19 dezembro 2011

CONTINUAÇÃO DE UM CONTO DE NATAL ( 6 )

Charles Dickens estava então decidido a rescrever a história de Ebenezer Scrooge. Sabia que o protagonista não havia gostado do Espírito do Natal Passado, e ainda menos do Espírito do Natal Presente com o seu despesismo e ostentação, e do Espírito do Natal Futuro nem era bom falar. Sobretudo, estes espíritos tinham-no assustado e induzido a praticar acções que não obedeciam à sua racionalidade de homem de negócios.
O escritor lembrou-se de substituir estes três espíritos por um único de valor acrescentado a que chamou Espírito do Natal Poético, e deitou mãos à obra. A decisão era arriscada, pois não se sabia ao certo como reagiria Ebenezer Scrooge. Porém, se quisermos falar segundo uma espécie de linguagem hoje muito usada por políticos e jornalistas nas suas intervenções mediáticas, diríamos que o escritor tinha muito bem definido o seu caderno-de-encargos, não empurrou-os-problemas-com-a-barriga, e fez de forma exemplar o seu trabalho-de-casa.
Um Espírito do Natal Poético como este, capaz de transfigurar o habitual conformismo da quadra, exigia de Charles Dickens a criação de uma personagem de recorte humano que representasse os novos valores que vinham do alto. Foi assim que surgiu na sua imaginação de artista o poeta Laurence, detentor de uma compilação de poemas natalícios que ia das canções dos remotos bardos celtas até à moderna poesia da estética pré-rafaelita.
E então, coisa extraordinária, vamo-nos deparar com a festa da noite de Natal em casa de Bob Cratchit, toda ela preenchida com leituras de poemas alusivos à quadra festiva. O poeta Laurence, convidado pela senhora Cratchit, sorria com indisfarçável satisfação para as filhas do casal, as meninas Belinda e Martha, e até o pequeno Tim, com a sua vozinha de criança débil, se dispôs a recitar um poema:

Christmas is coming,
The geese are getting fat
Please put a penny
In the old man's hat
If you haven't got a penny
A ha'penny will do;
If you haven't got a ha'penny
Then God bless you!

Coisa maravilhosa, ver assim irmanadas pelo poder da poesia de Natal pessoas de tão diversas índoles e disposições anímicas!
A nova fórmula do conto agradou a Ebenezer Scrooge, pelo que deixou de apoquentar o autor com as suas diatribes de personagem ressabiada. Diz-se, embora não haja certezas disso, que o Espírito do Natal Poético atravessava, como todos os espíritos poéticos, grandes dificuldades financeiras. Ebenezer Scrooge ter-lhe-á emprestado dinheiro a altos juros, pois o prestamista não perdia a oportunidade de fazer um bom negócio, até com os espíritos.
E pronto, é o fim da continuação-de-um-conto-de-Natal. Ainda bem que tudo acabou em bem e que o escrevente pode agora encerrar a loja e ir à sua vida sem mais delongas. UM BOM NATAL PARA AS QUERIDAS LEITORAS.

THE END

Alverca upon Tagus, December, 2011

18 dezembro 2011

CONTINUAÇÃO DE UM CONTO DE NATAL ( 5 )

Tranquilizem-se as benévolas leitoras que esta continuação-de-um-conto-de-Natal não está longe de chegar ao fim. Não é que não houvesse matéria para prolongar a história por mais alguns meses – sei lá, até por alturas de Quinta-feira de Endoenças ou do feriado do Corpus Christi, que aliás já não será feriado, por intervenção oportuna e saneadora das potências estrangeiras que agora governam o país. Acontece porém que o escrevente tem de ir tratar da sua vidinha, ausentando-se por tempo incerto para parte se calhar igualmente incerta, o que o impede de ficar aqui agarrado à escrita, debitando diariamente os episódios como se fosse esse o seu ofício e não tivesse mais nada para fazer. Tenha-se em conta que o ecrã do computador não é o mundo e que, como diz o outro, há mais vida para além do défice, ou, aliás, desculpe-se o lapsus linguae, mais vida para além das teclas.
Sendo assim, não entremos em detalhes sobre a conversa, ou desconversa, entre Charles Dickens e Ebenezer Scrooge, e atentemos na seguinte letter inédita encontrada no espólio do grande escritor inglês:

