04 fevereiro 2013

UMA HISTÓRIA A DOIS TECLADOS (I)

Autores: CRISTINA LEIMART (texto 2)
               JOÃO ALBERGARIA (texto 1)


1
 

“Pois meu amigo, nas relações amorosas há dois géneros de mulheres: as que não iniciam uma nova relação sem acabarem com a anterior, e as que precisam de começar com outra para porem fim àquela que têm. As primeiras são mulheres basicamente honestas, admiro-as de verdade, as segundas não têm carácter, são criaturinhas ínfimas e desprezíveis.”
Quem falava assim era um ajudante de despachante que costumava sentar-se na cervejaria, nas tardes lentas de Verão, à hora em que o pessoal começava a sair dos escritórios e a sede acumulada do dia tomava proporções titânicas. Era um tipo magro, de testa alta e nariz adunco, fazendo lembrar uma ave rapace. Trazia sempre consigo uma grossa pasta de couro, refúgio seguro dos processos que, a mando do seu patrão, diariamente levava à alfândega. Sentia-se ali um caso de amor mal resolvido, um desgosto, talvez uma traição, mas quem somos nós para avaliar essas situações que ensombram as almas dos infortunados amantes? 
Trincava um tremoço e continuava:
“A mentira mais insidiosa é a que opera por omissão: essa é a grande arte da mentira feminina. Digo-te, meu amigo, raras são as mulheres que simulam orgasmos ou se queixam de enxaquecas quando vão para a cama. Expediente mais comum é deixarem-se ficar a ver televisão até às duas da manhã e só recolherem ao leito conjugal quando estão certas de que o marido dorme o sono dos justos. Enganadoras filhas de Eva!”
O homem que o escutava, um poeta falhado, obtemperava de olhos piscos entre duas dentadas num rissol de camarão:
“A poesia, meu caro, é preciso ver isso à luz da poesia.”
 
2
 

“O amor goza de prazo de validade, não se pode congelá-lo por tempo indeterminado. Há quem admire a relação amorosa como um monumento imponente, quando não passa de construção frágil, uma capelinha vacilante.”
 “Achas? Em tempos tive uma paixão de caixão ao chão e…”
- Cortaaa! “Uma paixão de caixão ao chão”?? Onde é que isso está no script? Isto é alguma novela assente no improviso?
- O texto é monótono…
- Pá. És o argumentista? Não és o argumentista. Ontem também meteste a colher no texto e essa atitude já me começa a trabalhar no estômago. Cinge-te ao guião. Fazes favor.
Iam no décimo primeiro take. A cena, que à partida se oferecia simples, expunha-se a contingências variadas. Primeiro um adereço do cenário, o autocolante a imitar azulejo português sinalizando a “Cervejaria Virginal”, começara a descolar-se, lentamente, por trás da cabeça do ator que fazia de empregado, tirando protagonismo ao seu estudado gesto de poisar o pratinho de tremoços sem ressoar no vidro da mesa - Corta!
Cortaram depois ao ver-se a silhueta de um figurante entrar inadvertidamente no frame, ofendendo, segundo justificação do realizador, o delicado equilíbrio luz - sombra. Cortou-se quando o ator da pasta de couro se atrapalhou em pleno diálogo, falando de “ormas… osmargu… ormasgos… Eh pá desculpem, enrolou-se-me a língua”, corando como uma cereja do Fundão por entre a risota geral. Corta! também quando o ruído de uma avioneta abafou a fala grave do narrador e encrespou os nervos da equipa de filmagens, a quem haviam garantido total ausência de sobrevoos ao local entre as sete e trinta e as dezanove horas desse dia. De contratempo em contratempo, a picuinhice do realizador ainda gritou Corta! no instante em que um close-up revelou os pelos eriçados do braço esquerdo do outro ator, pois a cena, embora invocasse um típico dia de Verão, era gravada logo a seguir aos Reis.
Enfim passava das duas e trinta quando o realizador sentenciou:
- Há mais cenas para filmar, vamos lá. Última tentativa: As Horas sem Maria - Take 12 – Ação!
 

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