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31 outubro 2022

Evocar Saramago



A Biblioteca Municipal de S. Domingos de Rana apresenta um programa cultural evocativo da obra de José Saramago. Bem a propósito, num trimestre em que lemos Saramago e Saramaguianos.

Programa completo, aqui

03 outubro 2022

Manual de Pintura e Caligrafia, de José Saramago - 28 Outubro às 20h00


 

“Manual de Pintura e Caligrafia é um romance que causou alguma surpresa quando apareceu. O livro foi bem recebido, talvez pela sua estrutura que parece até mais moderna que a dos livros que vieram depois. Quando digo mais moderna, quero dizer mais vanguardista. Há muito de autobiografia ali mas é paralela.”

José Saramago

01 maio 2021

28 de Maio “Levantado do Chão” de José Saramago – às 20h00

A abrir

" O que mais há na terra é paisagem. Por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou, abundância que só por milagre infatigável se explica, porquanto a paisagem é sem dúvida anterior ao homem, e apesar disso, de tanto existir, não se acabou ainda. Será porque constantemente muda: tem épocas do ano em que o chão é verde, outras amarelo, e depois castanho, ou negro. E também vermelho, em lugares que é cor de barro ou sangue sangrado. Mas isso depende do que no chão se plantou e cultiva, ou ainda não, ou não já, ou do que por simples natureza nasceu, sem mão de gente, e só vem a morrer porque chegou seu último fim. Não é tal o caso do trigo, que ainda com alguma vida é cortado. Nem do sobreiro, que vivíssimo, embora por sua gravidade o não pareça, se lhe arranca a pele. Aos gritos…”

