15 setembro 2019

UMA NOITE EM LISBOA (II)

Continuo a ler e a gostar do que leio. Em Osnabrück, na madrugada de insónia, Helen e Josef vão conversando e bebendo uma segunda garrafa de vinho do Reno. É o reconhecimento mútuo após anos de separação. Um jogo de sombras, coisas que se dizem e não se dizem. Estão juntos na mesma cama, mas é solidão que respiram.
«Ela continuava sentada em cima da cama, nua, de copo na mão, uma amazona graciosa e frágil, provocante e obstinada, resoluta e astuciosa, e compreendi então que nunca a tinha conhecido. Não conseguia entender por que motivo ela aceitava viver comigo e comparei-me a alguém que julga possuir um belo cordeiro, que o enche de afagos e desvelos e que de repente descobre que o que afaga nas mãos é uma jovem puma, para quem os lacinhos azuis e as carícias nada significam e que inclusivamente é capaz de morder a mão que a acarinha
ERICH MARIA REMARQUE, Uma Noite em Lisboa, Capitulo V.

11 setembro 2019

UMA NOITE EM LISBOA

Josef Schwarz, natural de Viena Neustadt, o homem que se sentava no Louvre diante das catedrais e dos nenúfares de Claude Monet. Paris, 1938. Por via dos impressionistas, um foragido sem documentos, perseguido pelo terror nazi, consegue um passaporte.
ERICH MARIA REMARQUE, Uma Noite em Lisboa, Capítulo I.

02 setembro 2019

“Uma Noite em Lisboa” de Erich Maria Remarque – 27 de Setembro às 21h00



Sinopse

A Alemanha Nazi ocupava grande parte da Europa. Terra de todos e de ninguém devido ao jogo duplo de Salazar, Lisboa foi durante toda a guerra um território neutro. Num cenário de guerra e perseguição, tornou-se o paraíso à beira-mar plantado. Para além da sua beleza natural e da paz, foi uma das poucas portas de saída para os que desejavam uma oportunidade para construir uma nova vida do outro lado do Atlântico.

Depois… uma noite em Lisboa, quando um refugiado olha cobiçosamente para um transatlântico, um homem aproxima-se dele com dois bilhetes de embarque e uma história para contar. É uma história perturbante de coragem e traição, risco e morte. Onde o preço do amor vai para além do imaginável, e o legado do mal é infinito. À medida que a noite evolui, os dois homens e a própria cidade criam um laço que vai durar o resto das suas vidas…

26 agosto 2019

12 agosto 2019

HERMANN HESSE E A MÚSICA

 

Os leitores que tenham acabado de ler O Lobo das Estepes terão percebido o papel atribuído à música na construção do romance. Sendo uma das obras mais autobiográficas de Hermann Hesse, seria estranho que esta linguagem metafísica e universal, tão querida do autor, não ocupasse lugar de relevo na respectiva criação literária. Todos notámos a importância de Mozart no plano da escrita, só comparável, no domínio da arte literária, à de Goethe.
É deste livro, Música, uma colectânea de textos do escritor, que extraímos os seguintes excertos: 
«Nunca nos cansaremos de ouvir falar de Mozart, jamais recusaríamos uma nova e bela melodia para a canção do resplandecente preferido dos deuses, do mesmo modo que acolheríamos com apreço uma nova imagem de Mozart, de alguém sombrio, enigmático, sofredor, alimentado por fontes demoníacas.» - Recensão publicada na revista März, Munique, Janeiro de 1914.
«As óperas de Mozart são para mim a síntese de todo o teatro. São como nós imaginamos o teatro em pequenos, antes sequer de o termos visto: como o céu, repleto de doces sons, ornamentado de dourado e de todas as cores.» - De uma carta de 10-1-1929 a Emmy Ball-Hennings.
«A história da vida de Mozart ultrapassa, em grande parte, o aspecto pessoal, é a história do Espírito na terra, do Génio entre os plebeus; e, aqui, até os reis e as grandes figuras do palco do mundo são plebeus.» - Recensão no jornal National-Zeitung, Basileia, de 9-5-1937.
Por fim, uma citação de Hermann Hesse que está, por assim dizer, na portada do livro:
«O que seria da nossa vida sem a música! Se me tirassem, proibissem ou arrancassem à força da memória, a mim ou a alguém minimamente amante da música, os corais de Bach, as árias da Flauta Mágica ou o Fígaro [de Mozart, como se sabe], isso seria para nós como a perda de uma parte do corpo, de metade ou de todo um sentido.»

