02 dezembro 2022

30 de Dezembro – Os Transparentes, de Ondjaki às 20h00

 


“…entrei nesse prédio

uma frescura é que me molhou a pele, conheço bem a zona e nunca tinha sentido esta frescura, vi uns degraus partidos e pensei que era melhor não pisar, saltei, subi mais, as conchas no meu saco faziam mais barulho, só que o meu coração me dizia para subir, continuei,…”

in “Os Transparentes” de Ondjaki

28 novembro 2022

2023 VEM JÁ AÍ

 HENRI MATISSE, Leitora da mesa amarela (1944), Musée Matisse, Nice

PROGRAMA DE LEITURAS PARA 2023

Datas das sessões

ROMANCE E MODERNISMO

27/01:  As Caves do Vaticano, de André Gide

24/02: Retrato do Artista quando Jovem, de James Joyce

31/03: Jogo da Cabra Cega, de José Régio

ROMANCE E CONTO DE AUTORES PORTUGUESES

28/04: Os Amantes e outros Contos, de David Mourão-Ferreira                          

26/05: Cerromaior, de Manuel da Fonseca                                      

30/06: Sombras da Raia, de Nuno Franco Pires                                

ROMANCES DE FÉRIAS

28/07: Niketche: Uma História de Poligamia, de Paulina Chiziane

25/08: Os Anos, de Annie Ernaux                                                            

29/09: A Trilogia de Nova Iorque, de Paul Auster                                 

OUTROS GÉNEROS

27/10: O Infinito num Junco, de Irene Vallejo

24/11: Rei Lear, de William Shakespeare                                  

29/12: Dual, de Sophia de Mello Breyner Adresen

02 novembro 2022

25 Novembro - Os Malaquias, de Andréa del Fuego às 20h00

 


Sinopse

“Serra Morena. Um raio esturrica o casal, em luz e carne. Os filhos ficam órfãos, com destinos diferentes. Antônio, o menino que não cresce. Nico, o patriarca engolido por um bule de café. Júlia, a menina em fuga permanente. Um lugar onde as sombras da terra e da água convivem. Onde a morte e a vida são o mesmo mundo. Um poema seco à humanidade de cada um de nós.”

31 outubro 2022

Evocar Saramago



A Biblioteca Municipal de S. Domingos de Rana apresenta um programa cultural evocativo da obra de José Saramago. Bem a propósito, num trimestre em que lemos Saramago e Saramaguianos.

Programa completo, aqui

03 outubro 2022

Manual de Pintura e Caligrafia, de José Saramago - 28 Outubro às 20h00


 

“Manual de Pintura e Caligrafia é um romance que causou alguma surpresa quando apareceu. O livro foi bem recebido, talvez pela sua estrutura que parece até mais moderna que a dos livros que vieram depois. Quando digo mais moderna, quero dizer mais vanguardista. Há muito de autobiografia ali mas é paralela.”

José Saramago

03 setembro 2022

A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells - 30 Setembro às 20h00


Em Setembro e fazendo jus ao mote “Há mais mundos” que deu suporte ao terceiro trimestre, temos um clássico da ficção científica:
 A Guerra dos Mundos de H. G. Wells traz ao nosso mundo, seres alienígenas muito destruidores...

01 agosto 2022

“Alice no País das Maravilhas” de Lewis Carroll - 26 de Agosto às 20h00


Agosto é tradicionalmente um mês de férias e de aventuras, um mês para fugir à rotina e ter novas vivências. Por isso poderemos dizer que a leitura deste mês é perfeita para isso. Vamos então seguir o coelho branco e descobrir outros mundos?

03 julho 2022

“As Viagens de Gulliver” de Jonathan Swift - 29 de Julho às 20h00


Síntese: 

Lemuel Gulliver, cirurgião de um navio naufragado, acorda um dia em Lilliput, onde o tamanho minúsculo dos habitantes lhe faz parecer absurdos todos os seus interesses e disputas. Uma segunda viagem leva-o ao reino dos gigantes, onde desta vez o seu próprio tamanho lhe confere uma nova visão sobre o comportamento humano. Caindo na mão de piratas que o deixam à deriva, Gulliver visita depois uma série de ilhas onde o conhecimento falha o alvo e a imortalidade implica apenas sofrimento. A viagem final leva-o ao país dos Houyhnhnms, cavalos dotados de razão que partilham o seu domínio com os Yahoos. Quando regressa a Ingla-terra, Gulliver é um homem mudado.

