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27 março 2020

Uma carta entre dois grandes!


(Ferreira de Castro e Jorge Amado - foto da net)

Ao fazer algumas pesquisas sobre Jubiabá, encontrei este excerto de uma carta que Jorge Amado escreveu a Ferreira de Castro (cujo original estará no Museu Ferreira de Castro – talvez o nosso coordenador Manuel Nunes possa dizer algo sobre isso…)

“…Venho de passar quatro meses na Bahia, recolhendo um resto de material para um romance sobre negros. Chamar-se-á Jubiabá, nome de um macumbeiro de lá, e espero fazer um livro forte, fixando nas duas primeiras partes — “Bahia de Todos os Santos” e “Grande Circo Internacional” — todo o pitoresco do negro baiano — música, religião de candomblé e macumba, farras, canções, conceitos, carnaval místico — e toda a paradoxal alma do negro — raça liberta, raça das grandes gargalhadas, das grandes mentiras e raça ainda escrava do branco, fiel como cão, trazendo nas costas e na alma as marcas do chicote do Sinhô Branco. A terceira parte — “A greve” — será a visão da libertação integral do negro pela sua proletarização integral. Que acha v. do plano?...”

Não sei o que achou Ferreira de Castro, mas eu achei muito bem e agradeço-lhe por isso!

26 março 2020

JUBIABÁ (8)


CHEIRO DOCE DE FUMO
Li hoje este capítulo de Jubiabá em que de uma forma mais directa se coloca a questão da exploração dos trabalhadores, aliás das trabalhadoras, mão-de-obra da indústria de charutos em São Félix e Cachoeira. As mulheres, mal pagas e a trabalharem em condições infra-humanas, sofriam o assédio dos patrões, naturalmente as que ainda não tinham perdido o viço da juventude, porque a maioria, «pálidas e macilentas mulheres de olhos compridos», não as queriam eles.
«Le melhoro de condição…», dizia o loiro alemão, proprietário de uma fábrica em Cachoeira, para a mulatinha pretendida.
Ainda hoje os charutos baianos são vendidos para todo o mundo. Na foto, a fachada da fábrica de São Félix fundada em 1872 pelo alemão Gerhard Dannemann (seria algum neto seu o assediador da mulatinha?), fábrica ainda em actividade naquela cidade do Recôncavo Baiano.


25 março 2020

JUBIABÁ (7)


Mapa do Recôncavo Baiano com as cidades de Salvador e Cachoeira, a Baía de Todos os Santos, a ilha de Itaparica, o rio Paraguaçu e os portos de Maragogipe e Santo Amaro.
Por ali vogava o saveiro de Mestre Manuel, um cheiro de abacaxis maduros saindo-lhe do bojo. António Balduíno pensava em sambas com os olhos postos nas estrelas, o Gordo sonhava com anjos, via uma estrela na lanterna do saveiro Paquete Voador. Até que do porão, misturando o cheiro do mar com o dos abacaxis maduros, surge uma mulher, Iemanjá erotizada.
«Mestre Manuel apresenta:
– Minha patroa…
A surpresa deles é tão grande que não dizem nada. Ela também está calada e, mesmo que fosse feia, seria bela assim em pé no saveiro que se inclina, o vestido levantado pelo vento, os cabelos voando.»  

23 março 2020

JUBIABÁ (6)

JORGE AMADO (Itabuna, 1912 - Salvador, 2001)