06 agosto 2019

“O Lobo das Estepes” de Herman Hesse - 30 de Agosto às 21h00



Abri ao acaso e li:

“… Era assim o sonho. Eu estava sentado e aguardava numa antecâmara antiquada. A princípio apenas sabia que tinha encontro marcado com uma Excelência qualquer, mas depois lembrei-me que era o senhor de Goethe que me ia receber. Infelizmente eu não viera ali a título meramente privado, mas na qualidade de correspondente de uma revista, isso contrariava-me muito, e eu não conseguia entender porque diabo tinha vindo parar àquela situação. Para mais andava desassossegado com um escorpião que tinha acabado de descobrir e que tentava trepar-me pela perna acima. Tentava livrar-me do escuro reptilzinho sacudindo-me e sacudindo-o, mas não sabia onde ele se tinha metido, e não ousava avançar a mão fosse para que lado fosse…”

In “O Lobo das Estepes” de Herman Hesse

16 julho 2019

UMA COMUNIDADE DE LEITORES NO TEMPO DE GOETHE


... com a presença do mesmo. As tertúlias realizavam-se normalmente à volta de uma mesa redonda.
In Weimar, a guide to a European city of culture, Leipzig, 2013


WEIMAR, NOVEMBRO DE 2013



Estive em Weimar dois ou três dias em novembro de 2013. Como havia um compromisso de participação numa conferência, mal tive tempo de percorrer a cidade, a maior parte das vezes fora das horas de luz do dia (o que também explica a escassez de fotografias). No entanto, não podia deixar de "tropeçar" em figuras tão presentes como Goethe, Schiller, Bach... Continuo a pensar que valia a pena lá voltar, sobretudo no verão, embora o gosto das salsichas grelhadas que se vendem na rua e do vinho quente (ponche?) das barraquinhas de madeira da época natalícia deixem saudades.

Ao reler (depois de quantas vezes?) Werther, sinto algum remorso, por ter contribuído para esta nossa escolha, iniciando um pequeno ciclo de literatura alemã. Isto porque, independentemente de ser um must, um marco incontornável na literatura e na cultura ocidental, é talvez das histórias mais pungentes que alguma vez foram escritas. Por isso, não é de molde a animar ninguém e ainda menos algum leitor desprevenido... Pela minha parte, peço desde já desculpa e venho então dar conta desta humilde pesquisa relacionada com Weimar, que julgo ajudar a situar um pouco o nosso autor deste mês de julho.


Goethe (1749-1832) e Schiller (1759-1805), amigos na colaboração literária e no apoio que Goethe deu a Schiller, como personalidade pública e influente em Weimar. Estátua dupla, erguida em 1857, do escultor Ernst Rietschel, colocada frente ao Deutsches Nationaltheather, do qual Goethe foi diretor de 1791 a 1815, promovendo as estreias das últimas quatro peças de Schiller.




