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28 outubro 2015

JÚLIO DINIS, TRIPEIRO

= Porto, monumento a Júlio Dinis, foto de 6-9-2015 =
 
«Queria-se ele [João Semana] com a carne bem assada e o arroz no forno, açafroado - esses dois importantes elementos de gozo para os paladares portugueses; queria-se com o prato clássico da orelheira de porco e até com aquele outro prato, tão castiço como qualquer período de Fr. Luís de Sousa - prato que valeu aos Portuenses um epíteto gloriosamente burlesco;» --- As Pupilas do Senhor Reitor, capítulo 18.

07 outubro 2015

JÚLIO DINIS e ALEXANDRE HERCULANO

«(...) Este romance das "Pupilas" é a realização dum pensamento filho das impressões que, desde a idade de doze anos, tenho recebido das sucessivas leituras  do "Pároco da Aldeia". O meu reitor não fez mais do que seguir, a passo incerto, as fundas pisadas que o inimitável tipo criado por V. Exa deixou na sua passagem.»
--- Da carta de Júlio Dinis para Alexandre Herculano - Porto, 7 de Abril de 1867.

06 outubro 2015

ESTA É IMPORTADA DO FEICEBUQUE - ORA AGUENTEM-SE LÁ, BLOGUEIROS!


HÁ TRÊS ANOS, apresentando na Gulbenkian  a antologia organizada por CLARA ROCHA  com o título A CANETA QUE ESCREVE E A QUE PRESCREVE – DOENÇA E MEDICINA NA LITERATURA PORTUGESA, disse João Lobo Antunes que os alunos de uma sua unidade lectiva na Faculdade de Medicina de Lisboa – qualquer coisa como "MEDICINA E LITERATURA" – desconheciam quase em absoluto a personagem João Semana de Júlio Dinis. Lembrei-me disto – que ouvi directamente do professor (não me foi contado) – , no momento em que re-re-re-releio As Pupilas do Senhor Reitor, romance parcialmente escrito em Ovar, numa casa rural que hoje está dentro da cidade, onde o autor presenciou  os amores ingénuos dos camponeses, as desfolhadas, a vida de aldeia. É romance fraquinho, têm-me dito. A opinião de Eça não era diferente, se avaliarmos pelo que deixou escrito na morte do grande escritor: “Viveu de leve, escreveu de leve, morreu de leve”. Que posso fazer? Deixar aqui algumas imagens de mestre Roque Gameiro (1864-1935) que ilustraram edições de As Pupilas com a certeza de que tão belas aguarelas não podem provir de um romance vulgar.
 

JÚLIO DINIS e OVAR

Estive no passado mês de Setembro em OVAR no festival literário que lá decorreu. Foi a oportunidade para conhecer a casa onde JÚLIO DINIS viveu durante algum tempo e onde escreveu "As Pupilas do Senhor Reitor". Aqui deixo as fotografias.

05 outubro 2015

Será isto?



Hendrick ter Brugghen. Democritus. 1628.

O rir dos Demócritos de que se fala aqui em baixo?


"As Pupilas do Senhor Reitor" de Júlio Dinis, 30 Outubro, 20h30


A abrir:

"José das Dornas era um lavrador abastado, sadio, e de uma tão feliz disposição de génio, que tudo levava a rir; mas desse rir natural, sincero, e despreocupado que lhe fazia bem, e não do rir dos Demócritos de todos os tempos - rir céptico, forçado, desconsolador, que é mil vezes pior do que o chorar..."

in "As Pupila do Senhor Reitor" de Júlio Dinis, I Capítulo

23 janeiro 2013

UM POEMA DE JÚLIO DINIS


C. ***

Não meças o amor pelo tempo que dura;
Ontem amei-te mais nessa hora tão ligeira,
Senti maior prazer, gozei maior ventura,
Do que se ao pé de ti passasse a vida inteira.