December, 27 th, 1843

My Dear Friend,
I write some lines to tell you a project I have in view. Projecto de concretização urgente, diga-se, que terei de concluir até ao final do ano, dado o risco que corro de assistir à implosão trágica e irreversível de alguns dos meus apreciados contos de Natal.
Acontece, My Dear Friend, que uma bizarra personagem por mim criada, Mr. Scrooge – deves estar a ver quem é, um agiota da city que enriqueceu à custa da ruína alheia –, se revoltou contra a minha pessoa por não concordar com o curso da história que inventei para ele. Esta atitude foi desencadeada pela intervenção do espectro do castelo de Elsenor, uma referência em má hora introduzida no meu conto, que tendo adquirido foros de personagem veio desassossegar o citado Mr. Scrooge.
É claro que tive de lhe dar um raspanete – esta expressão tão informal não é minha, por ela peço desculpas, mas de uma simpática leitora que a adoptou e eu, por graça, agora a uso. Só que a dita personagem esperneou que nem um frango de capoeira na degola, que não havia direito, que não estava para aturar os espíritos que o assediavam, e que tratasse eu de dar uma nova orientação à história porque se não o fizesse ou se queixava ao sindicato ou se passava para outra história com armas e bagagens, que isto de concertação social entre autor e personagens era uma prática adquirida, não fizesse eu como um certo governo de um país aliado, quase dois séculos mais tarde, que se dispôs a aumentar o horário de trabalho em meia hora diária e nem se dignou ouvir os parceiros sociais sobre o assunto.
Estás a ver a questão: eu que sempre fui pelas ideias socialistas de Saint-Simon e de Proudhon, que até cheguei a ler um tal Marx que na altura ninguém sabia quem era, que exultei com a prosa de um certo João Baptista de Almeida Garrett, que andou aqui pela ilha, fugido aos reaccionários do seu país – pobre país, aliás, que nem se regenerou com o sangue que lhe injectámos da nossa estirpe dos Lencasters – e que escreverá esta coisa fabulosa - E eu pergunto aos economistas políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria, ao trabalho desproporcionado, à desmoralização, à infâmia, à ignorância crapulosa, à desgraça invencível, à penúria absoluta, para produzir um rico? -, pois eu, que sou um homem de ideias avançadas, que sempre estive do lado dos humilhados e ofendidos como um Dostoieveski de língua inglesa, sou obrigado a dar abrigo às reivindicações dum agiota e a pactuar com a usura para que a minha literatura sobreviva e os meus leitores me possam ler.
O projecto que resolvi empreender foi, agora o digo, o de rescrever a história de Mr. Scrooge. Verás como, My Dear Friend.

Best regards.
Ever faithfully
Charles Dickens

16 dezembro 2011

CONTINUAÇÃO DE UM CONTO DE NATAL ( 4 )

A cultura literária de Ebenezer Scrooge era praticamente nula, como decerto já compreendeu a leitora atenta e acostumada a leituras sábias, e até o leitor, espécime naturalmente básico que se dedica aos livros por fraquezas da idade ou carências várias de que nem é bom aqui falar. Assim, se desconhecia a personagem de Hamlet e a do seu imortal criador, como poderia o prestamista saber a que episódio histórico se referia o Sr. Fish com aquela inescrutável apóstrofe latina. Falassem-lhe de juros e rendas, de letras de câmbio e de saques à vista, de papéis do tesouro e obrigações, e outro galo cantaria!
Porém, não se pense que o tu-quoque-Brute-fili-mi! que o antigo escolar do college de Oxford lhe atirara de chofre, assim como quem manda uma pedra bicuda à cabeça duma criança pequena, era de todo despropositado. Vejamos: anda uma personagem a passear de história em história, desfigurando as narrativas, subvertendo o labor do autor empírico que as gerara com um determinado sentido e propósito – ora o que é isto senão matar o pai que dá a vida e o pão à prole? Um Brutus, era aquilo em que Ebenezer Scrooge se havia tornado. O Sr. Fish sabia do que falava, pois também ele já havia sentido, por mais de uma vez, o mesmo desejo, denso e penetrante como o smog londrino, de dar um pontapé na altivez de Sir Joseph Bowley e partir à descoberta de outra história em que pudesse ser mais feliz como personagem. Mas adiante, deixemos estes considerandos, que não há meio de se chegar ao que interessa.
Em poucos minutos, enquanto Sir Joseph Bowley perorava perante o atónito Toby Veck sobre a necessidade de reprimir a criminalidade em Inglaterra e as vantagens de se entrar no ano novo com as contas pessoais devidamente saldadas, Ebenezer Scrooge era esclarecido sobre a história do príncipe Hamlet da Dinamarca. O Sr. Fish levou tão a peito as suas explicações que acabou também por falar dos Capuletos e dos Montecchios, ilustres famílias de Verona, e do mouro Otelo e de Desdémona, gente bem conhecida em Veneza, de tal forma que o bom do prestamista, aturdido com tanta sabedoria, pretextou assuntos de serviço no seu escritório e passou-se rapidamente para a história que por direito autoral lhe pertencia.
Chegou ao escritório no preciso momento em que o empregado Bob Cratchit acabava de copiar, com os vagares que lhe são conhecidos, a acta dum acordo de credores da firma Coal & Shipments Ltd., de Tower Street, nº 5. Mas logo estacou, assustado, perante o quadro que se lhe deparava: sentado à sua secretária, levemente inclinado sobre ela como quem trabalha, a barbicha hirsuta e o cabelo dividido por um risco ao lado que o projectava para o alto como duas excrescências peludas, aproveitando o tempo para retocar alguns capítulos de “Oliver Twist”, Charles Dickens, him himself, aguardava calmamente pela sua chegada.