A casa (palácio) onde Goethe viveu em Weimar, hoje museu


Goethe chega a Weimar em 1775, onde se fixa até à sua morte, vivendo e contribuindo para o período dito clássico ou Idade de Ouro, da cidade de Weimar, sob a proteção e incentivo do Duque Carl August. Muitas figuras importantes da cultura ocidental têm o seu nome ligado a esta cidade, nomeadamente: Lucas Cranach, o Velho, viveu aqui o último ano de vida, entre 1552 e 1553; Bach (1685-1750), enquanto violinista e organista da corte e, mais tarde, maestro, produziu em Weimar uma parte decisiva da sua obra, entre 1708 e 1717; Johann Gottfried von Herder (1744-1803), uma influência importante do jovem Goethe, é nomeado líder da igreja local, em 1776; em 1799 Friedrich Schiller fixa-se em Weimar, onde já tinha vivido de 1787 a 1789. Na época seguinte, é a vez de Franz Liszt (1811-1886) também aqui se notabilizar a partir de 1842, residindo entre 1848 e 1861. Nietzsche é trazido para a cidade muito doente, em 1897, onde morre em 1900, na casa da irmã, hoje transformada em Arquivo do filósofo. Já no século XX, Henry van de Velde (1863-1957) vai acabar por fundar a Arts and  Crafts School em 1908, precursora da Bauhaus, liderada por Walter Gropius (1883-1969), constituída no mesmo ano— 1919— do primeiro regime democrático da Alemanha, a República de Weimar, a qual, como sabemos, não podia sobreviver ao nazismo, que se impõe e expande a partir de 1933. Para terminar os exemplos de referências culturais, falta falar de Thomas Mann (1875-1955), com as intervenções públicas em defesa da República de Weimar e em memória de Goethe, no centenário da sua morte (1932).
A cidade foi bastante castigada por bombardeamentos durante a II Guerra e depois fez parte da Alemanha de Leste até 1989. Foi capital da cultura em 1999.
Não quero falar de Buchenwald, o campo de concentração estabelecido nos arredores em 1937, de muito triste memória, que visitamos para nunca mais (nem nenhum outro), testemunho também de uma cidade “ao mesmo tempo o melhor e o pior sítio na história da Alemanha”, tal como foi afirmado em 1965 em conferência internacional de escritores em Weimar.


03 julho 2019

26 Julho às 21h00 - "Werther" de Goethe


“…E tu, ó alma sensível que sofres dos mesmos pesares: que o teu coração dolorido encontre alívio na descrição das mágoas que ele sofreu e que este livro seja para ti um amigo, se, por impiedade da sorte, ou por tua própria culpa, te não for dado encontrar afeição mais real…”

in "Werther" de Johann Wolfgang von Goethe

15 junho 2019

E hoje foi assim...

... a nossa sessão na Feira do Livro. Uma tarde amena, um espaço agradavelmente informal, um autor de que gostamos muito e um grupo de pessoas sempre interessado nos livros e nas diferentes leituras que fazemos deles. A conversa decorreu em torno do livro de contos "Habeas Corpus" de Carlos Querido, contos esses povoados de personagens aparentemente vulgares, que vão deslizando numa dualidade de certezas e incertezas, questionando a vida perdida em rotinas desencantadas e a morte sempre à espreita, tudo envolto em permanente ironia. Depois de uma excelente apresentação feita pelo nosso coordenador Manuel Nunes, seguiu-se uma animada troca de impressões entre os presentes e o autor, que nos foi dando a sua visão sobre a leitura que fizemos, dos 33 contos incluídos no livro. E porquê 33, perguntámos a Carlos Querido? Porque é um número mágico, foi a resposta...

 Obrigada à Zé, a nossa fotógrafa de serviço

13 junho 2019

15 Junho às 15h00 – Vamos estar na Feira do Livro?



Estarão certamente já informados, de que a nossa Comunidade de Leitores foi convidada pela editora Abysmo e pelo autor Carlos Querido, a apresentar o seu livro de contos Habeas Corpus recentemente publicado.

Esta sessão de apresentação e discussão da obra terá lugar no sábado, dia 15, pelas 15 horas, junto ao stand da Abysmo - nº E-15 (de costa para o Marquês de Pombal, é um dos primeiros do lado esquerdo).

Carlos Querido (mais informações aqui), é um autor conhecido da maior parte dos nossos Leitores e tem já uma ligação especial à nossa Comunidade. Quem não se lembra da nossa ida às Caldas da Rainha, onde tão gentilmente nos serviu de cicerone? Ou da nossa sessão pública na Feira do Livro, também a propósito de um outro livro seu? Espreitem aqui se quiserem rever essas boas memórias.

A nossa presença é importante para a Comunidade, pelo que contamos com todos os que tenham disponibilidade para isso. Até Sábado!

