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02 dezembro 2023

MEDITAÇÃO DO DUQUE DE GANDIA..., Sophia - Dito por RITA LOUREIRO


MEDITAÇÃO DO DUQUE DE GANDIA SOBRE A MORTE DE ISABEL DE PORTUGAL

 

Nunca mais

A tua face será pura limpa e viva

Nem o teu andar como onda fugitiva

Se poderá nos passos do tempo tecer.

E nunca mais darei ao tempo a minha vida.

 

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

A luz da tarde mostra-me os destroços

Do teu ser. Em breve a podridão

Beberá os teus olhos e os teus ossos

Tomando a tua mão na sua mão.

 

Nunca mais amarei quem não possa viver

Sempre,

Porque eu amei como se fossem eternos

A glória, a luz e o brilho do teu ser,

Amei-te em verdade e transparência

E nem sequer me resta a tua ausência,

És um rosto de nojo e negação

E eu fecho os olhos para não te ver.

 

Nunca mais servirei senhor que possa morrer.

Nunca mais te darei o tempo puro

Que em dias demorados eu teci

Pois o tempo já não regressa a ti

E assim eu não regresso e não procuro

O deus que sem esperança te pedi.

 

SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDRESEN, Mar Novo (1958)


“Dual” de Sophia de Mello Breyner Adresen - 29 Dezembro às 20h00

 


"Altas marés no tumulto me ressoam

E paredes de silêncio me reflectem."


A terminar um ano rico de leituras, a bela poesia da Sophia.


31 janeiro 2022

"O JANTAR DO BISPO", conto de Sophia

 Tentação de Cristo (1854), de Ary Scheffer

Este foi um dos contos de que mais gostei. Conto de Deus e do Diabo, e de algo mais.

O Diabo não se reconhece pela luz, mas pela sombra. Nem todos são capazes de o ver, daí o seu sucesso como tentador. Só os inocentes conseguem trespassar essa barreira de ocultação. O pequeno João, filho do poderoso Dono da Casa, «reparara que a sombra daquele homem [o Homem Importante] era enorme e enchia os tectos, gesticulando como um grande polvo».

A missão do Padre de Varzim assemelhava-se à dos padres operários, movimento contrariado por Pio XII, mas reabilitado posteriormente por João XXIII e Paulo VI. Os padres descendo aos infernos do trabalho assalariado, vivendo lado a lado com os operários das fábricas, defendendo-os. O Padre de Varzim vivia na pobreza  ao lado dos cavadores das vinhas. Dai o jantar e o convite ao Bispo: o Dono da Casa queria pedir ao Bispo que afastasse da freguesia o Padre de Varzim.

E havia o telhado de uma igreja para cuja reparação precisava o Bispo de uma esmola. Uma esmola de uma pessoa caridosa como o Dono da Casa. O assunto resolveu-se. Por assombradas artes do Homem Importante, o Bispo afasta um pároco incómodo e ganha as obras da igreja.

Depois há o encontro com o enigmático mendigo, o remorso, o mistério em torno do Homem Importante, a recusa da dupla esmola do Diabo.

Sobre este conto, diz D. António Ferreira Gomes, Bispo do Porto, no pórtico da obra: «que o Bispo volte a ser, mais que o construtor de igrejas, o construtor da Esperança.»