«Jubiabá, esse adorável Jubiabá, marca para nós uma transição na obra do autor. Aí já o horizonte se alarga imensamente. Os personagens começam a viver por si. Já não se trata de figurinos (concordamos que figurino é um pouco excessivo) justificando ideias. Aqui há pessoas que vivem. Poderemos esquecer Baldo, o negro António Balduíno, procurando o seu «caminho de casa», Santo Jubiabá e o seu «olho da piedade», os suspiros de Maria Clara, sua canção do cais, o morro do «Capa Negro», a bela figura do Gordo na «Lanterna dos Afogados»?
Poderemos esquecer a história de Lindinalva, a Companhia do Grande Circo Internacional, a saudação no cais de Baldo a Hans, o marinheiro? E porque nos apetece Jubiabá num plano tão diferente?
Simplesmente por isto: Jorge Amado foi neste livro ao fundo do homem.Todo o romance, feito afinal dum conjunto de romances, feito de vida, é a análise do homem desnorteado, do homem-tipo da nossa época, que procura um rumo, um homem vergado ao peso de milhentos problemas, que procura nortear-se e caminhar, caminhar sempre. E esse homem não é António Balduíno, a figura mais cuidada do livro. Esse homem é António Balduíno, é a velha Luísa, Giuseppe, Luigi, Rosenda, Rosendá, etc.» --- MÁRIO DIONÍSIO em "A propósito de Jorge Amado-II", O Diabo, nº 165, 21 de Novembro de 1937.

20 março 2020

JUBIABÁ (5)



Cartão POR SI MINHA ALMA SOFRE (Capítulo "Lutador"), dado por Baldo a Maria dos Reis. O canto do sim e o canto do não. Como no poema de Viriato da Cruz, musicado por Fausto e cantado por Sérgio Godinho:

https://www.youtube.com/watch?v=ir-ox6LGWgM

«Mandei-lhe um cartão
que o amigo maninho tipografou
"por ti sofre o meu coração"
num canto "sim"
noutro canto "não"
e ela o canto do não
dobrou.»

19 março 2020

JUBIABÁ (4)

Estou a ler o capítulo "Lanterna dos Afogados" e faço umas notas sobre o pequeno diálogo das 3ª e 4ª páginas entre António Balduíno e Joana. Vendidas que foram as letras e músicas dos sambas ao "poeta" Anísio Pereira, Baldo compra uns sapatos novos: «E olhe a prosopopeia do meu sapato novo...» - diz ele para a moça. 
Prosopopeia é uma figura de linguagem em que se atribuem sentimentos ou acções próprias dos humanos a animais irracionais ou a seres inanimados. Exemplo: «O sol sorria no dia luminoso». Pelo que é curiosa a expressão utilizada para o seu sapato pelo herói do romance...
Outra nota é sobre o seu amor da adolescência, ainda presente neste tempo em que ele já era o «dono da cidade». Referindo os encontros carnais com Joana, diz o narrador: «Iam à macumba e depois se estendiam no areal, onde se amavam raivosamente, António Balduíno vendo no corpo de Joana o corpo de Lindinalva.»
Cartune de Spacca

JUBIABÁ (3)

Café (1935), de Cândido Portinari, óleo sobre tela, 130x195, exposto ironicamente no "Stand de Arte" do Pavilhão do Brasil na Exposição do Mundo Português (1940)

A literatura brasileira, tanto a de temas nordestinos (Euclides da Cunha, João Guimarães Rosa, José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos), como a de escritores do sul como Erico Veríssimo, teve uma grande influência no nascimento e desenvolvimento do neo-realismo português.
Aprecie-se este passo do capítulo "Moleque" de Jubiabá:
«Os homens negros do cais do porto pararam o trabalho em outra ocasião. Desta vez a noite era sem estrelas e sem lua. Do violão de um cego na Lanterna dos Afogados vinham cantigas de escravo. Foi quando um homem trepou num caixão e começou a falar. Os outros cercaram-no, foram chegando todos para perto. Quando António Balduíno e o seu grupo chegaram, já o homem gritava apenas vivas, a que a massa correspondia:
- Viva!
(...)
O homem que estava em cima do caixão, e que pelo seu jeito era espanhol, jogou um punhado de papéis, que foram disputados. António Balduíno pegou um que deu ao estivador António Caroço, que era seu amigo. Foi quando alguém gritou:
- Lá vem a polícia...»
A mensagem é clara, acompanhada da dimensão poética do discurso, bem presente na frase que fecha o capítulo: «Ia ao cais todas as noites e ficava espiando no mar o caminho de casa.»

