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31 agosto 2015

Palavras para que vos quero

Com o sentido de dinamizar o blog, criámos em tempos a série "Palavras para que vos quero" com o objectivo de publicar pequenos textos dos membros da nossa Comunidade. Durante algum tempo foram sendo publicados alguns com esta etiqueta, mas depois a ideia foi caindo aos poucos. Assim lembrei-me de lançar o desafio: vamos ressuscitar o tema? Os nossos leitores que tenham textos que gostassem de ver por aqui, podem enviar para mim que eu publico.

Edvard Munch - Tavern in St. Cloud, 1890

O despertar

Acordou lentamente com a cabeça a querer explodir. Demorou a perceber onde estava. Tentou abrir os olhos e o sol que entrava pela janela atingiu-o violentamente como se de um raio se tratasse. A rigidez por baixo do seu corpo fê-lo perceber que não estava na cama. Dolorosamente abriu os olhos e viu que estava no chão da sala, com uma das pernas apoiada no sofá. Apesar do silêncio em casa ser absoluto, sentiu que devia ser tarde pelos barulhos exteriores. Ouvia-se o piano da vizinha do lado e gritos de crianças a brincar no jardim da frente. Levantou-se cambaleando ainda com os efeitos do álcool a fazer-se sentir. Ao passar na entrada viu que a cozinha estava vazia e dirigiu-se para os quartos, percebendo rapidamente que estava sozinho. Quando espreitou o quarto do filho pareceu-lhe que alguma coisa estava errada, tendo a confirmação quando entrou no seu quarto. Alguns dos objectos tinham desaparecido de cima da cómoda, as portas do roupeiro estavam abertas e faltavam roupas. As roupas da sua mulher. Sentiu o estômago a contrair-se. Correu de novo para o quarto do filho, agora totalmente desperto. A maior parte dos brinquedos tinham desaparecido, os armários praticamente vazios, tudo com o aspecto de ter sido esvaziado à pressa. Correu à casa de banho e também ali faltavam escovas, boiões e outros objectos pessoais. No escritório, a secretária da sua mulher parecia ter sido varrida pelo vento, faltava o portátil e havia papeis, lápis e clips espalhados, como se ela tivesse feito uma recolha rápida das coisas mais básicas, numa imensa pressa de partir. Sentiu um vómito súbito e fez um esforço para o controlar. Voltou à sala e só então percebeu a desordem na mesma. Duas cadeiras estavam caídas, havia revistas pelo chão e a jarra com flores habitualmente em cima da mesa grande tinha caído com a água a manchar a superfície. Fez um esforço para se lembrar do que tinha acontecido na véspera, mas o cérebro ainda estava cheio de nuvens pesadas. Foi à cozinha e o caos era total, havia louça partida, bancos caídos, comida espalhada pelo chão e …. sangue, manchas de sangue na porta do frigorífico. Sentiu-se gelar. Cambaleou e teve que se apoiar no balcão para não cair. A imagem da mulher a ser violentamente atirada contra o frigorífico fez-se nítida na sua mente. Lembrou-se do grito e do seu olhar de infinita surpresa antes de cair desamparada no chão. Recordou-se de a ter pontapeado numa fúria incontrolável e quando ela ficou quieta e enrolada sobre si mesma dirigiu-se à sala e simplesmente apagou. E agora estava sozinho. O que tantas vezes lhe passara pela cabeça acontecera. O álcool tinha-o levado longe demais e fizera-o perder o controlo. Olhou para cima do frigorífico e viu a fotografia do filho, a rir numa gargalhada feliz, de olhos grandes e expressivos. Agarrou a moldura, apertando-a contra o peito e desmoronou, caindo por terra. As lágrimas brotaram num soluço incontrolável, percebendo que tinha perdido o que de melhor a vida lhe dera. A raiva contra si próprio inundou-o fazendo-o bater a cabeça repetidas vezes no chão. Ao mesmo tempo começou a sentir uma nova força a crescer dentro de si. Ia lutar contra o maldito vício, ia recuperar a sua família e o seu trabalho. Poderia levar meses, anos, mas iria conseguir. E começou lentamente a levantar-se ...

Custódia (Abril 2009)

31 julho 2013

LUDOVINA DA PRAIA DA INGRINA ou O "LAPSUS LINGUAE" DUM FALANTE


Pouco vira de praias para lá de Burgau e da Luz, desconheço mesmo se alguma vez se aventurara do outro lado da costa, pelas rotas escarpadas de Aljezur e Odeceixe.  Fora da Ingrina, tinha como certas, apenas, as idas diárias ao mercado de Sagres ou à lota da Baleeira. E, mesmo assim, falava com alemães e ingleses como se conhecesse o mundo, os olhos cheios de claridade, enquanto virava o peixe no grelhador ou levava para as mesas os jarros luminescentes de sangria coalhados de gomos de laranja e quartos de maçã reineta.
O corpo, como o dorso dum peixe, fizera-se poema de escamas de sal. O rosto era tisnado e ignorante de tudo, mas os seios, nas horas em que descia à praia, conheciam  as ondulações do mar, as carícias do sol,  o vento fininho da tarde carregado de invisíveis grãos de areia que lhe picavam, como agulhas, as rijezas escuras dos mamilos.
Ludovina da praia da Ingrina! Como me fui encontrar com o teu nome?, logo agora que deves estar carregada de anos, prenhe de filhos e netos, aboletada em algum esconso da vida à espera que se esgote o tempo como um voo breve de gaivota.
Até um dia destes, rapariga, se ainda houver dia.

