.  Como sempre, cumpre-nos agradecer à Biblioteca de São Domingos de Rana e aos seus responsáveis, a cedência do espaço, a sua disponibilidade e apoio imprescindível.

Bom Ano 2024!

31 dezembro 2022

Balanço Anual e Feliz Ano Novo

 

Imagem daqui 

O ano de 2022 chegou, ainda sob a tempestade pandémica do Corona vírus, mas já com alguma luz ao fundo do túnel. O sucesso da vacinação, aliado à menor perigosidade das mutações do vírus, apontavam no sentido de um cenário endémico.

Para o 1º trimestre, sob o tema “Horas do Conto”, janeiro trouxe os “Contos Exemplares” de Sophia de Mello Breyner Andresen. Estiveram presentes 19 participantes, dos quais, apenas 1 não leu o livro. Este, reúne sete contos de alguma temática recorrente em Sophia, nomeadamente os valores cristãos e a repressão salazarista. As histórias são apresentadas, não de forma agressiva, mas subtilmente, quase com encanto e algum misticismo e sobretudo com muitas metáforas, onde Deus e o Diabo ou o Bem e o Mal, se escondem nas diferentes personagens. Dadas as contribuições de todos os presentes, confirmou-se o interesse e o agrado geral nesta leitura.

Em fevereiro lemos “Histórias de Mulheres” de José Régio. A sessão realizou-se no dia 25. No dia anterior, a Rússia invadiu a Ucrânia o que, não sendo propriamente uma surpresa, deixou o mundo em estado de choque. Ninguém queria acreditar numa guerra há muito anunciada.  Afinal o Homem continua a não aprender com os erros e a esquecer rapidamente a História…

Numa sessão que contou com 18 presenças e onde mais uma vez só uma pessoa não leu o livro, a coletânea de contos de Régio proporcionou mais uma reunião animada e participada. Estávamos perante um ambiente ficcional dominado por personagens femininas, cuja acção se desenrola nos anos 30/40 quer em meio rural quer em meio citadino. Todo um conjunto de mulheres ora apresentadas em contexto individual (com uma conduta mais fechada, particular e por vezes grotesca), ora em contexto colectivo (socialmente mais vazias, fúteis e dominadas pela aparência). Todas estas figuras construídas com mestria e a dar forma a histórias curiosas que agarraram os leitores, levando cada um à sua própria interpretação.

Em março terminámos o ciclo dedicado aos Contos, com a Agustina Bessa-Luís e os seus “Contos Impopulares”. Estes contos (catorze), ora muito pequenos ora quase a roçar uma história mais profunda, apresentam um traço comum: uma certa tendência de decomposição. Metáfora para uma sociedade decadente?

Vinte e um membros presentes numa sessão em que foi dito, por exemplo, que: “ler Agustina é como ler uma língua estrangeira”, “as palavras são o corpo das suas ideias”, “mesmo não sentindo uma empatia especial, há que reconhecer a genialidade da sua escrita” ou “é de uma leitura difícil mas, absolutamente cativante”.

Em abril iniciámos o 2º trimestre, sob o lema “A sul da américa, a oeste do sonho”. O autor escolhido para este mês foi Luís Sepúlveda e os seus romances “História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar” e “O Velho que Lia Romances de Amor”.

Zorbas, o gato grande preto e gordo e o seu bando de amigos gatos, unem-se num maravilhoso espírito de grupo, para educar e ensinar a voar, a pequena gaivota Ditosa, órfã de Kengah, a sua mãe vítima de uma maré negra. A este grupo junta-se no final um humano “O Poeta”, que dá a ajuda final ao voo inaugural de Ditosa. Sentimentos bonitos como a amizade, lealdade, companheirismo, proteção, confiança, coragem e responsabilidade, entre muitos outros, são a tónica dominante no conto.