Deixa que esta paixão termine com o dia,
Efémera recém-nascida à madrugada,
E que ao cair do sol, nessa hora de poesia,
Deixou pender no chão a fronte desfolhada.

Fiquemos sempre assim, um ao outro ignorados
Nestas vagas regiões duma paixão nascente.
Sigamos cada um caminhos separados;
Com uma hora de amor a alma é já contente.

                                                          Lisboa, 1869.
 
 
JÚLIO DINIS, Poesias, 6º volume das "Obras Completas", Lisboa, Círculo de Leitores, 1992, p. 254.

22 janeiro 2013

JÚLIO DINIS E A ARTE DO ROMANCE


Embora de diferentes formas e em extensão variável, todos os grandes escritores reflectiram e escreveram sobre a literatura. Schiller, Garrett, Eça, T. S. Eliot, Pessoa, Régio, Pamuk e Kundera estão entre esses poetas e romancistas autores de vários textos sobre a condição da poesia e a arte do romance.  
Júlio Dinis também não fugiu a tal exercício, o que demonstra ser de facto um grande romancista, preocupado com o que escrevia e a com a recepção dos seus escritos por parte do público.
Durante a sua segunda permanência na città dolente (como chamou, numa referência a Dante, à cidade do Funchal), entre 17 de Outubro de 1869 e Maio de 1870, foi escrevendo uma série de textos que figuram nas suas “Obras Completas” com o título “Ideias que me ocorrem”.
Excerto dum desses textos sobre a arte do romance:
“O romance é um género de literatura essencialmente popular. É necessário que na leitura dele as inteligências menos cultas encontrem atractivos, instrução e conselho e que, ao mesmo tempo, os espíritos cultivados lhe descubram alguns dotes literários para que se possa dizer que ele satisfez à sua missão.
Romances exclusivamente apreciados por eruditos não realizam o seu fim, romance que pela contextura literária revolta a crítica ilustrada, embora fascine o povo por certas qualidades prestigiosas, é um instrumento perigoso que deprava o gosto e às vezes a moral.
A verdade parece-me ser o tributo essencial do romance bem compreendido, verdade nas descrições, verdade nos caracteres, verdade na evolução das paixões e verdade enfim nos efeitos que resultam do encontro de determinados caracteres e determinadas paixões.
Realizados estes desideratos, pode ter-se a certeza de que, ainda sem grande complicação de enredo, o romance há-de agradar aos leitores, que a cada momento estão vendo no livro reflexos de si próprios, de seus pensamentos, de suas paixões e avivando memórias de passados episódios da sua vida.” *
Estes tópicos são coerentes com o que percebemos de Uma Família Inglesa, As Pupilas do Senhor Reitor e demais construções romanescas do escritor portuense.
 
*JÚLIO DINIS, Inéditos e Esparsos, 7º volume das “Obras Completas”, Lisboa, Círculo de Leitores, 1992, p. 11.

18 janeiro 2013

JÚLIO DINIS NA ILHA DA MADEIRA

Estátua de Júlio Dinis numa rua do Funchal: o cumprimento dum nosso amigo. (Novembro de 2011)