03 abril 2012

À SOPHIA DE MELLO BREYNER

A história que hoje te trago, ouvi-a eu contar num país tão distante que não penso lá voltar nunca mais. É uma narrativa sem lugar nem tempo definidos, capaz de passar-se no eterno presente da vida. Poderás compreendê-la melhor se te acontece por vezes abrires uma janela, ou até uma gaveta, para nada, e pensares num amigo, sabendo, com uma certeza irredutível, que está triste, ainda que ele nada te tenha dito de si mesmo.
O protagonista desta história é um poeta amargurado pela perda do Amor. O seu desgosto é tão intenso e a sua tristeza tão profunda, que tudo à sua volta, montanhas e vales, lagos e rios, cidades e estradas, se encontra mergulhado numa persistente e soturna obscuridade.
Ora o Génio do Lugar, conhecedor da situação e farto de ouvir as reclamações dos outros habitantes, resolve propor ao Poeta uma solução para o seu problema. Para lhe devolver a alegria, ele vai convocar os representantes mais notáveis dos elementos da Natureza, que lhe podem oferecer, à escolha, os Dons mais preciosos da Criação, de que são portadores.
O Poeta, no seu desalento, aceita o desafio, e logo a Montanha se ilumina dos mais espantosos cambiantes das cores da terra, das cintilações douradas e verdes dos maçiços florestais que modelam harmoniosamente as onduladas e suaves encostas, serpenteando até aos afloramentos rochosos dos escarpados cumes, onde cintilam as neves eternas.
­— Compreendo, Montanha— diz o Poeta, vencido o fascínio do primeiro instante— que me ofereces o teu abrigo, com todas as prodigalidades de que foste dotada. A paisagem de que posso usufruir é a coisa mais bela que existe na Terra. Nunca me cansaria, pois a mudança faz parte do teu carácter. No entanto, tenho de recusar a tua oferta, porque não podes, com todo o teu poder, substituir o meu Amor.
Então, escuras e espessas nuvens, trazidas pelo vento, ocultam a Montanha, que desaparece, desgostosa, da vista do Poeta.
O mesmo vento, de início impetuoso, acalma-se e transforma-se numa brisa suave, que murmura, numa música envolvente e irresistível, poemas maravilhosos: Dá-me rosas, rosas, e lírios também...
O Poeta chora, quereria, sim, até aceitava ficar para sempre mergulhado no inefável murmúrio poético, Mas por mais rosas e lírios que me dês, / Eu nunca acharei que a vida é bastante. / Faltar-me-á sempre qualquer coisa, / Sobrar-me-á sempre de que desejar, / Como um palco deserto.
Assim rejeitada, a brisa retira-se e uma grande calma cai sobre a paisagem em transformação.
É a vez do Sol se apresentar em todo o seu esplendor de fogo.
— O que tenho para te oferecer é único e irrecusável— diz o Sol— pois eu tenho o poder de afastar todas as trevas, de acabar com o frio, de fazer renascer da morte as sementes da terra. Prometo aquecer-te o corpo e a alma para sempre, e devolver-te à vida, à alegria.
O Poeta hesita, porque sob a luz irradiante e o calor ameno, a paisagem transfigura-se numa promessa de fecundidade e o seu coração parece querer expandir-se.
Entretanto, o tempo passa, o Poeta não é capaz de responder. O Sol impacienta-se, o calor aumenta e a paisagem transforma-se num deserto de terra calcinada a perder de vista. O poeta percebe que a situação é sem apelo, a sede começa a ser insuportável e ele caminha a custo sob o calor inclemente em busca de um abrigo. Passam-se horas; as condições físicas do poeta tornam-se insustentáveis e ele desfalece sobre a areia ardente.
De um delírio intrincado de luzes e escuridão surge um rosto amável. O Poeta não sabe se sonha ou se é a realidade que lhe sorri, que o reconforta, que o trata.
Tudo ali é desconhecido; mas é nova, acima de tudo, aquela sensação de ser objecto de dedicação, de ser alguém que importa de forma especial para o outro, que nada pede em troca.
— O meu nome é Mariana, e tu és o Simão, lembras-te? Sei o que perdeste, e também sei que nada até agora pôde restituir-te a alegria do Amor.
— Mariana, tu salvaste-me do deserto, noite após noite tens velado à minha beira, dás-me tudo o que tens, mal me conheces e eu reconheço, porque o sinto, que me amas. Mas, Mariana, nunca poderei dar-te mais do que gratidão e reconhecimento, porque tu não és o meu Amor.
Mariana e Simão choram, irmanados na dor da realidade irredutível dos sentimentos. Fora, chove torrenciamente: também a natureza chora uma infinita tristeza.
A torrente de água forma um pequeno dilúvio, que transforma em rio caudaloso aquela porção de deserto. De Mariana e Simão nada mais se virá a saber. Mas no eterno presente, quem contemple o mar pelo fim da tarde, numa qualquer foz de rio, ou simplesmente abra uma janela sem pensar, pode ficar cativo de uma paisagem interior, onde os rios de lágrimas alimentam para sempre o mar sem destino da ilusão e do amor desencontrado.

S. Domingos de Rana, 2 de Abril de 2012


Nota: Lê-se Espingardas e Música Clássica, de Alexandre Pinheiro Torres, nosso guia para Amarante, e que nos permite, de muitas formas, continuar a influência camiliana, alimentada na recente leitura de A Brazileira... Entre outras, temos ainda e sempre a presença de Fernando Pessoa, ainda que através de Álvaro de Campos, o qual veio a lume a propósito de uma visita ao navio Sagres... Acreditem: não há coincidências. Há outra coisa qualquer.

22 março 2012

AO JOSÉ RAFAEL (Entardecer)

Pássaro ferido sobre as águas, que a maré arrasta pela praia no suave vai-vem da rebentação chorosa, o teu corpo inerme vai desenhando sobre a areia arabescos de dor que se apagam e renovam sem cessar.
Ah, como gostaria de te levar comigo— diz a criança que passa. Mas quando se debruça para o apanhar, uma onda maior leva tudo consigo: o pássaro ferido, a criança, a luz do dia.

Na profunda quietude da noite, a onda cintila longamente no horizonte perdido.

(Tudo está consumado, diz o luar)




(Aceder aos poemas de José Rafael)

10 março 2012

Porque há mais mundos (triviais) para além dos livros, trago-vos este bocadinho de prosa.

“HÁ MAR E MAR...


