ANTÓNIO QUADROS, Auto-retrato
Lourenço Marques, assim se chamava,
pérola do Índico ou coisa parecida, foi lá que me encontrei com João Pedro
Grabato Dias, na verdade António Quadros, pintor (1933-1994), também conhecido
pelos falsos nomes de Frey Ioannes Garabatus e Mutimati Barnabé João, corria o
anno Domini 1972, o Outono floria a sul do Equador, e toda a esperança era ainda
possível. O encontro deu-se numa livraria, como convinha, livros que apareciam
e desapareciam numa fugacidade austral de fazer suar os poros dos trópicos. As
acácias rescendiam nas avenidas e eu pouco sabia da vida, estado em que,
felizmente, ainda me mantenho.
MÁRTIRMONIAL, MATRIARMORIAL,
MATRIHORMONAL
Cavalheiro distinto, e modesto,
com alguma cultura, em pousio,
de boagnífica família e lavradio
passável, lutador ambidextro
com ursos superiores, bastante lesto
nas também duas pernas, de assobio
em coisas musicais e sem fastio
ou outro desarranjo; ainda intesto
por falta de vagares ou vícios; vivo
em jogos de sala e outro desporto
procura jovem fêmea com lascivo
andar, dotada quanto a dote e a dotes
glúteas nalgas de alevantar um morto
e, se possível, algo que decote.
JOÃO PEDRO GRABATO DIAS, Sonetos de Amor e Circunstância e uma Canção
Desesperada, Lourenço Marques, edição do autor, 1970, p. 44.
