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29 dezembro 2011



Relato [...]: 4ª e última Jornada


Correndo o risco quase impensável de se atrasar para a ceia em casa do sobrinho, Mr Scrooge ainda se demorou um pouco a explicar o favor que pretendia.
- Amigos, o tempo urge: quando os Sinos de Ano Novo baterem as onze badaladas, serão visitados pelo Espírito Poético, e é nessa altura que há-de ser forjado o novo desenlace da minha história, mais a contento da minha maneira de ser e para que eu possa ter acesso à tranquilidade eterna. Basta que se mantenham atentos e cumpram tudo o que o Espírito vos inspirar. E agradecendo, sumiu-se no ar, perante a estupefacção geral.
Seguiu-se um grande rebuliço, pois se aproximava a hora esperada: Mrs Cratchit procurava as velas mágicas de Natal no fundo de todas as gavetas, com Bob Cratchit atrás, a refilar contra a falta de ordem naquela casa; Merry-Jo trauteava um fado que nunca tinha ouvido; Mc Charles ensaiava umas notas um tanto esganiçadas na sua gaita-de-foles, sob os protestos da mulher; as três amigas, com a tesoura de recortes de Carlile, iam cortando em todos os personagens dos contos de C.Dickens, e por pouco não estragavam irremediavelmente as histórias.
Quanto ao poeta Laurence, nem se fala: com a atrapalhação, tinha-se perdido por completo, e folheava desesperadamente os livros, que já não reconhecia, sem encontrar nenhum dos poemas anteriormente escolhidos. Parecia bruxedo!
Foi então que, vindas não se sabe de onde, as notas do carrilhão começaram a bater as onze badaladas, as luzes apagaram-se, as velas acenderam-se por si mesmas, os livros de poesia do poeta ergueram-se sozinhos no ar batendo as folhas, bem como todos os poemas avulsos escolhidos e o poema proposto por M. Dikens; e, perante o pasmo generalizado, cada livro ou folha com o poema mais adequado, foi poisar nas mãos de quem o devia ler! O Espírito Poético tinha chegado. A partir daí tudo correu lindamente: as vozes, mesmo as mais fanhosas, declamaram como se fossem de anjos e, no final, Mc Charles fez soar de forma divinal a sua gaita-de-foles.

Quando a sessão acabou o Espírito Poético ainda pairou por ali algum tempo, mas ninguém percebeu de que forma teriam contribuído para a salvação de Mr Scrooge.
Só no Natal seguinte, quando os temas da Quadra voltaram a ser notícia é que os nossos amigos da sessão poética compreenderam o que tinha acontecido: havia agora uma nova versão do Cântico de Natal, a partir de um manuscrito original, descoberto em Chatham, no Condado de Kent. O final desta versão era um pouco diferente do anterior: o que ressaltava era sobretudo um maior comedimento na mudança de atitude de Scrooge; alguns críticos até adiantavam que correspondia a um maior realismo, demonstrando que a redenção, tal como a utopia romântica a concebe, não existe. Enfim, não cabe aqui descrever a tremenda conjuntura polémica que se gerou à volta do novo Conto, envolvendo, de críticos literários a historiadores da revolução industrial e teóricos neo-marxistas.
A verdade é que, entre outros aspectos, se encontrava no texto uma descrição da ceia em casa de Fred, o sobrinho de Mr Scrooge, com a presença de Meg e Richard, provenientes do conto The Chimes. Sabendo que os dois queriam casar, mas não tinham meios suficientes, Fred, com a sua bondade natural, tinha resolvido ajudá-los e convencer o tio a participar. No entanto, depois de alguma discussão e cedências por parte do prestamista, este tinha acedido, não a dar, mas a emprestar-lhes o dinheiro para a compra da casa e... imagine-se, para os electrodomésticos - anacronismo este que lançou a maior confusão na comunidade científica.


