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01 agosto 2026

“Os Passos em Volta” de Herberto Helder - 28 de agosto às 20h00


Uma coletânea de 23 contos ou crónicas onde, em forma de prosa poética, a escrita se envolve com a poesia através de um estilo amplamente metafórico. Poderá ter um discurso autobiográfico no relato de alguma crise existencial. A ler para descobrir…


02 maio 2026

Averno de Louise Glück - 29 de maio às 20h00

 


 “haverá alguém que não deseje sentir de noite
o corpo amado, bússola, estrela polar
ouvir a respiração tranquila que diz
estou vivo, o que significa que também
estás vivo, pois consegues ouvir.me
estás aqui comigo - e quando um se volta
o outro também se volta?”

02 dezembro 2024

“O Eremita Viajante” de Matsuo Bashô – 27 Dezembro às 20h00


Chegamos ao último mês do ano, com o poeta Japonês Matsuo Bashô. Vamos à descoberta dos haikus, um estilo poético muito próprio, resultante em grande parte da contemplação da beleza e comportamentos da natureza…
 

15 junho 2024

Encontros na Feira do Livro

Quando vais à Feira do Livro e dás de caras com uma companheira de leituras numa conversa sobre o que é "ser Poeta em Portugal", ficas a assistir e registas o momento. Aconteceu ontem. A Marta Meireles estava lá e foi apanhada em flagrante delito, por outras duas das nossas leitoras 😊

17 março 2024

Poesia nos Prazeres

Ontem tivemos mais uma atividade fora de portas: manhã de poesia no Cemitério dos Prazeres, onde homenageámos alguns dos poetas, ali eternamente residentes: Mário Cesariny, Jorge de Sena, Cesário Verde, Al Berto, António Ramos Rosa e Alcipe, Marquesa de Alorna. Com um programa bem delineado e coordenado pelo Manuel Nunes e pela Paula Silva, a quem todos agradecemos, para além de ficarmos a saber um pouco mais da vida daqueles poetas, foram ditos vários dos seus poemas pelos nossos inspirados leitores. Uma bonita manhã de quase Primavera que terminou com mais um salutar almoço convívio.

Poema

Em todas as ruas te encontro
em todas as ruas te perco
conheço tão bem o teu corpo
sonhei tanto a tua figura
que é de olhos fechados que eu ando
a limitar a tua altura
e bebo a água e sorvo o ar
que te atravessou a cintura
tanto tão perto tão real
que o meu corpo se transfigura
e toca o seu próprio elemento
num corpo que já não é seu
num rio que desapareceu
onde um braço teu me procura

Mário Cesariny

13 novembro 2023

A poesia na nossa Comunidade

 



No próximo dia 17 de Novembro, na Universidade Lusófona, o nosso amigo e coordenador Manuel Nunes, apresenta mais um livro de poesia. Divulgo e deixo o convite. Parabéns e muito sucesso, Manuel!

01 janeiro 2021

Feliz Ano Novo!

 

(Foto minha, Serra de Sintra, 2019)

Recomeça

Se puderes
Sem angústia
E sem pressa.
E os passos que deres,
Nesse caminho duro
Do futuro
Dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
Não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
Vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
O logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
Onde, com lucidez, te reconheças…

Sísifo de Miguel Torga

24 setembro 2016

A poesia, na sessão de hoje...


"Imensidão", Gustave Courbet, 1869


No Hay Muerte ni Principios

No hay muerte ni principios.
Sólo hay un mar donde estuvimos y estaremos,
un mar de peces que son como nosotros,
que vuelan cuando nacen,
que se hunden cuando mueren;
peces voladores
que saltan a la luz
sin llegar a ser ángeles.
Sólo hay un mar
y los alegres saltos de la vida.
Esta curva en el aire,
tan lenta a veces,
sobre ese mar tan codicioso,
no es un arco iris
después de la tormenta,
no es un puente
por donde pueda pasar nadie.

Nuestra vida dibuja
su ascensión y descenso
sobre ese mar humano,
donde la humanidad
realmente vive.
No hay muerte ni principios.
Sólo hay un árbol grande
que sacude sus hojas
para nutrirse de ellas
cuando caigan al suelo.

De Manuel Altolaguirre

Hoje pela mão da Cristina Mora, chegou-nos este poema lindíssimo do Manuel Altolaguirre...

