(imagem da net)
2025 começou com o habitual ágape anual da Comunidade,
desta vez um almoço de Dia de Reis. Um convívio de celebração de amizade, de
partilha de muitas conversas sobre livros, música, cinema e as artes em geral.
O 1º Trimestre veio com o mote “Nascidos há
100 anos” e por isso janeiro trouxe José Cardoso Pires e o seu corrosivo “Dinossauro
Excelentíssimo”. Uma sátira ácida, de
humor negro, de ironia intensa. Se por um lado se pode considerar um retrato de
Salazar, num formato muito cáustico, mas a deixar alguma amargura nas
entrelinhas, pode também sentir-se de uma forma mais livre a representação de
qualquer ditadura. Apesar de se poder referir que é um livro datado, foram
encontrados muitos paralelismos com a atual situação mundial (líderes políticos
centralizadores que com discursos populistas começam a arrastar multidões). As
ilustrações de João Abel Manta fizeram lembrar as atuais novelas gráficas. 21
leitores presentes dos quais apenas 3 não tiveram oportunidade de ler o livro.
Fevereiro deu luta com os contos da Flannery
’Connor, incluídos no seu “Um Bom Homem é Difícil de Encontrar”. Histórias que
nos apresentaram personagens assustadoras que roçam o grotesco, o selvagem, o
sádico, mas também o cómico. Histórias passadas no ambiente rural do sul da
América com muitas personagens femininas de carácter dominador, mas que acabam
por ser enganadas pelas personagens masculinas que se revelam cruéis e
manipuladoras. Uma escrita gótica que nos deixa numa tensão inquietante à
medida que se avança na leitura, acabando sempre por nos surpreender com os
seus finais inesperados. Uma escrita muito boa que seduziu a maior parte dos
leitores, deixando alguns (poucos) inquietos e sem vontade de repetir. 25
presenças, onde só 1 leitor leu apenas 1 conto.
A terminar o trimestre, março trouxe-nos “O
Templo Dourado” de Yukio Mishima, o que nos fez mergulhar numa muito
tradicional cultura nipónica. Acompanhámos Mizoguchi, um jovem atormentado pela
gaguez e pela solidão em luta constante com o mundo exterior que nunca encontra
o seu espaço, estando sempre à beira do vazio. No fio condutor da narrativa
encontra-se o templo Rokuon-ji “uma estrutura delicada, sombria e repleta de
dignidade”, cujos alicerces sustentam todo o peso de uma era que já não existe.
Fascinado pela beleza do templo e pelos valores que ele representa, Mizoguchi
luta para se libertar do domínio absoluto que esse monumento exerce sobre sua
vida. Alguns leitores consideraram uma leitura ensaísta e filosófica outros um
romance histórico. Entre outros, falou-se de um triângulo de infortúnio:
valorização da beleza, do conhecimento e da ética e amor. Alguém referiu uma impotência afetiva
provocada pela gaguez e uma visão negra sobre algo idealizado. Leituras
diferentes e um ponto comum, a beleza da escrita. Um romance do agrado geral
dos 21 leitores presentes, em que 2 que não tiveram oportunidade de ler.
O segundo trimestre chegou sob o desafio “Romance,
para que te quero?”. Começámos em abril, mês de celebração da Liberdade, com “Não
há Morte nem Princípio” de Mário Dionísio. Os 14 leitores presentes, dos quais
3 não leram o romance, encontraram pela frente uma leitura desafiante. Esse foi
um ponto comum na discussão. Todos gostaram de ler, mas com alguma dificuldade
no entendimento das ideias do escritor. Colocaram-se, no entanto, várias e
interessantes questões: é um romance neorrealista? Existencialista? De
reflexões filosóficas? Foi escrito no âmbito do movimento “Nouveau Roman”?
Alguém disse que, enquanto vai lendo, o leitor constrói o romance realçando um
eterno retorno. Durante a sessão leram-se ainda alguns dos poemas de Mário
Dionísio.