In “Levantado do Chão” de José Saramago

04 maio 2014

PELA GRAÇA É QUE VAMOS

Diz-se no Memorial do Convento, por estas ou outras parecidas palavras, que cada qual procura, por seu próprio caminho, a graça. Difícil é acertarmos sobre o que seja a graça, a dos teólogos ou a dos homens simples, aqueles cujo pensamento raramente se eleva acima da sombra rasa dos seus corpos.
A graça pode ser uma mulher, ou um homem, pode ser um poema ou uma canção, mas seja o que for é por ela que vamos e é por ela que sempre nos salvamos.
D. João, quinto do nome na tabela real, rei de arrojados propósitos, procurou a graça naquela sinfonia de pedra desenhada por um arquitecto ourives, composta com a  carne e o sangue de vilões e servos,  volutas e capitéis triunfantes sobre a brutidade arrancada aos veios de mármore de Pero Pinheiro, a mãe da pedra, Benedictione, as pedras filhas que saíram das demais pedreiras do ditoso reino. Uma vila, Mafra, que subiu do vale à montanha, cada letra um nome, outra variante possível, talvez inexacta: m de maravilhosa, a de abnegada, f de feliz, r de religiosa, a de albergue das estátuas dos santos, as que de Itália vieram, dezoito, uma dúzia e meia de milagres de mármore transportados desde o porto de Santo António do Tojal até à fábrica do alto da Vela, passando por Pintéus, Cabeço de Monte Achique e Alcainça Pequena, entre eles os de São Domingos e Santo Inácio, inspiradores de torturas humanas, ou, melhor dizendo, desumanas torturas, de corpos o primeiro, de almas o segundo.
          O padre Bartolomeu Lourenço, Gusmão por vaidade, procurou a graça no voo de uma passarola trágica, Ícaro que nem do Sol logrou aproximar-se, nave de sonhos, ferro e vimes entrançados, uma vela preta, bolas de âmbar amarelo e duas esferas de metal carregadas de vontades, nave ferida num declive rombo da serra de Barregudo e Monte Junto, ali ao pé do cenóbio dominicano de onde saiu o frade que quis violar, bem caro lhe saiu o apetite da carne, a filha da feiticeira Sebastiana Maria de Jesus, um quarto de cristã-nova que não passou despercebido ao olho vivo e jugulador do Santo Ofício.
            Domenico Scarlatti e a música do seu cravo, os anjos a ouviriam de bom grado, não fossem eles mesmos os grandes músicos da corte celestial, sentados à mão direita e única de Deus Pai com as suas harpas e liras, tocando como quem reza, que tudo é música, se não é oração tudo, isto mesmo se diz a páginas tantas do Memorial do Convento. Não foi concedida ao napolitano a graça de tocar no céu, a passarola voou sem ele e o seu cravo de Abril, mas a sua música soou na casa que foi construída sobre a ponte de pedra do rio Caia, Arno e ponte Vecchio peninsulares, cerimónia de troca das princesas. Ouviu-a, sem saber que a ouvia, João Elvas, mendigo vagabundo que privou, caminho do Alentejo, com um fidalgo da corte de D. João, explicador de coisas que o explicando não podia entender sem a sua ajuda, ai dos que por soberba, ao contrário deste fidalgo, não se chegam aos pobres de espírito e entendimento, difícil será, para esses, encontrar os seus caminhos da graça.   
E Blimunda, a que sabia ver, e Baltasar, o que sentia as coisas, até a mão que lhe faltava, Vulcano e Vénus  procurando-se na graça do amor e do desejo, que sem um não existe o outro, embora não se saiba qual manda mais, qual está antes e qual está depois, se é o amor ou se é o desejo.
Pelos caminhos da graça, procurando-a, andaram os que viram o Espírito Santo a sobrevoar Mafra em dia de assombro e maravilha. Não sabiam que o Espírito Santo só sobrevoa as cabeças do apostolado, línguas de fogo desembargando as línguas falantes dos sobrevoados, pedreiros, canteiros e lavrantes, oficiais e mestres-de-obra da fábrica real, nenhum tomou o dom das línguas estranhas, português e do pior falavam, assim continuaram a falar.
Procura da graça acrescida a do rei magnânimo, fazer nascer o milagre catedralesco de São Pedro de Roma na Lisboa de vielas e becos, Rossio na Rua da Betesga. É verdade que cada um procura a graça por seus próprios caminhos, mas alguns são ínvios, infelizmente, como este do grande rei, como aquele do povo trabalhador de Mafra.
Que caminho da graça foi o teu, António José da Silva, judeu de comédias de bonifrates? Desceram sobre ti os gaviões de São Domingos, não os de Rana, que estes são pombas sem fel, relaxado em carne ao lado de Baltasar Sete-Sóis, voador de sonhos e quimeras, rastejante de trabalho e dor, uma nuvem fechada no centro do corpo, viu-a Blimunda Sete-Luas e o seu jejum revelador, mulher tão cheia de graça não há nem nunca houve na terra e nos céus.
É pelo sonho que vamos, disse o poeta. Pelo sonho e pela graça, porque o sonho está dentro da graça, como a poesia está dentro do coração dos homens.


S. Domingos de Rana e Comunidade de Leitores, 30-4-2014

29 abril 2014

D. JOÃO V, NUNO ABECASIS E AS CATEDRAIS DE LISBOA

«Estão numa pausa, o rei não fala, o arquiteto não diz nada, desta maneira se desvanecem no ar os grandes sonhos, e nunca viríamos a saber que D. João V quis um dia construir S. Pedro de Roma no Parque Eduardo VII, se não fosse a inconfidência de Ludovice, (...)»

JOSÉ SARAMAGO, Memorial do Convento

24 abril 2014

AI O DESTINO DAS FLORES

 
(...) deixe-se ficar Baltasar onde está, a ver passar a procissão, os pajens, os cantores, os cubiculários, os dois tenentes da guarda real, um, dois, com prima farda, diríamos hoje de gala, e a cruz patriarcal levando ao lado as virgas rubras, os capelães de varas levantadas e molhos de cravos nas pontas delas, ai o destino das flores, um dia as meterão nos canos das espingardas, (...)

JOSÉ SARAMAGO, Memorial do Convento, 53ª edição, Lisboa, Caminho, 2013, p. 210.