“O Velho que lia romances de amor”, fala-nos da paixão pela leitura e é um hino ao amor pela Natureza e sobretudo à floresta Amazónica. António Bolivar não sabia escrever, mas sabia ler. Os seus pertences mais queridos eram dois: uma dentadura postiça e uma lupa que o auxiliava na leitura, dos seus amados romances de amor.

A escrita maravilhosa de Sepúlveda encantou-nos por inteiro. Nesta sessão em que foi finalmente liberada a obrigação imposta pela Pandemia do uso de máscara e em que voltámos a ver por inteiro a cara uns dos outros, estiveram presentes 19 leitores, tendo todos lido os dois livros.

O mês de maio trouxe-nos Mark Twain e as Aventuras de Huckleberry Finn. Descer o Mississipi, primeiro numa canoa, depois numa balsa e logo a seguir numa jangada, percurso constantemente embrulhado em aventuras e desventuras, foi a tarefa a que se propôs Huck, que encontrou no fugitivo escravo Jim, um inesperado companheiro de viagem. Parecendo um romance direcionado para os jovens, ficou a dúvida se estes terão a devida maturidade para entender o mesmo. Catorze presenças e um que não leu, foi a estatística registada.

A fechar o trimestre descobrimos em junho o escritor colombiano Juan Gabriel Vásquez e uma história que nos levou ao mundo dos emigrantes alemães chegados à Colômbia alguns anos antes da II Guerra Mundial. “Os Informadores” é uma história que nos fala de memórias, de dilemas éticos, de culpa, de invasão do passado no presente e sobretudo de redenção e perdão. Numa sessão em que estiveram presentes apenas 13 elementos, dois dos quais não leram o livro, o romance de Vásquez foi bem acolhido tendo proporcionado ótimos momentos de leitura.

 

No terceiro trimestre e de acordo com o tema “Há mais Mundos”, escolhemos livros de que toda a gente fala, mas que muitos nunca leram. Em julho “As Viagens de Gulliver”, de Jonathan Swift e em agosto “Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll, transportaram-nos a mundos de fantasia e sonhos. O primeiro é uma espécie de comédia incompreendida e o segundo aproxima-se de uma narrativa com carácter de absurdo, sempre a contornar as regras da lógica. Cerca de uma vintena de participantes em ambas as sessões, divertiram-se a escrutinar setas fantasiosas aventuras. Em setembro, o grande clássico da ficção científica “A Guerra dos Mundos”, de H. G. Wells, deu luta na discussão, enriquecida pelas diferentes opiniões dos leitores presentes. Uma conclusão comum foi a de que, o ser humano perante o desconhecido, o medo e a histeria coletiva, perde a sua humanidade e pode tornar-se selvagem. Dezanove leitores presentes, tendo todos lido o romance.

Com outubro chegou o 4º trimestre, sob o mote “Saramago e Saramaguianos”. Iniciámos com o “Manual de Pintura e Caligrafia, de José Saramago”, discutido numa sessão onde estiveram presentes 20 leitores e apenas um, não leu o livro. Embora este seja o segundo romance de Saramago é já um tratado de bem escrever, um longo caminho de autoconhecimento e uma viagem pelo mundo da arte. Ninguém ficou indiferente à beleza da escrita e à sua peculiaridade. Diz o narrador em determinado momento “…É sobretudo a ideia do prolongamento infinito que me fascina…” A nós, o romance fascinou-nos do início ao fim.

Em novembro lemos “Os Malaquias”, de Andréa del Fuego. Acompanhámos a insólita história da família Malaquias, numa paisagem rural transformada pela construção de uma barragem. Romance áspero, mas ao mesmo tempo poético, salpicado de algum realismo mágico, onde a morte anda de mãos dadas com a vida. Dezassete leitores presentes e todos leram o livro. Uns ficaram encantados outros nem tanto, o que, como sempre, apenas serviu para enriquecer a discussão.

