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24 abril 2020

Conde d’Abranhos, sessão mensal em modo videoconferência!



Hoje é dia da nossa sessão mensal. Não sendo possível reunir presencialmente, vamos fazê-lo de forma virtual. Todos os membros da Comunidade receberam o convite para participação, por isso contamos com a presença daqueles que tiverem disponibilidade.

Em discussão e análise, a vida de “Alípio Severo Abranhos, Conde d'Abranhos…varão eminente, Orador, Publicista, Estadista, Legislador e Filósofo”, tal como o descreve o seu eloquente secretário Z. Zagalo.

Eça e a sua crítica política feroz, no seu melhor.

22 abril 2020

O CONDE D´ABRANHOS (4)

Lendo O Conde d´Abranhos, podemos identificar o período do Liberalismo em que se insere a carreira política do protagonista, questionando-nos se sob os nomes fictícios de partidos, ministérios e agentes políticos ( Reformadores, Nacionais, ministério Cardoso Torres, o «velho general despeitado» da Revolta de 20 de Junho, etc.) não estarão nomes reais, historicamente conhecidos, de um tempo concreto e preciso. 
O Conde d´Abranhos foi escrito de um fôlego em 1879, durante uma estadia de Eça em Dinan, na Bretanha, embora a publicação só postumamente ocorresse, em 1925. À época da sua escrita, por razões que se adivinham, o editor terá chegado a propor que o livro saísse sem indicação da autoria.
A carreira política de Alípio Abranhos desenrola-se no 3º período do Liberalismo (1851 a 1890), conhecido pelo nome de Regeneração. Trata-se de um período caracterizado por um conjunto de melhorias materiais – rede viária e ferroviária, faróis, portos, telégrafo, fornecimento de água e iluminação – com expansão do sector agrícola mas fraca progressão da indústria. Este programa de desenvolvimento foi denominado Fontismo, devido a Fontes Pereira de Melo, seu inspirador e principal impulsionador.
No plano político destacavam-se os partidos Regenerador, Reformista e Histórico, tendo estes últimos dado origem, em 1876, ao Partido Progressista. As forças partidárias iam alternando no poder, tal como os Reformadores e os Nacionais do romance, sem que entre elas houvesse diferenças significativas, tanto ideológicas  como de prática política. Era o rotativismo.
Desconheço a eventual correspondência histórica do ministério Cardoso Torres, mas tendo a normalidade constitucional da Regeneração sido perturbada por golpes de estado – a revolução da Janeirinha em 1867-1868 e o golpe do Marechal Saldanha em 1870 – o livro de Eça faz eco de tais acontecimentos com o pronunciamento do «velho general despeitado», uma provável representação do marechal Saldanha, chefe militar prestigiado e inveterado golpista.
De notar que o período da Regeneração corresponde no plano cultural ao do segundo Romantismo, execrado e combatido pela escola realista, sendo notórias, neste e noutros escritos de Eça, as sátiras em torno de poemas ultra-românticos de João de Lemos, Soares de Passos e Bulhão Pato.
E assim, temos um romance que ficou na gaveta por mais de quarenta e cinco anos, ultrapassado em data de publicação por obras menos acutilantes do autor, um romance inacabado, sem revisão, o que lhe confere essa característica de peça em bruto, sem rodeios, num registo de quem fala com “o coração na boca” – fundamentalmente pelo discurso laudatório do narrador-biógrafo, convencido de que está a pôr nos píncaros o seu mentor e afinal só lhe descobre as fraquezas, a mediocridade intelectual e as misérias do seu carreirismo político sem honra nem princípios.

[Fontes: www.feq.pt, sítio da Fundação Eça de Queiroz; JOÃO MEDINA, História de Portugal Contemporâneo (político e institucional), Universidade Aberta, 1994.]

15 abril 2020

O CONDE D´ABRANHOS (3)

Nos romances de Eça há recorrências notáveis. Uma delas é o aparecimento de personagens de meninos-prodígios a recitarem poesia. Deveis estar lembrados do Cap. III d´Os Maias, o «tristonho e molengão» Eusebiozinho a mostrar os seus dotes com o poema “A Lua de Londres” do ultra-romântico João de Lemos.
N´O Conde de Abranhos, a menina Julinha recita o mesmo poema em casa do bestial desembargador Amado, sendo citados quatro versos da primeira estrofe e outros tantos da segunda. Antes, a prodigiosa menina aventurara-se por poesia mais funesta, nada mais, nada menos que “O Noivado do Sepulcro”, de Soares de Passos:
«Vai alta a Lua na mansão da morte,
Já meia-noite com vagar soou…»
É claro que o bom do Eça não refere os títulos dos poemas nem os nomes dos seus autores. Nem tal era preciso, tão conhecidos eram eles dos salões e saraus chiques da época. Os poetas ultra-românticos, os citados e também Bulhão Pato, foram bobos da festa nas narrativas queirosianas. Os portugueses e ainda Lamartine, o criador de Elvira, embora este estivesse uns degraus acima dos românticos serôdios cá do burgo. Cá da «choldra», diria o Eça.