06 junho 2019

“Um Homem não Chora” de Luis de Sttau Monteiro” - 28 de Junho às 21h00


A abrir:

“Procuro com a mão o despertador que está a tocar há mais de meio  minuto. Encontro-o entre um livro e um copo de água que me colocam todas as noites sobre a mesinha de cabeceira. Carrego num botão e o silêncio volta a entrar no meu quarto. Sei que já não posso adormecer. O meu despertador toca invariavelmente às oito da manhã, todos os dias faça sol ou faça chuva.
É uma das invariáveis da minha vida, tão invariável como o amor da Fernanda, como os jantares de família nos dias santos, como o som do piano da vizinha aos Domingos…”

In “Um Homem não Chora” de Luis de Sttau Monteiro”

03 junho 2019

Agustina Bessa-Luís (1922-2019)


Imagem do fb

“Sobretudo o facto de haver na sala de jantar um quadro que era cópia da Ronda da Noite de Rembrandt. Na sua vaidade mística que não admitia contradição, Maria Rosa habituara-se a não duvidar. Para ela a Ronda da Noite era autêntica e tudo o mais que pudesse assemelhar-se era pura falsificação. Bastava um só olhar para ver que Rembrandt não lhe pusera a mão. Mas o mesmo se diz do quadro que com tanta fama se pode ver no Rijksmuseum…” 

in “A Ronda da Noite” de Agustina Bessa -Luís

06 maio 2019

"Tanta Gente Mariana" de Maria Judite de Carvalho - 31 de Maio às 21h00

Abri ao acaso e li:

"...Agora eram quatro horas e caminhava pela rua fora. Estava frio, mas ela não o sentia. Não sentia coisa nenhuma, a não ser as malhas da meia direita a escorrerem-lhe pela perna abaixo e também o salto que de vez em quando a fazia tropeçar. Estava num dos seus dias negros. Sozinha..."

in "Tanta Gente Mariana" de Maria Judite de Carvalho. Do conto, "A Avó Cândida"

27 abril 2019

Curso de Literatura Portuguesa do Séc. XXI (BSDR)


"Este curso pretende abrir o leque de possibilidades de leituras, refletindo sobre o que é escrever hoje numa sociedade mais imediata, mais informada, numa época em que publicar é mais fácil, em que a escrita se democratizou, obrigando-nos a ser mais criteriosos e exigentes. Vamos falar dos autores que estão no circuito comercial, dos que sofrem por ele, dos que lhe são parasitas e dos que apenas lhe são indiferentes. Vamos também falar de livros, editores, movimentos, ideias e vamos ler, pensar, discutir, num curso que é muito mais um sítio onde a partilha de leituras dita o caminho da conversa.

Rosa Azevedo é formada em Literatura Portuguesa e Francesa com curso minor em Literaturas do Mundo e tem mestrado em Edição de Texto. Tem realizado desde 2007 diversos cursos de literatura portuguesa e hispano-americana, para além de outros trabalhos de produção ligados à literatura, nomeadamente na área do surrealismo e da edição independente. Fundou e foi presidente da Associação Cultural Respigarte e do grupo teatral A Mancha. É produtora do Reverso - encontro de autores, artistas e editores independentes e do Muito Cá de Casa da Casa da Cultura de Setúbal, para as questões da literatura, onde é também moderadora. 
É livreira e programadora cultural da Livraria Snob. Mantém o blog estórias com livros."

Gratuito
Inscrições: 214 815 403/4 | bsdr@cm-cascais.pt

26 abril 2019

A Arte não tem nada que ver com o ganha-pão!


Dos sonhos perdidos:

“… Amontou a massa crua e cinzenta, informe, em cima do prato do torno, sentou-se no banco muito alto, deu ao pedal, o prato rodou, e ele pôs-se a afeiçoar o barro. Girando vertiginosamente, sob a palma das mãos e ao toque dos dedos, incrivelmente ágeis, o barro pouco a pouco tomou forma. Era primeiro uma bacia bojuda, depois um jarro, em seguida cresceu como se tivesse vida própria, lançou-se, esgadanhado, ondulou, fez-se melodia no ar – era uma ânfora grega! – 

Olhando um momento, por cima dos óculos, a frágil fórmula efémera, o Boi-do-Val’ murmurou como se falasse sozinho: 

- Eram coisas assim que eu gostava de fazer. Mas só faço tachos, panelas, alguidares! – e esmagou tudo com os punhos tremendos.