Dezembro chegou e com ele o último livro do ano “Os Transparentes”, de Ondjaki. Uma história centrada num prédio de Luanda, onde, quer os seus habitantes, quer quem por lá passa, enfrenta a dura realidade diária, entre uma alegria genuína e uma melancolia persistente. Os dramas de cada um cruzam-se com os dramas alheios, criando um complexo enredo de histórias impensáveis. Uma escrita lírica, mas mordaz e satírica, a revelar a realidade quotidiana da cidade e das suas pessoas. Ficou a pergunta: quem são os transparentes? Aqueles que pela sua insignificância não são vistos ou aqueles que pela sua pobreza se tornam invisíveis? Dezassete pessoas presentes, cinco que não leram ou ainda com a leitura em curso. Um livro que foi do agrado de todos os presentes.

E foi assim mais um ano rico de partilhas literárias, sempre com muitos leitores presentes, confirmando que a Comunidade de Leitores está viva e recomenda-se. À nossa Biblioteca e aos seus responsáveis, o nosso agradecimento pela disponibilidade do espaço e apoio permanente.

A todos um Feliz 2023!

29 dezembro 2021

Em jeito de Balanço e Feliz Ano Novo!

Imagem daqui

Infelizmente, este ano de 2021 não começou bem para o mundo, com a pandemia provocada pelo Corona vírus, praticamente descontrolada. As novas mutações do vírus, vieram agravar um cenário já de si caótico e Portugal sofre uma situação de fragilidade nunca vista. Novos estados de emergência e confinamento levam ao encerramento de quase tudo, incluindo as bibliotecas. E lá voltámos nós à estaca zero, sem as tão desejadas sessões presenciais. E Janeiro… que teve um livro tão bom!

Iniciámos o 1º Trimestre, sob o lema «Escuto a América a cantar, as várias canções que escuto» de Walt Withman e debruçámo-nos sobre a escrita da Harper Lee, com o livro “Mataram a Cotovia”. Em Maycomb, acompanhámos as aventuras das três crianças Scout, Jem e Dill e sob o seu olhar inocente e verdadeiro demos conta das terríveis fragilidades de uma América dividida em termos raciais e não só. O debate sobre o romance, foi acontecendo animadamente através do blogue e do fb.

Em Fevereiro, continuámos confinados às nossas casas, o que não nos impediu de mergulhar nas trevas da ressaca da Grande Depressão americana, com “As Vinhas da Ira” de John Steinbeck. Uma leitura intensa, dura e crua. Acompanhámos o drama da Família Joad, que após perder a sua casa e a as terras de cultura de algodão, no Oklahoma, partem para a Califórnia, numa viagem de esperança em busca de um a vida melhor. É a história da família Joad como poderia ser a de milhares de outras famílias de agricultores, que nos anos 30 seguiram na procura do mesmo sonho. Na rota do romance, cruzámos caminho com as palavras e a música de Bruce Springsteen, através da bela canção “The Ghost of Tom Joad” e com as fotografias de Dorothea Lange, fotógrafa americana que registou as grandes migrações de agricultores. Mais uma vez, a troca de ideias foi acontecendo no blogue e no fb. 

Link para a música do Bruce

Link para as fotos da Dorothea

A terminar o primeiro trimestre dedicado às leituras da América, vivemos a grande aventura do pescador Santiago (grande admirador do basebol americano e do célebre Joe DiMaggio) que, depois de oitenta e quatro dias sem sorte na faina, conseguiu filar um espadarte que lhe deu luta durante três dias. Infelizmente depois de ganha essa batalha e no regresso a terra, a luta prosseguiu com os tubarões que lhe atacaram a presa deixando-lhe apenas o esqueleto do espadarte preso ao barco. A propósito desta leitura de “O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway, descobrimos uma maravilhosa curta metragem de animação baseada no romance e realizada em 1999, pelo realizador russo Aleksandr Petrov. Disponível Link aqui!

