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26 março 2020

JUBIABÁ (8)


CHEIRO DOCE DE FUMO
Li hoje este capítulo de Jubiabá em que de uma forma mais directa se coloca a questão da exploração dos trabalhadores, aliás das trabalhadoras, mão-de-obra da indústria de charutos em São Félix e Cachoeira. As mulheres, mal pagas e a trabalharem em condições infra-humanas, sofriam o assédio dos patrões, naturalmente as que ainda não tinham perdido o viço da juventude, porque a maioria, «pálidas e macilentas mulheres de olhos compridos», não as queriam eles.
«Le melhoro de condição…», dizia o loiro alemão, proprietário de uma fábrica em Cachoeira, para a mulatinha pretendida.
Ainda hoje os charutos baianos são vendidos para todo o mundo. Na foto, a fachada da fábrica de São Félix fundada em 1872 pelo alemão Gerhard Dannemann (seria algum neto seu o assediador da mulatinha?), fábrica ainda em actividade naquela cidade do Recôncavo Baiano.


25 março 2020

JUBIABÁ (7)


Mapa do Recôncavo Baiano com as cidades de Salvador e Cachoeira, a Baía de Todos os Santos, a ilha de Itaparica, o rio Paraguaçu e os portos de Maragogipe e Santo Amaro.
Por ali vogava o saveiro de Mestre Manuel, um cheiro de abacaxis maduros saindo-lhe do bojo. António Balduíno pensava em sambas com os olhos postos nas estrelas, o Gordo sonhava com anjos, via uma estrela na lanterna do saveiro Paquete Voador. Até que do porão, misturando o cheiro do mar com o dos abacaxis maduros, surge uma mulher, Iemanjá erotizada.
«Mestre Manuel apresenta:
– Minha patroa…
A surpresa deles é tão grande que não dizem nada. Ela também está calada e, mesmo que fosse feia, seria bela assim em pé no saveiro que se inclina, o vestido levantado pelo vento, os cabelos voando.»  

23 março 2020

JUBIABÁ (6)

JORGE AMADO (Itabuna, 1912 - Salvador, 2001)

«Jubiabá, esse adorável Jubiabá, marca para nós uma transição na obra do autor. Aí já o horizonte se alarga imensamente. Os personagens começam a viver por si. Já não se trata de figurinos (concordamos que figurino é um pouco excessivo) justificando ideias. Aqui há pessoas que vivem. Poderemos esquecer Baldo, o negro António Balduíno, procurando o seu «caminho de casa», Santo Jubiabá e o seu «olho da piedade», os suspiros de Maria Clara, sua canção do cais, o morro do «Capa Negro», a bela figura do Gordo na «Lanterna dos Afogados»?
Poderemos esquecer a história de Lindinalva, a Companhia do Grande Circo Internacional, a saudação no cais de Baldo a Hans, o marinheiro? E porque nos apetece Jubiabá num plano tão diferente?
Simplesmente por isto: Jorge Amado foi neste livro ao fundo do homem.Todo o romance, feito afinal dum conjunto de romances, feito de vida, é a análise do homem desnorteado, do homem-tipo da nossa época, que procura um rumo, um homem vergado ao peso de milhentos problemas, que procura nortear-se e caminhar, caminhar sempre. E esse homem não é António Balduíno, a figura mais cuidada do livro. Esse homem é António Balduíno, é a velha Luísa, Giuseppe, Luigi, Rosenda, Rosendá, etc.» --- MÁRIO DIONÍSIO em "A propósito de Jorge Amado-II", O Diabo, nº 165, 21 de Novembro de 1937.

20 março 2020

ABC, Literatura de Cordel brasileira




Como reiteradamente tem afirmado Antônio Balduíno, um dos sonhos que persegue é vir a ser herói, objeto de um ABC que lhe seja dedicado.
O ABC, literatura popular, dita de cordel, (por razões à vista), foi declarada património cultural brasileiro pelo Iphan (Instituto do património histórico e artístico nacional) em 2018. Com origem em finais do século XIX, inspirada na nossa congénere que data do século XVI (a qual, ironicamente, terá entrado em decadência quando surge e se desenvolve o ABC brasileiro), continua ainda hoje a ser produzida e divulgada no Brasil. Mantêm-se as caraterísticas editoriais de pequena brochura, barata (se não for de coleção...),com textos em verso e ilustrações em xilogravura ou linogravura (julgo eu). Há algum tempo, tivemos oportunidade de ver uma exposição a propósito, na BN. Também tive a grata sorte de consultar alguma desta literatura portuguesa de cordel em miscelâneas, na BN, com histórias hilariantes sobre saloios e saloias.


JUBIABÁ (5)



Cartão POR SI MINHA ALMA SOFRE (Capítulo "Lutador"), dado por Baldo a Maria dos Reis. O canto do sim e o canto do não. Como no poema de Viriato da Cruz, musicado por Fausto e cantado por Sérgio Godinho:

https://www.youtube.com/watch?v=ir-ox6LGWgM

«Mandei-lhe um cartão
que o amigo maninho tipografou
"por ti sofre o meu coração"
num canto "sim"
noutro canto "não"
e ela o canto do não
dobrou.»