A 30 de maio, lemos “Baumgartner” de Paul
Auster. O último livro do escritor,
publicado poucos meses antes de sua morte, narra a história de Sy Baumgartner,
explorando uma vida definida pelo profundo amor à sua mulher Anna, com quem
esteve casado durante 40 anos e pela partilha da beleza das pequenas coisas do
dia a dia. É um romance que nos envolve na velhice e nos fantasmas do passado. Do
muito que se falou ficaram algumas questões relativas ao romance, mas que se
poderiam colocar a qualquer um de nós: seriam as memórias de Baumgartner
coincidentes com as de Anna? E de que são feitas as nossas próprias memórias? O
que lembramos? O que esquecemos? De que são feitas as histórias pessoais de
cada um? A escrita fluida e bonita de Auster foi unanimemente elogiada, embora
houvesse um sentimento partilhado de que algo faltava em termos de
profundidade, uma característica tão presente nos seus outros romances.
Levantou-se a hipótese de que esta perceção pudesse estar ligada ao seu estado
de saúde e à consciência da sua mortalidade iminente. Entre os 18 leitores
presentes (2 que não leram), alguns expressaram uma ligeira deceção. No
entanto, a maioria reconheceu e apreciou a escrita dinâmica e cativante do
autor.
Em junho e a terminar o trimestre lemos “A
Cidadela Branca” de Orhan Pamuk, que nos trouxe uma história passada no século
XVII, onde um jovem estudante italiano que viajava tranquilamente de Veneza
para Nápoles, foi capturado por piratas turcos, sendo vendido mais tarde como
escravo a um cientista turco, conhecido como o Mestre e estranhamente parecido
com o jovem. Seguiram-se anos de troca de troca de conhecimentos e culturas,
com um final surpreendente em que ambos acabam a trocar de personalidade e de
vida. Romance do agrado geral dos
leitores que levantou questões de introspeção, da relação do eu com o outro, do
amor / ódio, da atração oriente / ocidente e da progressão com as aprendizagens
de cada um. 16 leitores presentes e 1 que não leu.
O 3º Trimestre teve como tema “Romancistas Prémio
Camões”, pelo que julho trouxe “Leite Derramado” de Chico Buarque, onde é
construída uma saga familiar, caracterizada pela decadência social e económica,
tendo como pano de fundo a história do Brasil dos últimos dois
séculos. Uma escrita muito própria, onde se identifica a genialidade da
poesia de Chico, o romance trouxe emoções tão diversas como o amor, a posse, o
ciúme, a inveja, a solidão e a tristeza e sobretudo os efeitos da memória na
recordação da história. 17 pessoas presentes e 4 que não leram.
Em agosto, lemos o doce Mia Couto com o seu
“Compêndio para Desenterrar Nuvens”. Na Bertrand Livreiros online, o livro vem
com o seguinte diagnóstico: Indicado para: combater
processos de desumanização, injustiça, extremismo/fanatismo religioso,
desigualdade, exclusão, ciúme, humilhação, ódio e formas diversas de violência;
aliviar tiques de snobismo, arrivismo e excesso de correção política; amparar
quadros de envelhecimento, luto, orfandade, saudade, solidão ou
desenraizamento; Efeitos secundários: recuperação de
memórias remotas; possível nostalgia; sentimentos de ternura, carinho,
aconchego, solidariedade, sororidade, empatia e compaixão; predisposição para a
amizade, o amor, o diálogo, o riso, o perdão e a paz; acréscimo de resiliência;
Posologia: Leitura de um conto por dia, à hora de almoço.”
Estiveram presentes 21 leitores, dos quais 4
não leram o livro. Quem leu só teceu elogios.
A terminar o trimestre, setembro chegou com “Maina
Mendes” de Maria Velho da Costa. Um romance que nos traz uma mulher silenciada
num mundo de homens e dos homens. Que se
impõe a si própria um silêncio, numa mudez introspetiva, levando a sua voz
apenas ao mundo dos sonhos, onde aí pode ser ouvida de forma justa. Um livro de
difícil leitura face ao experimentalismo linguístico utilizado pela escritora.