(Finished)

28 dezembro 2011

Relato [...]: 3ª Jornada


- Pois bem! - Suspirou Scrooge - lamento vir assim interferir na vossa noite de Natal, mas a verdade é que depois de muito ter reclamado junto de C. Dickens - já explico porquê -, soube que ele tinha enfim decidido convocar um Espírito mais conciliador e racional, o Espírito Poético, precisamente aquele que hoje ficou de aparecer na vossa sessão, assim que se dispuserem a recebê-lo, conforme me constou no cibercafé do Espaço Sideral.
- Sim, ouvimos até dizer que ele se predispunha a rescrever a sua história, disse Miss Carlile, a filha do casal, que entretanto já se tinha recomposto do espanto, e se sentia, diga-se em abono da verdade, um tanto atrapalhada, pois ainda não tinha acabado de ler o conto.
- Felizmente, C. Dickens criou-me sincero e frontal, e estas são qualidades que não cheguei a perder, apesar de tudo o que ele me fez passar e das atitudes radicais para que por fim me empurrou...
Aqui, já um tanto agastado, pois apreciava sobremaneira o autor, interrompeu-o o dono da casa:
- Mas, desculpe, tudo o que aconteceu depois das visitas dos Espíritos pareceu ser resultado exclusivo de decisões suas. Aliás, do que sei, por muitas gerações e actualmente, a sua mudança de atitude tem sido um manancial de lições de humanidade, de generosidade... E a inspiração...
- Ora aí está, a inspiração! - Scrooge não resistiu a interromper - e faz ideia do que eu, humilde prestamista de Londres até 1853, tenho sofrido, por causa dos protestos?
Entretanto, o poeta tinha emergido de debaixo da mesa e, mais à vontade, expressou a perplexidade estampada nas expressões dos presentes:
- Que protestos?
Quando o notável visitante se preparava para debitar as suas explicações, tocou a campainha da porta... Eram o casal Mc Charles, Merry-Jo, Etel Light e, logo a seguir, apareceu Airlet, muito afobada, porque se tinha perdido às voltas na Rotunda do Cemitério...
Passada uma primeira fase de natural estranheza em vista do inesperado conviva, o qual era conhecido de jingeira, quer dizer, do Cântico de Natal, todos se dispuseram ao reatar da história entretanto interrompida.
- Encurtanto então razões, como dizia, há mais de um século que sofro as afrontas dos injustos protestos do patronato, porque viram no meu gesto de generosidade compulsiva em relação ao vosso antepassado, meu amanuense, a origem de todas as cedências à classe operária: vejam-se os aumentos de salários, os bodos, os feriados, logo seguidos da semana-inglesa, do fim-de-semana, das férias pagas, enfim... uma torrente de regalias que a mesma classe dos trabalhadores nunca achava suficientes e, também para os sindicatos e associações de classe, nunca deixei de ser o mau da fita...
Scrooge estava a par dos problemas actuais, porque realmente lhe sobrava tempo para ver todos os canais de notícias do mundo; por pouco não estalava uma discussão brutal com Mr Cratchit, aficcionado do tema da política, a propósito da crise do Euro.
Foi então que Ebenezer Scrooge, até aí distraidíssimo com a conversa, reparou nas horas, se sobressaltou e, desculpando-se por ter de se ausentar sem participar na famosa sessão poética, explicou que não podia faltar à ceia de Natal na casa do seu sobrinho Fred.
Adiantou ainda que aquele tinha convidado, para a festa de Natal, um casal pobre que ele achava merecer ajuda... E Scrooge tremia só de pensar no montante da ajuda... Ainda por cima não os conhecia, pois vinham de outra estória... Tinha também um grande favor a pedir, antes de abalar...


(Tenham paciência, já não falta tudo)

27 dezembro 2011

Relato que se faz e apresenta da sessão que teve lugar poético em casa dos Cratchit, na noite de Natal do Ano da Graça de 2011: 2ª jornada


