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01 maio 2020

MAIS MONTANHA MÁGICA

Fazer o bom uso das doenças. O estado de saúde confere uma sensação de imortalidade, uma obsessão por divertimentos e realizações que não propicia a reflexão e o aperfeiçoamento individual. A doença pode ser uma oportunidade de melhoramento, por mais contraditório que isto possa parecer. Em meados do século XVII, Blaise Pascal escreveu um texto sobre o tema em forma de oração a Deus.
No Hans Castorp d´ A Montanha Mágica está bem presente o pascaliano princípio do «bon usage des maladies». É sob a doença que o jovem engenheiro vive o amor e sente vontade de estudar biologia, ciências médicas e botânica. É neste estado aparentemente limitador que lhe vem a necessidade de iniciação ao pensamento filosófico, procurando formar as suas ideias a partir das discussões presenciadas entre o humanista Ludovico Settembrini e o escolástico Leo Naphta. A comunhão com a natureza, ou seja, com a vida, é outra inclinação que lhe é dada pela sua estadia no sanatório Berghof.
Acabei de ler o subcapítulo “Neve” do sexto capítulo do romance. Hans Castorp aprende a esquiar para melhor conhecer os espaços maravilhosos da montanha. Fá-lo às escondidas do médico-chefe, o conselheiro Behrens, que nunca lhe teria dado autorização para o exercício de desportos físicos. Ele está diagnosticado com um «foco húmido» no pulmão, uma doença grave de evolução imprevisível.
Este subcapítulo é dos mais belos que o romance tem. Verão as colegas leitoras quando lá chegarem.

27 abril 2020

A MONTANHA MÁGICA, novo apontamento

Inácio de Loyola (1491-1556) e Frederico II da Prússia (1712-1786)

Em pleno sexto capítulo de A Montanha Mágica, o leitor é surpreendido com o aparecimento de uma nova personagem: Leo Naphta, jesuíta de origem judia (tal e qual!), filósofo escolástico e grande defensor da essência do espírito contra a carne em trânsito para a putrefacção. Embora fora do sanatório, Leo Naphta encontrava-se em Davos Dorf a tratar-se da tuberculose, deixando em suspenso a sua acção em prol da edificação da Cidade de Deus.
Hans Castorp, o protagonista, ensaia então em pensamento uma comparação entre o militarismo prussiano (a que o seu primo Joachim se entregara, abandonando o sanatório para poder seguir a carreira das armas) e a pragmática dos inacianos. Passagem soberba de pensamento, daquelas que só se encontram nas grandes obras. «Não seria o seminário Stella Matutina [dos Jesuítas, onde Leo Naphta estudara] uma autêntica escola de cadetes em que os pupilos eram distribuídos por "divisões" e exortados a cumprirem honradamente uma disciplina ao mesmo tempo militar e espiritual, constituindo, por isso, uma espécie de combinação de "colarinho engomado" com a "golilha espanhola"? A ideia de honra e de distinção por mérito, tão importantes na profissão de Joachim, não se evidenciavam também de modo notório, como pensava Hans Castorp, na vocação que Naphta tivera que abandonar devido à doença?» E mais adiante: «A doutrina e os preceitos estabelecidos pelo fundador e primeiro general, o espanhol Loyola, levavam a crer que a sua acção era de maior alcance e que prestavam serviços mais meritórios do que aquelas pessoas que agiam apenas em função da razão lógica.» Considerando ainda: «É que combater o inimigo, agere contra, atacar, portanto, significava mais , e era mais honroso, do que defender-se apenas (resistere). Debilitar e desbaratar o inimigo, dizia o regulamento do serviço de campanha, e mais uma vez o seu autor, o espanhol Loyola, estava em perfeita sintonia com o capitan general de Joachim, Frederico da Prússia, e a sua palavra de ordem: " Ao ataque! Ao ataque!", "Destroçar o inimigo!", "Attaquez donc toujours!" Imagina-se o que destas reflexões poderia dizer o humanista e pacifista Ludovico Settembrini, personagem amiga do confronto intelectual, mesmo com os que, como no caso do jesuíta Naphta, lhe eram totalmente opostos em matéria de pensamento.

01 abril 2020

"A MONTANHA MÁGICA". CRUÉIS, FLEUMÁTICOS E ENÉRGICOS

Vou lendo este livro que tem tanto a ver com o momento presente, ainda que nele seja um bacilo e não um vírus a desempenhar o papel da lúgubre Átropos, cortando impiedosamente o fio da vida.
Ludovico Settembrini, homo humanus, visita Hans Castorp no seu leito de enfermo. O jovem está constipado, uma doença secundária porque a principal, um foco húmido no pulmão, é a que lhe foi detectada pelo médico-chefe do sanatório, o conselheiro Behrens.
Conversam sobre a natureza dos alemães: cruéis, fleumáticos e enérgicos. Conversam sobre a doença e a morte. Diz Settembrini: «Permita-me, senhor engenheiro, permita-me que lhe diga e sublinhe
que a única forma salutar e nobre, que é ao mesmo tempo – e acrescento com toda a ênfase – a única forma religiosa de encarar a morte é considerá-la como parte integrante e componente da vida, é senti-la como condição sagrada da mesma, e não de algum modo – o que estaria nos antípodas do saudável, nobre, razoável e religioso – separá-la, no plano intelectual, da vida, colocando as duas em confronto ou até em oposição. Os povos antigos adornavam os sarcófagos com imagens da vida e da fertilidade, por vezes até com símbolos obscenos. No quadro do ideário religioso da Antiguidade, o sagrado coincidia, não raras vezes com o obsceno. Aqueles homens sabiam venerar a morte. É precisamente por ser o berço da vida, o seio da renovação, que a morte é venerável. Dissociada da vida, a morte transforma-se em fantasma, em monstro ou em algo ainda pior. Vista como força espiritual autónoma, a morte é extremamente devassa, podendo o seu magnetismo malévolo conduzir à mais abominável alienação do espírito humano.»
Bem, depois desta citação acho que já interessei uns tantos leitores pela obra… e afastei outros, talvez mais, da sua leitura…

