04 janeiro 2022

"Contos Exemplares", de Sophia de Mello Breyner Andresen - 28 de Janeiro às 20h00


Iniciamos o ano, com o mote "Horas do Conto". 

A abrir temos Sophia de Mello Breyner Andresen e os seus "Contos Exemplares"

29 dezembro 2021

Em jeito de Balanço e Feliz Ano Novo!

Imagem daqui

Infelizmente, este ano de 2021 não começou bem para o mundo, com a pandemia provocada pelo Corona vírus, praticamente descontrolada. As novas mutações do vírus, vieram agravar um cenário já de si caótico e Portugal sofre uma situação de fragilidade nunca vista. Novos estados de emergência e confinamento levam ao encerramento de quase tudo, incluindo as bibliotecas. E lá voltámos nós à estaca zero, sem as tão desejadas sessões presenciais. E Janeiro… que teve um livro tão bom!

Iniciámos o 1º Trimestre, sob o lema «Escuto a América a cantar, as várias canções que escuto» de Walt Withman e debruçámo-nos sobre a escrita da Harper Lee, com o livro “Mataram a Cotovia”. Em Maycomb, acompanhámos as aventuras das três crianças Scout, Jem e Dill e sob o seu olhar inocente e verdadeiro demos conta das terríveis fragilidades de uma América dividida em termos raciais e não só. O debate sobre o romance, foi acontecendo animadamente através do blogue e do fb.

Em Fevereiro, continuámos confinados às nossas casas, o que não nos impediu de mergulhar nas trevas da ressaca da Grande Depressão americana, com “As Vinhas da Ira” de John Steinbeck. Uma leitura intensa, dura e crua. Acompanhámos o drama da Família Joad, que após perder a sua casa e a as terras de cultura de algodão, no Oklahoma, partem para a Califórnia, numa viagem de esperança em busca de um a vida melhor. É a história da família Joad como poderia ser a de milhares de outras famílias de agricultores, que nos anos 30 seguiram na procura do mesmo sonho. Na rota do romance, cruzámos caminho com as palavras e a música de Bruce Springsteen, através da bela canção “The Ghost of Tom Joad” e com as fotografias de Dorothea Lange, fotógrafa americana que registou as grandes migrações de agricultores. Mais uma vez, a troca de ideias foi acontecendo no blogue e no fb. 

Link para a música do Bruce

Link para as fotos da Dorothea

A terminar o primeiro trimestre dedicado às leituras da América, vivemos a grande aventura do pescador Santiago (grande admirador do basebol americano e do célebre Joe DiMaggio) que, depois de oitenta e quatro dias sem sorte na faina, conseguiu filar um espadarte que lhe deu luta durante três dias. Infelizmente depois de ganha essa batalha e no regresso a terra, a luta prosseguiu com os tubarões que lhe atacaram a presa deixando-lhe apenas o esqueleto do espadarte preso ao barco. A propósito desta leitura de O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway, descobrimos uma maravilhosa curta metragem de animação baseada no romance e realizada em 1999, pelo realizador russo Aleksandr Petrov. Disponível Link aqui!

O 2º Trimestre, sob o mote «Última flor do Lácio, inculta e bela» (de Olavo Bilac), trouxe Abril e o regresso às sessões presenciais, com catorze entusiastas da leitura. O Cemitério de Pianos, deu o mote. A história do José Luís Peixoto não deixou ninguém indiferente ou porque gostaram ou então não gostaram nada ou porque apenas leram ao sabor da corrente ou porque simplesmente não leram. Uma coisa é certa, proporcionou mais umas belas horas de convívio e discussão literária. No final da sessão, a Bia presenteou-nos com um poema dos “Cadernos de Verão”, do Manuel Nunes.

Maio chegou e com ele um romance duro e belo. Levantado do Chão, de José Saramago, levou-nos ao Alentejo do tempo da ditadura até ao limiar da liberdade. Três gerações de Mau-Tempo, colocam-nos perante a opressão económica e social dos latifundiários, das forças políticas, policiais e até da igreja, sobre os trabalhadores e da luta destes contra todo o sistema. Uma sessão que contou com a presença de 19 leitores e uma discussão animada em torno desta leitura. Alguns leitores participaram posteriormente num roteiro literário, cujo percurso passou por lugares emblemáticos, referidos no romance.

Olhai os Lírios do Campo, de Erico Veríssimo foi o livro de Junho, que desta vez não provocou especial entusiasmo. Houve quem gostasse, claro, e, defendesse bem a sua dama.  Mas alguns leitores consideraram o romance datado e até um pouco enfadonho na sua segunda parte. Houve quem o tivesse lido pela segunda vez (a primeira, na juventude) tendo agora uma opinião menos favorável. No entanto foi lido na íntegra, por vinte dos vinte e um leitores presentes! 