Na verdade, a campainha tocava de uma forma diferente, inaudita, como se fossem os sinos de um carrilhão ao longe, entoando jingle bells, jingle bells... Bob Cratchit franziu o sobrolho e perguntou à mulher:
- Estamos à espera de alguém tão cedo? A esta hora os convidados do Natal Poético ainda estão a desenvencilhar-se das espinhas do bacalhau... Quem será?
- Bem, não sei, o melhor é ir ver...
- Quem é? Perguntou Mrs Cratchit, depois de, confiadamente, ter accionado o trinco.
Ninguém respondia, mas uma estranha figura deslizou, sim, deslizar é o termo, através do portão entreaberto, e aproximou-se da porta, sendo dificilmente reconhecível à luz fraca do exterior.
Mrs Cratchit não é de se assustar, mas o caso estava a tornar-se, no mínimo, estranho.
Foi então que ela reprimiu um grito: era Mr Scrooge, só podia ser! Eram os chinelos mal enfiados nos pés, uma indumentária que combinava casaca e pijama, mas, sobretudo, o inconfundível barrete de dormir com a borla caída às três pancadas sobre o nariz adunco, que o denunciavam.
Se de fantasma ou espectro se tratava, tinha um aspecto bastante sólido e real; estava bem conservado, pensou Mrs Cratchit.
- Mas, senhor, o que faz aqui, a estas horas, tão deslocado do seu tempo e da sua cidade? Perdeu-se nos Circuitos Eternos? O que procura?
- Minha cara senhora, mil perdões pelo incómodo: esta não é por acaso a casa de Bob Cratchit, o meu empregado?
- Cratchit, sim, é o apelido de família... Mas entre, que está frio aí fora, e o senhor não está agasalhado – ainda apanha uma gripe!
Enquanto lhe dava passagem e indicava o caminho para a sala, onde o lume crepitava na lareira, ia pesando a quanto o espírito do Natal obriga, pois se via na contingência de acolher quem lhe batesse à porta, ainda que fosse- que arrepio!- um espectro!
Quando entraram na sala, uma corrente de ar gelado varreu o espaço e quase apagava o lume. Mas o acolhimento que todos dispensaram a Mr Scrooge, em atenção à sua edificante história, recentemente relembrada, rapidamente repôs o ambiente familiar.
- Edificante, dizem vocês? Bah! Scrooge quase vociferava, apoplético, quando alguém o sugeriu, mais para fazer conversa que outra coisa.
- Ó Sr Scrooge, por favor, deixe de pairar por aí, que nos faz vertigens, disse Bob Cratchit, sempre muito pragmático. Sente-se aqui à mesa connosco, e desembuche, que todos já perceberam que está mesmo a precisar!
Entretanto, convém referir que nem todos encaravam com tanta fleuma o estranho visitante. O poeta Laurence, aqui para nós, tremia como varas verdes, prenúncio de um ataque de taquicárdia, e aproveitou a desculpa de tratar dos poemas celtas por escolher, para se enfiar por debaixo da mesa (onde ainda assim podia ouvir a história que Ebenezer Scrooge se preparava para contar...).

(Recomendação: não perca o próximo episódio)

26 dezembro 2011

Relato que se faz e apresenta da sessão que teve lugar poético em casa dos Cratchit, na noite de Natal do Ano da Graça de 2011: 1ª jornada