01 junho 2022

“Os Informadores” de Juan Gabriel Vásquez - 24 Junho às 20h00


Sinopse:

Quando o jornalista Gabriel Santoro publicou o seu primeiro livro, não imaginava que a crítica mais implacável fosse ser escrita pelo próprio pai.

O tema parecia inofensivo: a vida de uma amiga da família, judia chegada à Colômbia em fuga da Alemanha nazi, pouco tempo antes da eclosão da Segunda Guerra Mundial. Por que razão terá o seu livro sobre Sara Guterman ferido o pai a ponto de o levar a humilhá-lo publicamente? Que segredo imprevisto esconderão aquelas páginas? O que alimentará a raiva e a alienação do patriarca?

Impelido pela morte misteriosa do pai num acidente de automóvel, Santoro decide indagar a verdade, antes que o passado lhe escape por completo. A investigação irá destapar impensáveis traições e segredos da história familiar. Na dolorosa reconstrução do retrato da família - sombrio, complexo, enigmático - acabará por descobrir um episódio sinistro do seu país nos anos de trevas da Grande Guerra, a catástrofe que deixou a Europa em escombros e tocou milhares de vidas no outro lado do Atlântico.

03 maio 2022

“As Aventuras de Huckleberry Finn”, de Mark Twain - 27 de Maio às 20h00

 


Maio traz-nos a viagem extraordinária de Huckleberry Finn e do escravo Jim, pelo rio Mississípi abaixo. Juntos numa jangada, partem numa corajosa busca de liberdade, deparando-se com uma infinidade de aventuras e peripécias recheadas de grandes emoções.

30 abril 2022

O Velho Que Lia Romances de Amor - Filme


Na sessão de ontem falámos deste filme. Depois do livro, vale a pena ver.
É muito bonito e fica aqui disponível (é dobrado em português do Brasil).

28 abril 2022

O Velho que lia Romances de Amor

 


No romance, ficamos a saber como António Bolivar fez a sua formação de leitor. Passou 5 meses numa escola de El Dorado onde a professora o deixou usar a sua biblioteca que continha cerca de 50 volumes.

Entre tudo o que leu acabou por ser o romance  “O Rosário” de Florence Barclay o que mais o cativou.

 

“…O Rosário, de Florence Barclay, continha amor, amor por todos os lados. As personagens sofriam e misturavam a sorte com os sofrimentos de uma maneira tão bela que se lhe embaciava a lupa de lágrimas.

A professora, não de todo de acordo com as suas preferências de leitor, permitiu-lhe que levasse o livro, e com ele regressou a El Idilio para o ler mil e uma vezes diante da janela…”

In “O Velho que lia Romances de Amor” de Luís Sepúlveda

Las gaviotas (As gaivotas)

Las gaviotas

Todas las tardes
se reúnen las gaviotas
frente a la estación del tren:
Allí repasan sus amores.

En su libro de memorias
dos flores de sándalo:
una señala la página de los puentes,
otra la de los suicidas.

Y también guardan una fotografía
del mendigo que, hace tiempo, transportaba
los despojos del mercado.

Pero su pequeño corazón
-que es el de los equilibristas-
por nada suspira tanto
como por esa lluvia tonta
que casi siempre trae el viento,
que casi siempre trae el sol.

Por nada suspira tanto
como por el inacabable
(cabalé, cabalá),
continuo mudar
del cielo y de los días.


No romance de Sepúlveda “História de uma Gaivota e do Gato…”, há uma referência ao escritor basco Bernardo Atxaga e ao seu poema “As Gaivotas”. Este serve de inspiração ao humano que vai ajudar o gato Zorbas a ensinar a gaivota Ditosa a voar. Fiquei curiosa e procurei o poema completo que apenas encontrei em castelhano. E ainda bem! A sonoridade da língua mãe dá-lhe todo um outro élan...