A maior parte dos 16 leitores presentes, sentiu desconforto por não compreender
o puzzle em que a leitura se tornava. Era necessário desconstruir para depois
se compreender. Ficou um sentimento de que é um romance direcionado a uma muito
específica faixa de leitores. Mesmo assim houve quem considerasse o livro, um
poema e quem conseguisse fazer um Haiku a seu propósito.
O último trimestre do ano englobou outros
géneros, sendo o primeiro a poesia. Assim em outubro lemos “Homem de Palavra(s)”
de Ruy Belo. Partindo do seu olhar
sobre aquilo que o rodeia, o autor constrói os seus poemas entre o real e a
imaginação habitada pelo que lê e observa. Alguém disse que é a arte da escrita
no quotidiano, numa utilização acertada das palavras. Um poeta desigual, mas
não irregular. Foi uma escolha que agradou aos 14 leitores presentes sendo que
3 não conseguiram acabar de ler.
Realizou-se
em novembro, na Biblioteca Central de Almada, o 2º Encontro dos Grupos de
Leitores da Rede de Bibliotecas Municipais da Área Metropolitana de Lisboa e,
pela segunda vez, a nossa Comunidade foi convidada a fazer-se representar.
Esteve presente um pequeno grupo dos nossos leitores, cabendo-me a mim, desta
vez, o convite para estar na mesa. Para além da nossa Comunidade, estiveram
presentes grupos e comunidades de leitores do Barreiro, do Feijó, de Loures, da
Maia, de Oeiras e da Quinta do Anjo (Palmela). O encontro foi um agradável
espaço de partilha, onde os membros e dinamizadores dos diversos grupos de
leitura, apresentaram as suas melhores práticas e desafios enfrentados na
dinamização das suas comunidades, tendo ficado mais uma vez evidente, o
potencial destas comunidades de leitores como catalisadores para o fomento e
dinamização dos livros e da leitura.
A leitura neste mês
de novembro focou-se em “Ferreira de Castro, Uma Biografia” de Ricardo António
Alves. A sessão que contou com a presença de 25 leitores, teve também a
participação do autor que nos falou da vida e obra do escritor Ferreira de
Castro, focando-se, nos anos de 1898 a 1919, período abrangido neste primeiro
volume. Entre perguntas e respostas percorremos os diferentes romances do
escritor e viajámos pelo Brasil, com particular destaque nos 4 anos passados no
seringal “Paraíso” em plena floresta amazónica.
E finalmente dezembro chegou e veio com uma tragédia grega “Antígona”, escrita
por Sófocles por volta de 441 a.C.. É uma das obras mais influentes do teatro
grego e encerra a trilogia de Tebas (embora tenha sido a primeira a ser escrita),
focando-se no conflito insolúvel entre a lei humana e a lei divina. A destacar
a submissão imposta às mulheres num estado dominado pelos homens, a luta individual
contra o poder do estado, o orgulho excessivo que leva à catástrofe e uma
maldição (destino) a que não se pode escapar. Uma leitura diferente, mas do
interesse dos 20 leitores presentes onde apenas 2 não acabaram de ler.
E
assim terminamos mais um ano de leituras partilhadas e estimulantes, ótimas discussões
e troca de conhecimento, tudo com muito entusiasmo. Também durante este
ano demos as boas-vindas a novos leitores, uns de forma pontual e
outros acabando por se tornar membros assíduos desta Comunidade.
Continuamos a registar uma boa média de presenças. Neste ano andámos entre o
mínimo de 14 e o máximo de 25 leitores por sessão.
De novo uma palavra de agradecimento para a
Biblioteca de São Domingos de Rana e os seus responsáveis que continuam a
acolher-nos, disponibilizando o espaço para as nossas reuniões.
Bom
Ano 2026!