Passada a epítome das festas, com a celebração familiar do Natal, repartido ou não entre a noite e o dia propriamente dito, sempre à volta de muitas vitualhas apropriadas à tradição e de não menos alcoólicos néctares, é tempo de cumprir a promessa de narrar, aqui, para que fique registado nos anais imorredoiros deste prestimoso blogue, a crónica da sessão dita poética, inspirada pelo respectivo Espírito que, como é do conhecimento universal, surgiu da síntese feliz que C. Dickens resolveu em boa hora fazer dos três Espíritos de Natal, num rasgo genial de re-escrita do seu Conto.
Convém dizer que a sessão em casa dos Cratchit, na sala pobremente guarnecida, mas especialmente preparada para o acontecimento, foi precedida de alguns preparativos: em primeiro lugar, havia o convite ao poeta Laurence, o qual tinha ficado com a incumbência de seleccionar material alusivo à Quadra; depois, foi pedido a M. Dikens um poema por ele escolhido, para ser incluído na sessão e também integrar a ementa da consoada dos que não pudessem estar presentes em casa dos Cratchit.
Era expectável que este evento pudesse ajudar a renovar o próprio Espírito do Natal, cansado e erodido por tanta repetição: sempre a mesma fórmula sócio-familiar, em crescendo de aborrecimento, com o mesmo tipo de filmes televisivos, publicidade e mais publicidade; cheio de luzes pisca-pisca, de ausência tácita de denúncia e de protestos de bondade faz-de-conta-que-é-para-sempre.
Um pouco depois da hora aprazada, apresentou-se, na casa de St George Avenue, devidamente enfarpelado, o poeta Laurence, a tempo de participar do repasto natalício, o qual, por um deslocamento geográfico do epicentro da estória, não constaria nunca de ganso assado, podendo, remotamente, incluir peru recheado, mas constaria sim, impreterivelmente, de bacalhau com todos, como manda uma tradição de origens vagamente vislumbráveis, relacionadas com um gosto local enraizado a partir da prática gastronómica de muitas sextas-feiras quaresmais, (ou qualquer outro motivo à escolha de melhores investigadores).
Voltando à vaca fria, que é como quem diz, ao bacalhau cozido, à ceia de Natal, acolitado aquele por tinto de Portalegre, temos à volta da mesa a família Cratchit em versão reduzida (não porque tivesse acontecido algum mal ao Tim ou a qualquer outro membro, note-se) e o poeta, que faz as delícias da dona da casa por tão bem se bater com a refeição.
Mal tinham os comensais engolido a terceira dose de sobremesa, retine a campainha da porta... Olá! Será gente ou será espírito?
...
(Nota: a continuar com mais episódios só se houver adesão de leitores)

19 dezembro 2011

CONTINUAÇÃO DE UM CONTO DE NATAL ( 6 )

Charles Dickens estava então decidido a rescrever a história de Ebenezer Scrooge. Sabia que o protagonista não havia gostado do Espírito do Natal Passado, e ainda menos do Espírito do Natal Presente com o seu despesismo e ostentação, e do Espírito do Natal Futuro nem era bom falar. Sobretudo, estes espíritos tinham-no assustado e induzido a praticar acções que não obedeciam à sua racionalidade de homem de negócios.
O escritor lembrou-se de substituir estes três espíritos por um único de valor acrescentado a que chamou Espírito do Natal Poético, e deitou mãos à obra. A decisão era arriscada, pois não se sabia ao certo como reagiria Ebenezer Scrooge. Porém, se quisermos falar segundo uma espécie de linguagem hoje muito usada por políticos e jornalistas nas suas intervenções mediáticas, diríamos que o escritor tinha muito bem definido o seu caderno-de-encargos, não empurrou-os-problemas-com-a-barriga, e fez de forma exemplar o seu trabalho-de-casa.
Um Espírito do Natal Poético como este, capaz de transfigurar o habitual conformismo da quadra, exigia de Charles Dickens a criação de uma personagem de recorte humano que representasse os novos valores que vinham do alto. Foi assim que surgiu na sua imaginação de artista o poeta Laurence, detentor de uma compilação de poemas natalícios que ia das canções dos remotos bardos celtas até à moderna poesia da estética pré-rafaelita.
E então, coisa extraordinária, vamo-nos deparar com a festa da noite de Natal em casa de Bob Cratchit, toda ela preenchida com leituras de poemas alusivos à quadra festiva. O poeta Laurence, convidado pela senhora Cratchit, sorria com indisfarçável satisfação para as filhas do casal, as meninas Belinda e Martha, e até o pequeno Tim, com a sua vozinha de criança débil, se dispôs a recitar um poema:

Christmas is coming,
The geese are getting fat
Please put a penny
In the old man's hat
If you haven't got a penny
A ha'penny will do;
If you haven't got a ha'penny
Then God bless you!

Coisa maravilhosa, ver assim irmanadas pelo poder da poesia de Natal pessoas de tão diversas índoles e disposições anímicas!
A nova fórmula do conto agradou a Ebenezer Scrooge, pelo que deixou de apoquentar o autor com as suas diatribes de personagem ressabiada. Diz-se, embora não haja certezas disso, que o Espírito do Natal Poético atravessava, como todos os espíritos poéticos, grandes dificuldades financeiras. Ebenezer Scrooge ter-lhe-á emprestado dinheiro a altos juros, pois o prestamista não perdia a oportunidade de fazer um bom negócio, até com os espíritos.
E pronto, é o fim da continuação-de-um-conto-de-Natal. Ainda bem que tudo acabou em bem e que o escrevente pode agora encerrar a loja e ir à sua vida sem mais delongas. UM BOM NATAL PARA AS QUERIDAS LEITORAS.