01 abril 2022

“O Velho que Lia Romances de Amor” e “História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar”, de Luís Sepúlveda - 29 de Abril às 20h00

Em Abril iniciamos novo trimestre, desta vez sob o mote “A Sul da América, A Oeste do Sonho”. Nada melhor que começar com duas belíssimas histórias do Luís Sepúlveda:


"… Antonio José Bolívar sabia ler, mas não escrever.

O mais que conseguia era garatujar o nome quando tinha que assinar qualquer papel oficial, por exemplo, na época das eleições , mas como tais acontecimentos ocorriam muito esporadicamente, já quase se tinha esquecido…”

In “O Velho que Lia Romances”



“…O gato grande, preto e gordo estava a apanhar sol na varanda, ronronando e meditando acerca de como se estava bem ali, recebendo os cálidos raios de barriga para cima, com as quatro patas muito encolhidas e o rabo estendido.

No preciso momento em que rodava preguiçosamente o corpo para que o sol lhe aquecesse o lombo ouviu o zumbido provocado por um objeto voador que não foi capaz de identificar e que se aproximava a grande velocidade. Atento, deu um salto, pôs-se de pé nas quatro patas e mal conseguiu atirar-se para um lado para se esquivar à gaivota que caiu na varanda…”

In “História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar”

03 março 2022

“Contos Impopulares” de Agustina Bessa-Luís – 25 de Março às 20h00

 


A terminar o primeiro trimestre e o ciclo “Horas do Conto”, chega-nos Agustina Bessa-Luís e os seus “Contos Impopulares”.

19 fevereiro 2022

HIPÓLITO E FEDRA


PUBLICO UM TEXTO tirado de outro blogue, lembrado de quando lemos Fedra, de Racine, salvo erro em Junho de 2012.  Foi uma sessão especial: a Paula Mendes Coelho leu em francês uma passagem da obra e dois actores convidados representaram uma ou várias cenas da peça. Junho de 2012, foi há quase 10 anos!


Disperso Escrevedor: HIPÓLITO E FEDRA: Hipólito, de Eurípides, tragédia apresentada em 428 a. C. Vi a noite passada no Teatro Municipal Joaquim Benite com encenação de Rogério de ...

02 fevereiro 2022

"Histórias de Mulheres" de José Régio - 25 de Fevereiro às 20h00


Em Fevereiro entramos num universo predominantemente feminino, através das novelas e contos de José Régio. "Histórias de Mulheres" em apreciação e discussão.

31 janeiro 2022

"O JANTAR DO BISPO", conto de Sophia

 Tentação de Cristo (1854), de Ary Scheffer

Este foi um dos contos de que mais gostei. Conto de Deus e do Diabo, e de algo mais.

O Diabo não se reconhece pela luz, mas pela sombra. Nem todos são capazes de o ver, daí o seu sucesso como tentador. Só os inocentes conseguem trespassar essa barreira de ocultação. O pequeno João, filho do poderoso Dono da Casa, «reparara que a sombra daquele homem [o Homem Importante] era enorme e enchia os tectos, gesticulando como um grande polvo».

A missão do Padre de Varzim assemelhava-se à dos padres operários, movimento contrariado por Pio XII, mas reabilitado posteriormente por João XXIII e Paulo VI. Os padres descendo aos infernos do trabalho assalariado, vivendo lado a lado com os operários das fábricas, defendendo-os. O Padre de Varzim vivia na pobreza  ao lado dos cavadores das vinhas. Dai o jantar e o convite ao Bispo: o Dono da Casa queria pedir ao Bispo que afastasse da freguesia o Padre de Varzim.

E havia o telhado de uma igreja para cuja reparação precisava o Bispo de uma esmola. Uma esmola de uma pessoa caridosa como o Dono da Casa. O assunto resolveu-se. Por assombradas artes do Homem Importante, o Bispo afasta um pároco incómodo e ganha as obras da igreja.

Depois há o encontro com o enigmático mendigo, o remorso, o mistério em torno do Homem Importante, a recusa da dupla esmola do Diabo.

Sobre este conto, diz D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto, no pórtico da obra: «que o Bispo volte a ser, mais que o construtor de igrejas, o construtor da Esperança.»


04 janeiro 2022

"Contos Exemplares", de Sophia de Mello Breyner Andresen - 28 de Janeiro às 20h00


Iniciamos o ano, com o mote "Horas do Conto". 