14 abril 2020

O CONDE D´ABRANHOS (2)

Escrevendo em louvor de Alípio Abranhos, Z. Zagalo tem páginas de utilidade e rigorosa actualidade. 
Hoje retomei a leitura naquela parte do livro em que o «varão eminente» está a praticar as técnicas forenses no escritório do famoso jurista Dr. Vaz Correia. Na sua douta explanação, o biógrafo traz à colação a histórica revolta da Maria da Fonte, iniciada no Minho em Março-Abril de 1846 e depois alargada, num crescendo da crise social, a outras regiões do país.
Isto deu-me a oportunidade de ir rever os manuais da universidade, nomeadamente a História de Portugal Contemporâneo – Político e Institucional, de João Medina, na edição da Universidade Aberta.
É bom sinal que um livro de ficção nos leve a descobrir ou relembrar certos temas da nossa história. A boa ficção é uma leitura séria e na maioria dos casos altamente científica.
A revolta da Maria da Fonte fez-se contra o governo ditatorial de António Bernardo de Costa Cabral (1803-1889), um governo que, apesar de ter saído de um golpe de Estado e restabelecido um regime constitucional conservador (a Carta), empreendeu medidas progressistas como a proibição dos enterros nas igrejas e recintos anexos. A reacção popular de cariz religioso a esta medida sanitária (via-se nela o afastamento dos defuntos da asa protectora da Igreja) foi seguida de grandes desacatos com assaltos de camponeses às sedes da administração civil, a arquivos da Fazenda e quartéis, tendo os revoltosos tomado as cidades de Braga e Guimarães.
Diz João Medina: «A Maria da Fonte foi uma reacção sobretudo provinciana, camponesa e agrária contra as reformas em geral do Liberalismo (legislações de Mouzinho, Joaquim A. de Aguiar e Silva Carvalho) e contra alguns aspectos mais modernos da política de fomento material empreendida pela ditadura dos Cabrais e, nesta medida, contra a própria modernização económico-social iniciada desde 1842.»
Claro que esta explosão social e a coligação negativa – como hoje se diz – que se estabeleceu (cartistas anticabralistas, setembristas e até miguelistas) acabou por determinar a destituição de Costa Cabral pela rainha D. Maria II.
Mas voltemos a Z. Zagalo e a Alípio Abranhos (não sei se repararam, mas é como ir de AA a ZZ, um vasto campo, o que talvez não seja inocente…). Era ideia do ilustre pensador político que o regime constitucional democrático deveria prevalecer sobre o autoritário, que essa seria a melhor forma de levar as ovelhas ao redil. Demos a palavra a Z. Zagalo: «O Conde d´Abranhos, com a sua alta intuição, sentiu que se estava preparando uma nova política, que, condizendo com o seu temperamento, seria o elemento natural em que a sua fortuna medraria como num terreno propício. Ele bem sabia que o governo nada perdia do seu poder discricionário – mas que apenas o disfarçava. Em vez de bater uma forte patada no país, clamando com força: – Para aqui! Eu quero! – os governos democráticos conseguem tudo, com mais segurança própria e toda a admiração da plebe, curvando a espinha e dizendo com doçura: – Por aqui, se fazem favor! Acreditem que é o bom caminho!»
Não sei o que estão os nossos leitores a pensar, mas, se calhar, estão a pensar o mesmo que eu.

07 abril 2020

O CONDE D´ABRANHOS (1)


Falemos d’ O Conde d´Abranhos. Para começar, a carta-prefácio de Z. Zagalo, ex-secretário do «varão eminente» e seu humílimo biógrafo.
Esta carta é assim como um programa da narrativa a apresentar. O leitor percebe logo, e isso não lhe diminui o interesse, com que tipo de discurso se vai deparar. Um discurso laudatório sobre uma personagem pautada pelos valores fundamentais que alegadamente forjaram a grandeza da Pátria.
Portanto, esperamos ver no Conde de Abranhos o seu «ser moral», a sua «filosofia tão profundamente religiosa» e a «vasta ciência política» adquirida, além da profunda devoção à família – nomeadamente à segunda esposa, Dona Catarina, «um bálsamo» para a vida – e o seu reconhecimento aos servidores estrénuos e dedicados como este impagável Z. Zagalo metido a biógrafo da grande figura pública.
Sendo assim, vamos lá à leitura!