31 março 2020

"A MONTANHA MÁGICA", O SANATÓRIO BERGHOF E O CONFINAMENTO

A fotografia, de 1915, é do Sanatorium Valbella, de Davos, que terá servido de modelo a Thomas Mann para o Sanatório Berghof d’ A Montanha Mágica. Esta é a história dum jovem engenheiro alemão, Hans Castorp, que vem visitar o seu primo ali em tratamento. A estadia era para ser de três semanas, mas entretanto é o próprio Castorp que se vê acometido por um foco de tuberculose, sendo aconselhado pelo reputadíssimo Behrens, médico-chefe do sanatório, a ficar internado sem nenhuma previsão de quando poderia voltar à vida normal.
Há nos primeiros capítulos do romance um discurso recorrente sobre o tempo: o tempo físico e o psicológico, a aparência das suas diferentes velocidades.
Isto faz-me reflectir sobre o tempo vivido em confinamento. Estranhamente, parece-me que ele corre depressa, os dias esgotam-se num ápice. Ando por aqui a fazer o que me é permitido e quando dou por mim é já de noite. Esta é a sensação descrita no romance para Hans Castorp quando passa da situação de visitante a doente internado. Não me adentro nos argumentos filosóficos avançados pelo narrador para tal fenómeno, leiam que depois falamos. Tais argumentos podem surgir como paradoxais: então não é do senso comum que quanto mais distraídos andamos, mais o tempo parece correr depressa? E que em situações de monotonia (de confinamento) vem o tédio e toma conta de nós, fazendo de cada dia um tempo imensamente longo?
A minha experiência, como disse, não o indica, mas o melhor é que cada um fale por si.

30 março 2020

"A MONTANHA MÁGICA" E A REVOLUÇÃO DE 1830 EM PARIS

EUGÈNE DELACROIX, A Liberdade Guiando o Povo (1830). Comemoração da Revolução de Julho de 1830 ou Revolução dos Três Dias Gloriosos, referida em A Montanha Mágica, de Thomas Mann. Queda da dinastia absolutista de Bourbon e subida ao trono de Luis Filipe de Orleães, o rei burguês. 

Do Quarto Capítulo d´A Montanha Mágica, de Thomas Mann, li hoje o subcapítulo “Temor Crescente. Dos dois avós e do passeio de barco ao lusco-fusco.” É um extenso trecho do romance em que as asserções da personagem Ludovico Settembrini levam o protagonista Hans Castorp a reequacionar algumas das suas concepções do mundo e da vida numa atitude de estranhamento, de tentativa de compreensão e, finalmente, de alguma admiração e respeito por aquele seu antagonista.
Ludovico Settembrini está em tratamento no sanatório Berghof de Davos-Platz e Hans Castorp é  visita do mesmo sanatório onde pensava passar três semanas a acompanhar o seu primo Joachim ali igualmente em tratamento.
Castorp é um jovem engenheiro alemão fortemente marcado pelo avô cristão e conservador que, por morte dos pais, se encarregou de o educar. Settembrini é um erudito de nacionalidade italiana cujo espírito revolucionário da família remonta ao seu avô Giuseppe.
Sobre as ideias de Settembrini e a estranheza de Castorp perante elas, diz o narrador: «Uma só vez, contava o italiano, uma só vez na vida, no princípio da sua idade adulta, conhecera o avô a felicidade em toda a sua plenitude – por ocasião da revolução de Julho em Paris. E então proclamara, publicamente e a plenos pulmões, que um dia viria em que todos os homens iriam comparar aqueles três dias de Paris aos seis dias da criação do mundo. Ao ouvir tal coisa, Hans Castorp não se pôde conter e bateu com o punho na mesa, tão profunda era a sua estupefacção. Parecia-lhe de um exagero inaudito pretender comparar os três dias do Verão de 1830, durante os quais o povo de Paris promulgara uma nova Constituição, aos seis dias que Deus Nosso Senhor levara a separar os continentes dos oceanos e a criar as estrelas do firmamento, as flores e as árvores, os pássaros e os peixes, enfim, toda a vida à face da Terra.»
Isto e muito mais foi ouvido pelo jovem Hans Castorp da boca de Ludovico Settembrini e acabou por produzir nele um efeito que superou a estranheza inicial, vendo no discurso do italiano algo «que valia a pena ouvir e saber, se bem que mais a título experimental e sem compromisso.»
Se será assim ou não, só o poderemos saber em fase mais adiantada do romance.