17 abril 2014

O "MEMORIAL DO CONVENTO" E AS FREIRAS DE SANTA MÓNICA

“É contudo um tempo de contrariedades. Agora sairão as freiras de Santa Mónica em extrema indignação, insubordinando-se  contra as ordens de el-rei de que só pudessem falar nos conventos aos pais, filhos, irmãos e parentes até segundo grau, com o que pretende sua majestade pôr cobro ao escândalo de que são causa os freiráticos, nobres e não nobres, que frequentam as esposas do Senhor e as deixam grávidas no tempo de uma ave-maria, que o faça D. João V, só lhe fica bem, mas não um joão-qualquer ou um josé-ninguém.”
JOSÉ SARAMAGO, Memorial do Convento
Esta passagem do romance – em que Saramago põe o freirático D. João V a decidir em causa própria – é possivelmente inspirada no cisma das religiosas de Santa Mónica do convento de Goa.
Por volta de 1730, tinha aquele convento cerca de noventa religiosas, sendo possuidor de uma notável riqueza. A autoridade eclesiástica, arcebispo D. Inácio de Santa Teresa (1682-1751), determinou então, como resposta a alguma devassidão existente na casa, a nomeação de confessores e procuradores não agostinhos, decisão que, por ser contrária ao estatuto do convento, não foi aceite pela maioria das religiosas. Estas, dirigidas pela prioresa Madalena de Santo Agostinho, quebraram a clausura, o que foi motivo de grande escândalo.
O conflito arrastou-se por longo tempo e, ao que parece, o rei até exerceu, a distância, um papel conciliador, não desautorizando o arcebispo, mas procurando compreender as razões das desobedientes.
Pesquisa efectuada em:
- "O Reyno de Deus e sua Justiça", de Ana Maria Mendes Ruas Alves, tese de doutoramento, Universidade de Coimbra, 2012.
- Inácio de Santa Teresa-Construção da biografia dum arcebispo, de José Maria Mendes, dissertação de mestrado, Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, 2012.
Até agora, não encontrei para a época qualquer registo de insubordinação de religiosas de Santa Mónica, quer em Lisboa, quer no restante território metropolitano. Mas pode ser que se tenha verificado. Se alguém souber, que fale.

15 abril 2014

A VISITA ÀS IGREJAS

Saibam os meus caros confrades que prossigo a investigação das fontes de Saramago para a escrita de Memorial do Convento. Eu sei que estas ou outras coisas parecidas estão em exposição na Casa dos Bicos, lugar a cuja porta passo frequentemente, e, talvez por isso, nunca tenha lá entrado para ver a dita exposição. Portanto, estou por conta própria.
O meu problema é que ainda não passei do admirável relato do médico e naturalista suíço Charles Fréderic de Merveilleux, Memórias Instrutivas sobre Portugal (1723-1726).
Merveilleux esteve várias vezes entre nós, a convite do rei Magnânimo. Este encomendara-lhe uma história natural de Portugal, o que o fez viajar pelo país profundo, tendo chegado a ir à serra da Estrela.
As suas impressões de Lisboa são do máximo interesse. Já que estamos na semana da Páscoa, vejam-se estas:
“A visita às igrejas durante a semana santa faz, num só dia, mais cornudos do que na vida habitual durante todo o ano. As mulheres têm a liberdade de andar pelas ruas durante toda a noite, apenas embuçadas nos seus mantos negros; os galãs disfarçam-se com trajos de mulher e misturam-se na multidão. Os maridos tomam a precaução de fazer acompanhar suas mulheres por escravas que eles julgam fiéis à honra dos seus senhores. Essa fidelidade, porém, não está à prova dos presentes que recebem dos galãs, acabando por serem essas mesmas escravas que conduzem as beldades a casa dos seus amantes.”
Queiram comparar com a prosa do nosso Nobel, terceiro capítulo, salvo erro:
“(…) talvez que o costume de deixar que as mulheres corram as igrejas sozinhas na quaresma, contra o uso do resto do ano, que é tê-las em casa presas, salvo se são populares com porta para a rua ou nesta vivendo (…), talvez que o dito costume mostre, afinal, quanto é insuportável a quaresma, que todo o tempo quaresmal é tempo de morte antecipada, aviso que devemos aproveitar, e então, cuidando os homens, ou fingindo cuidar, que as mulheres não fazem mais que as devoções a que disseram ir, é a mulher livre uma vez no ano, e se não vai sozinha por não o consentir a decência pública, quem a acompanha leva iguais desejos e igual necessidade de satisfazê-los, por isso a mulher, entre duas igrejas, foi encontrar-se com um homem, qual seja, e a criada que a guarda troca uma cumplicidade por outra, e ambas, quando se reencontram diante do próximo altar, sabem que a quaresma não existe e o mundo está felizmente louco desde que nasceu.”