... Há ir e voltar”: velho ditado inscrito, a branco já muito delido, na velha bóia de cortiça do I.S.N., forrada a tela debruada, a que muitas repinturas de vermelho dão uma patine de cuidado marinheiro. Completa a imagem uma corda branca, presa a espaços regulares, que circunda a bóia pelo seu perímetro exterior. Está toda empertigada, numa peanha, com outros acessórios de salvamento, um cartaz explicativo da forma de socorrer um náufrago, desenhos que põem a boca e o corpo do socorrista ao serviço do outro corpo, o que precisa urgentemente de salvação: tudo isso forma um conjunto, há um perímetro protegido, também por cordas. Ninguém se atreve a violar aquele espaço, só ele livre, precária clareira em toda a extensão da areia, pelo meio do dia, com o sol a pique, a morder os ombros, as ancas, os tornozelos.
Vem o pôr-do-sol e a noite, a praia esvazia-se, mas a bóia continua sempre ali, vigilante, avisando os incautos: cuidado com o mar, ele é traiçoeiro, tem duas palavras diferentes, tudo parece fácil para ir, e tudo se pode complicar na volta.
É quando julgo ter assumido enfim que tudo é, em última instância, espantosamente irrelevante, que esta imagem, resgatada da infância, este aviso, repetido aos meus ouvidos até à exaustão, me chega de novo, por outras vias e inesperadas origens. Apercebo-me da múltipla trivialidade, rugosidade incómoda que alimenta o quotidiano, como recurso inesgotável de comunicação.
Compreendo também que todo o trivial se resolve numa certa forma de traição: nada é apenas o que pode parecer, o mar calmo, o sol de Março, o entendimento entre nós.
“Há mar e mar...” muitas vezes, avançamos numa relação como um nadador inseguro que se aventura no mar sem avaliar bem a distância que terá de percorrer para voltar à praia.
Acontecem sempre muitas coisas, cujo valor depois se relativiza ou a que ficamos presos pela memória, como farrapos precariamente presos a arbustos espinhosos que o vendaval arrasta pela paisagem desolada.
Náufragos da afectividade, num mar de ambiguidades e mal entendidos, quando nos julgamos a salvo, resgatados pela consciência da omnipresente irrelevância, percebemos enfim que voltámos, sim, mas não à mesma praia.

06 janeiro 2012

AGORA QUE VAMOS LER BORGES...

MORTOS QUE ESTÃO VIVOS*

(…) É puro sofrimento amoroso o que atormenta o estupendo gigante, quer ele lá saber se passam ou não passam o cabo as portuguesas naus.

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis


Jorge Luís Borges está sentado num banco de jardim no Alto de Santa Catarina, diante da estátua do Adamastor, naquela posição que lhe é bem conhecida: o tronco erguido, a cabeça levantada, as mãos apoiadas no cabo da bengala. Tem do seu lado esquerdo Ricardo Reis, que segura a maleta de médico, desconhecendo-se se guarda nela os instrumentos da arte de Hipócrates ou se a usa para acomodar os seus escritos de poeta: odes sáficas e alcaicas, que o mesmo é dizer feitas à maneira de Safo e de Alceu, génios gregos, inspiradas nas musas Lídia, Cloe e Neera; Marcenda, outra musa, viria mais tarde. À direita do argentino senta-se uma figura menos conhecida: Herbert Quain, irlandês, autor do livro The god of the labyrinth, edição de 1933, um romance policial no género dos de Agatha Cristhie.
Por que razão se juntaram neste local tão extraordinárias personagens, é matéria que o narrador não sabe explicar. Sabe que, embora mortos, vieram os três por caminhos de vivos, por estradas e aeroportos, andando nas ruas, apanhando transportes públicos, pois não são fantasmas de atravessar paredes ou de esvoaçar sob lençóis, muito menos de arrastar correntes. São espectros civilizados, que se movem pacificamente entre os viventes, sem nenhum estrépito, poupando-os a todo o assombro ou tribulação. Borges veio de Genebra, do cemitério de Plainpalais; Reis do claustro do Mosteiro dos Jerónimos, em cujo túmulo lhe dá guarida Fernando Pessoa; Quain de Roscommon, na Irlanda. O banco onde se sentam ostenta um letreiro com um prudente aviso: PINTADO DE FRESCO. Ainda bem, assim não se sentará nenhum passante onde já estão acomodados estes viajantes do tempo. E depois, não consta que se agarre a tinta à roupa dos que já não são, como se neste lugar o Ontem pudesse ser o Hoje, o Ainda, o Todavia, tudo segundo o que pode ser lido e relido no citado Borges, poema "O Tango".
- Ó Fernando António – disse Borges, quebrando um silêncio que ameaçava tornar-se perturbador – alegro-me que tenha vindo. É sempre bom poder falar consigo.
- Por favor não me chame Fernando António – objectou Ricardo Reis vivamente incomodado – sabe bem que não tenho nome de santo da Cristandade, graças a Deus que sou ateu.
- Você é um cómico, meu caro Fernando – insistiu Borges – essa sua mania de se mascarar, essa sua ideia peregrina de nos fazer crer que é sempre o outro e nenhum… Homem, assuma-se! Agora que está morto e bem morto liberte-se de vez do labirinto em que se meteu em vida.
Ricardo Reis remexeu-se nervosamente na tábua do assento.
- Labirinto deve ser consigo e com a sua escrita. Não foi você que inventou essa figura de papel que está aí desse lado, o pretenso autor do livro The god of the labyrinth? Olhe que cheguei a pensar, quando o li já no Cemitério dos Prazeres, que a obra tinha existência real.
- Meu caro Fernando, tenha cuidado com o que diz, olhe que o Herbert é muito sensível. Ainda bem que ele não compreende o português.
- Volto a dizer-lhe que não me chamo Fernando. O meu nome é Ricardo Reis, nasci no Porto em 1887, estudei medicina, estive exilado no Brasil por ser monárquico, morri em Lisboa em 1936.
- Ó Fernando – tornou Borges – que eu saiba o único heterónimo que você matou foi o Alberto Caeiro, em 1915, coitado, um homem ainda tão novo, apenas com vinte e seis anos de idade. Não me consta que tenha dado um fim ao Reis, ou mesmo ao Campos.
Proferira estas palavras com sarcasmo, deixando enervado o poeta das Odes.
- Leia Saramago, o meu último biógrafo, e verá. Se calhar não leu, não podemos ler tudo… Ou será despeito seu por nunca ter recebido o Nobel? Ah!, agora me lembro, você é cego. Os cegos não lêem, embora, caso curioso, possam ser directores de bibliotecas… De bibliotecas cegas, foi você que o disse… No entanto, pelo que sei, não lhe faltaram os olhos dos outros para fazer as suas leituras.
Borges acolheu com bonomia as alfinetadas de Ricardo Reis. Dirigiu o rosto na direcção da estátua do Adamastor, pensativo, como se escrutinasse nas gavetas do tempo uma memória antiga. Trocou umas palavras incompreensíveis com Herbert Quain, possivelmente em algum dialecto celta, e virando-se para Ricardo Reis falou assim:
- Uma coisa acho extraordinária em si, meu caro Fernando. Bem, não será a única, mas é uma delas, e muito importante, que sempre me deu que pensar. É que você tenha tido a pretensão de se constituir em émulo de Camoens.
- Camões – emendou Ricardo Reis, já conformado com o nome que Borges lhe dava.
- Eu digo Camoens. Nunca assimilei convenientemente o vosso vocalismo nasal. Sabe bem que a minha língua materna é o inglês. O castelhano veio mais tarde, e, diga-se, é bem pobre em sons vocálicos… Mas adiante: você escreveu a Mensagem como quem escreve Os Lusíadas do século XX. Falou do Bandarra, não esqueceu o Conde D. Henrique nem D. Tareja, mas sobre Camoens nem uma palavra. A isso chamo eu uma desfiguração da História, como o seu biógrafo Saramago muito bem assinalou. Além disso, há uma diferença de reconhecimento entre as duas obras: o grande épico recebeu por Os Lusíadas uma tença anual de quinze mil réis, modesta, é certo, mas atribuída pelo rei de Portugal; você, com a sua Mensagem, não foi além de um prémio de segunda categoria do Secretariado de Propaganda Nacional de António Ferro, um intelectual que era funcionário do regime fascista e grande admirador de Salazar. Depois, lembrei-me disto há pouco, você nem fala do Adamastor, aquele que está ali em pedra. Camoens dedica-lhe vinte e quatro oitavas no canto V, tanto como cento e noventa e dois versos; você na Mensagem alude a um Mostrengo, e resolve o assunto de uma penada, em três estrofes de nove versos. Ora o seu Mostrengo nada tem a ver com o Adamastor do nosso grande épico. Digo nosso, repare bem, porque também eu tive nas veias o sangue português. Não sei se sabe, mas sou descendente dos Borges de Torre de Moncorvo. Até tenho uns versos feitos aos meus antepassados:

Nada o muy poco sé de mis mayores
Portugueses, los Borges: vaga gente
Que prosigue em mi carne, oscuramente,
Sus hábitos, rigores y temores…

- Já conheço, escusa de se dar ao trabalho de continuar – atalhou Ricardo Reis.
Borges levantou-se, e um pouco inseguro, batendo com a bengala a procurar orientação, foi até junto da estátua do Adamastor. Deteve-se ali durante uns minutos – se é que é possível falar de minutos, de horas ou de segundos para exprimir o tempo dos que não existem –, a boca entreaberta de admiração, os olhos vagos postos na massa de pedra do Gigante, como se não vissem nada e pressentissem tudo. Era aquela a visão do estatuário: o Adamastor apaixonado, sofredor, que revelara a Vasco da Gama o seu amor pela ninfa Thétis, o sentimento não correspondido. Não serve ao amor de uma ninfa a fealdade de um gigante – verdade tardiamente entendida pelo titã. E foi assim que tendo surgido assustador sobre a minúscula nau, figura robusta e válida, como diz o Épico, pressagiando naufrágios e perdições de toda a sorte, se apartou de ante os olhos do Gama em medonho choro, esmagado pelo sofrimento de quem não é servido pelo amor.
Quando voltou para o seu lugar no banco, junto dos companheiros, estes conversavam em inglês sobre o modelo de desenvolvimento da Irlanda, país pobre que se tornou rico, que sofreu a crise e começou a recuperar, e que bem poderia ser um exemplo para Portugal.
- Só quem amou poderia falar assim do Adamastor – disse Borges. Mas nem Reis nem Quain, enredados na sua conversa, entenderam o que queria dizer.
Calaram-se finalmente quando o ouviram recitar um poema:

A LUIS DE CAMOENS

Sin lástima y sin ira el tiempo mella
Las heroicas espadas: Pobre y triste
A tu patria nostálgica volviste,
Oh capitán, para morir en ella
Y con ella. En el mágico desierto
La flor de Portugal se habia perdido
Y el áspero español, antes vencido,
Amenazaba su costado abierto.
Quiero saber si aquen de la ribera
Última comprendiste humildemente
Que todo lo perdido, el Occidente
Y el Oriente, el acero y la bandera,
Perduraria (ajeno a toda humana
Mutación) en tu Eneida lusitana.

Foi então que um vento inopinado tomou conta das copas das árvores. No banco em frente foram pelo ar as folhas de um jornal que era lido por dois idosos. Saltou o boné da cabeça de uma criança. Brilharam as coxas duma rapariga sob a saia esvoaçante. Um sem-abrigo que fumava uma beata engasgou-se com o fumo e teve um ataque de tosse. Dois namorados que se beijavam junto à grade do miradouro vieram abrigar-se no bar do jardim. Num automóvel estacionado no largo disparou-se o sistema de alarme. E houve quem visse dois grandes rectângulos de papel elevarem-se no céu sobre as casas que descem para o rio.
Borges está agora sozinho no banco. Um dos idosos a quem o vento arrebatara o jornal, tocou no braço do companheiro e disse:
- Está ali um tipo que parece cego. Olha, vai levantar-se… Vamos perguntar-lhe se precisa de ajuda para atravessar a rua.
Diga-se porém que nada do que o idoso viu pode ser considerado seguro. De resto, nem é seguro que ali tivessem estado os dois idosos, e que o vento lhes tivesse levado o jornal, e que houvesse um banco de jardim com um letreiro a avisar que estava pintado de fresco. E que nele se tivessem sentado aqueles três viajantes do tempo, vindos de tão díspares lugares não se sabe porquê e para quê.