O 2º Trimestre, sob o mote «Última flor do Lácio, inculta e bela» (de Olavo Bilac), trouxe Abril e o regresso às sessões presenciais, com catorze entusiastas da leitura. O Cemitério de Pianos, deu o mote. A história do José Luís Peixoto não deixou ninguém indiferente ou porque gostaram ou então não gostaram nada ou porque apenas leram ao sabor da corrente ou porque simplesmente não leram. Uma coisa é certa, proporcionou mais umas belas horas de convívio e discussão literária. No final da sessão, a Bia presenteou-nos com um poema dos “Cadernos de Verão”, do Manuel Nunes.

Maio chegou e com ele um romance duro e belo. Levantado do Chão, de José Saramago, levou-nos ao Alentejo do tempo da ditadura até ao limiar da liberdade. Três gerações de Mau-Tempo, colocam-nos perante a opressão económica e social dos latifundiários, das forças políticas, policiais e até da igreja, sobre os trabalhadores e da luta destes contra todo o sistema. Uma sessão que contou com a presença de 19 leitores e uma discussão animada em torno desta leitura. Alguns leitores participaram posteriormente num roteiro literário, cujo percurso passou por lugares emblemáticos, referidos no romance.

Olhai os Lírios do Campo, de Erico Veríssimo foi o livro de Junho, que desta vez não provocou especial entusiasmo. Houve quem gostasse, claro, e, defendesse bem a sua dama.  Mas alguns leitores consideraram o romance datado e até um pouco enfadonho na sua segunda parte. Houve quem o tivesse lido pela segunda vez (a primeira, na juventude) tendo agora uma opinião menos favorável. No entanto foi lido na íntegra, por vinte dos vinte e um leitores presentes! 

«Bem próvida a natura quando alteou / Entre nós e os tudescos /

Dos fortes Alpes o limite duro», Francesco Petrarca deu o mote e iniciámos o trimestre italiano com esse romance épico e intemporal de Tomásio di Lampedusa “O Leopardo”. A relação do homem com o tempo, a batalha contra a inevitável transformação das coisas e o caminho quase natural para a sua decadência, são o fio condutor desta saga familiar, muito centrada em Don Fabrízio, Príncipe de Salina  e no seu sobrinho Tancredi Falconeri, em tempos de revolução. “…Se queremos que tudo continue como está, é preciso mudar tudo…” é a frase marcante proferida quase no início do romance por Tancredi e que se revela absolutamente verdadeira ao longo do mesmo. Foi uma leitura excelente, muito apreciada por todos os presentes. 

Agosto foi mês de férias para a maior parte de nós, mas isso não impediu a leitura de “O Nome da Rosa” de Umberto Eco. Muito mais do que um conto policial na idade média, o romance levou-nos ao encontro de maravilhas arquitetónicas (a fabulosa descrição do pórtico da igreja!), da detalhada descrição da vida monástica, de discussões, muitas delas a roçar o herético, e, sobretudo, aos livros. Livros que estão escondidos numa extraordinária biblioteca, de acesso labiríntico. Estão escondidos, não por serem frágeis ou valiosos, mas por serem perigosos nas ideias que transmitem. Tudo é válido para manter a ordem estabelecida. Foi uma leitura cativante, geradora de muito entusiasmo na sua discussão. 

Em Setembro, chegou mais um para semear uma saudável divergência. “Se numa Noite de Inverno um Viajante” de Italo Calvino foi, por assim dizer, um romance de muitas leituras, começando pelo ardil de colocar o leitor como protagonista do mesmo. Muitas histórias dentro da história em si, deram aos leitores uma verdadeira aventura de leitura com diversas possibilidades de interpretação. Parafraseando o nosso Coordenador “…Livro que não é fácil e, no entanto, é um livro que, entre outras coisas, reflecte sobre os leitores e a leitura. Somos leitores, lemos, é um livro para nós..”

Chegados ao último trimestre do ano, a que Milan Kundera deu o mote: “A única coisa que nos resta diante dessa inelutável derrota a que chamamos vida, é tentar compreendê-la. Eis aí a razão de ser da arte do romance”.