THE END

Alverca upon Tagus, December, 2011

18 dezembro 2011

CONTINUAÇÃO DE UM CONTO DE NATAL ( 5 )

Tranquilizem-se as benévolas leitoras que esta continuação-de-um-conto-de-Natal não está longe de chegar ao fim. Não é que não houvesse matéria para prolongar a história por mais alguns meses – sei lá, até por alturas de Quinta-feira de Endoenças ou do feriado do Corpus Christi, que aliás já não será feriado, por intervenção oportuna e saneadora das potências estrangeiras que agora governam o país. Acontece porém que o escrevente tem de ir tratar da sua vidinha, ausentando-se por tempo incerto para parte se calhar igualmente incerta, o que o impede de ficar aqui agarrado à escrita, debitando diariamente os episódios como se fosse esse o seu ofício e não tivesse mais nada para fazer. Tenha-se em conta que o ecrã do computador não é o mundo e que, como diz o outro, há mais vida para além do défice, ou, aliás, desculpe-se o lapsus linguae, mais vida para além das teclas.
Sendo assim, não entremos em detalhes sobre a conversa, ou desconversa, entre Charles Dickens e Ebenezer Scrooge, e atentemos na seguinte letter inédita encontrada no espólio do grande escritor inglês:

December, 27 th, 1843

My Dear Friend,
I write some lines to tell you a project I have in view. Projecto de concretização urgente, diga-se, que terei de concluir até ao final do ano, dado o risco que corro de assistir à implosão trágica e irreversível de alguns dos meus apreciados contos de Natal.
Acontece, My Dear Friend, que uma bizarra personagem por mim criada, Mr. Scrooge – deves estar a ver quem é, um agiota da city que enriqueceu à custa da ruína alheia –, se revoltou contra a minha pessoa por não concordar com o curso da história que inventei para ele. Esta atitude foi desencadeada pela intervenção do espectro do castelo de Elsenor, uma referência em má hora introduzida no meu conto, que tendo adquirido foros de personagem veio desassossegar o citado Mr. Scrooge.
É claro que tive de lhe dar um raspanete – esta expressão tão informal não é minha, por ela peço desculpas, mas de uma simpática leitora que a adoptou e eu, por graça, agora a uso. Só que a dita personagem esperneou que nem um frango de capoeira na degola, que não havia direito, que não estava para aturar os espíritos que o assediavam, e que tratasse eu de dar uma nova orientação à história porque se não o fizesse ou se queixava ao sindicato ou se passava para outra história com armas e bagagens, que isto de concertação social entre autor e personagens era uma prática adquirida, não fizesse eu como um certo governo de um país aliado, quase dois séculos mais tarde, que se dispôs a aumentar o horário de trabalho em meia hora diária e nem se dignou ouvir os parceiros sociais sobre o assunto.
Estás a ver a questão: eu que sempre fui pelas ideias socialistas de Saint-Simon e de Proudhon, que até cheguei a ler um tal Marx que na altura ninguém sabia quem era, que exultei com a prosa de um certo João Baptista de Almeida Garrett, que andou aqui pela ilha, fugido aos reaccionários do seu país – pobre país, aliás, que nem se regenerou com o sangue que lhe injectámos da nossa estirpe dos Lencasters – e que escreverá esta coisa fabulosa - E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? -, pois eu, que sou um homem de ideias avançadas, que sempre estive do lado dos humilhados e ofendidos como um Dostoieveski de língua inglesa, sou obrigado a dar abrigo às reivindicações dum agiota e a pactuar com a usura para que a minha literatura sobreviva e os meus leitores me possam ler.
O projecto que resolvi empreender foi, agora o digo, o de rescrever a história de Mr. Scrooge. Verás como, My Dear Friend.