«Bem próvida a natura quando alteou / Entre nós e os tudescos /

Dos fortes Alpes o limite duro», Francesco Petrarca deu o mote e iniciámos o trimestre italiano com esse romance épico e intemporal de Tomásio di Lampedusa “O Leopardo”. A relação do homem com o tempo, a batalha contra a inevitável transformação das coisas e o caminho quase natural para a sua decadência, são o fio condutor desta saga familiar, muito centrada em Don Fabrízio, Príncipe de Salina  e no seu sobrinho Tancredi Falconeri, em tempos de revolução. “…Se queremos que tudo continue como está, é preciso mudar tudo…” é a frase marcante proferida quase no início do romance por Tancredi e que se revela absolutamente verdadeira ao longo do mesmo. Foi uma leitura excelente, muito apreciada por todos os presentes. 

Agosto foi mês de férias para a maior parte de nós, mas isso não impediu a leitura de “O Nome da Rosa” de Umberto Eco. Muito mais do que um conto policial na idade média, o romance levou-nos ao encontro de maravilhas arquitetónicas (a fabulosa descrição do pórtico da igreja!), da detalhada descrição da vida monástica, de discussões, muitas delas a roçar o herético, e, sobretudo, aos livros. Livros que estão escondidos numa extraordinária biblioteca, de acesso labiríntico. Estão escondidos, não por serem frágeis ou valiosos, mas por serem perigosos nas ideias que transmitem. Tudo é válido para manter a ordem estabelecida. Foi uma leitura cativante, geradora de muito entusiasmo na sua discussão. 

Em Setembro, chegou mais um para semear uma saudável divergência. “Se numa Noite de Inverno um Viajante” de Italo Calvino foi, por assim dizer, um romance de muitas leituras, começando pelo ardil de colocar o leitor como protagonista do mesmo. Muitas histórias dentro da história em si, deram aos leitores uma verdadeira aventura de leitura com diversas possibilidades de interpretação. Parafraseando o nosso Coordenador “…Livro que não é fácil e, no entanto, é um livro que, entre outras coisas, reflecte sobre os leitores e a leitura. Somos leitores, lemos, é um livro para nós..”

Chegados ao último trimestre do ano, a que Milan Kundera deu o mote: “A única coisa que nos resta diante dessa inelutável derrota a que chamamos vida, é tentar compreendê-la. Eis aí a razão de ser da arte do romance”.

Outubro trouxe o romance de Haruki Murakami “A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol”. Embora fosse um livro de leitura fácil e fluida a opinião generalizada foi de pouco entusiasmo e alguma deceção (mesmo para os apreciadores do autor). Se a vida de Hajime muito marcada pelos relacionamentos com as mulheres mais importantes da sua vida, Shimamoto, Yukiko e Izumi, fez transparecer para os leitores alguma falta de consistência, também as pontas soltas que iam ficando no desenrolar do romance pouco ajudaram a tornar o mesmo apetecível. Ficou mesmo no ar, a hipótese de uma má tradução. Enfim, leu-se, mas não deixou saudades… 

Novembro chegou com a perturbadora fábula política de George Orwell “A Quinta dos Animais”. Homens e animais com um papel invertido e mais uma vez a confirmação de que, na grande maioria dos casos, o poder corrompe. O subtil desvio dos princípios inicialmente estabelecidos, leva a um sistema de subserviência total a um totalitarismo corrupto. Um livro que continua a gerar grande interesse nos leitores, tendo proporcionado uma sessão animada com intervenções calorosas.

E rapidamente chegámos ao fim do ano. Em Dezembro lemos “O Mar, o Mar” da Iris Murdoch. Charles Arrowby, personagem principal, é um homem do mundo do teatro, extremamente egocêntrico que, no auge da fama, decide isolar-se num lugarzinho da costa norte de Inglaterra. Um romance inesgotável, denso, construído por muitas camadas narrativas, com avanços e recuos, que tão depressa prenderem o leitor como a seguir o afastam. Longas descrições, imbuídas de mil e um detalhes, memórias e pensamentos para nos dar a conhecer os diferentes personagens. Realce para algum paralelo com o teatro de Shakespeare.   Quem leu gostou e reconheceu a beleza da escrita. Quem não leu, ouviu e acompanhou com interesse a discussão que o romance gerou.

E assim 2021 chega ao fim, sempre sob a nuvem negra de uma pandemia que parece não querer dar tréguas nem descanso. As nossas leituras continuam a ajudar-nos a manter alguma preciosa normalidade. 

Avancemos para o novo Ano com otimismo e esperança em dias melhores!

Feliz Ano Novo!

10 dezembro 2021

CONTINUANDO COM "O MAR, O MAR"

 FRANS HALS, "Cavalheiro a sorrir" (1624), Wallace Collection, Londres

Continuo a leitura do calhamaço, uma espécie de sexo cósmico, tal como me foi ensinado por Gilbert Opian. Já passei a peripécia* do encontro com Mary Hartley, já estive com Charles nas brumas de Londres naquele fino repasto com o amigo Peregrine Arbelow ( a quem ele roubara Rosina e que depois ficou com Pamela também já roubada por outro). Os casamentos desta autobiografia-romance-diário-memórias são extraordinários, o primo James lá tem as suas ideias sobre o casamento, Charles também, o que ele queria era casar com a que foi o seu primeiro amor, mas essa encontrou-a já casada com um caixeiro-viajante de poucas falas e ruim disposição, mas mesmo assim arrisca... Se Lizzie é Ariel de "Tempestade", Rosina é uma das bruxas de "Macbeth". Teatro, tudo teatro fora dos palcos! No museu da Wallace Collection, Charles viu o "Cavalheiro a sorrir", de Frans Hals. Quem é o cavalheiro sorridente? O marido de Mary Hartley não me parece, o homem não é de sorrisos para desconhecidos. Volto com Charles a Shruff End, grandes provações por que irá passar, e umas atrás das outras. Comecei por o detestar, agora estou com pena dele. Veremos o que acontece, ainda tenho 300 páginas para ler.
* Peripécia, termo do teatro grego, significa um acontecimento inesperado, uma mudança súbita no estado das personagens em acção. 