Outubro trouxe o romance de Haruki Murakami “A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol”. Embora fosse um livro de leitura fácil e fluida a opinião generalizada foi de pouco entusiasmo e alguma deceção (mesmo para os apreciadores do autor). Se a vida de Hajime muito marcada pelos relacionamentos com as mulheres mais importantes da sua vida, Shimamoto, Yukiko e Izumi, fez transparecer para os leitores alguma falta de consistência, também as pontas soltas que iam ficando no desenrolar do romance pouco ajudaram a tornar o mesmo apetecível. Ficou mesmo no ar, a hipótese de uma má tradução. Enfim, leu-se, mas não deixou saudades… 

Novembro chegou com a perturbadora fábula política de George Orwell “A Quinta dos Animais”. Homens e animais com um papel invertido e mais uma vez a confirmação de que, na grande maioria dos casos, o poder corrompe. O subtil desvio dos princípios inicialmente estabelecidos, leva a um sistema de subserviência total a um totalitarismo corrupto. Um livro que continua a gerar grande interesse nos leitores, tendo proporcionado uma sessão animada com intervenções calorosas.

E rapidamente chegámos ao fim do ano. Em Dezembro lemos “O Mar, o Mar” da Iris Murdoch. Charles Arrowby, personagem principal, é um homem do mundo do teatro, extremamente egocêntrico que, no auge da fama, decide isolar-se num lugarzinho da costa norte de Inglaterra. Um romance inesgotável, denso, construído por muitas camadas narrativas, com avanços e recuos, que tão depressa prenderem o leitor como a seguir o afastam. Longas descrições, imbuídas de mil e um detalhes, memórias e pensamentos para nos dar a conhecer os diferentes personagens. Realce para algum paralelo com o teatro de Shakespeare.   Quem leu gostou e reconheceu a beleza da escrita. Quem não leu, ouviu e acompanhou com interesse a discussão que o romance gerou.

E assim 2021 chega ao fim, sempre sob a nuvem negra de uma pandemia que parece não querer dar tréguas nem descanso. As nossas leituras continuam a ajudar-nos a manter alguma preciosa normalidade. 

Avancemos para o novo Ano com otimismo e esperança em dias melhores!

Feliz Ano Novo!

29 dezembro 2020

E 2020 chega ao fim… sem deixar muitas saudades

Ilustração de Jonathan Wolstenholme

Dois mil e vinte está a chegar ao fim e com ele mais um ano de leituras para esta Comunidade.

Em retrospetiva, percebemos que foi um ano muito estranho e fora de comum, tudo por conta de uma virose coletiva. Adiante se verá… 

O primeiro trimestre do ano “(re)-leituras”, foi intenso!

Em Janeiro, Ferreira de Castro e “A Selva”, transportaram-nos à exuberância da selva amazónica e à vida penosa dos seringueiros, já em tempo de declínio da comercialização da borracha. Descobrimos todo um exótico mundo novo, modos de vida surpreendentes e um léxico praticamente desconhecido, como “gaiolas”, “igarapé”, “pirão”, “brenha”, “parintintins” ou “cunhantã” entre outros. 

Em Fevereiro, chegou Agustina com “A Sibila” e um universo rural e predominantemente feminino, levando-nos a descobrir uma galeria de mulheres decididas, de personalidades distintas, mas todas perseguindo e atingindo objetivos muito precisos. 

Ainda neste mês, celebrou-se o dia internacional da Língua Materna e a Câmara Municipal de Cascais promoveu o facto, publicando um vídeo alusivo, que contou com a participação de 2 elementos desta Comunidade, através da leitura de 2 poemas da Sophia de Mello Breyner: "Com Fúria e Raiva" e  "Habitação". 

O mês de Março de 2020, que ficará na história da humanidade, até começou bem, com uma visita à Exposição de Álvaro Pirez d’Évora, no MNAA. 

Em seguida mergulhámos todos numa espécie de realidade paralela ou filme da Twilight Zone, com a explosão da pandemia Covid’19, provocada por um Vírus que ficou famoso e cujo nome nos faz tremer nas bases: o Corona. 