15 dezembro 2011

CONTINUAÇÃO DE UM CONTO DE NATAL ( 3 )

Há que dizer desde já, procurando responder a observações de algumas perspicazes leitoras, que o espectro do castelo de Elsenor não aparece nesta história por mero acaso nem por simples capricho do seu autor. Autor é (autor)idade, como muito bem se sabe, sucedendo que não lhe cabe explicar ou prestar satisfações a quem quer que seja, apenas dar a ler ou a tresler, e cada um ou cada uma que se arranje como muito bem puder, se não gostar da comida que deixe na borda do prato, que aquilo que uns não querem estão outros mortinhos por saborear – haja vista aquele caso do jantar de bucho no conto “Os Sinos de Ano Novo”. Só que, condescendendo com a curiosidade manifestada, por vir de quem vem e não de pessoas quaisquer, aproveita o autor para esclarecer que o espectro do castelo de Elsenor aparece neste texto, digamos, por arrasto, visto fazer parte da história de Scrooge logo desde a segunda página da mesma, não sendo de estranhar, pois, que vendo tantos fantasmas à volta do desgraçado protagonista, ele próprio que já ali estava preparado para o que desse e viesse como uma espécie de fantasma residente, se tenha disposto a entrar também em cena. O que isto tem a ver ou não com o Natal, é o lado para que melhor dorme este autor.
Dito isto, e já lá vai quase metade do fascículo de hoje, saiba-se que o espectro do castelo de Elsenor, pronunciadas que foram aquelas suas últimas palavras, desapareceu, súbita e inexplicavelmente, da presença de Ebenezer Scrooge. Ora o prestamista, que nunca tinha ouvido falar de Hamlet nem do dito castelo, ficou a arder de curiosidade, sem possibilidade de saber mais sobre a assombração que o visitara, a qual, depois do terror inicial que lhe causara, até começara a despertar-lhe alguma simpatia. A sua primeira ideia foi a de que poderia ser a alma penada de algum importante senhor das highlands da Escócia, região do reino com bastantes castelos assombrados e grande cópia de espectros dentro deles. Seria, não seria?
Como nenhuma personagem da sua história lhe parecia à altura de o esclarecer, resolveu procurar o Sr. Fish, secretário de Sir Joseph Bowley no conto “Os Sinos de Ano Novo”, conto que estava ali à mão de semear no mesmo livro da história em que ele é protagonista. À pesca do Sr. Fish, fisgou-o naquela parte do conto em que ele está na biblioteca a receber a carta do recadeiro Toby Veck. Pediu licença para lhe falar à parte, alegando ser assunto de família.
- Scrooge, meu velho! – exclamou o Sr. Fish mal o viu, aproveitando logo para pedir notícias de Charles Dickens, o criador de toda aquela gentalha, ao que Ebenezer Scrooge disse nada saber, que até estava um bocado ressentido por causa da caterva de espíritos que ele tinha criado para a sua pessoa, mas que, enfim, tudo tinha já passado, e que ultimamente até havia conhecido um espírito interessante, que se dizia pai de um tal Hamlet e pairava habitualmente num castelo chamado de Elsenor, que ele não sabia onde ficava, mas que agora ardia de curiosidade por saber.
O Sr. Fish deitou-lhe um olho de goraz sabichão, entendido, conhecedor das fossas abissais da alma das personagens, e disse num latim frouxo e arrastado, mal aprendido no curso de bacharel que não chegara a concluir em Oxford:
- Tu quoque, Brute, fili mi !