13 junho 2014

A propósito do Aniversário do Poeta

Fernando Pessoa, por Almada Negreiros, 1964
[I]
Toda a entrada de estrada copada ao luar
Vai ter a Sonhar.
Mas é preciso chegar só a entrar, e a fruir;
Nunca prosseguir.
Porque é só a entrada da estrada que leva
Ao sonho que enleva.
A própria estrada só leva acabada,
A não haver estrada.

II
Passo depressa
Por onde
A água luz começa...
Passei.
Ter passado me esconde
O que mal avistei.
Mas na alma me resta
Um vago
Sorrir tardio, aresta
De sonhar
Luz de não sei que barco, pequeno, lago
Sob que luar.

III
Um riso na noite,
Riso de rapariga...
E a alma que não tem onde se acoite
Viu até à liga
A vida, o sorriso, a esperança...
Um riso na noite, mais nada...
Um riso que, por si, é criança,
Perna descalçada...
Um riso sem ninguém
Na noite onde o luar
Anda a procurar alguem
Sem o querer achar.
Um riso, colóquio, entrevista,
O olhar com que o houve
Toca-me no ombro com dedos
Que passam revista
Ao desejo... Assim aprouve
À grande noite sem medos...
Só um riso universal
De uma só boca
Invisível, essencial —
Um riso que me toca
Na cara, e ao meu ouvido
Que segredo perdido?

Iv
Deixa-os falar...
Da árvore pende
O balouço ao luar
Que ninguém pretende...
Deixa-os dizer...
Da alma alagada
Do luar vem ver
A alma sem nada...
Deixa-os sorrir
Se desejo, assim,
Sem te ver, sentir
Que sorris p’ra mim.

V
No parque para além do muro
Que nesta noite é incerto e escuro
Erro, mas sem o conhecer,
Nem onde erro ver.
Que importa? Estou onde me sinto,
Quem sou comigo apenas minto,
No parque além
Do muro há alguém,
Abandonado? Há muito ali
Já ninguém vai?... O que eu vivi,
Vivi; o mais... É certo
Haver parque deserto
Estando a alma perto?

In Poesia 1918-1930 - "Luar"  de Fernando Pessoa

21 março 2014

A propósito da Primavera, da Poesia e de Oríon

"Alegoria da Primavera", Sandro Boticelli
A primeira namorada, tão alta
que o beijo não alcançava,
o pescoço não alcançava.
nem mesmo a voz a alcançava.
Eram quilómetros de silêncio.

Luzia na janela do sobradão.
"Orion", Carlos Drummond de Andrade

06 abril 2012

Atentai meus Amigos, atentai!

Da nossa Cláudia!

Ide lá ver o que esta menina anda a fazer e terão uma agradável surpresa. E o que é bom mas muito bom mesmo, é que ainda tem tanto para crescer...

Em exposição aqui!

Exaltação

Viver! Beber o vento e o sol! Erguer
Ao céu os corações a palpitar!
Deus fez os nossos braços pra prender,
E a boca fez-se sangue pra beijar!

A chama, sempre rubra, ao alto a arder!
Asas sempre perdidas a pairar!
Mais alto até estrelas desprender!
A glória! A fama! Orgulho de criar!

Da vida tenho o mel e tenho os travos
No lago dos meus olhos de violetas,
Nos meus beijos estáticos, pagãos!

Trago na boca o coração dos cravos!
Boêmios, vagabundos, e poetas,
Como eu sou vossa Irmã, ó meus Irmãos!

Florbela Espanca, in "Livro de Sóror Saudade"

25 março 2012

SIGAMOS A LAMPREIA, SIM





Direi pois, sigamos a lampreia, o cherne e o que mais adregar, desde que o façamos juntos!
Foi assim, conforme se documenta, a partilha do sacrificado animal (impossível de seguir pelo rio acima) e a leitura do heroicamente decifrado e belo poema de José Rafael, mais belo ainda pela satisfeita digestão do improvável peixe...

 
A 23 de Março de 2012, em Campo de Ourique, na sequência comemorativa do dia da poesia, com Fernando Pessoa, idem.

