29 dezembro 2021

Em jeito de Balanço e Feliz Ano Novo!

Imagem daqui

Infelizmente, este ano de 2021 não começou bem para o mundo, com a pandemia provocada pelo Corona vírus, praticamente descontrolada. As novas mutações do vírus, vieram agravar um cenário já de si caótico e Portugal sofre uma situação de fragilidade nunca vista. Novos estados de emergência e confinamento levam ao encerramento de quase tudo, incluindo as bibliotecas. E lá voltámos nós à estaca zero, sem as tão desejadas sessões presenciais. E Janeiro… que teve um livro tão bom!

Iniciámos o 1º Trimestre, sob o lema «Escuto a América a cantar, as várias canções que escuto» de Walt Withman e debruçámo-nos sobre a escrita da Harper Lee, com o livro “Mataram a Cotovia”. Em Maycomb, acompanhámos as aventuras das três crianças Scout, Jem e Dill e sob o seu olhar inocente e verdadeiro demos conta das terríveis fragilidades de uma América dividida em termos raciais e não só. O debate sobre o romance, foi acontecendo animadamente através do blogue e do fb.

Em Fevereiro, continuámos confinados às nossas casas, o que não nos impediu de mergulhar nas trevas da ressaca da Grande Depressão americana, com “As Vinhas da Ira” de John Steinbeck. Uma leitura intensa, dura e crua. Acompanhámos o drama da Família Joad, que após perder a sua casa e a as terras de cultura de algodão, no Oklahoma, partem para a Califórnia, numa viagem de esperança em busca de um a vida melhor. É a história da família Joad como poderia ser a de milhares de outras famílias de agricultores, que nos anos 30 seguiram na procura do mesmo sonho. Na rota do romance, cruzámos caminho com as palavras e a música de Bruce Springsteen, através da bela canção “The Ghost of Tom Joad” e com as fotografias de Dorothea Lange, fotógrafa americana que registou as grandes migrações de agricultores. Mais uma vez, a troca de ideias foi acontecendo no blogue e no fb. 

Link para a música do Bruce

Link para as fotos da Dorothea

A terminar o primeiro trimestre dedicado às leituras da América, vivemos a grande aventura do pescador Santiago (grande admirador do basebol americano e do célebre Joe DiMaggio) que, depois de oitenta e quatro dias sem sorte na faina, conseguiu filar um espadarte que lhe deu luta durante três dias. Infelizmente depois de ganha essa batalha e no regresso a terra, a luta prosseguiu com os tubarões que lhe atacaram a presa deixando-lhe apenas o esqueleto do espadarte preso ao barco. A propósito desta leitura de O Velho e o Mar” de Ernest Hemingway, descobrimos uma maravilhosa curta metragem de animação baseada no romance e realizada em 1999, pelo realizador russo Aleksandr Petrov. Disponível Link aqui!

O 2º Trimestre, sob o mote «Última flor do Lácio, inculta e bela» (de Olavo Bilac), trouxe Abril e o regresso às sessões presenciais, com catorze entusiastas da leitura. O Cemitério de Pianos, deu o mote. A história do José Luís Peixoto não deixou ninguém indiferente ou porque gostaram ou então não gostaram nada ou porque apenas leram ao sabor da corrente ou porque simplesmente não leram. Uma coisa é certa, proporcionou mais umas belas horas de convívio e discussão literária. No final da sessão, a Bia presenteou-nos com um poema dos “Cadernos de Verão”, do Manuel Nunes.

Maio chegou e com ele um romance duro e belo. Levantado do Chão, de José Saramago, levou-nos ao Alentejo do tempo da ditadura até ao limiar da liberdade. Três gerações de Mau-Tempo, colocam-nos perante a opressão económica e social dos latifundiários, das forças políticas, policiais e até da igreja, sobre os trabalhadores e da luta destes contra todo o sistema. Uma sessão que contou com a presença de 19 leitores e uma discussão animada em torno desta leitura. Alguns leitores participaram posteriormente num roteiro literário, cujo percurso passou por lugares emblemáticos, referidos no romance.