14 dezembro 2011

CONTINUAÇÃO DE UM CONTO DE NATAL ( 2 )

Foi só ao fim de um certo tempo, o suficiente para que Ebenezer Scrooge sentisse aumentar de forma incontrolável a dor de barriga e se visse na situação humilhante de lhe escorrer pelas pernas uma massa grossa entre o líquido e o pastoso constituída por aquilo que muito bem se imagina, que a assustadora aparição resolveu falar.
– Desgraçado onzeneiro que nunca entrarás na barca santa do auto de Gil Vicente! Fica a saber, infeliz, que não tenho nada a ver com o fantasma do teu sócio - boa encomenda era ele! -, nem com os três espíritos grotescos que te visitaram. Não pertenço a esse mundo de vãs assombrações, mas sim ao dos que sofreram a perfídia, o crime, o roubo dos bens terrenos e do aconchego familiar. A minha mágoa, que uma triste vingança não logrou remediar, arrasta-me pelo mundo como um morto-vivo. Não te acenarei com natais de farta-brutos nem com a felicidade terrena, que não existe, não te procurarei emendar, pois já não tens emenda, quero apenas que saibas algumas coisas e que as possas transmitir a quem estiver a tempo de ainda se servir delas.
O prestamista, apavorado, sondou a porta da sala avaliando as possibilidades de se escapar, mas num momento, tão minúsculo como a cabeça dum alfinete, viu a sua vida toda desde pequenino, e isso fê-lo deter-se. Dir-se-ia que um olho mágico lhe nascera na cara ou que lhe era dado contemplar o aleph de Borges, embora não tivesse consciência de nada disso, coisas que estavam para além do seu tempo e da sua compreensão. Molhado e sujo como um rato de esgoto, mastigava a saliva amarga e tremia do corpo e da alma, mais assustado que Jonas dentro da barriga da baleia ou que Daniel na cova dos leões.
Sim, via a jovem Belle, a quem se ligara por um compromisso antigo, e que o deixara no caminho da vida abandonando o “sonho inútil” de seguir com ele. Certo, ela teria as suas razões, mas faltara-lhe força para se impor e contribuir para a sua transformação como homem. Lentamente, à medida que via mais episódios da sua vida, o temor regredia e uma relativa tranquilidade começava a instalar-se na sua pessoa. A influência deste quarto espírito levava Ebenezer Scrooge a ver os factos do seu passado de maneira diferente, a tomar como certo que nenhum homem vale por si só, sendo fruto das suas tendências e das tendências de todos os que o rodeiam. Porque falhara a sua relação com Belle? Vivia agora uma vida tranquila e sem história, ainda que com uma filhinha querida, na companhia do marido, rindo-se das suas singularidades de prestamista velho e avarento. E atreveu-se a questionar a assombração.
– Sabes, espírito? Desde que me apareceste já passei de um estado de completo terror à compreensão de algumas coisas importantes. Quem és tu, afinal?
O espírito pareceu tornar-se maior como uma sombra que cresce da própria sombra até encher por completo todo o espaço em que se concentra. Mas já não era assustador. E disse:
– Sou o único espírito verdadeiro a que o teu criador se referiu no conto que escreveu. Sou o espírito do pai de Hamlet, o espectro do castelo de Elsenor.

13 dezembro 2011

CONTINUAÇÃO DE UM CONTO DE NATAL ( 1 )

Ebenezer Scrooge, prestamista da praça de Londres no tempo da rainha Vitória, sempre acreditara nas potencialidades dos mercados financeiros, na mão invisível que dirige a economia, nas vantagens de poupar dinheiro e nas virtudes do juro que Santo Agostinho tão injustamente vilipendiara. Porém, assediado em vésperas de Natal por três espíritos perversos, modificou inopinadamente a sua forma de pensar, acabando por oferecer um peru de elevado preço ao seu empregado Bob Cratchit – um calaceiro que se deixava dormir sobre a carteira de amanuense enquanto copiava com infinito vagar, ao ritmo fatigado da sua pena de pato, as desassossegantes frases do mister de agiota : “Aos tantos dias do mês tal, do ano tal, pagará por esta minha única via de letra, a mim ou à minha ordem, a quantia de tal e tal e tal.”
Ainda que embarcado nesta onda de abro-as-mãos-e-dou-o-que-tenho-e-tu-não-tens, Ebenezer Scrooge, que não era parvo, ia meditando nas consequências para o negócio da sua inesperada fraqueza natalícia. Espíritos persuasores e desavergonhados, aqueles três que o haviam visitado – pensava. Mal sabia ele que com o oferenda do peru ao seu empregado, instituíra entre o patronato o hábito das broas, mais tarde conhecido pelo nome prosaico de subsídio de Natal, remunerações tão estapafúrdias e perigosas que os governos dos séculos seguintes se veriam obrigados a legislar no sentido de as moderar ou até acabar com elas. Mas adiante.
Ebenezer Scrooge, passados os efeitos da emoliente catequese dos três espíritos, já meditava naquilo que agora se sabe e em mais umas quantas coisas – como, por exemplo, a melhor forma de fazer a penhora duma casa cujo proprietário tinha as rendas do empréstimo em atraso ou a conveniência de preparar novas aplicações em papéis da dívida pública –, quando de um canto da sua sala, por detrás de uma cómoda de nogueira velha em que guardava as modestas roupagens, lhe surge, enorme e tenebroso, o vulto de um quarto espírito.
– Quem és tu? – perguntou com uma grande secura de boca, sentindo comichões nos artelhos e um forte congestionamento abdominal.
O espírito fez-se bronco, fingindo que não ouvia, e Ebenezer Scrooge pôde ver-lhe o cenho carregado e feio, a fímbria da túnica dez centímetros acima do soalho, sem pés que se notassem, e as mãos lívidas como nuvens que lhe saíam das mangas largas e ilusórias.