Best regards.
Ever faithfully
Charles Dickens

16 dezembro 2011

CONTINUAÇÃO DE UM CONTO DE NATAL ( 4 )

A cultura literária de Ebenezer Scrooge era praticamente nula, como decerto já compreendeu a leitora atenta e acostumada a leituras sábias, e até o leitor, espécime naturalmente básico que se dedica aos livros por fraquezas da idade ou carências várias de que nem é bom aqui falar. Assim, se desconhecia a personagem de Hamlet e a do seu imortal criador, como poderia o prestamista saber a que episódio histórico se referia o Sr. Fish com aquela inescrutável apóstrofe latina. Falassem-lhe de juros e rendas, de letras de câmbio e de saques à vista, de papéis do tesouro e obrigações, e outro galo cantaria!
Porém, não se pense que o tu-quoque-Brute-fili-mi! que o antigo escolar do college de Oxford lhe atirara de chofre, assim como quem manda uma pedra bicuda à cabeça duma criança pequena, era de todo despropositado. Vejamos: anda uma personagem a passear de história em história, desfigurando as narrativas, subvertendo o labor do autor empírico que as gerara com um determinado sentido e propósito – ora o que é isto senão matar o pai que dá a vida e o pão à prole? Um Brutus, era aquilo em que Ebenezer Scrooge se havia tornado. O Sr. Fish sabia do que falava, pois também ele já havia sentido, por mais de uma vez, o mesmo desejo, denso e penetrante como o smog londrino, de dar um pontapé na altivez de Sir Joseph Bowley e partir à descoberta de outra história em que pudesse ser mais feliz como personagem. Mas adiante, deixemos estes considerandos, que não há meio de se chegar ao que interessa.
Em poucos minutos, enquanto Sir Joseph Bowley perorava perante o atónito Toby Veck sobre a necessidade de reprimir a criminalidade em Inglaterra e as vantagens de se entrar no ano novo com as contas pessoais devidamente saldadas, Ebenezer Scrooge era esclarecido sobre a história do príncipe Hamlet da Dinamarca. O Sr. Fish levou tão a peito as suas explicações que acabou também por falar dos Capuletos e dos Montecchios, ilustres famílias de Verona, e do mouro Otelo e de Desdémona, gente bem conhecida em Veneza, de tal forma que o bom do prestamista, aturdido com tanta sabedoria, pretextou assuntos de serviço no seu escritório e passou-se rapidamente para a história que por direito autoral lhe pertencia.
Chegou ao escritório no preciso momento em que o empregado Bob Cratchit acabava de copiar, com os vagares que lhe são conhecidos, a acta dum acordo de credores da firma Coal & Shipments Ltd., de Tower Street, nº 5. Mas logo estacou, assustado, perante o quadro que se lhe deparava: sentado à sua secretária, levemente inclinado sobre ela como quem trabalha, a barbicha hirsuta e o cabelo dividido por um risco ao lado que o projectava para o alto como duas excrescências peludas, aproveitando o tempo para retocar alguns capítulos de “Oliver Twist”, Charles Dickens, him himself, aguardava calmamente pela sua chegada.

15 dezembro 2011

CONTINUAÇÃO DE UM CONTO DE NATAL ( 3 )