24 janeiro 2012

O TANGO

O Tango

Jorge Luis Borges

Onde estarão? Pergunta a elegia
Sobre os que já não são, como se houvesse
Uma região onde o Ontem pudesse
Ser o Hoje, o Ainda, o Todavia.

Onde estará (repito) esse selvagem
Que ergueu, em tortuosas azinhagas
De terra ou em perdidas plagas,
A seita do punhal e da coragem?

Onde estarão aqueles que passaram,
Deixando à epopeia um episódio,
Uma fábula ao tempo, e que sem ódio,
Lucro ou paixão de amor se esfaquearam?

Procuro-os na lenda, na apagada
Brasa que, como uma indecisa rosa,
Conserva dessa chusma valorosa
De Corrales e Balvanera um nada.

Que escuras azinhagas ou que ermo
Do outro mundo habitará a dura
Sombra daquele que era sombra escura,
Muranã, essa faca de Palermo?

E esse Iberra (tenham dele piedade
Os santos) que na ponte duma via,
Matou o irmão, Ñato, que devia
Mais mortes que ele, ficando em igualdade?

Uma mitologia de punhais
No esquecimento aos poucos se desgasta.
E dispersou-se uma canção de gesta
Em sórdidas notícias policiais.

Há outra brasa, outra candente rosa
Dos seus restos totais conservadores;
Aí estão os soberbos matadores
E o peso da adaga silenciosa.

Embora a adaga hostil ou essa adaga,
O tempo, os dispersassem pelos lodos,
Hoje, p’ra além do tempo e da aziaga
Morte, no tango vivem eles todos.

Na música prosseguem, na mensagem
Das cordas da viola trabalhosa,
Que tece na toada venturosa
A festa, a inocência da coragem.

Vejo a roda amarela circular
Com leões e cavalos, oiço o eco
Desses tangos de Arolas e de Greco
Que vi bailar no meio da vereda,

Num instante que emerge hoje isolado,
Sem antes nem depois, contra o olvido,
E que tem o sabor do que, perdido,
Perdido está mas foi recuperado.

Os acordes conservam velhas cousas:
Ou a parreira ou o pátio ancestral.
(E por trás das paredes receosas
O Sul tem uma viola, um punhal.)

O tango, essa rajada, diabrura,
Os trabalhosos anos desafia;
Feito de pó e tempo, o homem dura
Menos que a leviana melodia,

Que é tempo somente. O tango cria
Um passado irreal, real embora.
Recordação que não pôde ir-se embora
Morta na luta, algures na periferia.


Jorge Luis Borges in Poemas Escolhidos. Edição bilingue. Selecção e Trad. Ruy Belo.Dom Quixote, Lisboa, 2003, pp.43-47

02 novembro 2011

A Comunidade vai à Madeira...

... em busca de Cabral de Nascimento, o Poeta que, da palavra, fez a sua ferramenta. Biografia aqui.
Cabral do Nascimento por Abel Manta, descaradamente roubado ao Disperso Escrevedor

O Faroleiro

Apenas este ilhéu é que é pequeno
O resto é tudo grande: o tédio, a vida,
O dia enorme, a noite mais comprida,
E o mar, calmo ou feroz, rude ou sereno;

O tempo, esse narcótico veneno,
A dor, essa letárgica bebida,
O desejo, essa voz enrouquecida,
E a saudade, o distante e branco aceno.

Tudo profundo, imenso, na amplidão,
Eterno quási na desolação
E sobrenatural na solidão.

A luz vermelha a reflectir-se além…
Nenhum vapor que vai, nenhum que vem…
Farol e faroleiro - e mais ninguém

28 janeiro 2011

Fogo e ritmo (Jornada de África)

“Embondeiro” Neves e Sousa
Sons de grilhetas nas estradas
cantos de pássaros
sob a verdura húmida das florestas
frescura na sinfonia adocicada
dos coqueirais
fogo
fogo no capim
fogo sobre o quente das chapas do Cayatte.
Caminhos largos
cheios de gente cheios de gente
em êxodo de toda a parte
caminhos largos para os horizontes fechados
mas caminhos
caminhos abertos por cima
da impossibilidade dos braços. 
Fogueiras
             dança
                      tantan
                              ritmo
Ritmo na luz
ritmo na cor
ritmo no movimento
ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços
ritmo nas unhas descarnadas
Mas ritmo
ritmo.