Olhai os Lírios do Campo, de Erico Veríssimo foi o livro de Junho, que desta vez não provocou especial entusiasmo. Houve quem gostasse, claro, e, defendesse bem a sua dama.  Mas alguns leitores consideraram o romance datado e até um pouco enfadonho na sua segunda parte. Houve quem o tivesse lido pela segunda vez (a primeira, na juventude) tendo agora uma opinião menos favorável. No entanto foi lido na íntegra, por vinte dos vinte e um leitores presentes! 

«Bem próvida a natura quando alteou / Entre nós e os tudescos /

Dos fortes Alpes o limite duro», Francesco Petrarca deu o mote e iniciámos o trimestre italiano com esse romance épico e intemporal de Tomásio di Lampedusa “O Leopardo”. A relação do homem com o tempo, a batalha contra a inevitável transformação das coisas e o caminho quase natural para a sua decadência, são o fio condutor desta saga familiar, muito centrada em Don Fabrízio, Príncipe de Salina  e no seu sobrinho Tancredi Falconeri, em tempos de revolução. “…Se queremos que tudo continue como está, é preciso mudar tudo…” é a frase marcante proferida quase no início do romance por Tancredi e que se revela absolutamente verdadeira ao longo do mesmo. Foi uma leitura excelente, muito apreciada por todos os presentes. 

Agosto foi mês de férias para a maior parte de nós, mas isso não impediu a leitura de “O Nome da Rosa” de Umberto Eco. Muito mais do que um conto policial na idade média, o romance levou-nos ao encontro de maravilhas arquitetónicas (a fabulosa descrição do pórtico da igreja!), da detalhada descrição da vida monástica, de discussões, muitas delas a roçar o herético, e, sobretudo, aos livros. Livros que estão escondidos numa extraordinária biblioteca, de acesso labiríntico. Estão escondidos, não por serem frágeis ou valiosos, mas por serem perigosos nas ideias que transmitem. Tudo é válido para manter a ordem estabelecida. Foi uma leitura cativante, geradora de muito entusiasmo na sua discussão. 

Em Setembro, chegou mais um para semear uma saudável divergência. “Se numa Noite de Inverno um Viajante” de Italo Calvino foi, por assim dizer, um romance de muitas leituras, começando pelo ardil de colocar o leitor como protagonista do mesmo. Muitas histórias dentro da história em si, deram aos leitores uma verdadeira aventura de leitura com diversas possibilidades de interpretação. Parafraseando o nosso Coordenador “…Livro que não é fácil e, no entanto, é um livro que, entre outras coisas, reflecte sobre os leitores e a leitura. Somos leitores, lemos, é um livro para nós..”

Chegados ao último trimestre do ano, a que Milan Kundera deu o mote: “A única coisa que nos resta diante dessa inelutável derrota a que chamamos vida, é tentar compreendê-la. Eis aí a razão de ser da arte do romance”.

Outubro trouxe o romance de Haruki Murakami “A Sul da Fronteira, a Oeste do Sol”. Embora fosse um livro de leitura fácil e fluida a opinião generalizada foi de pouco entusiasmo e alguma deceção (mesmo para os apreciadores do autor). Se a vida de Hajime muito marcada pelos relacionamentos com as mulheres mais importantes da sua vida, Shimamoto, Yukiko e Izumi, fez transparecer para os leitores alguma falta de consistência, também as pontas soltas que iam ficando no desenrolar do romance pouco ajudaram a tornar o mesmo apetecível. Ficou mesmo no ar, a hipótese de uma má tradução. Enfim, leu-se, mas não deixou saudades… 

Novembro chegou com a perturbadora fábula política de George Orwell “A Quinta dos Animais”. Homens e animais com um papel invertido e mais uma vez a confirmação de que, na grande maioria dos casos, o poder corrompe. O subtil desvio dos princípios inicialmente estabelecidos, leva a um sistema de subserviência total a um totalitarismo corrupto. Um livro que continua a gerar grande interesse nos leitores, tendo proporcionado uma sessão animada com intervenções calorosas.