12 dezembro 2011

Respondendo a um auto desafio, com a condescendência do autor e esperando mais episódios, aqui vai uma continuação:

O CONTO DE NATAL CONTINUA


Enquanto atravessava a Rua do Ouro, por entre a azáfama de mais um Natal, recordava, sim, esse episódio já longínquo, as dúvidas que ainda o assaltaram, antes que acabasse a magia do período anual da solidariedade que também a ele envolvia.
Passadas quase duas décadas, muitas coisas tinham acontecido, mas não conseguia deixar de evocar algumas impressões que o tinham marcado naquela altura, nem ele sabia exactamente porquê e lhe surgiam agora, como um eco intemporal.
Bem, diga-se em abono da verdade que, passadas as primeiras sensações, depois de sair, um tanto atordoado, da zona do hospital, onde se tinha dirigido para dar sangue, fazendo o que considerava a boa acção de uma vida, caiu em si, e reflectiu mais maduramente sobre a situação em presença.
Desde logo, apercebeu-se que as dúvidas quanto ao seu estado efectivo de saúde talvez não fossem de desprezar, pois apesar de ser novo e se sentir no auge do vigor físico, os riscos que tinha corrido de contrair H.I.V. ou outra doença sexulamente transmissível, eram reais, e conforme as horas daquele mesmo dia se passavam, entre as deslocações na cidade e os deveres programados, a dúvida insidiosa crescia no seu subconsciente, e um pensamento insistente tomava forma: e se...? Sim, havia uma voz contraditória que se sobrepunha à estouvadice instalada, ao resultado prático de uma filosofia de vida que tinha como móbeis principais os desejos, a vontade, os gostos, os interesses exclusivamente pessoais, num registo de egocentrismo carinhosamente cultivado, dir-se-ia até, cultivado com requintes, em rotinas inalteráveis que dificilmente se compaginavam com as de outras pessoas. Acontecia sobretudo que, mau grado, estas dúvidas começavam a minar aquela barreira de segurança e certezas que tão cuidadosamente tinha construído para si mesmo.
Recordava o quanto tinha ficado contrariado por se sentir como que excluído da participação solidária do espírito natalício, para logo a seguir voltar à preocupação exclusiva consigo mesmo.
Enquanto descia as escadas da estação do Metro e, como um autómato, passava as barreiras para as plataformas, reflectia sobre o pouco que, na realidade, tinha mudado na sua vida.
Havia, no entanto, mais qualquer coisa, sim, havia uma consciência diferente de si mesmo, uma capacidade de auto-distanciamento que a idade proporciona (nem tudo se perde). Até parecia que o Natal era uma época propícia a descobertas inéditas. Foi então que o zunir do rodado ritmado, acelera-desacelera do comboio lhe trouxe uma pergunta insistente: que sentido, que sentido, que sentido? Ao mesmo tempo pensava, que tolice, isto não são os sinos do Ano Novo!
Relanceando o olhar pela carruagem, apercebeu-se da indiferença mole que rastejava pelas superfícies encardidas e se colava à roupa, às malas e mochilas, à pele dos passageiros e apeteceu-lhe gritar, na certeza de que ninguém o ouviria: a minha vida é de uma monotonia atroz!
A seu tempo, tinha deliberadamente trocado compromissos pessoais, afectivos, quiçá familiares, pela liberdade concreta de uma vida de quase isolamento. Perguntava-se agora que liberdade era essa, cujo preço eram horas a mais a sós consigo e com o seu vazio interior. Alguma coisa de essencial lhe tinha escapado, nas escolhas que julgara fazer; o que tinha, apenas o devolvia sempre a si mesmo, numa espiral depressiva, e isso era mais doloroso de admitir que aquela incapacidade de dar sangue de há duas décadas atrás.