O livro a que tenho recorrido ultimamente (JÚLIO DINIS, Cartas e Esboços Literários), contem várias cartas escritas do Funchal durante os períodos em que por lá estanciou, em busca de alívio para a sua doença, o autor de Uma Família Inglesa. Há cartas marcadas por uma grande tristeza, próprias de quem sentia contrair-se o tempo de vida a que podia aspirar. Algumas, porém, ultrapassam o registo melancólico e chegam a ser sarcásticas na apreciação que fazem da sociedade funchalense e da vida dos “doentes do peito” na ilha.
É o caso deste excerto duma carta para Custódio Passos, datada de 5 de Maio de 1869:
“Eu imaginava que a Ilha da Madeira teria costumes novos para mim, que haveria nesta sociedade uma feição especial. Nada disso; os mesmos cavacos políticos nas praças, as mesmas cerimónias nas salas de partidas, as mesmas bisbilhotices nas lojas, onde se reúne a élite funchalense. É o Porto sem tirar nem pôr, com a única diferença de se entrar ainda mais pelo íntimo das casas para assoalhar o que por lá vai.
Uma noite houve aqui um baile em casa dum morgado. Os morgados andam por cá a rodo. Pois ao almoço do dia seguinte eu sabia das minhas patroas [as suas hospedeiras], que aliás não tinham lá ido, as mínimas particularidades da soirée. As informações distribuem-se aqui às horas do leite e do pão quente.
A natureza compensa as impertinências desta sociedade. Mas não é fácil a um doente passear no campo. Passeios a pé são impraticáveis, graças às pavorosas subidas que por toda a parte se encontram. A rede não é tão cómoda como parece; os carros sem rodas não podem vencer todos os caminhos. Depois um homem habitua-se, como aí no Porto, a dar todos os dias a mesma volta e acabou-se.
Outra impertinência do Funchal é a conversa forçada em doenças do peito. Todos os dias os doentes se encontram nas ruas e informam-se reciprocamente de quanto tossiram, de como passaram a noite, da maior ou menor pressão que sentem, e de mil pequenas coisas a que os doentes dão importância. Não há meio de fugir disto.”

16 janeiro 2013

EDUCAÇÃO COMERCIAL em "UMA FAMÍLIA INGLESA"


Peço às caras leitoras que conhecem as artes contabilísticas que comentem o capítulo XXII, EDUCAÇÃO COMERCIAL.
Era eu aluno do Curso Geral de Comércio (Escola Comercial Ferreira Borges) quando li este romance. Lembro-me de ter conversado então com a minha professora de Contabilidade (Dra. Estela) sobre a forma ágil como o Carlos Whitestone conseguira entrar nos segredos técnicos das partidas dobradas.
LETRAS A RECEBER
a VINHO,
o lançamento que lhe foi dado como exemplo de aprendizagem pelo experiente guarda-livros.
Naquele tempo em que ainda não se sonhava com o POC (Plano Oficial de Contas), fez-me notar a minha professora que o guarda-livros Manuel Quintino trabalhava com uma subconta (VINHO) em vez de usar a conta adequada, MERCADORIAS.
Tempo espantoso em que os mestres de Contabilidade conheciam os nossos escritores! Aqui presto a minha homenagem a essa grande professora. Foi da sua boca que pela primeira vez ouvi falar de Vergílio Ferreira e de Aparição. Estávamos na primeira metade dos anos sessenta. Professora de Contabilidade, não de Literatura!
 

