Mostrar mensagens com a etiqueta Gabriel García Márquez. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Gabriel García Márquez. Mostrar todas as mensagens

18 dezembro 2019

AMORES À PRIMEIRA VISTA

«À laia de desculpa, perguntei-lhe se acreditava nos amores à primeira vista.
- Claro que sim - disse-me ela. - Os outros é que são impossíveis.»
--- Doze Contos Peregrinos, conto "O Avião da Bela Adormecida" (1982).

03 dezembro 2019

“Doze Contos Peregrinos” de Gabriel García Márquez - 27 de Dezembro às 21h00



“O homem da agência funerária chegou tão pontualmente que Maria dos Prazeres estava ainda em roupão de banho e com a cabeça cheia de rolos, e mal teve tempo para pôr uma rosa vermelha na orelha a fim de não aparecer tão indesejável como se sentia. Lamentou-se ainda mais do seu estado quando abriu a porta e viu que não se tratava apenas de um lúgubre, como ela supunha que deviam ser os comerciantes da morte, mas um jovem tímido com um casaco aos quadrados e uma gravata com pássaros coloridos. Não trazia sobretudo, apesar da Primavera incerta de Barcelona, que as chuvas batidas por ventos oblíquos tornavam quase sempre menos suportável ainda do que o Inverno. Maria dos Prazeres, que recebera tantos homens a qualquer hora, sentou-se envergonhada como pouquíssimas vezes lhe sucedera. Acabava de completar setenta e seis anos e convencera-se de que ia morrer antes do Natal, mas, apesar disso, esteve quase a fechar a porta e a pedir ao vendedor de funerais que esperasse um instante enquanto se vestia para o receber depois, de acordo com os seus méritos. Mas pensou que o rapaz ia gelar no patamar às escuras e deixou-o entrar…”

A abrir o conto “Maria dos Prazeres”, incluído no livro “Doze Contos Peregrinos” de Gabriel García Márquez

05 dezembro 2014

"O Amor nos Tempos de Cólera", Gabriel García Márquez, 29 Dezembro - 21h00

Capa do livro "O Amor nos Tempos de Cólera", das Publicações Dom Quixote

"Era contra toda a razão científica que duas pessoas que mal acabavam de se conhecer, sem qualquer parentesco entre si, com personalidades diferentes, com culturas diferentes e até com sexos diferentes, se vissem comprometidas de um momento para o outro a viverem juntas, a dormirem na mesma cama, a partilharem dois destinos que talvez estivessem determinados em sentidos diferentes. Dizia" O problema do casamento é que acaba todas as noites depois de fazer amor e tem de se voltar a reconstruí-lo todas as manhãs antes do pequeno almoço..."

"O Amor nos Tempos de Cólera", de Gabriel García Márquez, Publicações Dom Quixote, pág 225

06 março 2014

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ, 6 de Março de 1927, 87 ANOS


O GRITO DE DIGNA PARDO ANTE A QUEDA MORTAL DE SEU AMO JUVENAL URBINO* 

Foi às quatro horas e sete minutos da tarde de Domingo 
de Pentecostes, desciam sobre as casas as línguas flamejantes
do divino Paracleto. O calor anunciava chuva, o mar rumorejava
dentro de todos os búzios. Insolente, o papagaio fugira
para os ramos altos da mangueira, e uma escada romba 
preparava-se para escrever uma página da história da infelicidade.
Nem sequer teve tempo de encomendar a alma: o corpo
desprendeu-se da escada como um fruto podre
caído ao solo em súbita demolição de músculos e ossos,
e nenhum anjo-da-guarda  saiu dos catecismos para  lhe aparar
a queda. O grito da criada Digna Pardo trespassou de pânico
as cúpulas de ouro da cidade velha, os pássaros calaram-se,
enquanto Deus, indiferente ao destino dos homens,
sorria de tédio e ócio à sombra roxa da sua eternidade.

* Digna Pardo e Juvenal Urbino são personagens de Gabriel García Márquez em O Amor nos Tempos da Cólera.