11 dezembro 2011

POEMETO EM PROSA PARA UM ANO NOVO

Pedes aos deuses que te favoreçam; ao destino, que te poupe; ao acaso, que te seja propício; e até pedes aos teus irmãos ainda mais pobres que te ajudem!
Só a ti próprio não pedes esmola, mendigo!
Porque não pedes esmola a ti próprio? Verias que és muito mais rico do que julgas.

JOSÉ RÉGIO, Colheita da Tarde

10 dezembro 2011

UM POEMA DE NATAL de Fernando Pessoa

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

FERNANDO PESSOA, Poesias, Edições Ática

UM CONTO DE NATAL de Alexandre O´Neill

A ideia de há muito que o andava a desassossegar. Depois dos primeiros ensaios de auto-apoucamento, Valério conseguiu um primeiro grande resultado: meter-se todo, todinho, numa das pernas (por sinal, a esquerda) do par de calças de sarja que comprara nas Confecções Nilo por trezentos convidativos escudos. Com voz-de-dentro-de-calça chamou a mulher:
- Ó Quinhas anda ver!
levou um susto ao dar com uma perna de calça sustentando-se em pé sem, aparentemente, homem lá dentro. Logo se refez para fingir que não era capaz de o encontrar:
- Mas onde é que se teria metido meu Lèrinho!
- Aqui, sua estúpida! – desabafou-abafou a voz de Valério.
Quinhas continuava a brincadeirinha apalpando a perna vazia e bichanando:
- Lèrinho, Lèrinho!
Quando Valério, por fim, se libertou da perna da calça e retomou o seu (natural) ascendente, trocaram prazenteiramente insultos como só os casais muito unidos sabem trocar.
Quinhas seguira os exercícios de auto-apoucamento de Valério. Este começara a enovelar-se pelos cantos da casa: passara de seguida aos gavetões da cómoda e acabara por ser encontrado numa das gavetas da mesa da cozinha. Dessa feita, Quinhas gritara. É que Valério saltara lá de dentro e avantajara-se brandindo aos urros um facalhaz.
- Que horror, querido, pareces um cossaco! – dissera Quinhas que, no autocarro dessa manhã, lera nas Selecções um artigo dum biólogo americano sobre cossacos.
E, então, solenemente, como só os casais muito amigos sabem fazer, combinaram logo ali que Valério, por mais apoucado e encafuado que estivesse, não pregaria sustos daqueles à sua Quinhas. E beijocaram-se, prazidos. Os exercícios de auto-apoucamento de Valério tinham um fim: preparar a grande surpresa para o Necas, quando ele viesse a férias pelo Natal. E vai daí – como o tempo corre! – o Necas veio. Valério considerou o filho com apreensão. Valeria a pena a surpresa? Necas estava tão grande! Aquela sombra no beiço, aquela voz do peito pontuada de estridulações…
- Ora, o Necas é ainda tão criança! – sossegou-o Quinhas.
Criança que era, o Necas só muito raramente acordava no meio do sono com as movimentações tardias que naquela casa estavam a ser o teor diário. Mas na véspera do Natal, o silêncio foi inesperadamente tão grande que o Necas passou toda a noite numa excitação que nem te digo. Coisas de crianças, coisas da quadra?
Ao levantar-se, pés nus, para ir ver o sapatinho, o Necas já ia a bordo dos patins que a mãe lhe prometera. Quando deu com o pai, apoucado, a acenar-lhe amigavelmente da amurada do sapato, Necas fugiu a procurar no regaço de Quinhas a verdadeira dimensão do seu horror:
- Sa…Sa…Saiu-me o…o… o pai no sa…sa…sapato! – soluuuuçava o órfão de vivo. E a mãe, ultrapassada pela reacção do Necas, consolava-o como ia podendo, prometendo-lhe que o pai voltaria a crescer, a crescer.

Alexandre O´Neill in Gloria in Excelsis, Histórias Portuguesas de Natal, (coord. Vasco Graça Moura) col. Mil Folhas, Público.

09 dezembro 2011

SESSÃO DE DEZEMBRO - "Contos de Natal" de Charles Dickens

Piero di Cosimo (1462-1521), "Madona com Menino Jesus lendo", óleo sobre madeira, Museu de Belas Artes de Estocolmo.