03 dezembro 2021

“O Mar, o Mar” de Iris Murdoch - 17 de Dezembro – 20h00

 


A abrir:

“O mar que se estende à minha frente enquanto escrevo resplandece, mais do que cintila, sob um morno sol de Maio. Com a mudança da maré, reclina-se calmo contra a costa, quase liso, sem espuma nem ondulação. Nas proximidades da linha do horizonte é de um púrpura voluptuoso, atravessado por linhas regulares de verde esmeralda. No horizonte é cor de anil. Junto à praia, onde a minha vista é enquadrada por cabeços de rocha amarelada, vê-se uma faixa de um verde mais claro, frio e puro, menos luminoso, mas opaco, não transparente. Estamos no Norte e o brilho do sol não consegue penetrar nas águas. No local onde golpeia suavemente as rochas, a água, mostra ainda uma fina película de cor, como uma pele. O céu, completamente limpo, é muito pálido no horizonte cor de anil, com ligeiras pinceladas de prata. O azul intensifica-se vibrante, na direcção do zénite. Mas é um céu de aspecto frio, até o sol parece frio…”

In “O Mar, o Mar” de Iris Murdoch


17 novembro 2021

LEITURAS E DATAS DAS SESSÕES DE 2022

 Leitora, Francine van Hove (1942)

Redacção final do programa de leituras para 2022:

1º trimestre – HORAS DO CONTO

JAN 28 - Contos Exemplares, de Sophia de Mello Breyner Andresen

FEV 25 - Histórias de Mulheres, de José Régio

MAR 25 - Contos Impopulares, de Agustina Bessa-Luís

2º trimestre – A SUL DA AMÉRICA, A OESTE DO SONHO

ABR 29 - O Velho que Lia Romances de Amor e História de uma Gaivota e do Gato que a Ensinou a Voar, de Luis Sepúlveda

MAI 27 - As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain

JUN 24 - Os Informadores, de Juan Gabriel Vásquez

3º trimestre – HÁ MAIS MUNDOS

JUL 29 - As Viagens de Gulliver, de Jonathan Swift

AGO 26 - Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll

SET 30 - A Guerra dos Mundos, de H. G. Wells

4º trimestre – SARAMAGO E SARAMAGUIANOS

OUT 28 - Manual de Pintura e Caligrafia, de José Saramago

NOV 25 - Os Malaquias, de Andréa del Fuego

DEZ 30 - Os Transparentes, de Ondjaki

 

04 novembro 2021

“A Quinta dos Animais” / “O Triunfo dos Porcos” de George Orwell – 26 de Novembro às 20h00



Em edições anteriores chamou-se “O Triunfo dos Porcos”, mas, entretanto, recuperou o título original de “A Quinta dos Animais”.

Orwell apresenta-nos uma fábula perturbante, onde os homens, as mulheres e os animais têm um papel invertido.

Uma sátira ainda adaptada à sociedade atual? Esta e outras questões a debater com o livro de Novembro (que, como já foi informado, sofreu uma troca com o livro agendado para Dezembro).

18 outubro 2021

A SUL DA FRONTEIRA. ESPANTOSO, DE FACTO...


South of the border, down Mexico way

That's where I fell in love, when the stars above, came out to play

And now as I wander, my thoughts ever stray

South of the border, down Mexico way

 

She was a picture, in old Spanish lace

Just for a tender while, I kissed a smile upon her face

'Cause it was fiesta, and we were so gay

South of the border, Mexico way

 

Then she sight as she whispered mañana

Never dreaming that we were parting

And I lied as a whispered mañana

'Cause our tomorrow never came

 

South of the border, I jumped back one day

There in a veil of white, by the candle light, she knelt to pray

The mission bells told me that I musn't stay

South of the border, Mexico way 


HAJIME: Em pequeno, sempre que escutava esta canção perguntava a mim mesmo o que poderia ficar a sul da fronteira.

SHIMAMOTO: Também eu. Já crescida, quando fui capaz de traduzir a letra em inglês, apanhei cá uma destas desilusões! Afinal era apenas uma canção sobre o México, e eu que pensava que a sul da fronteira só poderia existir qualquer coisa de bem mais espantoso. 