E rapidamente chegámos ao fim do ano. Em Dezembro lemos “O Mar, o Mar” da Iris Murdoch. Charles Arrowby, personagem principal, é um homem do mundo do teatro, extremamente egocêntrico que, no auge da fama, decide isolar-se num lugarzinho da costa norte de Inglaterra. Um romance inesgotável, denso, construído por muitas camadas narrativas, com avanços e recuos, que tão depressa prenderem o leitor como a seguir o afastam. Longas descrições, imbuídas de mil e um detalhes, memórias e pensamentos para nos dar a conhecer os diferentes personagens. Realce para algum paralelo com o teatro de Shakespeare.   Quem leu gostou e reconheceu a beleza da escrita. Quem não leu, ouviu e acompanhou com interesse a discussão que o romance gerou.

E assim 2021 chega ao fim, sempre sob a nuvem negra de uma pandemia que parece não querer dar tréguas nem descanso. As nossas leituras continuam a ajudar-nos a manter alguma preciosa normalidade. 

Avancemos para o novo Ano com otimismo e esperança em dias melhores!

Feliz Ano Novo!

10 dezembro 2021

CONTINUANDO COM "O MAR, O MAR"

 FRANS HALS, "Cavalheiro a sorrir" (1624), Wallace Collection, Londres

Continuo a leitura do calhamaço, uma espécie de sexo cósmico, tal como me foi ensinado por Gilbert Opian. Já passei a peripécia* do encontro com Mary Hartley, já estive com Charles nas brumas de Londres naquele fino repasto com o amigo Peregrine Arbelow ( a quem ele roubara Rosina e que depois ficou com Pamela também já roubada por outro). Os casamentos desta autobiografia-romance-diário-memórias são extraordinários, o primo James lá tem as suas ideias sobre o casamento, Charles também, o que ele queria era casar com a que foi o seu primeiro amor, mas essa encontrou-a já casada com um caixeiro-viajante de poucas falas e ruim disposição, mas mesmo assim arrisca... Se Lizzie é Ariel de "Tempestade", Rosina é uma das bruxas de "Macbeth". Teatro, tudo teatro fora dos palcos! No museu da Wallace Collection, Charles viu o "Cavalheiro a sorrir", de Frans Hals. Quem é o cavalheiro sorridente? O marido de Mary Hartley não me parece, o homem não é de sorrisos para desconhecidos. Volto com Charles a Shruff End, grandes provações por que irá passar, e umas atrás das outras. Comecei por o detestar, agora estou com pena dele. Veremos o que acontece, ainda tenho 300 páginas para ler.
* Peripécia, termo do teatro grego, significa um acontecimento inesperado, uma mudança súbita no estado das personagens em acção. 

03 dezembro 2021

“O Mar, o Mar” de Iris Murdoch - 17 de Dezembro – 20h00

 


A abrir:

“O mar que se estende à minha frente enquanto escrevo resplandece, mais do que cintila, sob um morno sol de Maio. Com a mudança da maré, reclina-se calmo contra a costa, quase liso, sem espuma nem ondulação. Nas proximidades da linha do horizonte é de um púrpura voluptuoso, atravessado por linhas regulares de verde esmeralda. No horizonte é cor de anil. Junto à praia, onde a minha vista é enquadrada por cabeços de rocha amarelada, vê-se uma faixa de um verde mais claro, frio e puro, menos luminoso, mas opaco, não transparente. Estamos no Norte e o brilho do sol não consegue penetrar nas águas. No local onde golpeia suavemente as rochas, a água, mostra ainda uma fina película de cor, como uma pele. O céu, completamente limpo, é muito pálido no horizonte cor de anil, com ligeiras pinceladas de prata. O azul intensifica-se vibrante, na direcção do zénite. Mas é um céu de aspecto frio, até o sol parece frio…”

In “O Mar, o Mar” de Iris Murdoch