Contrariamente ao que se chegou a admitir, a sessão de Dezembro terá lugar , como é habitual, na última sexta-feira do mês, dia 30, que também é a última do ano. Que o leitor da imagem vos inspire.

04 dezembro 2011

01 dezembro 2011

PALAVRAS PARA QUE VOS QUERO

Não é só o Charles Dickens que tem contos de Natal...

Aqui vai um conto de Natal deste escriba, escrito em 2006 e agora revisto e corrigido (se é que tem correcção possível!) para publicação neste exigente blogue:

UM CONTO DE NATAL

Assediava-o um inusitado desejo de praticar o bem, de amar o próximo como a si mesmo, de se abrir a rasgos de generosidade em relação a indigentes e outros desprotegidos da sorte. Quem o conhecia – amador da sua pessoa acima de todas as coisas – só podia atribuir tal modificação ao espírito do Natal, ao ambiente da quadra festiva que se vivia. Os ornamentos das ruas, os apelos à paz e ao amor feitos em baladas cheias de emoção que a rádio e as instalações sonoras das superfícies comerciais com tanta insistência difundiam, contribuíam para reforçar os laços de solidariedade entre os homens, para fazer despertar os tesouros da fraternidade, e enchiam-lhe o coração de bons sentimentos e benévolas disposições. Depois de todo um ano em que atraiçoou amizades, atropelou direitos, mentiu e guerreou, era extraordinário sentir o maravilhoso estado de alma que nele se manifestava!
Naquele Natal, a maior das boas acções que tinha projectado praticar era a de fazer uma dádiva de sangue. Havia tantos acidentes na estrada, tantas pessoas internadas dependentes de transfusões e, por outro lado, como os serviços de saúde não cessavam de informar, tanta falta de sangue de todos os tipos, que estava firmemente disposto a tornar-se um dador benévolo.
Foi assim que numa manhã da semana que antecedia o Natal, transbordando de amor pelo próximo, rumou ao serviço de recolha de sangue do hospital da sua área. Tirou a senha, esperou pelo atendimento, e não demorou muito a sentar-se diante de uma jovem médica, bonita e inquiridora.
- Idade?
- 29 anos.
- Estado civil?
- Solteiro.
- Sofre de alguma doença crónica?
- Não.
- Alguma vez teve relações sexuais com homens?
Aturdiu-se com esta pergunta.
- Sim ou não? – insistiu ela.
- Não!
- Alguma vez utilizou drogas por via endovenosa?
- Não!
- Quantos parceiros sexuais teve nos últimos seis meses?
Aqui hesitou na resposta. Não se importava nada de declinar o número de mulheres com quem praticara sexo nos últimos tempos. Afinal até era daqueles que tomavam nota na agenda de cada vez que uma nova experiência lhe acontecia. Não fazia segredo das suas conquistas e tinha sempre aberta, para quem quisesse ver, a sala dos troféus. Mas incomodava-o que a questão lhe fosse colocada de forma tão neutra e profissional por uma jovem médica de rosto atraente e, sobretudo, que ela não tivesse juntado ao radical da palavra “parceiros” o morfema de género feminino “a” adequado à sua condição de heterossexual. Mas lá respondeu, enfatizando a palavra “parceiras”. A médica então perguntou:
- Usou sempre preservativo?
Meteu a mão na consciência, até estava com vergonha de responder, mas logo se abriu perante a insistência dela. E foi aí que as coisas começaram a complicar-se. Tinha tido não uma, mas várias relações de risco, o que não quadrava com os padrões comportamentais definidos para a aceitação de sangue dos dadores. Ainda por cima fizera uma tatuagem nas costas, adorno corporal que pareceu não agradar à médica.
- Bem, para já não podemos aceitar o seu sangue. Vamos ter de fazer análises e o senhor terá de aguardar pelos resultados.
Esmagado pela rejeição, tartamudeou umas palavras de súplica: que não havia nada de mal com o seu sangue, que era um homem saudável, que aceitassem a dádiva e logo fariam as competentes análises, veriam como era sangue de primeira qualidade, sem nenhum problema.
- E pensa o senhor que o hospital pode dar-se ao luxo de gastar bolsas de recolha e demais consumíveis com sangue que poderá não estar em condições? Até parece que não conhece o rigor das restrições orçamentais! – Isto disse a médica enquanto aprontava uma seringa para realizar uma colheita de análise.
Saiu cabisbaixo, infeliz. Ainda passou pela salinha anexa para comer umas bolachas e beber um cálice de vinho do Porto. Estava mesmo a precisar.
Dispusera-se a cumprir uma boa acção que pudesse integrá-lo de forma plena na onda de fraternidade da quadra natalícia, e era impedido de o fazer por um sumaríssimo inquérito que lhe descobrira uma tatuagem nas costas e uns quantos episódios de sexo inseguro. Francamente, já não se podia viver o espírito do Natal!
No caminho para casa ia meditando, pesaroso, na melhor forma de ultrapassar aquele revés. Distribuir comida aos sem-abrigo do bairro? Dar esmola para as obras de caridade da igreja? Comprar uma caixa de postais de boas-festas da Unicef? Alguma solução teria de encontrar para concretizar os seus desejos de amor pelo próximo, e não poderia passar daqueles poucos dias que ainda faltavam para a festa do nascimento do Menino Jesus. É que depois já seria tarde: a seguir ao Natal, voltaria certamente a estar muito preocupado consigo e com os seus projectos pessoais.