(H. Murakami, A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol, cap. 14)


02 outubro 2021

“A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol” de Haruki Murakami - 29 de Outubro às 20h00

Na primeira semana do primeiro mês do primeiro ano da segunda metade do século XX, ao protagonista, que também faz as vezes de narrador, é dado o nome de Hajime, que significa «início». Filho único de uma normal família japonesa, Hajime vive numa província um pouco sonolenta, como normalmente todas as províncias o são…

 

O romance de Murakami, parece encaixar bem no mote do 4º Trimestre: «A única coisa que nos resta diante dessa inelutável derrota a que chamamos vida, é tentar compreendê-la. Eis aí a razão de ser da arte do romance» (Milan Kundera)

25 setembro 2021

O VIAJANTE DE CALVINO

 

Entre os membros da nossa Comunidade, a leitura de Se numa Noite de Inverno um Viajante, de Italo Calvino, gerou perplexidades, incompreensões, até alguma frustração por se tratar de um livro com menos possibilidades de apreensão por parte de leitores que normalmente se entregam à leitura por puro prazer.

Concordo que é um livro difícil. Para qualquer um de nós. Mas registo aquilo que me foi dito por uma leitora à saída da sessão: «Não podemos querer só livros fáceis».

Livro que não é fácil e, no entanto, é um livro que, entre outras coisas, reflecte sobre os leitores e a leitura. Somos leitores, lemos, é um livro para nós.

Esta obra de Calvino desenvolve-se em dois planos: primeiro plano, uma história que avança em torno dos livros e das pessoas que os lêem (leitores românticos ou ingénuos, leitores académicos, leitores profissionais, etc.), assim como dos dispositivos crítico-literários que lhes são inerentes, como a legitimação da literatura pela Universidade, por investigadores e críticos, e ainda tudo o que ao livro diz respeito, como a edição, a tradução, a contrafacção, a censura, etc.; e, segundo plano, um conjunto de dez narrativas intercaladas nos capítulos, cada uma ao seu estilo, que podem ser lidas como contos.

A leitura destes dez “contos” pode ser feita por qualquer leitor, não é exigida uma qualificação especial. O leitor incomodado com as aventuras de Ludmilla, de Hermes Marana ou do professor Uzzi-Tuzii  poderá sempre entregar-se à leitura das dez narrativas, por mero prazer, com a vantagem acrescida de serem todas estilisticamente diferentes e, portanto, diferentemente enriquecedoras.

Ouvimos dizer que Se numa Noite de Inverno um Viajante é um puzzle, ora muitos de nós até gostamos de puzzles, dêmo-nos ao trabalho de o compor. 

Queria deixar mais umas notas relativas à minha intervenção na sessão, na qual posso não ter sido explícito. Quanto citei uma prática que foi corrente na Faculdade de Letras para avaliação dos alunos, que era a de se apresentar um texto para interpretação sem o nome do autor, com vista a concentrar a análise dos discentes somente nos processos de criação de linguagem, sem atender à biografia respectiva, não quis dizer que o livro de Calvino fosse só para quem tivesse frequentado a dita faculdade ou outra similar.

Matérias tratadas no livro são estas da “intenção do autor” e do “biografismo” de que a crítica usou e abusou e da qual discordou a corrente estruturalista (que valoriza a estrutura da linguagem)  e a semiótica (a ciência dos signos, logo também dos signos linguísticos).

Dizia-se: ele, autor, escreveu isto porque é comunista, católico, homossexual ou outra coisa qualquer; ele, autor, foi abandonado pela mãe, daí tratar mal as personagens femininas nos seus romances; ele, autor, pertence a uma minoria étnica, foi perseguido na juventude, daí a revolta existente nos seus textos, etc., etc.

Este não é o caminho seguro para abordar um texto literário, embora possamos segui-lo com o devido cuidado. Tudo isto levou a que no final dos anos 60, em artigo que se tornou célebre, Roland Barthes tenha advogado a “morte do autor”. O autor desapareceria ao acabar o seu texto, não mais se falaria dele, emergindo a figura do leitor, a razão última do labor autoral. Com o desenvolvimento da “teoria da recepção”, o papel do leitor passou a constituir uma função determinante no processo literário, como a entidade que actualiza ou “reescreve” o texto, que lhe dá sentido.

A propósito da “morte do autor”, veja-se o que Silas Flannery, escritor angustiado, diz no seu diário (Oitavo capítulo do livro de Calvino): «O estilo, o gosto, a filosofia pessoal, a subjectividade, a formação cultural, a experiência vivida, a psicologia, o talento, os truques do ofício: todos os elementos que fazem o que escrevo poder reconhecer-se como meu, acho-os uma jaula a limitar as minhas possibilidades. Se fosse apenas uma mão, uma mão decepada a empunhar uma caneta e escrever… Quem moveria esta mão? A multidão anónima? O espírito dos tempos? O inconsciente colectivo? Não sei

Foi com essa «mão decepada» que Italo Calvino escreveu o seu livro. Com ela escreveu os dez contos que sendo dele, e só dele, são, no entanto, de dez autores diferentes. É preciso conhecer-lhes a biografia para gostarmos deles?

Costumo dar um exemplo que não é meu, mas copiado de algum lado de que já não me recordo: nada sabemos da vida de Shakespeare, dos seus gostos, ânimos ou desânimos, mas tal não nos tira o imenso prazer de ler as suas obras.