Para combater o confinamento obrigatório, Jorge Amado, Jubiabá e as histórias da história de António Balduíno, foram uma ajuda preciosa. Com a Biblioteca fechada e a proibição de reuniões com um grande número de pessoas, não houve sessão presencial, mas conseguimos manter contacto e trocar ideias através das redes sociais, que se revelaram ótimas para situações como estas. Penso mesmo que, por conta do Corona, o nosso blogue ficou mais rico… 

O segundo trimestre – Eça & Cª, prometia…

Assim, com o estado de emergência em vigor e confinados cada um a sua casa, o mês de Abril trouxe-nos Eça de Queirós e o seu “Conde d’Abranhos”, personagem que descobrimos através dos maiores encómios do seu secretário Z. Zagalo:  “Alípio Severo Abranhos, Conde d'Abranhos…varão eminente, Orador, Publicista, Estadista, Legislador e Filósofo”. Na realidade e após a leitura, o que se revelou foi um político pobre de espírito, incompetente, oportunista, lambe-botas e vira-casacas.

Neste mês continuou a não ser possível uma sessão presencial, pelo que usámos a tecnologia disponível e reunimos em formato teleconferência. Correu muito bem e só nos faltou a partilha dos habituais bolinhos e bolachinhas. 

No mês de Maio, ainda confinados, voltámos a reunir via Zoom, para discutir a “A educação sentimental” de Gustave Flaubert, seguindo o percurso do jovem egocêntrico Frédéric Moreau. 

Entre Junho e Outubro suspendemos as sessões da Comunidade. A impossibilidade de reunir presencialmente, alguma dificuldade de acesso às plataformas digitais e outras questões relacionadas com a pandemia (sobretudo um cansaço coletivo muito desmotivador), assim o ditaram. No entanto, a maior parte dos leitores continuou com as leituras agendadas.  Assim, Balzac, Roth, Atwood e Steinbeck fizeram-nos companhia durante tempos difíceis. Os livros são sempre uma opção vencedora! 

Com a boa vontade dos responsáveis pela nossa Biblioteca, que num esforço feliz garantiram as condições de segurança e higiene necessárias, realizámos finalmente uma sessão presencial no dia 6 de Novembro, onde pudemos contar com a presença de 17 dos membros da Comunidade. O romance “Pão de Açúcar” do jovem escritor Afonso Reis Cabral, que estava alinhado para Outubro, foi o mote para o animado reencontro e abertura do 4º Trimestre, dedicado a “Recém-Laureados”. 

A 27 Novembro, mais uma feliz sessão presencial com 18 elementos, que se debruçaram sobre a personalidade de Olga Tokarczuk e o seu surpreendente e fragmentado “Viagens”. Um desconcerto em movimento contínuo sem nunca olhar para trás, numa nómada digressão pelo espaço e pelo tempo, é o que me ocorre dizer.

Fruto de discussão e propostas entre leitores, ficou ainda definido nesta sessão, o Plano de Leituras para 2021. 

E continuando em modo presencial, Dezembro, por norma o mês mais mágico do ano, trouxe-nos “As Pálidas Colinas de Nagasáqui” de Kazuo Ishiguro. Um romance que provocou reações diversas entre os leitores. Uns, gostaram, outros, não. Leituras diferentes para uma escrita um pouco melancólica, mas muito bonita (digo eu) que, neste caso, apresenta diversas pontas soltas e muitas questões sem resposta. Intencional por parte do escritor? Certamente que sim e daí as diferentes leituras e apreciações. 

E assim 2020 chega ao fim, a deixar poucas ou mesmo nenhumas saudades. E não falo das nossas leituras!

Avancemos para o novo Ano com otimismo e esperança em dias melhores. 

Feliz Ano Novo!

29 dezembro 2019

E passaram mais doze meses de leituras!