29 novembro 2011

Contos de Natal - CHARLES DICKENS - 16 de Dezembro

"O Natal do Senhor Scrooge" e "Os Sinos de Ano Novo" - contos de Natal de Dickens. Podem ser lidos na Colecção Mil Folhas do Público. O título Balada do Natal (Editorial Gleba) corresponde ao primeiro daqueles contos.

AINDA A SESSÃO DA MADEIRA

Notícia e comunicações dos membros da Comunidade em:

www.bprmadeira.org/site/index.php/noticias/1234-aconteceu

24 novembro 2011

IMAGENS DO OCEANO DE SOLARIS II

Algumas outras criações do oceano, as quais são muito mais raras e de duração muito variável, separam-se por completo do corpo que as gerou. As primeiras descobertas destas “independentes” foram consideradas – erradamente, como mais tarde se provou – restos de criaturas que vivem nas profundezas do oceano. (…) Nas saliências rochosas de uma ilha aparecem ocasionalmente estranhos corpos semelhantes a focas, estendidos ao sol ou arrastando-se preguiçosamente até voltarem a fundir-se com o oceano.

LEM, Stanislaw - Solaris, Mem Martins, Publicações Europa-América, 2003, p. 134.

18 novembro 2011

"SOLARIS" de Stanislaw Lem - 25 de Novembro, 21 horas


Estou a ler com interesse este romance do subgénero ficção científica que é o nosso livro do mês. Acabei de entrar no capítulo VI, “The Little Apocrypha”, encontrando uma referência cultural de vulto: nada mais nada menos que a Martinho Lutero (1483-1546), frade agostinho, professor de Sagradas Escrituras em Wittenberg (lembram-se de Hamlet?), intimado pela bula Exsurge Domini a retractar-se das suas noventa e cinco teses contra a virtude das indulgências concedidas pelo Papa aos contribuidores para as obras de reconstrução da Basílica de São Pedro.
Num diálogo entre Snow, um perito em cibernética da Estação Solaris, e Kris Kelvin, psicólogo chegado da Terra, pergunta o primeiro, aludindo à forma possível de o seu interlocutor afastar uma inquietante aparição que o obsidiava: “Tentou a corda, o martelo? Ou o tinteiro com boa pontaria, como Lutero?”.
Isto porque Lutero, num dos seus retiros espirituais, terá sido visitado pelo diabo que lhe entregou uma extensa lista dos seus pecados. O frade pecador examinou-a, mas num acesso de cólera contra o tentador arremessou-lhe um frasco de tinta vermelha que estava sobre a sua escrivaninha. Parece que o mafarrico terá metido o rabo entre as pernas e retrocedido sem delongas para as profundezas infernais.
Continuemos a leitura.

17 novembro 2011

PLANO DE LEITURAS PARA 2012


1º trimestre
Janeiro – Ficções de Jorge Luís Borges
Fevereiro – Quando Nietzsche Chorou de Irvin D. Yalom
Março – A Brasileira de Prazins de Camilo Castelo Branco
2º trimestre – Autores portugueses contemporâneos
Abril – O Ouro dos Corcundas de Paulo Moreiras
Maio – O Bazar Alemão de Helena Marques
Junho – Quando o Diabo Reza de Mário de Carvalho
3º trimestre – Clássicos
Julho - Fedra de Eurípedes
Agosto – O Príncipe de Nicolau Maquiavel
Setembro – O Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdão
4º trimestre – Autores brasileiros
Outubro – Seara Vermelha de Jorge Amado
Novembro – Perto do Coração Selvagem de Clarice Lispector
Dezembro – Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis

Nota: as sessões de leitura realizam-se na última sexta-feira de cada mês a partir das 21 horas.