A abrir temos Sophia de Mello Breyner Andresen e os seus "Contos Exemplares"

29 dezembro 2021

Em jeito de Balanço e Feliz Ano Novo!

Imagem daqui

Infelizmente, este ano de 2021 não começou bem para o mundo, com a pandemia provocada pelo Corona vírus, praticamente descontrolada. As novas mutações do vírus, vieram agravar um cenário já de si caótico e Portugal sofre uma situação de fragilidade nunca vista. Novos estados de emergência e confinamento levam ao encerramento de quase tudo, incluindo as bibliotecas. E lá voltámos nós à estaca zero, sem as tão desejadas sessões presenciais. E Janeiro… que teve um livro tão bom!

Iniciámos o 1º Trimestre, sob o lema «Escuto a América a cantar, as várias canções que escuto» de Walt Withman e debruçámo-nos sobre a escrita da Harper Lee, com o livro “Mataram a Cotovia”. Em Maycomb, acompanhámos as aventuras das três crianças Scout, Jem e Dill e sob o seu olhar inocente e verdadeiro demos conta das terríveis fragilidades de uma América dividida em termos raciais e não só. O debate sobre o romance, foi acontecendo animadamente através do blogue e do fb.

Em Fevereiro, continuámos confinados às nossas casas, o que não nos impediu de mergulhar nas trevas da ressaca da Grande Depressão americana, com “As Vinhas da Ira” de John Steinbeck. Uma leitura intensa, dura e crua. Acompanhámos o drama da Família Joad, que após perder a sua casa e a as terras de cultura de algodão, no Oklahoma, partem para a Califórnia, numa viagem de esperança em busca de um a vida melhor. É a história da família Joad como poderia ser a de milhares de outras famílias de agricultores, que nos anos 30 seguiram na procura do mesmo sonho. Na rota do romance, cruzámos caminho com as palavras e a música de Bruce Springsteen, através da bela canção “The Ghost of Tom Joad” e com as fotografias de Dorothea Lange, fotógrafa americana que registou as grandes migrações de agricultores. Mais uma vez, a troca de ideias foi acontecendo no blogue e no fb. 

Link para a música do Bruce

Link para as fotos da Dorothea

A terminar o primeiro trimestre dedicado às leituras da América, vivemos a grande aventura do pescador Santiago (grande admirador do basebol americano e do célebre Joe DiMaggio) que, depois de oitenta e quatro dias sem sorte na faina, conseguiu filar um espadarte que lhe deu luta durante três dias. Infelizmente depois de ganha essa batalha e no regresso a terra, a luta prosseguiu com os tubarões que lhe atacaram a presa deixando-lhe apenas o esqueleto do espadarte preso ao barco. A propósito desta leitura de O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway, descobrimos uma maravilhosa curta metragem de animação baseada no romance e realizada em 1999, pelo realizador russo Aleksandr Petrov. Disponível Link aqui!

O 2º Trimestre, sob o mote «Última flor do Lácio, inculta e bela» (de Olavo Bilac), trouxe Abril e o regresso às sessões presenciais, com catorze entusiastas da leitura. O Cemitério de Pianos, deu o mote. A história do José Luís Peixoto não deixou ninguém indiferente ou porque gostaram ou então não gostaram nada ou porque apenas leram ao sabor da corrente ou porque simplesmente não leram. Uma coisa é certa, proporcionou mais umas belas horas de convívio e discussão literária. No final da sessão, a Bia presenteou-nos com um poema dos “Cadernos de Verão”, do Manuel Nunes.

Maio chegou e com ele um romance duro e belo. Levantado do Chão, de José Saramago, levou-nos ao Alentejo do tempo da ditadura até ao limiar da liberdade. Três gerações de Mau-Tempo, colocam-nos perante a opressão económica e social dos latifundiários, das forças políticas, policiais e até da igreja, sobre os trabalhadores e da luta destes contra todo o sistema. Uma sessão que contou com a presença de 19 leitores e uma discussão animada em torno desta leitura. Alguns leitores participaram posteriormente num roteiro literário, cujo percurso passou por lugares emblemáticos, referidos no romance.