19 março 2020

JUBIABÁ (4)

Estou a ler o capítulo "Lanterna dos Afogados" e faço umas notas sobre o pequeno diálogo das 3ª e 4ª páginas entre António Balduíno e Joana. Vendidas que foram as letras e músicas dos sambas ao "poeta" Anísio Pereira, Baldo compra uns sapatos novos: «E olhe a prosopopeia do meu sapato novo...» - diz ele para a moça. 
Prosopopeia é uma figura de linguagem em que se atribuem sentimentos ou acções próprias dos humanos a animais irracionais ou a seres inanimados. Exemplo: «O sol sorria no dia luminoso». Pelo que é curiosa a expressão utilizada para o seu sapato pelo herói do romance...
Outra nota é sobre o seu amor da adolescência, ainda presente neste tempo em que ele já era o «dono da cidade». Referindo os encontros carnais com Joana, diz o narrador: «Iam à macumba e depois se estendiam no areal, onde se amavam raivosamente, António Balduíno vendo no corpo de Joana o corpo de Lindinalva.»
Cartune de Spacca

JUBIABÁ (3)

Café (1935), de Cândido Portinari, óleo sobre tela, 130x195, exposto ironicamente no "Stand de Arte" do Pavilhão do Brasil na Exposição do Mundo Português (1940)

A literatura brasileira, tanto a de temas nordestinos (Euclides da Cunha, João Guimarães Rosa, José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos), como a de escritores do sul como Erico Veríssimo, teve uma grande influência no nascimento e desenvolvimento do neo-realismo português.
Aprecie-se este passo do capítulo "Moleque" de Jubiabá:
«Os homens negros do cais do porto pararam o trabalho em outra ocasião. Desta vez a noite era sem estrelas e sem lua. Do violão de um cego na Lanterna dos Afogados vinham cantigas de escravo. Foi quando um homem trepou num caixão e começou a falar. Os outros cercaram-no, foram chegando todos para perto. Quando António Balduíno e o seu grupo chegaram, já o homem gritava apenas vivas, a que a massa correspondia:
- Viva!
(...)
O homem que estava em cima do caixão, e que pelo seu jeito era espanhol, jogou um punhado de papéis, que foram disputados. António Balduíno pegou um que deu ao estivador António Caroço, que era seu amigo. Foi quando alguém gritou:
- Lá vem a polícia...»
A mensagem é clara, acompanhada da dimensão poética do discurso, bem presente na frase que fecha o capítulo: «Ia ao cais todas as noites e ficava espiando no mar o caminho de casa.»

16 março 2020

JUBIABÁ (2)

SPACCA, jubiaba.blogspot.com

«É ruim fechar o olho da piedade… fica só o olho da maldade», frase de Pai Jubiabá. Em língua ioruba (nagô), «Ôju ánun fó ti iká, li ôku!»
A história de um homem e do seu amigo João Janjão, retirantes do sertão por causa da seca, é contada no morro do Capa Negro pelo primeiro. Ele tinha matado o amigo que o salvara da morte, transportando-o às costas na fuga do sertão. O amigo tinha o olho da piedade bem aberto, ele não.
Uma parábola do segundo capítulo de Jubiabá. O homem que só tinha o olho da maldade vivia com a consciência atormentada pelo seu crime. Contou-o ao pai-de-santo e a quem o quis ouvir.
«– Ele tinha-me levado nas costas um dia todo… Ele tinha o olho da piedade bem aberto… Eu quero tirar ele da minha frente e não posso… Ele está ali, bem ali, olhando para mim.»
No fim, «o homem levantou e desceu o morro levando a sua história.»

15 março 2020

JUBIABÁ (1)


Ficha do cartunista SPACCA em jubiaba.blogspot.com

A CIDADE-MULHER

Li hoje o segundo capítulo de Jubiabá, “Infância remota”. Infância remota de António Balduíno, o menino que observava a cidade do alto do morro e dela adivinhava mais do que se pode esperar de uma criança. Uma primeira nota para a dimensão erótica, dada pelo narrador, desta observação da cidade (cidade-mulher), aquele espaço de certa forma interdito onde fulguravam luzes, circulavam bondes e se movimentava a gente de diversas classes nas suas labutas diárias. O despertar remoto da sexualidade.
À espera de, à hora do crepúsculo, ver as luzes se acenderem, Baldo tinha uma volúpia que «parecia um homem esperando a fêmea». Uma vez, sentindo, vindo lá de baixo, um «choro de mulher e vozes que a consolavam», houve um tropel dentro dele que «o arrastava numa vertigem de gozo». Havia sofrimento na cidade, diferente certamente do que se vivia no morro, mas o «menino de oito anos, gozava aqueles pedaços de sofrimento como o homem goza a mulher.» E tudo isto, assim mesmo mal entendido, tornava Baldo mais terno na sua rudeza de menino desamparado. Se algum companheiro se aproximasse dele naqueles instantes de contemplação, «ele o acariciaria sem dúvida, não o receberia com os beliscões costumeiros» e passaria «a mão sobre a carapinha do companheiro de brinquedos, recostaria o peito ao peito do amigo. E talvez sorrisse.»
Ainda numa linha de erotismo, dizia a irmã Luísa do pai de Baldo: «Ele era um negro bonito de encher a boca de água.»
E isto é apenas sobre as duas primeiras páginas do capítulo. Já iremos ao pai-de-santo Jubiabá e aos ABC de Zé Camarão.