14 abril 2014

BLIMUNDA, A SENHORA PEDEGACHE E OS SEDUTORES PARISIENSES

 
Blimunda na fachada da residência lisboeta de Pilar e José Saramago. Painel de azulejos de ROGÉRIO RIBEIRO (1930-2008). Foto obtida hoje.
 
 
Excertos de O Portugal de D. João V visto por três forasteiros, relato do médico naturalista CHARLES FRÉDERIC DE MERVEILLEUX.
 
«Vem aqui a ponto falar da Pedegache, mulher não só extraordinária mas também muito sedutora. Por forma alguma tinha aspecto de uma bruxa, embora pelos seus encantos fosse muito bem capaz de embruxar um homem. Confesso que não me atrevo a explicar o dom que ela tinha de ver o corpo humano, bem como o dos animais, por dentro e outrossim o interior da terra a uma grande profundidade, e creio bem que seriam vãos os esforços de todos os filósofos juntos para explicar este fenómeno.
(...)
Julgou-se a princípio que andava ali obra do demo, mas depois de um exame rigoroso abandonou-se tal suspeita, contentando-se todos em admirar um dom tão extraordinário acerca do qual as luzes da inteligência humana não alcançavam explicação que satisfizesse.
(...)
Admiro-me muito que a Academia de Ciências de Paris não tenha aceite o oferecimento que lhe fez o senhor Pedegache de conduzir sua mulher a França, mediante um abono de mil escudos para os gastos de viagem e estabelecimento de uma pensão de cem luíses de ouro graciosamente garantida pelo rei, se os talentos de sua mulher ficassem bem comprovados. Resignou-se, porém, facilmente com a recusa, reflectindo em que, sendo sua mulher muito formosa, além de bastante comunicativa e os franceses muito dados à sedução do belo sexo e não existindo para eles obstáculo à satisfação dos seus desejos, teria constituído uma imprevidência expor-se ao perigo que corre em Paris todo o marido de uma mulher encantadora.»


07 abril 2014

"Memorial do Convento" de José Saramago, 30 de Abril às 21h00

  O meu Memorial!

Edição de Novembro de 2002, comemorativa do vigésimo aniversário da primeira edição (Outubro de 1982) do "Memorial do Convento" de José Saramago, ilustrada com pinturas de José Santa Bárbara, que se incluem no ciclo "Vontades. Uma leitura de Memorial do Convento"

DOMENICO SCARLATTI - SONATA PARA CRAVO


DOMENICO SCARLATTI (1685-1757), em Lisboa nos anos de 1720 e 1721 como professor de música da infanta Maria Magdalena Bárbara Xavier Leonor Antónia Josefa de Bragança, filha de D. João V, futura rainha consorte de Espanha.
 
"Ao fim de uma hora levantou-se Scarlatti do cravo, cobriu-o com um pano de vela, e depois disse para Baltasar e Blimunda, que tinham interrompido o trabalho, Se a passarola do padre Bartolomeu de Gusmão chegar a voar um dia, gostaria de ir nela e tocar no céu, e Blimunda respondeu, Voando a máquina, todo o céu será música, e Baltasar, lembrando-se da guerra, Se não for inferno todo o céu."
 
JOSÉ SARAMAGO, Memorial do Convento
 

07 novembro 2013

"HISTÓRIA DO CERCO DE LISBOA"


Li há muito tempo na História de Portugal de Alexandre Herculano a narrativa do cerco e conquista de Lisboa. Ali se referem as técnicas de guerra postas em prática pelos sitiantes, as divergências entre cruzados e o rei de Portugal, por fim a entrada na cidade, o saque e a surpresa dos cristãos ao verem que uma parte da população, aparentemente moura, abraçava e beijava a cruz, clamando em desespero pela Virgem Maria. Eram os descendentes dos antigos godos, submetidos pelos sarracenos, que durante três séculos lograram conservar a sua religião.   
Daí também o interesse por esta História do Cerco de Lisboa de José Saramago, à espera de ver até onde chega a ousadia do revisor tipográfico Raimundo Silva, protagonista do romance, na subversão de factos históricos que todos temos por incontestáveis.
Para ler até 29 de Novembro, data da sessão deste mês.