Também nada sei do tal Takakumi Ikoka, conterrâneo fictício do próximo autor de visita à nossa Comunidade (se é fictício, como posso saber alguma coisa dele?), mas garanto-vos que gostei muito de ler o seu texto No tapete de folhas iluminado pela lua. Foi uma espécie de aperitivo para o romance de Murakami que, provavelmente, não será como o daquele japonês um «romance da perversão». No entanto, se for, não me importo nada.

E pronto, por aqui me fico. Laus Deo.

02 setembro 2021

24 de Setembro - Se numa Noite de Inverno um Viajante, de Italo Calvino - 20h00

Parece que não é um romance, mas... dez! E ao que se lê, todos interrompidos num momento de suspense. Promete, não promete? 

(No que me diz respeito, fui logo conquistada pela ambiguidade do título...)

03 agosto 2021

27 de Agosto – “O Nome da Rosa” de Umberto Eco - 20h00

 


Estamos no séc XIV. Crime e mistério numa abadia beneditina, a par com muitas discussões filosóficas dão o mote a um romance notável e genial. Acompanhemos as investigações de Guilherme de Baskerville, um monge franciscano, cuidadoso decifrador de sinais e do seu jovem companheiro Adso, aspirante a monge beneditino.


24 julho 2021

"O Leopardo" - versão cinematográfica

 Il gattopardo (1963) - L. Visconti

Agora que já devem ter lido o livro, ainda vão a tempo de ver a lindíssima versão do Luchino Visconti...


01 julho 2021

30 de Julho “O Leopardo” de G. Tomasi di Lampedusa – 20h00

 


“…Se queremos que tudo continue como está, é preciso mudar tudo…”. *

Quem não terá já lido ou ouvido uma referência a esta reflexão? A questão é colocada por Tancredi Falconeri a Don Fabrízio, Príncipe de Salina, quando aparece em sua casa um dia pela manhã, para se despedir do seu aristocrático tio. Ia partir para as montanhas e juntar-se à revolução em curso que visava a unificação dos divididos estados italianos.

*in “O Leopardo” de G. Tomasi di Lampedusa


Francesco Petrarca dá o mote ao terceiro trimestre

“Bem próvida a natura quando alteou / Entre nós e os tudescos / Dos fortes Alpes o limite duro”

11 junho 2021

EDELWEISS, A FLOR TALISMÃ DO AMOR

No capítulo 8 de “Olhai os Lírios do Campo”, Eugénio Fontes e Olívia vão jantar ao restaurante austríaco «Edelweiss«, nome de uma flor alpina de rara beleza. Naquele dia, a psicologia bipolar do protagonista estava do lado da satisfação e da autoestima. Com uma traqueotomia prontamente realizada salvara uma criança em estado agudo de laringite diftérica. Até o seu ateísmo ressentido parecia desaparecer: «Sim, Deus existia! – achava Eugénio. Recordações das lições da Bíblia no Columbia College. A ressurreição de Lázaro. A filha de Jairo. Cristo era um médico. Cristo podia ser aquela estrela pura.»

Edelweiss é a flor nacional da Áustria e da Suiça. Em “Música no Coração” o nome da flor aparece na letra de uma canção: «Edelweiss / Edelweiss / Bless my homeland forever.»

O que não sabia é que em Lisboa também há um restaurante «Edelweiss». Fica no nº 2 da Rua de S. Marçal, ali perto de S. Bento. Passei por lá hoje à hora do almoço. É um restaurante suíço em cuja ementa há pratos como «Strogonoff de vitela», «Salsicha alemã com molho de cebolas» e «Massa fresca suiça com queijo Emmental». Só abre para jantares a partir da 17 horas. Talvez algumas das nossas leitoras  ainda se disponham a ir a este restaurante experimentar os segredos da gastronomia alpina, e sempre com "Olhai os Lírios do Campo" em pensamento. O aspecto exterior do restaurante é frio e vulgar, mas por dentro, tanto quanto me apercebi, é simpático e acolhedor.


01 junho 2021

25 de Junho – “Olhai os Lírios do Campo” de Erico Veríssimo – 20h00

 



Abri ao acaso e li:

“…Seu Florismal... Para Eugênio, esse nome tinha um secreto encanto. Florismal aparecia quase todas as noites, chegava muito calmo, fumando o seu charuto de tostão, e ia logo sentar-se na cadeira de balanço. Era um homem baixo, de cabelos ralos, quase calvo. No rosto gorducho e redondo, a barba forte era sempre uma sombra azulada, mesmo quando ele se escanhoava. Os dentes eram maus e miúdos. Florismal tinha uma voz macia e uma certa dignidade de estadista. Era um espírito conciliador e gabava-se de ter muita lábia. «Nasci para advogado - dizia. - Se eu tivesse tido mais um pouco de juízo quando moço...» Calava-se, entortava a cabeça, batia a cinza do charuto e ficava em atitude sonhadora. Decerto via mentalmente o seu passado, os seus erros e uma carreira perdida. Ou então pensava apenas no efeito que aquelas palavras e aquela sugestiva postura podiam estar produzindo nos interlocutores…”

 

In “Olhai os Lírios do Campo” de Erico Veríssimo -Pág 21, Edição “Livros do Brasil” Lisboa

19 maio 2021

A Debulhadora

Imagem daqui

Imagem da net (não encontrei os créditos)

A certo momento do “Levantado do Chão”, fala-se de uma debulhadora e das terríveis condições de trabalho, para operar a mesma. O texto é longo e opressivo.  A descrição é tão real, que facilmente imaginamos a cena ali apresentada e sentimos a falta de ar provocada por aquela névoa de pó e palha e os ouvidos parecem ensurdecer com o ruído que constantemente nos matraqueia. Procurei imagens do monstro e encontrei as que estão em cima.