16 março 2020

JUBIABÁ (2)

SPACCA, jubiaba.blogspot.com

«É ruim fechar o olho da piedade… fica só o olho da maldade», frase de Pai Jubiabá. Em língua ioruba (nagô), «Ôju ánun fó ti iká, li ôku!»
A história de um homem e do seu amigo João Janjão, retirantes do sertão por causa da seca, é contada no morro do Capa Negro pelo primeiro. Ele tinha matado o amigo que o salvara da morte, transportando-o às costas na fuga do sertão. O amigo tinha o olho da piedade bem aberto, ele não.
Uma parábola do segundo capítulo de Jubiabá. O homem que só tinha o olho da maldade vivia com a consciência atormentada pelo seu crime. Contou-o ao pai-de-santo e a quem o quis ouvir.
«– Ele tinha-me levado nas costas um dia todo… Ele tinha o olho da piedade bem aberto… Eu quero tirar ele da minha frente e não posso… Ele está ali, bem ali, olhando para mim.»
No fim, «o homem levantou e desceu o morro levando a sua história.»

15 março 2020

JUBIABÁ (1)


Ficha do cartunista SPACCA em jubiaba.blogspot.com

A CIDADE-MULHER

Li hoje o segundo capítulo de Jubiabá, “Infância remota”. Infância remota de António Balduíno, o menino que observava a cidade do alto do morro e dela adivinhava mais do que se pode esperar de uma criança. Uma primeira nota para a dimensão erótica, dada pelo narrador, desta observação da cidade (cidade-mulher), aquele espaço de certa forma interdito onde fulguravam luzes, circulavam bondes e se movimentava a gente de diversas classes nas suas labutas diárias. O despertar remoto da sexualidade.
À espera de, à hora do crepúsculo, ver as luzes se acenderem, Baldo tinha uma volúpia que «parecia um homem esperando a fêmea». Uma vez, sentindo, vindo lá de baixo, um «choro de mulher e vozes que a consolavam», houve um tropel dentro dele que «o arrastava numa vertigem de gozo». Havia sofrimento na cidade, diferente certamente do que se vivia no morro, mas o «menino de oito anos, gozava aqueles pedaços de sofrimento como o homem goza a mulher.» E tudo isto, assim mesmo mal entendido, tornava Baldo mais terno na sua rudeza de menino desamparado. Se algum companheiro se aproximasse dele naqueles instantes de contemplação, «ele o acariciaria sem dúvida, não o receberia com os beliscões costumeiros» e passaria «a mão sobre a carapinha do companheiro de brinquedos, recostaria o peito ao peito do amigo. E talvez sorrisse.»
Ainda numa linha de erotismo, dizia a irmã Luísa do pai de Baldo: «Ele era um negro bonito de encher a boca de água.»
E isto é apenas sobre as duas primeiras páginas do capítulo. Já iremos ao pai-de-santo Jubiabá e aos ABC de Zé Camarão.

03 março 2020

“Jubiabá” de Jorge Amado - 27 Março às 21h00


Abro ao acaso e leio:

“…
Eis que vem a música! Agora está dobrando a Rua Direita e já se ouve o som da marcha carnavalesca. No circo todos se levantam. Os que estão nos bancos mais altos da geral espreitam por cima do pano. Os moleques que estão na porta do circo correm e acompanham a Euterpe 7 de Setembro, que vem garbosa, marcial, vestida de verde e azul. Seu Rodrigo da farmácia é um bicho na flauta. O pistão atira sons que ficam vibrando no ar e vão se bater na cabeça de António Balduíno, que foge da barraca e vem olhar a música. Banda bonita. Estão bem vestidos como o diabo. Aquele que vai ali de costas é o maestro. António Balduíno bem que trocava o seu lugar de lutador pelo homem magro que vai de costas dirigindo a Euterpe 7 de Setembro…”

in “Jubiabá” de Jorge Amado 

24 janeiro 2020

BESTIÁRIO DE "A SELVA" (4)