Olhai os Lírios do Campo, de Erico Veríssimo foi o livro de Junho, que desta vez não provocou especial entusiasmo. Houve quem gostasse, claro, e, defendesse bem a sua dama.  Mas alguns leitores consideraram o romance datado e até um pouco enfadonho na sua segunda parte. Houve quem o tivesse lido pela segunda vez (a primeira, na juventude) tendo agora uma opinião menos favorável. No entanto foi lido na íntegra, por vinte dos vinte e um leitores presentes! 

«Bem próvida a natura quando alteou / Entre nós e os tudescos /

Dos fortes Alpes o limite duro», Francesco Petrarca deu o mote e iniciámos o trimestre italiano com esse romance épico e intemporal de Tomásio di Lampedusa “O Leopardo”. A relação do homem com o tempo, a batalha contra a inevitável transformação das coisas e o caminho quase natural para a sua decadência, são o fio condutor desta saga familiar, muito centrada em Don Fabrízio, Príncipe de Salina  e no seu sobrinho Tancredi Falconeri, em tempos de revolução. “…Se queremos que tudo continue como está, é preciso mudar tudo…” é a frase marcante proferida quase no início do romance por Tancredi e que se revela absolutamente verdadeira ao longo do mesmo. Foi uma leitura excelente, muito apreciada por todos os presentes. 

Agosto foi mês de férias para a maior parte de nós, mas isso não impediu a leitura de “O Nome da Rosa” de Umberto Eco. Muito mais do que um conto policial na idade média, o romance levou-nos ao encontro de maravilhas arquitetónicas (a fabulosa descrição do pórtico da igreja!), da detalhada descrição da vida monástica, de discussões, muitas delas a roçar o herético, e, sobretudo, aos livros. Livros que estão escondidos numa extraordinária biblioteca, de acesso labiríntico. Estão escondidos, não por serem frágeis ou valiosos, mas por serem perigosos nas ideias que transmitem. Tudo é válido para manter a ordem estabelecida. Foi uma leitura cativante, geradora de muito entusiasmo na sua discussão. 

Em Setembro, chegou mais um para semear uma saudável divergência. “Se numa Noite de Inverno um Viajante” de Italo Calvino foi, por assim dizer, um romance de muitas leituras, começando pelo ardil de colocar o leitor como protagonista do mesmo. Muitas histórias dentro da história em si, deram aos leitores uma verdadeira aventura de leitura com diversas possibilidades de interpretação. Parafraseando o nosso Coordenador “…Livro que não é fácil e, no entanto, é um livro que, entre outras coisas, reflecte sobre os leitores e a leitura. Somos leitores, lemos, é um livro para nós..”

Chegados ao último trimestre do ano, a que Milan Kundera deu o mote: “A única coisa que nos resta diante dessa inelutável derrota a que chamamos vida, é tentar compreendê-la. Eis aí a razão de ser da arte do romance”.

Outubro trouxe o romance de Haruki Murakami “A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol”. Embora fosse um livro de leitura fácil e fluida a opinião generalizada foi de pouco entusiasmo e alguma deceção (mesmo para os apreciadores do autor). Se a vida de Hajime muito marcada pelos relacionamentos com as mulheres mais importantes da sua vida, Shimamoto, Yukiko e Izumi, fez transparecer para os leitores alguma falta de consistência, também as pontas soltas que iam ficando no desenrolar do romance pouco ajudaram a tornar o mesmo apetecível. Ficou mesmo no ar, a hipótese de uma má tradução. Enfim, leu-se, mas não deixou saudades… 

Novembro chegou com a perturbadora fábula política de George Orwell “A Quinta dos Animais”. Homens e animais com um papel invertido e mais uma vez a confirmação de que, na grande maioria dos casos, o poder corrompe. O subtil desvio dos princípios inicialmente estabelecidos, leva a um sistema de subserviência total a um totalitarismo corrupto. Um livro que continua a gerar grande interesse nos leitores, tendo proporcionado uma sessão animada com intervenções calorosas.