 

“… Chamam-lhe debulhadora…………… Vista de fora, é uma grande caixa de madeira sobre rodas de ferro, ligada por uma correia a um motor que trepida, estrondeia, retumba e, com perdão, fede. Pintaram-na de amarelo gema de ovo, mas a poeira e o sol bruto quebraram-lhe a cor, e agora mais parece um acidente do terreno, ao lado doutros que são os frascais, e com este sol nem se distingue bem, não há nada que esteja quieto, é o motor a saltar, a debulhadora a vomitar palha e grãos, a correia frouxa a oscilar, e o ar vibrando como se todo ele fosse o reflexo do sol num espelho agitado no céu por mãozinhas de anjos que não têm mais que fazer. Há uns vultos no meio desta névoa. Estiveram todo o dia nisto, e ontem, e anteontem, e mais para trás, desde que a debulha começou…………………. Dormem na eira, na revessa dos fardos, mas é noite fechada quando o motor se cala e ainda vem longe o sol quando se ouve o primeiro tiro daquela besta que se alimenta de bidões dum líquido preto e pegajoso, e depois, todo o santo dia, diabos o levem, matraqueia os ouvidos…………………….A boca da máquina é um vulcão para dentro, um gasgarro de gigante………………………………….. giram como doidos naquela perdição de palha miúda, …………………………….. e a máquina é como um poço sem fundo. Só falta meter-lhe um homem dentro. ……………………………….. É a moinha aquele monstro sem peso, aquela palha poalha que se infiltra pelas ventas e as entope, que se mete por tudo quanto é abertura da roupa e se agarra à pele, uma pasta de lama, e a comichão, senhores, e a sede. A água que se bebe do quartão não tarda que fique mole, doentia, …………………………………Vai o moço para a moinha, recebe-a na cara como um castigo, e o corpo começa de mansinho a protestar, para mais não me sobram as forças, ……………………………………………., e então, de dois feito, o rapaz, que se chama Manuel Espada e voltará a ser falado neste relato, deixa a moinha, chama os companheiros e diz, Vou-me embora, que isto não é trabalhar, é morrer………………. e afinal são apenas quatro rapazes, estes que se afastam movidos por suas razões de quem não tem que pensar em mulher e filhos a sustentar…”

Excertos do capítulo que se inicia na pág.99 do meu livro. Edição Caminho - O Campo da Palavra.

01 maio 2021

28 de Maio “Levantado do Chão” de José Saramago – às 20h00

A abrir

" O que mais há na terra é paisagem. Por muito que do resto lhe falte, a paisagem sempre sobrou, abundância que só por milagre infatigável se explica, porquanto a paisagem é sem dúvida anterior ao homem, e apesar disso, de tanto existir, não se acabou ainda. Será porque constantemente muda: tem épocas do ano em que o chão é verde, outras amarelo, e depois castanho, ou negro. E também vermelho, em lugares que é cor de barro ou sangue sangrado. Mas isso depende do que no chão se plantou e cultiva, ou ainda não, ou não já, ou do que por simples natureza nasceu, sem mão de gente, e só vem a morrer porque chegou seu último fim. Não é tal o caso do trigo, que ainda com alguma vida é cortado. Nem do sobreiro, que vivíssimo, embora por sua gravidade o não pareça, se lhe arranca a pele. Aos gritos…”

In “Levantado do Chão” de José Saramago

Voltámos

 


Ontem voltámos às sessões presenciais, com catorze entusiastas da leitura. O Cemitério de Pianos, deu o mote. A história do José Luís Peixoto não deixou ninguém indiferente. Houve quem adorasse e defendesse com paixão o seu ponto de vista e houve quem apenas lesse com cuidado e atenção e tivesse dado o tempo por bem empregue. Uns leram simplesmente ao sabor da corrente e outros leram com dificuldade. Houve quem fizesse tentativas várias e andasse para cá e para lá, mas não conseguisse agarrar a história e houve quem não lesse por não se sentir cativado ou por não ter tido acesso ao livro em tempo útil. Uma coisa é certa, a história ficcionada, mas com bases reais, deu pano para mangas e proporcionou mais umas belas horas de convívio e discussão literária.

No final da sessão, a nossa leitora Bia presenteou-nos com um poema dos “Cadernos de Verão”, da autoria do Manuel Nunes. Os interessados podem saber de tudo aqui.

Obrigada mais uma vez aos responsáveis da BSDR-Cascais, que nos garantiram, de novo, todas as condições de higiene e segurança para a realização da sessão.