15 janeiro 2013

DIANA DE AVELEDA e RAMALHO ORTIGÃO


Júlio Dinis, pseudónimo literário de Joaquim Guilherme Gomes Coelho, não foi o único usado pelo autor de Uma Família Inglesa. Numa série de cartas e textos publicados em diversos jornais, o jovem escritor adoptou o pseudónimo feminino de Diana de Aveleda.
Diana de Aveleda, tanto nas suas cartas a Cecília (personagem fictícia), como nas que dirigiu a articulistas da imprensa portuense, assumia o papel de uma mulher inteligente, com alguma cultura, que se demarcava do discurso masculino e da forma de sentir e agir típica dos homens.
Foi assim que enganou Ramalho Ortigão numa carta que lhe enviou depois de o futuro obreiro de As Farpas ter escrito um artigo no Jornal do Porto. Não me dei ao trabalho de procurar esse artigo, mas devia exprimir ideias sobre a condição feminina, exaltando, dentro do espírito do século, as mulheres culturalmente activas, atributos que não agradaram a Diana de Aveleda.
Aqui fica um excerto dessa carta enviada a Ramalho Ortigão em Fevereiro de 1863:
“A mulher digna de o ser é aquela em cuja ortografia os eruditos tenham que lamentar a ignorância absoluta das letras gregas e latinas, a que dos jornais políticos só lê o folhetim, a que dum livro passa em claro os prólogos, que põe de parte as condições filosóficas dos romancistas para seguir o entrecho do romance; que perde de vista a ideia metafísica do autor, para não ver nos acontecimentos narrados senão acontecimentos; a que não tem o ridículo descoco de repetir após a leitura o qu´est ce que cela prouve de filosófica e insuportável memória. É a que folga com os casamentos no final da novela, chora sinceramente a morte da heroína, sonha com a beleza do herói e odeia do coração o pai, o tio, tutor ou conselho de família que se opõe à realização dos castos desejos dos dois amantes.” [1]
O perspicaz Ramalho embatucou, não desconfiou de nada, mas como cavalheiro que era lá publicou a seguinte nota:
“Recebi ontem o escrito, que hoje se publica com este título [‘Coisas verdadeiras’] e que será concluído na folha de amanhã. Era ele acompanhado de uma carta muito elegante e igualmente assinada pela autora. Aplaudo-me de haver escrito com o título ‘Coisas Inocentes’ a bagatela que me proporcionou  esta honra. Ignoro se Diana de Aveleda é um pseudónimo ou um nome. Basta-me também saber que é uma senhora quem o escreve.
Em um folhetim que hei-de publicar brevemente, buscarei provar que fui mal compreendido pela minha leitora e colaboradora excelente. No entanto curvo-me muito respeitosamente diante da fineza que acabo de receber e ponho o meu cordial agradecimento aos pés de Diana de Aveleda.” [2]
Assim mesmo. Joaquim Coelho/Júlio Dinis/Diana de Aveleda tinha na altura 24 anos. Ramalho Ortigão era um pouco mais velho, 27.





[1] JÚLIO DINIS, Cartas e Esboços Literários, Porto, Livraria Civilização, 1946 (d. do prólogo), p. 268.
[2] IDEM, Ibidem, p. 265.

02 janeiro 2013

LEITURA DO MÊS : "UMA FAMÍLIA INGLESA", DE JÚLIO DINIS : 25 DE JANEIRO, 21 HORAS

Exmo. Sr. Joaquim Guilherme Gomes Coelho
Recebi, mas só muitos dias depois, o exemplar com que V. Exa. me obsequiou, do seu romance Uma Família Inglesa.
(…)
Coisa muito para se citar com louvor e admiração neste seu novo livro, é (quanto a mim) que, sendo tão sóbrio o enredo, e tão pequeno o teatro da acção, o interesse dela é todavia dos mais poderosos. O talento real foi sempre assim, e assim é também em todos os seus poemas a Natureza: de elementos mínimos compõe, sem esforços nem violência, os máximos efeitos.
Deus o conserve (e já se vê que o há-de conservar até ao fim) no óptimo sistema que adoptou.
Outros que o elogiem (e com esses também eu faço coro) como escritor de romances já distintíssimo, não só para entre nós. Eu, por cima desse mérito reconheço-lhe ainda o de filósofo e moralista, que algum dia tem de ser colocado entre os de primeira plana. Teofrasto e La Bruyère não debuxaram com mais exacção os caracteres. Balzac mesmo não lê mais por dentro nos indivíduos. V. Exa., além do esmero com que nos pinta o mundo exterior, e nos fotografa a sociedade, tem o raro dom da intuspecção no mais eminente grau. Cumpre o nosce te ipsum; ciência rara! e ousa (o que também não é vulgar) não desviar jamais os olhos da eterna máxima, risota hoje para muitos:
Rien n´est beau que le vrai, le vrai seul est amaible.
(…)
Adeus, meu caro, meu prodigioso poeta. Creia nas veras com que me assino.
 
Lisboa, 15 de Julho de 1868
 
                                                                     De V. Exa.
                                                        admirador, confrade amigo,
                                                             e servo muito obrigado
 
                                                                   A. F. de Castilho
      
Júlio Dinis, Cartas e Esboços Literários, Porto, Livraria Civilização, 1946 (d. do prólogo), pp. 283-286.