Blogue da Comunidade de Leitores da Biblioteca de S. Domingos de Rana - Cascais - Portugal
19 fevereiro 2024
Maiale - Torpedo Humano - a arma secreta da Regia Marina
03 fevereiro 2024
LEITURAS
O DRAMA EM GENTE
Fingiram todos,
todos me fingiram
e em tradição me deram
fingimento
É certo que eram outros
tempos outros,
em que ser muitos
era coisa ausente
Mas todos me fingiram
e ensinaram
que o comboio de corda
pode ser
de corda a sério,
não de coração
Também eu tive,
embora em outra esfera,
outras noites de verão
Nada lhes devo
e em tudo, embora,
devedor lhes sou
Que os séculos agora
lhes dêem o sossego
ou dêem nada –
Ou nem que seja
a dor do universo,
como a dor de cabeça
infinita, silente,
de que padeço para sempre
e desde
que eles vieram
visitar-me os sonhos
- ANA LUÍSA AMARAL, Escuro, 2014
AUTOPSICOGRAFIA
O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.
E assim nas calhas da roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.
- FERNANDO PESSOA, Presença, nº 36, Novembro de 1932
01 fevereiro 2024
“O Italiano” de Arturo Pérez-Reverte- 23 de Fevereiro às 20h00
Abri ao acaso e li:
“… Elena atravessou, está dentro da colónia. Fê-lo às primeiras horas, ao abrir da fronteira. Andou a fazer tempo nas proximidades enquanto tomava um café – mais chicória do que outra coisa – num pequeno quiosque situado junto da fronteira até que viu aparecer o doutor Zocas, que naquela manhã tinha servido no Colonial Hospital. Foi ao encontro dele com ar casual, que surpresa, doutor! Et cetera, e assim atravessaram junto a fronteira, a conversar com aparente naturalidade enquanto ela disfarçava a tensão: um olhar rotineiro dos alfandegários britânicos, uma saudação destes a Zocas, o longo percurso através da pista do aeródromo e Casemates Square até se despedirem na Main Street…”
In “O Italiano” de Arturo Pérez-Reverte