A Arte não tem nada que ver com o ganha-pão!

In “A Escola do Paraíso” de José Rodrigues Migueis

23 abril 2019

O PARAÍSO PERDIDO (9)

A questão do novo pendão nacional representou uma das disputas mais renhidas, e com traços caricaturais, que se seguiram à revolução de 5 de Outubro. Para a sua escolha foi constituída uma comissão de que fizeram parte Columbano, João Chagas, Afonso Pala, Ladislau Parreira, Abel Botelho e dois oficiais revolucionários. A disputa era entre a continuação da bandeira azul e branca, suprimindo naturalmente o escudo monárquico, e a criação de uma bandeira verde-rubra segundo a tradição cromática do republicanismo. Segundo é explicado por João Medina em História de Portugal Contemporâneo Político e Institucional, edição da Universidade Aberta, 1994, diziam certos partidários do cromatismo azul e branco que «uma súbita mudança de cores, de desenhos e emblemas na bandeira portuguesa poderia suscitar, nas nossas colónias africanas, a justificada desconfiança dos negros», argumento de que há «um eco no romance semimemorialista de José Rodrigues Miguéis, quando este diz: "receava-se que os pretos, com perdão de quem me ouve, não acatassem a bandeira nova, e se revoltassem, tomando-a por estrangeira."» É evidente que está a referir-se a A Escola do Paraíso. Nós, que temos a leitura fresquinha, sabemos que a ideia foi do impagável Santiago, lançada naquele belo Cap. 30 - República, sou teu. Triunfou a ideia da bandeira que temos: a apresentação oficial deu-se a 1 de Dezembro de 1910 e a publicação no Diário do Governo tem a data de 30 de Junho de 1911.
 

21 abril 2019

O PARAÍSO PERDIDO (8)

No Cap. 23 a família de Gabriel muda-se para uma nova casa na Quinta da Charca, perto da igreja de Nossa Senhora dos Anjos. Nova mudança justificada pela exiguidade dos cómodos de São Gens e pela proximidade do colégio dos filhos. « Não houve pois remédio senão mudarem-se para mais perto do Colégio, aquele estirão! Era um segundo andar também, com três janelas para a rua e outras tantas para um desafogo ao lado, mas amplo e bem dividido. E a Vista linda! Lá estava Lisboa, sempre diante dos olhos, agora em novas perspectivas: lavada e soalhenta, branca e rosada, com rasgões de céu azul por cima!» Foi nesta zona da Quinta da Charca, ali com o Monte Agudo ao pé, que nos anos vinte se começou a construir o Bairro das Colónias, " Um bairro Art Déco e Modernista" como  pode ser lido no blogue que lhe é dedicado. Chega-se lá, no Google, a partir de uma simples pesquisa.
=Fotos de 20-4-2019=

19 abril 2019

O PARAÍSO PERDIDO (7)

 
O Regicídio, 1 de Fevereiro de 1908. Dona Leonor de Medanha e Serrano (talassa, como bem intuiu o pequeno Gabriel) ficou arrasada: « - Que desgraça, que grande desgraça! Nem quero ver ninguém... Esta nação está amaldiçoada! Maçons, carbonários, e aquele assassino do João Franco! Sua majestade a rainha... e agora o Dom Manuel, coitadinho, uma criança a governar esta piolheira... Que vai ser disto, que vai ser de todos nós? E que fazem os ingleses? Porque é que esses traficantes não mandam cá dois cruzadores para arrasar isto, meter esta choldra nos eixos , fuzilar a canalha? Porquê? Isto só vai com uma intervenção estrangeira» Na Quarta Parte da narrativa conta-se a história desta Dona Leonor e dos vínculos que prendiam a menina Adélia à sua importante pessoa. O plangente discurso da senhora tem lugar numa casa ao Largo do Pelourinho cuja entrada, se bem se percebe, era feita pela Calçada de S. Francisco, atravessada pelo passadiço do desaparecido elevador da Biblioteca (terceira imagem). Na segunda imagem pode ver-se o Largo do Pelourinho, erguendo-se atrás dos edifícios, a partir do largo contíguo de São Julião, a estrutura do elevador (Cap. 19 - Bolacha «Marselhesa»).