E rapidamente chegámos ao fim do ano. Em Dezembro lemos “O Mar, o Mar” da Iris Murdoch. Charles Arrowby, personagem principal, é um homem do mundo do teatro, extremamente egocêntrico que, no auge da fama, decide isolar-se num lugarzinho da costa norte de Inglaterra. Um romance inesgotável, denso, construído por muitas camadas narrativas, com avanços e recuos, que tão depressa prenderem o leitor como a seguir o afastam. Longas descrições, imbuídas de mil e um detalhes, memórias e pensamentos para nos dar a conhecer os diferentes personagens. Realce para algum paralelo com o teatro de Shakespeare.   Quem leu gostou e reconheceu a beleza da escrita. Quem não leu, ouviu e acompanhou com interesse a discussão que o romance gerou.

E assim 2021 chega ao fim, sempre sob a nuvem negra de uma pandemia que parece não querer dar tréguas nem descanso. As nossas leituras continuam a ajudar-nos a manter alguma preciosa normalidade. 

Avancemos para o novo Ano com otimismo e esperança em dias melhores!

Feliz Ano Novo!

10 dezembro 2021

CONTINUANDO COM "O MAR, O MAR"

 FRANS HALS, "Cavalheiro a sorrir" (1624), Wallace Collection, Londres

Continuo a leitura do calhamaço, uma espécie de sexo cósmico, tal como me foi ensinado por Gilbert Opian. Já passei a peripécia* do encontro com Mary Hartley, já estive com Charles nas brumas de Londres naquele fino repasto com o amigo Peregrine Arbelow ( a quem ele roubara Rosina e que depois ficou com Pamela também já roubada por outro). Os casamentos desta autobiografia-romance-diário-memórias são extraordinários, o primo James lá tem as suas ideias sobre o casamento, Charles também, o que ele queria era casar com a que foi o seu primeiro amor, mas essa encontrou-a já casada com um caixeiro-viajante de poucas falas e ruim disposição, mas mesmo assim arrisca... Se Lizzie é Ariel de "Tempestade", Rosina é uma das bruxas de "Macbeth". Teatro, tudo teatro fora dos palcos! No museu da Wallace Collection, Charles viu o "Cavalheiro a sorrir", de Frans Hals. Quem é o cavalheiro sorridente? O marido de Mary Hartley não me parece, o homem não é de sorrisos para desconhecidos. Volto com Charles a Shruff End, grandes provações por que irá passar, e umas atrás das outras. Comecei por o detestar, agora estou com pena dele. Veremos o que acontece, ainda tenho 300 páginas para ler.
* Peripécia, termo do teatro grego, significa um acontecimento inesperado, uma mudança súbita no estado das personagens em acção. 

03 dezembro 2021

“O Mar, o Mar” de Iris Murdoch - 17 de Dezembro – 20h00

 


A abrir:

“O mar que se estende à minha frente enquanto escrevo resplandece, mais do que cintila, sob um morno sol de Maio. Com a mudança da maré, reclina-se calmo contra a costa, quase liso, sem espuma nem ondulação. Nas proximidades da linha do horizonte é de um púrpura voluptuoso, atravessado por linhas regulares de verde esmeralda. No horizonte é cor de anil. Junto à praia, onde a minha vista é enquadrada por cabeços de rocha amarelada, vê-se uma faixa de um verde mais claro, frio e puro, menos luminoso, mas opaco, não transparente. Estamos no Norte e o brilho do sol não consegue penetrar nas águas. No local onde golpeia suavemente as rochas, a água, mostra ainda uma fina película de cor, como uma pele. O céu, completamente limpo, é muito pálido no horizonte cor de anil, com ligeiras pinceladas de prata. O azul intensifica-se vibrante, na direcção do zénite. Mas é um céu de aspecto frio, até o sol parece frio…”

In “O Mar, o Mar” de Iris Murdoch


17 novembro 2021

LEITURAS E DATAS DAS SESSÕES DE 2022

 Leitora, Francine van Hove (1942)

Redacção final do programa de leituras para 2022:

1º trimestre – HORAS DO CONTO

JAN 28 - Contos Exemplares, de Sophia de Mello Breyner Andresen

FEV 25 - Histórias de Mulheres, de José Régio

MAR 25 - Contos Impopulares, de Agustina Bessa-Luís

2º trimestre – A SUL DA AMÉRICA, A OESTE DO SONHO

ABR 29 - O Velho que Lia Romances de Amor e História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, de Luis Sepúlveda

