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24 fevereiro 2025

EDUCAÇÃO SENTIMENTAL DOS LEGENTES (9)

                              

Confesso com humilde sinceridade ter aprendido imenso com as leituras feitas em comunidades de leitores. Acho que partilho com muitos este sentimento pessoal e transmissível: ler, por sugestão de outros, obras às quais não chegaria com facilidade.

Nem todos pensarão da mesma maneira e ainda bem. Há os que têm a sua própria orientação literária (diria mesmo a sua agenda), sejam ou não como o autodidacta de Sarte no romance A Náusea. Admiro esses espíritos fortes e independentes, admiro a sua superioridade de leitores.

Assim, venho para o computador-máquina-de-escrever martelar estas palavras – que não são interditas, como as do poema de Eugénio de Andrade – sob os efeitos do livro que se apresenta aí no ápice da publicação e que vou lendo esta semana por sugestão de bons confrades ledores. Não fossem eles e convenço-me de que só o leria na eternidade, local, se assim lhe posso chamar, onde se consegue ler tudo sem preocupações de tempo ou distância. É lá, certamente, que ainda conseguirei ler Ulisses, de James Joyce, e A Cidade de Deus, do Bispo de Hipona, livros começados mas nunca acabados.

Até esses instantes supremos (instantes em sentido figurado, claro) é procurar ser feliz tanto quando for possível. Tenho-me sentido feliz, lendo os contos de Flannery O’ Connor.  

11 fevereiro 2025

EDUCAÇÃO SENTIMENTAL DOS LEGENTES (2)

Levaram-me no mês passado ao espaço Brotéria, no Bairro Alto, para assistir a uma conferência em torno de um ensaio de Flannery O`Connor – esse cuja foto da primeira página está aí no topo.

A questão do ensino da literatura não é assunto desinteressante para os leitores do género romance, o mais presente nos programas dos grupos de leitura, chamem-se eles clubes ou comunidades.

Flannery O´Connor diz-nos que o foco da leitura de um texto de ficção  deve ser posto na obra, naquilo que nela está, fugindo-se às tentações não literárias de interpretação como a biografia ou a psicologia do autor.

Na escola aprende-se com o professor, nos grupos de leitura, se a mediação for eficaz, todos aprendem com todos.

Lembremo-nos do que Camões diz em Os Lusíadas: quem não sabe de arte não a estima. Ora a ficção narrativa é a arte que, diferentemente de outras artes, nos fala dos sentimentos, da vida e do que esperamos dela. Aquela arte em que nós mesmos estamos metidos e que é forçoso compreender para a estimar.

Façamos, pois, a nossa educação sentimental de leitores que só teremos a ganhar com isso.