* Escrito em 2006. Agora revisto e actualizado.

12 dezembro 2011

Respondendo a um auto desafio, com a condescendência do autor e esperando mais episódios, aqui vai uma continuação:

O CONTO DE NATAL CONTINUA


Enquanto atravessava a Rua do Ouro, por entre a azáfama de mais um Natal, recordava, sim, esse episódio já longínquo, as dúvidas que ainda o assaltaram, antes que acabasse a magia do período anual da solidariedade que também a ele envolvia.
Passadas quase duas décadas, muitas coisas tinham acontecido, mas não conseguia deixar de evocar algumas impressões que o tinham marcado naquela altura, nem ele sabia exactamente porquê e lhe surgiam agora, como um eco intemporal.
Bem, diga-se em abono da verdade que, passadas as primeiras sensações, depois de sair, um tanto atordoado, da zona do hospital, onde se tinha dirigido para dar sangue, fazendo o que considerava a boa acção de uma vida, caiu em si, e reflectiu mais maduramente sobre a situação em presença.
Desde logo, apercebeu-se que as dúvidas quanto ao seu estado efectivo de saúde talvez não fossem de desprezar, pois apesar de ser novo e se sentir no auge do vigor físico, os riscos que tinha corrido de contrair H.I.V. ou outra doença sexulamente transmissível, eram reais, e conforme as horas daquele mesmo dia se passavam, entre as deslocações na cidade e os deveres programados, a dúvida insidiosa crescia no seu subconsciente, e um pensamento insistente tomava forma: e se...? Sim, havia uma voz contraditória que se sobrepunha à estouvadice instalada, ao resultado prático de uma filosofia de vida que tinha como móbeis principais os desejos, a vontade, os gostos, os interesses exclusivamente pessoais, num registo de egocentrismo carinhosamente cultivado, dir-se-ia até, cultivado com requintes, em rotinas inalteráveis que dificilmente se compaginavam com as de outras pessoas. Acontecia sobretudo que, mau grado, estas dúvidas começavam a minar aquela barreira de segurança e certezas que tão cuidadosamente tinha construído para si mesmo.
Recordava o quanto tinha ficado contrariado por se sentir como que excluído da participação solidária do espírito natalício, para logo a seguir voltar à preocupação exclusiva consigo mesmo.
Enquanto descia as escadas da estação do Metro e, como um autómato, passava as barreiras para as plataformas, reflectia sobre o pouco que, na realidade, tinha mudado na sua vida.
Havia, no entanto, mais qualquer coisa, sim, havia uma consciência diferente de si mesmo, uma capacidade de auto-distanciamento que a idade proporciona (nem tudo se perde). Até parecia que o Natal era uma época propícia a descobertas inéditas. Foi então que o zunir do rodado ritmado, acelera-desacelera do comboio lhe trouxe uma pergunta insistente: que sentido, que sentido, que sentido? Ao mesmo tempo pensava, que tolice, isto não são os sinos do Ano Novo!
Relanceando o olhar pela carruagem, apercebeu-se da indiferença mole que rastejava pelas superfícies encardidas e se colava à roupa, às malas e mochilas, à pele dos passageiros e apeteceu-lhe gritar, na certeza de que ninguém o ouviria: a minha vida é de uma monotonia atroz!
A seu tempo, tinha deliberadamente trocado compromissos pessoais, afectivos, quiçá familiares, pela liberdade concreta de uma vida de quase isolamento. Perguntava-se agora que liberdade era essa, cujo preço eram horas a mais a sós consigo e com o seu vazio interior. Alguma coisa de essencial lhe tinha escapado, nas escolhas que julgara fazer; o que tinha, apenas o devolvia sempre a si mesmo, numa espiral depressiva, e isso era mais doloroso de admitir que aquela incapacidade de dar sangue de há duas décadas atrás.

01 dezembro 2011

PALAVRAS PARA QUE VOS QUERO

Não é só o Charles Dickens que tem contos de Natal...

Aqui vai um conto de Natal deste escriba, escrito em 2006 e agora revisto e corrigido (se é que tem correcção possível!) para publicação neste exigente blogue:

UM CONTO DE NATAL

Assediava-o um inusitado desejo de praticar o bem, de amar o próximo como a si mesmo, de se abrir a rasgos de generosidade em relação a indigentes e outros desprotegidos da sorte. Quem o conhecia – amador da sua pessoa acima de todas as coisas – só podia atribuir tal modificação ao espírito do Natal, ao ambiente da quadra festiva que se vivia. Os ornamentos das ruas, os apelos à paz e ao amor feitos em baladas cheias de emoção que a rádio e as instalações sonoras das superfícies comerciais com tanta insistência difundiam, contribuíam para reforçar os laços de solidariedade entre os homens, para fazer despertar os tesouros da fraternidade, e enchiam-lhe o coração de bons sentimentos e benévolas disposições. Depois de todo um ano em que atraiçoou amizades, atropelou direitos, mentiu e guerreou, era extraordinário sentir o maravilhoso estado de alma que nele se manifestava!
Naquele Natal, a maior das boas acções que tinha projectado praticar era a de fazer uma dádiva de sangue. Havia tantos acidentes na estrada, tantas pessoas internadas dependentes de transfusões e, por outro lado, como os serviços de saúde não cessavam de informar, tanta falta de sangue de todos os tipos, que estava firmemente disposto a tornar-se um dador benévolo.
Foi assim que numa manhã da semana que antecedia o Natal, transbordando de amor pelo próximo, rumou ao serviço de recolha de sangue do hospital da sua área. Tirou a senha, esperou pelo atendimento, e não demorou muito a sentar-se diante de uma jovem médica, bonita e inquiridora.
- Idade?
- 29 anos.
- Estado civil?
- Solteiro.
- Sofre de alguma doença crónica?
- Não.
- Alguma vez teve relações sexuais com homens?
Aturdiu-se com esta pergunta.
- Sim ou não? – insistiu ela.
- Não!
- Alguma vez utilizou drogas por via endovenosa?
- Não!
- Quantos parceiros sexuais teve nos últimos seis meses?
Aqui hesitou na resposta. Não se importava nada de declinar o número de mulheres com quem praticara sexo nos últimos tempos. Afinal até era daqueles que tomavam nota na agenda de cada vez que uma nova experiência lhe acontecia. Não fazia segredo das suas conquistas e tinha sempre aberta, para quem quisesse ver, a sala dos troféus. Mas incomodava-o que a questão lhe fosse colocada de forma tão neutra e profissional por uma jovem médica de rosto atraente e, sobretudo, que ela não tivesse juntado ao radical da palavra “parceiros” o morfema de género feminino “a” adequado à sua condição de heterossexual. Mas lá respondeu, enfatizando a palavra “parceiras”. A médica então perguntou:
- Usou sempre preservativo?
Meteu a mão na consciência, até estava com vergonha de responder, mas logo se abriu perante a insistência dela. E foi aí que as coisas começaram a complicar-se. Tinha tido não uma, mas várias relações de risco, o que não quadrava com os padrões comportamentais definidos para a aceitação de sangue dos dadores. Ainda por cima fizera uma tatuagem nas costas, adorno corporal que pareceu não agradar à médica.
- Bem, para já não podemos aceitar o seu sangue. Vamos ter de fazer análises e o senhor terá de aguardar pelos resultados.
Esmagado pela rejeição, tartamudeou umas palavras de súplica: que não havia nada de mal com o seu sangue, que era um homem saudável, que aceitassem a dádiva e logo fariam as competentes análises, veriam como era sangue de primeira qualidade, sem nenhum problema.
- E pensa o senhor que o hospital pode dar-se ao luxo de gastar bolsas de recolha e demais consumíveis com sangue que poderá não estar em condições? Até parece que não conhece o rigor das restrições orçamentais! – Isto disse a médica enquanto aprontava uma seringa para realizar uma colheita de análise.
Saiu cabisbaixo, infeliz. Ainda passou pela salinha anexa para comer umas bolachas e beber um cálice de vinho do Porto. Estava mesmo a precisar.
Dispusera-se a cumprir uma boa acção que pudesse integrá-lo de forma plena na onda de fraternidade da quadra natalícia, e era impedido de o fazer por um sumaríssimo inquérito que lhe descobrira uma tatuagem nas costas e uns quantos episódios de sexo inseguro. Francamente, já não se podia viver o espírito do Natal!
No caminho para casa ia meditando, pesaroso, na melhor forma de ultrapassar aquele revés. Distribuir comida aos sem-abrigo do bairro? Dar esmola para as obras de caridade da igreja? Comprar uma caixa de postais de boas-festas da Unicef? Alguma solução teria de encontrar para concretizar os seus desejos de amor pelo próximo, e não poderia passar daqueles poucos dias que ainda faltavam para a festa do nascimento do Menino Jesus. É que depois já seria tarde: a seguir ao Natal, voltaria certamente a estar muito preocupado consigo e com os seus projectos pessoais.

23 agosto 2011

UMA FAINA (AINDA) MAIOR

UMA FAINA (AINDA) MAIOR

Enquanto me afasto até à distância regulamentar do barco-mãe, o imponente lugre, no pequeno Dori que me foi atribuído, remando automaticamente através da bruma matinal, vou remoendo peripécias da vida que me trouxeram até aqui. Lanço a pequena âncora; o ruído surdo do desenrolar da corda sobrepõe-se por instantes ao chape-chape da ondulação contra o casco de madeira da frágil embarcação.
A extensão de mar e a névoa que varre a superfície gelada destas águas setentrionais, onde tudo me é tão alheio e tão estranho, puseram uma distância real e arrepiante de solidão atroz, entre mim e o pequeno mundo de segurança, porto oscilante que não posso perder de vista, o navio de quatro mastros, de velas arriadas, balançando docemente à viração, como se fosse uma miragem.
Por instantes julgo poder ainda distinguir-lhe o nome, impresso lateralmente à proa: “Biblioteca do Bacalhau”.
Pelas abertas do nevoeiro, que ameaça cerrar-se, diviso os meus companheiros de faina— lá está o João Grandão, o dirigente sindical que em segredo nos vai industriando para a luta por melhores condições de trabalho e salários, contra a prepotência dos Henriques Tendeiros... mas o que é isto? Tenho de me despachar, começar a faina, pôr as armações a funcionar! Ali andam, o Carlão, a Cristalina, a Custóia, a Ardete, a Manola e os outros, nos seus botes, já atarefados a lançar as linhas e eu aqui, a perder-me em conjecturas!
Ainda corro o risco de acabar a faina e do cimo da amurada o capitão, o Manuel Tunes, a avaliar a olho a pescaria, me dizer: que é lá isso? Volta para trás, vai pesc(quis)ar mais!

Mas que trapalhada! Afinal, esqueci-me de completar a palamenta; e agora, como é que vou dar conta do recado? Está um frio paralisante; emaranham-se as linhas, o bacalhau pica, come a lula e dá à sola! Não é possível! Qual é a Nossa Senhora ou deus do Olimpo que me acode?
Vejo ao longe os meus companheiros a içarem os grandes peixes estrebuchantes, vão acolchoando o fundo dos barcos, e eu aqui, abandonada da sorte, ou do talento... Mas espera! A linha estremece... é desta! Só pode ser um dos grandes, é puxar, é puxar!
Que grande estrondo!
Acordo em sobressalto... o livro “Uma Crónica...” escorregou e caiu ao chão!