MAI 27 - As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain

JUN 24 - Os Informadores, de Juan Gabriel Vásquez

3º trimestre – HÁ MAIS MUNDOS

JUL 29 - As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift

AGO 26 - Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll

SET 30 - A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells

4º trimestre – SARAMAGO E SARAMAGUIANOS

OUT 28 - Manual de Pintura e Caligrafia, de José Saramago

NOV 25 - Os Malaquias, de Andréa del Fuego

DEZ 30 - Os Transparentes, de Ondjaki

 

04 novembro 2021

“A Quinta dos Animais” / “O Triunfo dos Porcos” de George Orwell – 26 de Novembro às 20h00



Em edições anteriores chamou-se “O Triunfo dos Porcos”, mas, entretanto, recuperou o título original de “A Quinta dos Animais”.

Orwell apresenta-nos uma fábula perturbante, onde os homens, as mulheres e os animais têm um papel invertido.

Uma sátira ainda adaptada à sociedade atual? Esta e outras questões a debater com o livro de Novembro (que, como já foi informado, sofreu uma troca com o livro agendado para Dezembro).

18 outubro 2021

A SUL DA FRONTEIRA. ESPANTOSO, DE FACTO...


South of the border, down Mexico way

That's where I fell in love, when the stars above, came out to play

And now as I wander, my thoughts ever stray

South of the border, down Mexico way

 

She was a picture, in old Spanish lace

Just for a tender while, I kissed a smile upon her face

'Cause it was fiesta, and we were so gay

South of the border, Mexico way

 

Then she sight as she whispered mañana

Never dreaming that we were parting

And I lied as a whispered mañana

'Cause our tomorrow never came

 

South of the border, I jumped back one day

There in a veil of white, by the candle light, she knelt to pray

The mission bells told me that I musn't stay

South of the border, Mexico way 


HAJIME: Em pequeno, sempre que escutava esta canção perguntava a mim mesmo o que poderia ficar a sul da fronteira.

SHIMAMOTO: Também eu. Já crescida, quando fui capaz de traduzir a letra em inglês, apanhei cá uma destas desilusões! Afinal era apenas uma canção sobre o México, e eu que pensava que a sul da fronteira só poderia existir qualquer coisa de bem mais espantoso. 

(H. Murakami, A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol, cap. 14)


02 outubro 2021

“A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol” de Haruki Murakami - 29 de Outubro às 20h00

Na primeira semana do primeiro mês do primeiro ano da segunda metade do século XX, ao protagonista, que também faz as vezes de narrador, é dado o nome de Hajime, que significa «início». Filho único de uma normal família japonesa, Hajime vive numa província um pouco sonolenta, como normalmente todas as províncias o são…

 

O romance de Murakami, parece encaixar bem no mote do 4º Trimestre: «A única coisa que nos resta diante dessa inelutável derrota a que chamamos vida, é tentar compreendê-la. Eis aí a razão de ser da arte do romance» (Milan Kundera)

25 setembro 2021

O VIAJANTE DE CALVINO

 

Entre os membros da nossa Comunidade, a leitura de Se numa Noite de Inverno um Viajante, de Italo Calvino, gerou perplexidades, incompreensões, até alguma frustração por se tratar de um livro com menos possibilidades de apreensão por parte de leitores que normalmente se entregam à leitura por puro prazer.

Concordo que é um livro difícil. Para qualquer um de nós. Mas registo aquilo que me foi dito por uma leitora à saída da sessão: «Não podemos querer só livros fáceis».

Livro que não é fácil e, no entanto, é um livro que, entre outras coisas, reflecte sobre os leitores e a leitura. Somos leitores, lemos, é um livro para nós.

Esta obra de Calvino desenvolve-se em dois planos: primeiro plano, uma história que avança em torno dos livros e das pessoas que os lêem (leitores românticos ou ingénuos, leitores académicos, leitores profissionais, etc.), assim como dos dispositivos crítico-literários que lhes são inerentes, como a legitimação da literatura pela Universidade, por investigadores e críticos, e ainda tudo o que ao livro diz respeito, como a edição, a tradução, a contrafacção, a censura, etc.; e, segundo plano, um conjunto de dez narrativas intercaladas nos capítulos, cada uma ao seu estilo, que podem ser lidas como contos.

