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20 março 2014

ADOLPHE-WILLIAM BOUGUEREAU (1825-1905), Jovem defendendo-se de Cupido
 
NAS ERVAS
 
Escalar-te lábio a lábio,
percorrer-te: eis a cintura,
o lume breve entre as nádegas
e o ventre, o peito, o dorso,
descer aos flancos, enterrar
 
os olhos na pedra fresca
dos teus olhos,
entregar-me poro a poro
ao furor da tua boca,
esquecer a mão errante
na festa ou na fresta
 
aberta à doce penetração
das águas duras,
respirar como quem tropeça
no escuro, gritar
às portas da alegria,
da solidão
 
porque é terrível
subir assim às hastes da loucura,
de fogo descer à neve,
 
abandonar-me agora
nas ervas ao orvalho –
a glande leve.
 
EUGÉNIO DE ANDRADE, Variações Sobre um Corpo, antologia de poesia erótica contemporânea, Porto, Editorial Inova, pp. 37 e 38.