16 maio 2011

Palavras para que vos quero!

Ler é saber afagar um livro, é saber festejar um livro!

Afagar e festejar, amizade e celebração, ler!

Ler é então entrar em relação com alguma coisa, com alguém e, nessa exacta medida, relacionar-se também consigo mesmo. Quem lê agarra assim a possibilidade de se conhecer melhor a si mesmo, cumprindo um dever, digamos, social. Porque quem se conhece aprende a fazer auto avaliação: sabe quando falar, ouvir, calar ou adiar uma intervenção; torna-se mais capaz de si mesmo e das situações. Mas também se torna melhor ouvinte, porque há sempre um puzzle por completar e ouvir o outro é tão preciso como pensar sozinho.

Lendo aprende-se melhor o valor do silêncio, sobretudo o silêncio interior, que se faz e cultiva para ouvir apenas a voz da leitura pela voz de quem lê.

O hábito, (também apelidado de vício ou compulsão pela reacção), a veneração da leitura, podem conferir saber e conhecimento; mas, sobretudo, podem dar a cada um a ideia da dimensão da sua ignorância, pois quem conhece alguma coisa apercebe do mesmo passo a vastidão do que nunca poderá abarcar, um mundo de livros fantásticos, uma vertigem de conhecimentos, de experiências e aventuras. (Para quem lê, entrar numa biblioteca é ficar doente).

Às vezes tenho pena dos livros, daqueles que atravessaram o tempo sem encontrar espaço — sem terem sido afagados, ou festejados — porque nunca foram editados, ou, tendo-o sido, passaram despercebidos (quem sabe se alguns não seriam obras de arte?).

Alguns livros bailaram por muito tempo na imaginação do escritor, ou do candidato a escritor, mas alguma coisa o impediu de nascer (escrever um livro e vê-lo sair do prelo deve corresponder a uma sensação idêntica à da mãe que dá à luz um filho); o livro é um filho que o escritor põe no mundo e, se os deuses lhe forem propícios, há-de crescer e transformar-se, não de forma material, mas virtual (não menos real por isso), pelas mãos dos intelectos leitores que o afagam, pela festa hermenêutica variada, colorida, desviada, que lhe hão-de dar outras asas, por isso outros voos, outras, desconhecidas e, por vezes insondáveis, ressonâncias... Agora imagine-se o que é na realidade um livro assim, lido, relido por gerações, a diferentes luzes, individuais e de contexto social e histórico, festejado enfim! Digo-vos que já não é um livro, senão um imenso caleidoscópio de livros, que se projecta no infinito do espaço, que ilumina o Além-Livro!

Dedico esta intempestiva prosa (que pretende ser glosa) aos meus queridos amigos, João e Manuel.

Maria Amélia


Este foi o comentário que a Maria Amélia deixou na caixa de comentários do post abaixo.
Vais desculpar-me minha Amiga, mas isto é demasiado precioso para ficar escondido numa caixa de comentários.
Custódia

16 janeiro 2011

Palavras para que vos quero...

Efeitos de uma tertúlia!
Com amor o fiz
Derramado depois

Em taça depositado
Pelas mãos de Amelie
Em amor de canela de novo o cobri
Sossego então, vozes, conversas, calor da lareira
Aromas, sabores, vinhos, sentidos 

Quietos
Suspensos ouvindo
Fraterna alegria

Pensamentos de um homem
Fragmentos de vida
Se de "L de D" ou dele, nem ele o sabia
Manuel em Pessoa assim nos dizia...

A inspiração da nossa Leitora Graça!

04 dezembro 2010

Palavras para que vos quero (4)

Desabafo!

Faz frio.
Sinto-o no corpo
e na alma...
Faz frio.
Procuro o conforto
de um agasalho
ou de um abraço...
Faz frio.
Desejo o calor
de uma lareira
ou de um corpo...
Faz frio.

Porto, Dezembro 2010

01 dezembro 2010

Palavras para que vos quero (3)

Texto de CRISTINA LEIMART, publicado no blogue "Emoções Básicas"

O fim



Começo pelo fim.

Começo ciente de não saber dizer, do fim, onde começa ou onde acaba. Começo confusa como em criança, diante do primeiro livro sem bonecos, ao ouvir "Agora nada de ires ver o fim.."

O fim? Qual fim? Salto a capa do livro, cheio de personagens que ignoro, jogadas em enredos que sobrevoo a jacto directamente das palavras do adulto para uma busca desenfreada: Ah não é para ler o fim?

Procuro-o numa curiosidade urgente, com critério e coragem, atrás do sofá pequeno disposto de esguelha junto à janela da sala de visitas. Procuro-o nessa tarde nesse livro sem capa, título ou princípio, como depois noutros livros com e sem bonecos. Procuro-o noutras tardes, noutras idades e cidades, nos meus cantos preferidos das casas onde vivi e, enquanto vivi longe, em cantos alheios onde não me perdia nem me escondia. Procurei-o, por acaso e sem autorização, nos livros de amigos, de namorados e conhecidos. Nas histórias dentro da minha história, o tempo levou-me à procura já não dos fins, mas de exemplos que desmontassem a certeza daquele princípio de leituras, num livro ainda folheado confusamente aos últimos pingos de luz do dia:

"Agora nada de ires ver o fim" é o cuidado adulto mais infantil. Ninguém corre o risco de anular o magnetismo da leitura galgando sofregamente direito ao fim. Não saberíamos onde poisar essa pegada de gigante enjoado do presente. Não há pontaria capaz de acertar no fim à distância. Não estão inventados gps para os desfechos.

Não podemos saber se o fim está na última página ou na última frase. Ou nas duas últimas frases. Ou a partir do início do último capítulo. Talvez na primeira linha da primeira página, ou algures a meio do volume, se o autor aposta em anacronias? Não sabemos, às vezes o autor sabe, eu não sei.