01 abril 2020

Abril é mês de "O Conde d'Abranhos" (mesmo sem sessão presencial)




A abrir:

“ALÍPIO SEVERO ABRANHOS nasceu no ano de 1826, em Penafiel, no dia de Natal. A Providência, por um símbolo subtil e engenhoso, fez nascer no dia sagrado em que nasceu Jesus de Nazaré, aquele que em Portugal devia ser o mais forte pilar e o procurador mais eloquente da Igreja, dos seus interesses e do seu reino.

Muitas vezes o Conde se comprazia em contar que, nessa noite de 24 de Dezembro de 1826, Inverno que ficou na história pelas grandes neves que caíram, seus pais – segundo a tradição venerada na família – tinham armado um presépio, como era costume nesses tempos em que a boa fé portuguesa amava a piedosa devoção dos altares íntimos. Ao centro do presépio, florido de muita verdura, entre os animais da narração evangélica, o Menino Jesus sorria, nos braços de uma Virgem, obra delicadamente trabalhada por Antão Serrano, o grande santeiro de Amarante. Em torno, ardiam as velas de cera; na cozinha, cantavam nas frigideiras os rojões da ceia; o lume de lenha húmida estalava jovialmente, e fora, na neve que caía, os sinos repicavam para a missa do Galo – quando a mãe do Conde, subitamente
Sentiu o tenro ser...
como diz o nosso grande lírico no seu poema, A Mãe…"

in “O Conde d’Abranhos” de Eça de Queiroz

Em Abril, continuaremos certamente sem nos podermos encontrar. Que isso não nos impeça, de ler o livro agendado para este mês!

21 outubro 2019

"A CAPITAL", DE EÇA DE QUEIROZ

Isto é como as cerejas. A leitura d´A Capital leva-me a antigas leituras como a deste livro em que se alude à Elvira do poema "O Lago", de Alphonse Lamartine, e ao «rumor das saias de Elvira» de que fala Eça na abertura d´A Correspondência de Fradique Mendes. Pobre Artur Corvelo com a sua baronesa e o seu Eros de expressão ultra-romântica! A Amélia do padre Amaro e a Luísa do Basílio são de outra extracção erótica, mais carnal e consequente, sem arroubos poéticos, mais cercanas das Conchitas e das Mercedes do salero andaluz. Aguardemos a sessão de dia 25, estou com curiosidade de ouvir os nossos leitores. 

14 outubro 2019

LIGAÇÕES NADA PERIGOSAS

Trabalho apaixonante para um leitor é estabelecer ligações entre as leituras que vai fazendo. Em verdade, nada é completamente novo, tudo está já inventado desde os tempos dos antiquíssimos poemas homéricos. Para isto, os teóricos da literatura descobriram definições com nomes raros, como palimpsesto, intertextualidade e outros. Pergunta-se: - Que há entre A Capital, de Eça de Queirós e os dois romances da foto? Que relações, por um lado, entre Artur Corvelo e Calisto Elói de A Queda dum Anjo e, por outro, Eugène de Rastignac de Le Père Goriot? Este, contemplando Paris do alto do cemitério Père-Lachaise, proferirá, falando para a grande cidade, a frase mais emblemática do romance: «A nous deux, maintenant!». Também Artur Corvelo, partindo à conquista da capital, poderia ter dito o mesmo: «E agora nós, Lisboa!» As intenções são iguais, os resultados é que poderão ter sido diferentes.  

02 outubro 2019

“A Capital” de Eça de Queirós - 25 Outubro às 21h00



A abrir:

“A estação de Ovar, no caminho de ferro do Norte, estava muito silenciosa, pelas seis horas da tarde, antes da chegada do comboio do Porto.
A uma extremidade da plataforma, um rapaz magro de olhos grandes e melancólicos, a face toda branca da frialdade de Outubro, com uma das mãos metida no bolso de um velho paletó cor de pinhão, a outra vergando contra o chão uma bengalinha envernizada, examinava o céu. De manhã chovera e a tarde ia caindo com uma suavidade muito pura. Laivos rosados esbatiam-se nas alturas como pinceladas de carmim muito diluído em água, e longe, sobre o mar, para além da linha escura dos pinheirais, por trás de grossas nuvens tocadas ao centro de tons de sanguínea e orladas de ouro vivo, subiam quatro fortes raios de sol, divergentes e decorativos que o rapaz magro comparava às flechas ricamente dispostas de um troféu luminoso…”

In “A Capital” de Eça de Queirós

25 fevereiro 2014

EÇA DE QUEIROZ, SEMPRE!

E o sonho da desforra faz suportar a realidade da catástrofe...

EÇA DE QUEIROZ, A Catástrofe

PÓVOA DE VARZIM, estátua de Eça de Queiroz na praça da Domus Municipalis (fotografias de 20/2/2014).