02 abril 2021

30 de Abril - “Cemitério de Pianos” de José Luís Peixoto - 20h00


 Abro ao acaso e leio: 

“… a outra rua, outras casas. Corro mais depressa para que o tempo passe mais depressa. A cor das casas altas. Os telhados das casas. A minha respiração. Não quero fixar-me na minha respiração. A cor das casas: amarelo torrado, cor de laranja, quase castanho, cor de barro…”

In “Cemitério de Pianos” de José Luís Peixoto

 

18 março 2021

Joe DiMaggio, ídolo de Santiago

Foto da net

Joe DiMaggio (1914-1999), um dos melhores jogadores americanos de basebol de sempre, é uma personagem muito presente no romance "O Velho e o Mar". Oriundo de uma família de emigrantes sicilianos, não seguiu os passos do pai que era pescador e optou por um dos desportos mais queridos na América, o basebol. Representando sempre o New York Yankees, na segunda metade da sua carreira, teve que lidar com graves problemas físicos, relacionados com um esporão ósseo no calcanhar e após uma temporada muito complicada, conseguiu voltar no ano seguinte às exibições de topo. Essa superação fez com que se tornasse um símbolo de força e resistência no seu país. DiMaggio ficou também conhecido socialmente pelo seu curto casamento com Marilyn Monroe. O divórcio, que fez correr muita tinta nos tabloides, fez sobressair o seu carácter elegante e digno, pois sempre se recusou a comentar e alimentar os mexericos daí decorrentes. A esse propósito, Paul Simon fez-lhe uma referência na canção “Mrs. Robinson”, tornada um êxito pela dupla Simon & Garfunkel

“…Where have you gone, Joe DiMaggio?
A nation turns its lonely eyes to you Ooo ooo ooo
What's that you say, Mrs. Robinson?
Joltin' Joe has left and gone away…”

(Simon & Garfunkel - Mrs. Robinson (from The Concert in Central Park)

No romance de Hemingway, Santiago tem como distração as notícias da Liga de Beisebol dos Estados Unidos, sobretudo no que diz respeito ao seu ídolo Joe DiMaggio. As notícias chegam através dos jornais e são tema recorrente na suas conversas com Manolim:

 “…Conta-me do beisebol- pediu o rapaz. Na liga americana são os Yankees, como eu disse- declarou o velho. Hoje, perderam- observou o rapaz. Isso não significa nada, o grande DiMaggio é sempre o mesmo- respondeu o velho…”

E dizia-lhe “… gostaria era de levar o grande DiMaggio a pescar…dizem que o pai dele era pescador. Talvez tivesse sido pobre como nós e percebesse…”   

Nos 3 dias que passa no mar após a pesca do espadarte, Santiago vai monologando e refere-se várias vezes ao basebolista:

 “… É o segundo dia de que não sei os resultados dos juegos, pensou. Mas preciso de ter confiança e devo ser digno do grande DiMaggio que tudo faz perfeitamente, mesmo com a dor de espora de osso no calcanhar. O que será espora de osso?...”

“…Julgas que o grande DiMaggio seria capaz de ficar com um peixe tanto tempo como eu com este? Tenho a certeza de que seria, e mais, pois que é jovem e forte. O pai dele era pescador. Mas a espora dor-lhe-i muito?...”

“… mas acho que o grande DiMaggio se orgulharia hoje de mim. Eu ‘não tinha esporas de osso’. Mas as mãos e as costas doem de verdade.- Que será uma ‘espora de osso’?, pensou. Talvez seja coisa de ter-se sem se saber…”

E quando mata o primeiro tubarão, “… Preciso de pensar. Porque nada mais me resta. Isso e o basebol. Gostava de saber se o grande DiMaggio gostaria da maneira como lhe acertei nos miolos. Não foi grande coisa. Qualquer o faria. Mas não achas que o estado das minhas mãos equivale às ‘espuelas’? Não posso saber, nunca sofri do calcanhar…”

e mais à frente a propósito do pecado, “…Não penses no pecado. É tarde demais para isso e há gente paga para pensar nele. Eles que pensem. Tu nasceste para pescador, como os peixes para serem pescados. S. Pedro era pescador, como o pai do grande DiMaggio…”

E tal como Joe DiMaggio na sua luta contra o esporão ósseo do calcanhar, também Santiago na sua aventura de 3 dias no mar, deu provas de força e resistência, quer na pesca do espadarte, quer na defesa do mesmo contra o ataque dos tubarões...

03 março 2021

"O Velho e o Mar", em versão animada


Em 1999, o realizador russo Aleksandr Petrov, produziu uma brilhante curta metragem de animação, baseada no romance “O Velho e o Mar”. Absolutamente maravilhoso!