Eu sei que o pano cai quando passo a mão pela contracapa. Sei que a ficha técnica já desliza lentamente quando reclino a cabeça para trás e desfoco o olhar. Mas para ouvir o último suspiro da história eu não tenho hipótese de usar uma tele. Eu sou o batedor. Tenho de aceitar a lentidão da imagem revelando-se na penumbra de laboratório fotográfico, ou sujeitar-me ao embate de um fim salteador num troço do caminho quando menos espero.

De uma forma ou de outra, estamos seguros. Não há perigo de frisarmos o sagrado fio da história com a brasa da impaciência.

Num livro (e na vida, tão nossa como tão pouco nossa, o que nada interessa aqui), nunca sabemos onde começa, por isso não sabemos onde está, o fim. A única certeza é a surpresa.

10 novembro 2010

Palavras para que vos quero (2)

O DESCONCERTO DOS AMANTES


Serena está deitada de costas na cama, a cabeça sobre as mãos numa nudez irrepreensível que me magoa os sentidos. Recorta-se a linha do corpo contra o cetim da colcha, o prodígio dos seios, a pele muito branca, o tufo de sombra dos pêlos púbicos. Faz-me mal vê-la assim, como um nu deitado de Modigliani fora do tempo e do espaço, sorrindo e entreabrindo as coxas como se se preparasse para os delírios do amor. Pela persiana que não está completamente fechada entra no quarto uma fresta da luz da tarde… Mas nada disto que vejo tem existência real. Serena não está comigo, deixou-me há muito tempo. Saiu de casa dominada por um inesperado desencantamento, e dela conservo na memória estas imagens que projecto como holograma no espaço vazio do meu quarto. Vejo-a sempre assim desde o dia da sua partida. Todos os dias.
Não foi paixão, disse-me, não passou tudo de uma grande admiração que me tomou, uma errada percepção de sentimentos, um turbilhão de ideias desordenadas. Pensava ser amor, mas afinal era apenas deslumbramento. Cegou-me a tua luz, fragilizei-me, mas agora que habituei os olhos a esse fulgor já sou capaz de compreender a verdadeira expressão do que sinto.
Subo a persiana e encho o espaço do quarto de claridade. Serena volta-se de bruços, como se a luz e o ar quente da tarde lhe causassem incómodo ou apenas quisesse subtrair o rosto à observação dos meus olhos. Vejo-lhe as ancas e o anel da cintura, os ombros estreitos, o torneado das nádegas e das pernas.
Já não te sinto, disse-me, não consigo viver com este afecto mudo, como se me bastasse o teu olhar para saber que me amas.
Senta-se na borda da cama e faz tenção de começar a vestir-se. Toma as roupas que jazem em desalinho sobre o cadeirão. Enfia os braços nas mangas da camisa, veste as calças. Está agora de pé, virada para mim, a camisa desabotoada, os cabelos soltos caindo sobre os ombros. Apetece-me tocar-lhe nos seios… Mas não adianta pensar nisso. Serena não está aqui e o que vejo não passa de uma ilusão amarga que se meteu no meu quarto e me faz sofrer.
Só me desejas pela minha beleza, disse-me, nunca foste capaz de me ler a alma. Para ti não passo de um corpo e de um sexo.
É verdade que te desejo pela tua beleza, sim, a beleza é o pão dos olhos, não sei viver sem ela. Mas não me peças que te fale de amor. São redundantes todos os discursos amorosos, são frágeis as palavras quando nos propomos explicar os sentimentos. As palavras são sons, apenas sons, signos inconsequentes que não suplantam a eloquência dos olhos, o toque das mãos.
Serena acaba de se vestir. Passa a escova pelos cabelos olhando-se no espelho. Sai do quarto, e eu oiço bater a porta que dá para a escada. Sinto-me asfixiar dentro do espaço fechado. Chego à janela que se abre para o precipício da rua e vejo-a sair. Olho-a, sigo os seus passos pela calçada. Sinto-me cansado. Respiro profundamente bebendo a grandes sorvos a aragem quente. E encho-me da luz da tarde até cegar, como um pássaro doido voando no abismo.

= Publicado no blogue "Disperso Escrevedor" em 3/6/2006 =

27 outubro 2010

Palavras para que vos quero (1)

Edward Hopper “Morning Sun” 1952
Um dia de cada vez
Acordou cedo, muito antes do despertador tocar e ficou ali a pensar na vida. Anos de luta, com um espírito optimista. Sempre à espera que as coisas tendessem a melhorar. Um dia percebeu que não seria assim, mas o contrário. A situação iria degradar-se aos poucos. E começou a sentir aquilo. Chegou devagarinho. Um pouco de ansiedade aqui, uma certa angústia ali, a inércia a instalar-se. Tentava resistir-lhes, mas era tão difícil. Tudo em si pedia o contrário. Uma voz dizia-lhe que se deixasse ir. Era um ser humano, não podia resistir sempre. Era compreensível, afinal corria tudo tão mal. Mas lá no fundo um sentimento inato resistia. Não te entregues. Sabes que és fundamental na vida deles. Precisam de ti. Não importa que não entendam. Não têm culpa disso, tu sabes. É mais forte do que eles. Lembra-te dos momentos bons. Do abraço inesperado, do carinho no olhar, no agradecimento infantil. E lá vinham mais umas forças e mais um dia passava. E então compreendeu. Seria sempre assim, um dia de cada vez. Hoje melhor, amanhã menos bom.  Viver intensamente os bons momentos e esquecer rapidamente os maus. Sempre tinha sido assim e assim sempre seria. Não havia motivo para mudar. A vida era tão curta. Levantou-se, abriu a janela e ficou uns minutos a olhar o horizonte. Uma bola de fogo subia lentamente nos céus. A aurora trazia um turbilhão de cores indescritíveis, violetas, rosas, laranjas. Mais um magnífico nascer do sol. Sentiu-se feliz perante tanta beleza. E lá foi viver mais um dia de cada vez…
(Custódia - Maio de 2008)