Há que dizer desde já, procurando responder a observações de algumas perspicazes leitoras, que o espectro do castelo de Elsenor não aparece nesta história por mero acaso nem por simples capricho do seu autor. Autor é (autor)idade, como muito bem se sabe, sucedendo que não lhe cabe explicar ou prestar satisfações a quem quer que seja, apenas dar a ler ou a tresler, e cada um ou cada uma que se arranje como muito bem puder, se não gostar da comida que deixe na borda do prato, que aquilo que uns não querem estão outros mortinhos por saborear – haja vista aquele caso do jantar de bucho no conto “Os Sinos de Ano Novo”. Só que, condescendendo com a curiosidade manifestada, por vir de quem vem e não de pessoas quaisquer, aproveita o autor para esclarecer que o espectro do castelo de Elsenor aparece neste texto, digamos, por arrasto, visto fazer parte da história de Scrooge logo desde a segunda página da mesma, não sendo de estranhar, pois, que vendo tantos fantasmas à volta do desgraçado protagonista, ele próprio que já ali estava preparado para o que desse e viesse como uma espécie de fantasma residente, se tenha disposto a entrar também em cena. O que isto tem a ver ou não com o Natal, é o lado para que melhor dorme este autor.
Dito isto, e já lá vai quase metade do fascículo de hoje, saiba-se que o espectro do castelo de Elsenor, pronunciadas que foram aquelas suas últimas palavras, desapareceu, súbita e inexplicavelmente, da presença de Ebenezer Scrooge. Ora o prestamista, que nunca tinha ouvido falar de Hamlet nem do dito castelo, ficou a arder de curiosidade, sem possibilidade de saber mais sobre a assombração que o visitara, a qual, depois do terror inicial que lhe causara, até começara a despertar-lhe alguma simpatia. A sua primeira ideia foi a de que poderia ser a alma penada de algum importante senhor das highlands da Escócia, região do reino com bastantes castelos assombrados e grande cópia de espectros dentro deles. Seria, não seria?
Como nenhuma personagem da sua história lhe parecia à altura de o esclarecer, resolveu procurar o Sr. Fish, secretário de Sir Joseph Bowley no conto “Os Sinos de Ano Novo”, conto que estava ali à mão de semear no mesmo livro da história em que ele é protagonista. À pesca do Sr. Fish, fisgou-o naquela parte do conto em que ele está na biblioteca a receber a carta do recadeiro Toby Veck. Pediu licença para lhe falar à parte, alegando ser assunto de família.
- Scrooge, meu velho! – exclamou o Sr. Fish mal o viu, aproveitando logo para pedir notícias de Charles Dickens, o criador de toda aquela gentalha, ao que Ebenezer Scrooge disse nada saber, que até estava um bocado ressentido por causa da caterva de espíritos que ele tinha criado para a sua pessoa, mas que, enfim, tudo tinha já passado, e que ultimamente até havia conhecido um espírito interessante, que se dizia pai de um tal Hamlet e pairava habitualmente num castelo chamado de Elsenor, que ele não sabia onde ficava, mas que agora ardia de curiosidade por saber.
O Sr. Fish deitou-lhe um olho de goraz sabichão, entendido, conhecedor das fossas abissais da alma das personagens, e disse num latim frouxo e arrastado, mal aprendido no curso de bacharel que não chegara a concluir em Oxford:
- Tu quoque, Brute, fili mi !

14 dezembro 2011

CONTINUAÇÃO DE UM CONTO DE NATAL ( 2 )

Foi só ao fim de um certo tempo, o suficiente para que Ebenezer Scrooge sentisse aumentar de forma incontrolável a dor de barriga e se visse na situação humilhante de lhe escorrer pelas pernas uma massa grossa entre o líquido e o pastoso constituída por aquilo que muito bem se imagina, que a assustadora aparição resolveu falar.
– Desgraçado onzeneiro que nunca entrarás na barca santa do auto de Gil Vicente! Fica a saber, infeliz, que não tenho nada a ver com o fantasma do teu sócio - boa encomenda era ele! -, nem com os três espíritos grotescos que te visitaram. Não pertenço a esse mundo de vãs assombrações, mas sim ao dos que sofreram a perfídia, o crime, o roubo dos bens terrenos e do aconchego familiar. A minha mágoa, que uma triste vingança não logrou remediar, arrasta-me pelo mundo como um morto-vivo. Não te acenarei com natais de farta-brutos nem com a felicidade terrena, que não existe, não te procurarei emendar, pois já não tens emenda, quero apenas que saibas algumas coisas e que as possas transmitir a quem estiver a tempo de ainda se servir delas.
O prestamista, apavorado, sondou a porta da sala avaliando as possibilidades de se escapar, mas num momento, tão minúsculo como a cabeça dum alfinete, viu a sua vida toda desde pequenino, e isso fê-lo deter-se. Dir-se-ia que um olho mágico lhe nascera na cara ou que lhe era dado contemplar o aleph de Borges, embora não tivesse consciência de nada disso, coisas que estavam para além do seu tempo e da sua compreensão. Molhado e sujo como um rato de esgoto, mastigava a saliva amarga e tremia do corpo e da alma, mais assustado que Jonas dentro da barriga da baleia ou que Daniel na cova dos leões.
Sim, via a jovem Belle, a quem se ligara por um compromisso antigo, e que o deixara no caminho da vida abandonando o “sonho inútil” de seguir com ele. Certo, ela teria as suas razões, mas faltara-lhe força para se impor e contribuir para a sua transformação como homem. Lentamente, à medida que via mais episódios da sua vida, o temor regredia e uma relativa tranquilidade começava a instalar-se na sua pessoa. A influência deste quarto espírito levava Ebenezer Scrooge a ver os factos do seu passado de maneira diferente, a tomar como certo que nenhum homem vale por si só, sendo fruto das suas tendências e das tendências de todos os que o rodeiam. Porque falhara a sua relação com Belle? Vivia agora uma vida tranquila e sem história, ainda que com uma filhinha querida, na companhia do marido, rindo-se das suas singularidades de prestamista velho e avarento. E atreveu-se a questionar a assombração.
– Sabes, espírito? Desde que me apareceste já passei de um estado de completo terror à compreensão de algumas coisas importantes. Quem és tu, afinal?
O espírito pareceu tornar-se maior como uma sombra que cresce da própria sombra até encher por completo todo o espaço em que se concentra. Mas já não era assustador. E disse:
– Sou o único espírito verdadeiro a que o teu criador se referiu no conto que escreveu. Sou o espírito do pai de Hamlet, o espectro do castelo de Elsenor.