02 março 2021

26 de Março - ”O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway



Abri ao acaso e li:

“… As nuvens por cima de terra erguiam-se agora como serranias, e a costa era apenas uma longa linha verde com os montes azuis-cinzentos por detrás. A água era agora de um azul-escuro, tão escuro que era quase púrpura. Ao olhar para o interior das águas via o vermelho peneirar do plâncton nas águas sombrias e a estranha luz que o sol fazia. Observava as linhas, para vê-las sumir-se da vista pela água abaixo, e sentia-se feliz por ver tanto plâncton, o que significava peixe. A estranha luz do sol nas águas, com o sol já mais alto, queria dizer bom tempo, e o mesmo dizia a forma das nuvens sobre a terra. Mas o pássaro estava quase a perder-se ao longe, e nada aparecia à superfície das águas senão alguns sargaços amarelos e queimados do sol, e a purpurínea, pomposa, iridescente, gelatinosa vela de um argonauta flutuando junto do barco. Deitou-se de lado e depois endireitou-se. E flutuava consoladamente como uma bolha, com os seus longos e mortais filamentos cor de púrpura vogando um metro atrás na água…”

In ”O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway– Edição “Livros do Brasil” Lisboa, pág.40


As sessões presenciais continuam suspensas, mas os livros estão disponíveis por aí para serem lidos…

27 fevereiro 2021

A realidade das "Vinhas da Ira"

Foto daqui

Foto by_Dorothea_Lange

Foto by_Dorothea_Lange

Foto RTP "Vinhas da Ira"

John Steinbeck quis viver na primeira pessoa, a realidade que depois inseriu no seu romance. Seguiu viagem com famílias de migrantes e acampou com alguns deles nos acampamentos do percurso. Daí o realismo impresso à narrativa.

“As Vinhas da Ira” relata-nos de forma crua e dramática, o drama da Família Joad, que após perder a sua casa e a as terras de cultura de algodão, no Oklahoma, parte para a Califórnia, numa viagem de esperança em busca de uma vida melhor. É a história da família Joad como poderia ser a de milhares de outras famílias de agricultores, que nos anos 30 seguiram na procura do mesmo sonho.

A narrativa decorre na sequência da Grande Depressão, quando grande parte do povo americano sofria as suas terríveis consequências. Os graves problemas sociais daí decorrentes e a crise económica, levaram ao desemprego de milhões e à fome.

Assim, uma onda de migração seguiu em longas caravanas em direção à Califórnia, numa jornada penosa, mas ao mesmo tempo solidária. Milhares de famílias reuniram os seus parcos pertences e amontoadas em carros, camionetas e tudo o que tivesse 4 rodas, seguiam um trajeto idêntico parando em acampamentos miseráveis para descanso, onde quem nada tinha, tudo repartia.

Chegados à Califórnia o sonho tornava-se num pesadelo. A exploração da mão de obra barata, era a realidade encontrada.

Em cima, as fotos são testemunhos reais das grandes migrações da população.

12 fevereiro 2021

"THE GHOST OF TOM JOAD" (Bruce Springsteen e Tom Morello)


Agora que estamos a ler As Vinhas da Ira...

THE GHOST OF TOM JOAD

Men walkin' 'long the railroad tracks
Goin' someplace there's no goin' back
Highway patrol choppers comin' up over the ridge

Hot soup on a campfire under the bridge
Shelter line stretchin' 'round the corner
Welcome to the new world order
Families sleepin' in their cars in the Southwest
No home no job no peace no rest

The highway is alive tonight
But nobody's kiddin' nobody about where it goes
I'm sittin' down here in the campfire light
Searchin' for the ghost of Tom Joad

He pulls a prayer book out of his sleeping bag
Preacher lights up a butt and takes a drag
Waitin' for when the last shall be first and the first shall be last
In a cardboard box 'neath the underpass
Got a one-way ticket to the promised land
You got a hole in your belly and gun in your hand
Sleeping on a pillow of solid rock
Bathin' in the city aqueduct

The highway is alive tonight
Where it's headed everybody knows
I'm sittin' down here in the campfire light
Waitin' on the ghost of Tom Joad

Now Tom said Mom, wherever there's a cop beatin' a guy
Wherever a hungry newborn baby cries
Where there's a fight 'gainst the blood and hatred in the air
Look for me Mom I'll be there
Wherever there's somebody fightin' for a place to stand
Or decent job or a helpin' hand
Wherever somebody's strugglin' to be free
Look in their eyes Mom you'll see me

Well the highway is alive tonight
But nobody's kiddin' nobody about where it goes
I'm sittin' down here in the campfire light
With the ghost of old Tom Joad


04 fevereiro 2021

O cágado (que nasceu com o rabo virado para a lua)

 

(Imagem da net)

 “…Depois surgiu um caminhão ligeiro, e, ao aproximar-se, o motorista, vendo o cágado, desviou-se no intuito de o atropelar. A roda da frente apanhou a orla da concha, atirou com o animal ao ar com a rapidez de um relâmpago e fê-lo rodopiar, como se fosse uma moeda, para fora da estrada. O camião manobrou a fim de retomar a direita. Deitado de costa, o cágado manteve-se muito tempo dentro da concha. Mas, por fim, as pernas oscilaram no ar, à procura de uma coisa onde pudessem firmar-se. O pé dianteiro agarrou-se a um pedaço de quartzo e, pouco a pouco, o cágado conseguiu voltar-se…”

In “As Vinhas da Ira” de John Steinbeck, capítulo III


Acabo de ler o Capítulo III do romance, onde nos deparamos com um episódio quase alucinante que nos descreve o esforço épico de um cágado para subir a uma estrada, atravessá-la e chegar vivo ao outro lado. Quando cheguei ao fim do capítulo, dei um suspiro tremendo e percebi que tinha estado a suster a respiração enquanto lia sofregamente o epílogo daquela louca aventura. Tenho para mim que este cágado não vai ficar por aqui…