Um pouco em jeito de balanço anual, mas também para memória futura e antes de entrarmos em 2020, deixo algumas notas sobre aquilo que fomos fazendo durante o corrente ano.
O amor pela leitura, mantém esta Comunidade em andamento desde 2007. Temos uma média de 20 leitores presentes por sessão, o que torna as mesmas muito animadas e dinâmicas.
Os livros levam-nos ainda para fora de portas, atrás de programas diversos que nos enriquecem a mente e alimentam o espírito. Assim, entre leituras, exposições, visitas, viagens, teatro, jantares, concertos, aconteceu de tudo um pouco!


No primeiro trimestre do ano andámos pela “Literatura no Feminino”. Revisitámos Jane Austen (Sensibilidade e Bom Senso), Emily Brontë (O Monte dos Vendavais) e Françoise Sagan (Bom Dia Tristeza). Foram sessões muito participadas, com animadas discussões entre géneros.

No segundo trimestre, lembrámos os “Autores Esquecidos” como José Rodrigues Miguéis (A Escola do Paraíso), Maria Judite de Carvalho (Tanta Gente, Mariana) e Luís de Sttau Monteiro (Um Homem não Chora). 
O romance “A Escola do Paraíso” levou a que o Manuel Nunes, durante o mês de Abril,  fizesse um périplo fotográfico por Lisboa, refazendo os passos do José Rodrigues Migueis. Está tudo disponível em diversas publicações no blogue que justificam plenamente uma leitura. 
Também em Abril, um pequeno grupo de leitores assistiu no Teatro D. Maria II, à récita de Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett.

No mês de Junho, tivemos uma sessão especial na Feira do Livro de Lisboa. O escritor Carlos Querido, convidou-nos para fazermos uma apresentação do seu livro de contos, “Habeas Corpus”. Foi mais uma sessão memorável, com uma boa presença dos nossos leitores.


Chegou o Verão e com ele o terceiro trimestre, onde mergulhámos de cabeça na “Literatura Alemã”. Começámos com Goethe (Werther), seguiu-se Herman Hesse (O Lobo das Estepes) e terminámos com Erich Maria Remarque (Uma Noite em Lisboa).
A propósito do Goethe, a nossa leitora Amélia Cabrita publicou no blogue (no mês de Julho), matéria muito importante e interessante relativa à sua visita a Weimar, lugar incontornável na vida deste escritor. Recomendo a leitura. 

A estação mais quente do ano, trouxe muita animação e assim, entre outros programas, alguns dos nossos leitores marcaram presença na Festa dos Tabuleiros em Tomar, nas visitas de fado cantadas de alguns bairros históricos de Lisboa e no já tradicional Concerto dos 6 Órgãos de Mafra. Atravessámos o rio e fomos à Trafaria (entre outras travessias). 


Apanhámos o comboio e num programa muito especial que implica um grupo de “jovens” à solta, houve deslocações a Setúbal, Évora, Aveiro, Coimbra e Santarém. 



Houve ainda uma visita, cuja temática foi a estátua de D. José na Praça do Comércio, que nos levou à Sala dos Gessos (onde estão os moldes da dita) e ao Museu Militar, com uma passagem pelo núcleo museológico do Hotel Eurostars.


Foi um Verão cheio, onde não faltou energia, nem magia!

No quarto trimestre, visitámos aqueles a que decidimos chamar de “Queridos Autores”. Primeiro tivemos o nosso Eça de Queirós (A Capital), depois o repetente Philip Roth (Pastoral Americana) e terminámos com os contos de Gabriel Garcia Marquez (Doze Contos Peregrinos). Foram leituras de peso!
A anteceder a última sessão do ano, tivemos o habitual jantar anual, alegre convívio partilhado pela maioria dos membros da Comunidade.

E assim deixo esta síntese do ano. Houve muito mais, pelo que, convido outros leitores a acrescentarem o que entenderem por bem!

Uma palavra de agradecimento para a Biblioteca de São Domingos de Rana, que  em boa hora nos acolhe, continuando a disponibilizar o espaço para as nossas reuniões.

Boas Leituras para 2020!