13 dezembro 2011

CONTINUAÇÃO DE UM CONTO DE NATAL ( 1 )

Ebenezer Scrooge, prestamista da praça de Londres no tempo da rainha Vitória, sempre acreditara nas potencialidades dos mercados financeiros, na mão invisível que dirige a economia, nas vantagens de poupar dinheiro e nas virtudes do juro que Santo Agostinho tão injustamente vilipendiara. Porém, assediado em vésperas de Natal por três espíritos perversos, modificou inopinadamente a sua forma de pensar, acabando por oferecer um peru de elevado preço ao seu empregado Bob Cratchit – um calaceiro que se deixava dormir sobre a carteira de amanuense enquanto copiava com infinito vagar, ao ritmo fatigado da sua pena de pato, as desassossegantes frases do mister de agiota : “Aos tantos dias do mês tal, do ano tal, pagará por esta minha única via de letra, a mim ou à minha ordem, a quantia de tal e tal e tal.”
Ainda que embarcado nesta onda de abro-as-mãos-e-dou-o-que-tenho-e-tu-não-tens, Ebenezer Scrooge, que não era parvo, ia meditando nas consequências para o negócio da sua inesperada fraqueza natalícia. Espíritos persuasores e desavergonhados, aqueles três que o haviam visitado – pensava. Mal sabia ele que com o oferenda do peru ao seu empregado, instituíra entre o patronato o hábito das broas, mais tarde conhecido pelo nome prosaico de subsídio de Natal, remunerações tão estapafúrdias e perigosas que os governos dos séculos seguintes se veriam obrigados a legislar no sentido de as moderar ou até acabar com elas. Mas adiante.
Ebenezer Scrooge, passados os efeitos da emoliente catequese dos três espíritos, já meditava naquilo que agora se sabe e em mais umas quantas coisas – como, por exemplo, a melhor forma de fazer a penhora duma casa cujo proprietário tinha as rendas do empréstimo em atraso ou a conveniência de preparar novas aplicações em papéis da dívida pública –, quando de um canto da sua sala, por detrás de uma cómoda de nogueira velha em que guardava as modestas roupagens, lhe surge, enorme e tenebroso, o vulto de um quarto espírito.
– Quem és tu? – perguntou com uma grande secura de boca, sentindo comichões nos artelhos e um forte congestionamento abdominal.
O espírito fez-se bronco, fingindo que não ouvia, e Ebenezer Scrooge pôde ver-lhe o cenho carregado e feio, a fímbria da túnica dez centímetros acima do soalho, sem pés que se notassem, e as mãos lívidas como nuvens que lhe saíam das mangas largas e ilusórias.