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10 dezembro 2021

CONTINUANDO COM "O MAR, O MAR"

 FRANS HALS, "Cavalheiro a sorrir" (1624), Wallace Collection, Londres

Continuo a leitura do calhamaço, uma espécie de sexo cósmico, tal como me foi ensinado por Gilbert Opian. Já passei a peripécia* do encontro com Mary Hartley, já estive com Charles nas brumas de Londres naquele fino repasto com o amigo Peregrine Arbelow ( a quem ele roubara Rosina e que depois ficou com Pamela também já roubada por outro). Os casamentos desta autobiografia-romance-diário-memórias são extraordinários, o primo James lá tem as suas ideias sobre o casamento, Charles também, o que ele queria era casar com a que foi o seu primeiro amor, mas essa encontrou-a já casada com um caixeiro-viajante de poucas falas e ruim disposição, mas mesmo assim arrisca... Se Lizzie é Ariel de "Tempestade", Rosina é uma das bruxas de "Macbeth". Teatro, tudo teatro fora dos palcos! No museu da Wallace Collection, Charles viu o "Cavalheiro a sorrir", de Frans Hals. Quem é o cavalheiro sorridente? O marido de Mary Hartley não me parece, o homem não é de sorrisos para desconhecidos. Volto com Charles a Shruff End, grandes provações por que irá passar, e umas atrás das outras. Comecei por o detestar, agora estou com pena dele. Veremos o que acontece, ainda tenho 300 páginas para ler.
* Peripécia, termo do teatro grego, significa um acontecimento inesperado, uma mudança súbita no estado das personagens em acção. 

03 dezembro 2021

“O Mar, o Mar” de Iris Murdoch - 17 de Dezembro – 20h00

 


A abrir:

“O mar que se estende à minha frente enquanto escrevo resplandece, mais do que cintila, sob um morno sol de Maio. Com a mudança da maré, reclina-se calmo contra a costa, quase liso, sem espuma nem ondulação. Nas proximidades da linha do horizonte é de um púrpura voluptuoso, atravessado por linhas regulares de verde esmeralda. No horizonte é cor de anil. Junto à praia, onde a minha vista é enquadrada por cabeços de rocha amarelada, vê-se uma faixa de um verde mais claro, frio e puro, menos luminoso, mas opaco, não transparente. Estamos no Norte e o brilho do sol não consegue penetrar nas águas. No local onde golpeia suavemente as rochas, a água, mostra ainda uma fina película de cor, como uma pele. O céu, completamente limpo, é muito pálido no horizonte cor de anil, com ligeiras pinceladas de prata. O azul intensifica-se vibrante, na direcção do zénite. Mas é um céu de aspecto frio, até o sol parece frio…”

In “O Mar, o Mar” de Iris Murdoch