Ó vozes dolorosas de África!

Agostinho Neto -  in Jornada de África de Manuel Alegre

01 janeiro 2011

Sorrir em dia de Ano Novo

A minha Alma, fugiu pela Torre Eiffel acima,
- A verdade é esta, não nos criemos mais ilusões
- Fugiu, mas foi apanhada pela antena da T.S.F.
Que a transmitiu pelo infinito em ondas hertzianas…
(Em todo o caso que belo fim para a minha Alma!...)
Mário de Sá Carneiro

26 dezembro 2010

As raparigas lá de casa

"Duas irmãs" - Fernando Botero
Como eu amei as raparigas lá de casa

discretas fabricantes da penumbra
guardavam o meu sono como se guardassem
o meu sonho
repetiam comigo as primeiras palavras
como se repetissem os meus versos
povoavam o silencio da casa
anulando o chão os pés as portas por onde
saíam
deixando sempre um rastro de hortelã
traziam a manhã
cada manhã
o cheiro do pão fresco da humidade da terra
do leite acabado de ordenhar

(se voltassem a passar todas juntas agora
veríeis como ficava no ar o odor doce e materno
das manadas quando passam)
aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava a inquieta maresia
dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos
no outono
penteavam-se
e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas
na primavera

não me lembro da cor dos olhos quando olhava
os olhos das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia
o sol
ou se agitava a superfície dos lagos
do jardim com lagos a que me levavam de mãos dadas
as raparigas lá de casa
que tinham namorados e com eles
traíam
a nossa indefinível cumplicidade

eu perdoava sempre e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o lado mau de sua inexplicável bondade
o vício da virtude da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor pelas raparigas lá de casa.
Emanuel Félix, poeta açoreano
(poema extraído do livro «Habitação das Chuvas»)
Obrigado ao Helder, por nos ter enviado esta pequena (grande) preciosidade!

08 fevereiro 2009

DOIS POEMAS COM BICICLETAS

I

As bicicletas de Setembro rolam
no asfalto quente (...)
........................................................
Vamos assim em roda livre
e os peixes mordem o isco
nas águas mais profundas. Bicicletas
voltam ao parque fechado. Vem
também habitar este palácio de ócio
onde o ópio transpira das paredes.
Risco maior não é a velocidade
mas o estilo bom da pedalada.

EDUARDO GUERRA CARNEIRO
"Profissão de Fé"
Epígrafe do romance de Baptista-Bastos, "As Bicicletas em Setembro"

II

O CICLISTA

O homem que pedala, que ped' alma
com o passado a tiracolo,
ao ar vivaz abre as narinas:
tem o por vir na pedaleira.

ALEXANDRE O' NEILL
"Poemas com Endereço"

21 setembro 2008

26 DE SETEMBRO, 21 HORAS - POESIA DE MIGUEL TORGA



LEZÍRIA

São duzentas mulheres, cantam não sei que mágoa
Que se debruça e já nem mostra o rosto.
Cantam, plantadas n`água,
Ao sol e à monda neste mês de Agosto.

Cantam o Norte e o Sul duma só vez.
Cantam baixo, e parece
Que na raiz humana dos seus pés
Qualquer coisa apodrece.

17 agosto 2008

Poemas de MANUEL DA FONSECA, 29-8-2008, 21 horas

Poema da menina tonta
.
A menina tonta passa metade do dia
a namorar quem passa pela rua,
que a outra metade fica
pra namorar-se ao espelho.
A menina tonta tem olhos de retrós preto,
cabelos de linha de bordar,
e a boca é um pedaço de qualquer tecido vermelho.
A menina tonta tem vestidos de seda
e sapatos de seda,
é toda fria, fria como a seda:
as olheiras postiças de crepe amarrotado,
as mãos viúvas entre flores emurchecidas,
caídas da janela,
desfolham pétalas de papel...
No passeio em frente estão os namorados
com os olhos cansados de esperar
com os braços cansados de acenar
com a boca cansada de pedir...
A menina tonta tem coração sem corda,
a boca sem desejos,
os olhos sem luz...
E os namorados cansados de namorar...
Eles não sabem que a menina tonta tem a cabeça cheia de farelos.

.
Manuel da Fonseca