A leitura destes dez “contos” pode ser feita por qualquer leitor, não é exigida uma qualificação especial. O leitor incomodado com as aventuras de Ludmilla, de Hermes Marana ou do professor Uzzi-Tuzii  poderá sempre entregar-se à leitura das dez narrativas, por mero prazer, com a vantagem acrescida de serem todas estilisticamente diferentes e, portanto, diferentemente enriquecedoras.

Ouvimos dizer que Se numa Noite de Inverno um Viajante é um puzzle, ora muitos de nós até gostamos de puzzles, dêmo-nos ao trabalho de o compor. 

Queria deixar mais umas notas relativas à minha intervenção na sessão, na qual posso não ter sido explícito. Quanto citei uma prática que foi corrente na Faculdade de Letras para avaliação dos alunos, que era a de se apresentar um texto para interpretação sem o nome do autor, com vista a concentrar a análise dos discentes somente nos processos de criação de linguagem, sem atender à biografia respectiva, não quis dizer que o livro de Calvino fosse só para quem tivesse frequentado a dita faculdade ou outra similar.

Matérias tratadas no livro são estas da “intenção do autor” e do “biografismo” de que a crítica usou e abusou e da qual discordou a corrente estruturalista (que valoriza a estrutura da linguagem)  e a semiótica (a ciência dos signos, logo também dos signos linguísticos).

Dizia-se: ele, autor, escreveu isto porque é comunista, católico, homossexual ou outra coisa qualquer; ele, autor, foi abandonado pela mãe, daí tratar mal as personagens femininas nos seus romances; ele, autor, pertence a uma minoria étnica, foi perseguido na juventude, daí a revolta existente nos seus textos, etc., etc.

Este não é o caminho seguro para abordar um texto literário, embora possamos segui-lo com o devido cuidado. Tudo isto levou a que no final dos anos 60, em artigo que se tornou célebre, Roland Barthes tenha advogado a “morte do autor”. O autor desapareceria ao acabar o seu texto, não mais se falaria dele, emergindo a figura do leitor, a razão última do labor autoral. Com o desenvolvimento da “teoria da recepção”, o papel do leitor passou a constituir uma função determinante no processo literário, como a entidade que actualiza ou “reescreve” o texto, que lhe dá sentido.

A propósito da “morte do autor”, veja-se o que Silas Flannery, escritor angustiado, diz no seu diário (Oitavo capítulo do livro de Calvino): «O estilo, o gosto, a filosofia pessoal, a subjectividade, a formação cultural, a experiência vivida, a psicologia, o talento, os truques do ofício: todos os elementos que fazem o que escrevo poder reconhecer-se como meu, acho-os uma jaula a limitar as minhas possibilidades. Se fosse apenas uma mão, uma mão decepada a empunhar uma caneta e escrever… Quem moveria esta mão? A multidão anónima? O espírito dos tempos? O inconsciente colectivo? Não sei

Foi com essa «mão decepada» que Italo Calvino escreveu o seu livro. Com ela escreveu os dez contos que sendo dele, e só dele, são, no entanto, de dez autores diferentes. É preciso conhecer-lhes a biografia para gostarmos deles?

Costumo dar um exemplo que não é meu, mas copiado de algum lado de que já não me recordo: nada sabemos da vida de Shakespeare, dos seus gostos, ânimos ou desânimos, mas tal não nos tira o imenso prazer de ler as suas obras.

Também nada sei do tal Takakumi Ikoka, conterrâneo fictício do próximo autor de visita à nossa Comunidade (se é fictício, como posso saber alguma coisa dele?), mas garanto-vos que gostei muito de ler o seu texto No tapete de folhas iluminado pela lua. Foi uma espécie de aperitivo para o romance de Murakami que, provavelmente, não será como o daquele japonês um «romance da perversão». No entanto, se for, não me importo nada.

E pronto, por aqui me fico. Laus Deo.

02 setembro 2021

24 de Setembro - Se numa Noite de Inverno um Viajante, de Italo Calvino - 20h00

Parece que não é um romance, mas... dez! E ao que se lê, todos interrompidos num momento de suspense. Promete, não promete? 

(No que me diz respeito, fui logo conquistada pela ambiguidade do título...)