17 abril 2019

O PARAÍSO PERDIDO (6)

Em 1901 era inaugurado o transporte electromotorizado na cidade de Lisboa: carreira Cais do Sodré a Algés. É num destes eléctricos que o pequeno Gabriel vai à praia (Pedrouços ou Algés?). À volta, apeiam-se no Terreiro do Paço (ele, a mãe e a irmã) e seguem pela Rua do Ouro. Num momento em que se separa delas, vai para o meio da rua e é colhido pela rede salva-vidas dum eléctrico que trava com um «grande estardalhaço» de ferragens. Envergonhado, não explica à mãe o sucedido. No entanto, pensa não ter sido nenhum Anjo ou Pomba de Pentecostes a salvá-lo: «se não tem pulado tão depressa para cima da rede, como os acrobatas!...» O nosso herói recusava assim a ideia do auxílio sobrenatural, aprendendo a acreditar em si e nas capacidades humanas.
(Cap. 14-Animais Nossos Amigos)

16 abril 2019

O PARAÍSO PERDIDO (5)

Volto ao Cap. 9 d´A Escola  do Paraíso. Largo das Olarias, onde se situava o Teatro da Miquelina, «uma sala obscura, antiga cavalariça ou estrebaria» com o seu «negro portal» dentro de um beco. Perguntei a quem poderia saber e depois de alguma estranheza, ao ouvirem «antiga cavalariça ou estrebaria», indicaram-me o local da 3ª foto, dentro do tal beco. Não fiquei convencido, mas aí fica como hipótese de trabalho. A nespereira está carregadinha, mas não cheguei a provar... O que é que este capítulo tem de particularmente interessante? É nele que Gabrielzinho sente pela primeira vez o doce apelo de algo que não sabe explicar: «a atmosfera carregada de feminidade», «a qualidade poética e teatral» da casa da Miquelina com as boas sensações recebidas no convívio com as manas Perliquitetes. Até à descoberta do teatro, o choque entre a cor da poesia e a vida cinzenta dos simples ganhadores de dinheiro. Coisas sentidas, ainda não compreendidas. O pai, Sr. Augusto, é que não tinha dúvidas: «o Teatro é bom para pelintras e caloteiros», «a Contabilidade e Escrituração Comercial, isso é que é vida, e o mais são tretas.»
=Fotos de 16-4-2019=

15 abril 2019

O PARAÍSO PERDIDO (4)

Em A Escola do Paraíso, a família de Gabriel muda-se para uma nova casa (Cap. 9 - No Teatro da Miquelina) na Rua de São Gens ao Monte: « Apesar de batida pelo vento e chuva da Barra, a varanda [da cozinha] permite avistar a Outra-Banda pardacenta e quase nua, o casario do Castelo, e a parada do quartel da Graça, onde a infantaria desfila nos dias de cerimónia, toda empenachada e debruada de vermelho ao som dum ordinário bélico e arrebatador.» A parada do quartel (antes foi convento, até à extinção das ordens religiosas em 1834) aí está na última foto. No mesmo capítulo, um pouco mais à frente, lê-se o seguinte: «Do segundo andar [frente do edifício] avistam-se telhados vermelhos, lisos e sem flores, ao longe a Penha e os jazigos do Alto de São João como ossadas a branquear ao sol. Nada disto tem o encanto da Rua da Saudade, para sempre perdido e preservado. Tudo é mais duro e calcário... E o lençol de prata e esmalte azul do Tejo desapareceu.» A nova morada da família ficaria assim num prédio do lado esquerdo da segunda foto. É nestes prédios que as traseiras dão para o Largo da Graça e a parte da frente para as bandas da Penha de França e do Alto de São João. E alguns deles bem parecem ser daqueles tempos (princípio do século XX), quando a rua não estava tão composta e os horizontes eram mais largos.
=Fotos de 15-4-2019=