O pirarucu, denominado “bacalhau da Amazónia”, é um peixe da bacia do Amazonas e de outros rios do Brasil. Em A Selva, faz parte da dieta dos seringueiros, como se pode ver no Capítulo IV: «Mas com os “brabos”, ignorantes do que era e não era indispensável, Juca Tristão (…) organizava a lista do aviamento: o boião para defumar, a bacia para o látex, o galão, o machadinho, as tigelinhas de folha, todos os utensílios que a extracção da borracha exigia – e mais um quilo de pirarucu e uns litros de farinha (…)».
Se se lembram de Seara Vermelha, de Jorge Amado, este peixe abundante era dado aos retirantes cearenses quando, depois de ultrapassada a inóspita caatinga, viajavam de barco no rio São Lourenço rumo a Pirapora e às promissoras lavouras de café em São Paulo. A fome transformava-se em fartura: pirarucu cozido, arroz e pirão feito com o caldo gordo do peixe. A comida forte em corpos fracos originava desinterias e mortes. 

27 outubro 2012

AINDA JORGE AMADO

"Jantar organizado no restaurante do aeroporto de Lisboa, em Janeiro de 1953. Podem ver-se, da esquerda para a direita, o editor Francisco Lyon de Castro, Mário Dionísio (semiencoberto), Alves Redol, Maria Lamas, Jorge Amado, Ferreira de Castro, Carlos Oliveira, José Cardoso Pires, João José Cochofel, Fernando Piteira Santos e Roberto Nobre. Ao fundo, em último plano, à esquerda, vê-se o inspector da PIDE Rosa Casaco (mais tarde envolvido no assassinato do general Humberto Delgado). Todos os outros elementos que se vêem ao fundo, à direita, e os que estão em primeiro plano, de frente, eram também agentes da polícia política."
ÁLVARO SALEMA, Jorge Amado, o Homem e a Obra, Presença em Portugal, Publicações Europa-América, 1982, p. 48.

26 outubro 2012

A fechar


“… E pela madrugada, quando as sombras ainda envolviam os campos húmidos de orvalho, e no ar se elevava a quele cheiro poderoso de terra, Nenén partiu para a caatinga pelo mesmo caminho seguido um dia por Jerónimo e sua família. Os brotos de dor e de revolta cresciam naquela seara vermelha de sangue e fome, era chegado o tempo da colheita.

Final de “Seara Vermelha” de Jorge Amado.
* As fitinhas têm impressos nomes de personagens criados por Jorge Amado nos seus vários romances.

24 outubro 2012

Os caminhos da fome

“Os Retirantes” - Portinari, 1944
 “…E através da caatinga, cortando-a de todos os lados, viaja uma inumerável multidão de camponeses. São homens jogados fora da terra pelo latifúndio e pela seca, expulsos de suas casas, sem trabalho nas fazendas, que descem em busca de São paulo, Eldorado daquelas imaginações. Vêm de todas as partes do Nordeste, na viagem de espantos, cortam a caatinga abrindo passo pelos espinhos, vencendo as cobras traiçoeiras, vencendo a sede e a fome, os pés descalços nas alpergatas de couro, as mãos rasgadas, os rostos feridos, os corações em desespero. São milhares e milhares se sucedendo sem parar…”

 
In “Seara Vermelha” de Jorge Amado (Livro primeiro, Os caminhos da Fome, A caatinga)

04 outubro 2012

"Seara Vermelha" de Jorge Amado, 26 de Outubro às 21h00



“Lá vem Lucas Arvoredo
Armado com seu fuzil.
O sertão treme de medo,
Já matou pra mais de mil...
…
Lá vem Lucas Arvoredo
Armado com seu fuzil...
Menina, não tenha medo,
Meu apelido é gentil...
…”

Assim canta Bastião, em noite de festa, os feitos de Lucas Arvoredo, em “Seara Vermelha” de Jorge Amado