03 dezembro 2012

CLARICE, AINDA

JOANA
(no capítulo “O Encontro de Otávio”)

                      A todos os que não compreendendo, compreenderam

A noite dobrava-se inquieta sobre o dorso dos pássaros,
o luar e a sombra estalavam nos móveis do quarto
e as asas do sonho trespassavam de verbos o poliedro
infinito das sensações. Pensou: “Sou a onda leve
que não tem outro campo senão o mar” – mas talvez
nem chegasse a acreditar no que pensava… Cercava-a
uma auréola de ínvia maldade, o poder desmedido
de se sentir mulher e conhecer o futuro das palavras
muito antes de elas se tornarem presente e passado.
Do amor, intuía que era um lugar de onde se podia fugir
pela porta dum livro ou duma grande ideia, enquanto
na cama, a seu lado, frágil como uma folha ou um fruto,
o homem soprava a lenta respiração do sono: insciente
e inerme, pronto para morrer e ser esquecido. 

JOSÉ RAFAEL

20 novembro 2012

"Tenho várias caras. Uma é quase bonita, outra é quase feia. Sou um o quê? Um quase tudo".

Aqui vão mais umas informações sobre a nossa autora:


"Eu escrevo sem esperança de que o que eu escrevo altere qualquer coisa. Não altera em nada... Porque no fundo a gente não está querendo alterar as coisas. A gente está querendo desabrochar de um modo ou de outro..."



Em Maio (1976), corre o boato de que a escritora não mais receberia jornalistas. José Castello, biógrafo e escritor, nessa época trabalhando no jornal "O Globo", mesmo assim telefona e consegue marcar um encontro. Após muitas idas e vindas é recebido. Trava então o seguinte diálogo com Clarice:

J.C. "— Por que você escreve?

C.L. "— Vou lhe responder com outra pergunta: — Por que você bebe água?"

J.C. "— Por que bebo água? Porque tenho sede."

C.L. "— Quer dizer que você bebe água para não morrer. Pois eu também: escrevo para me manter viva."

http://www.releituras.com/clispector_bio.asp

“Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou minha vida. Nasci para amar os outros, nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. O ‘amar os outros’ é tão vasto que inclui até perdão para mim mesma, com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca [...].”



"... eu só escrevo quando eu quero, eu sou uma amadora e faço questão de continuar a ser amadora. Profissional é aquele que tem uma obrigação consigo mesmo de escrever, ou então em relação ao outro. Agora, eu faço questão de não ser profissional, para manter minha liberdade."



Uma muito jovem Clarice Lispector:

«(...) o baton escurecido em mancha velha de sangue, o rosto esbranquiçado sob os cabelos...(...)» in Perto do Coração Selvagem

17 novembro 2012

CLARICE EM LISBOA

 
Veronica Lake (1922-1973), actriz de Hollywood

"Imaginem que os portugueses, quando eu passo, dizem: B'ronica Lake (Verônica Lake)... Sair do Brasil para ouvir isso..."

De uma carta de Clarice Lispector - com data de Lisboa, 7 de Agosto de 1944 - para as irmãs Elisa e Tânia (Minhas Queridas, Rio de Janeiro, Editora Rocco, 1977, p. 41).

16 novembro 2012

OUTROS CAMINHOS

Um dinâmico sector da nossa Comunidade, ontem, na Casa da Horta (Biblioteca Municipal de Cascais), após uma sessão de leitores à volta de “Werther” de Johann Wolfgang von GOETHE.

04 novembro 2012

50 LIVROS bis

50 livros! Ainda me faltam uns quantos, mas vou fazendo pela vida... Algures por aí com um sumo de uva e as Confissões do bispo de Hipona.

27 outubro 2012

"Perto do coração selvagem" de Clarice Lispector, 30 de Novembro às 21 Horas


Esta é a capa do livro que li em 1983.
Será o mesmo livro que me acompanhará na próxima sessão de leitores.

"Ele estava só. Estava abandonado, feliz, perto do selvagem coração da vida."
James Joyce



AINDA JORGE AMADO

"Jantar organizado no restaurante do aeroporto de Lisboa, em Janeiro de 1953. Podem ver-se, da esquerda para a direita, o editor Francisco Lyon de Castro, Mário Dionísio (semiencoberto), Alves Redol, Maria Lamas, Jorge Amado, Ferreira de Castro, Carlos Oliveira, José Cardoso Pires, João José Cochofel, Fernando Piteira Santos e Roberto Nobre. Ao fundo, em último plano, à esquerda, vê-se o inspector da PIDE Rosa Casaco (mais tarde envolvido no assassinato do general Humberto Delgado). Todos os outros elementos que se vêem ao fundo, à direita, e os que estão em primeiro plano, de frente, eram também agentes da polícia política."
ÁLVARO SALEMA, Jorge Amado, o Homem e a Obra, Presença em Portugal, Publicações Europa-América, 1982, p. 48.

26 outubro 2012

A fechar


“… E pela madrugada, quando as sombras ainda envolviam os campos húmidos de orvalho, e no ar se elevava a quele cheiro poderoso de terra, Nenén partiu para a caatinga pelo mesmo caminho seguido um dia por Jerónimo e sua família. Os brotos de dor e de revolta cresciam naquela seara vermelha de sangue e fome, era chegado o tempo da colheita.

Final de “Seara Vermelha” de Jorge Amado.
* As fitinhas têm impressos nomes de personagens criados por Jorge Amado nos seus vários romances.

24 outubro 2012

Os caminhos da fome

“Os Retirantes” - Portinari, 1944
 “…E através da caatinga, cortando-a de todos os lados, viaja uma inumerável multidão de camponeses. São homens jogados fora da terra pelo latifúndio e pela seca, expulsos de suas casas, sem trabalho nas fazendas, que descem em busca de São paulo, Eldorado daquelas imaginações. Vêm de todas as partes do Nordeste, na viagem de espantos, cortam a caatinga abrindo passo pelos espinhos, vencendo as cobras traiçoeiras, vencendo a sede e a fome, os pés descalços nas alpergatas de couro, as mãos rasgadas, os rostos feridos, os corações em desespero. São milhares e milhares se sucedendo sem parar…”

 
In “Seara Vermelha” de Jorge Amado (Livro primeiro, Os caminhos da Fome, A caatinga)

21 outubro 2012

PLANO DE LEITURAS PARA 2013

Pintura de DANIEL F. GERHARTZ (n. 1965)
 
1º trimestre – Românticos e não só
25 Janeiro – Uma Família Inglesa de Júlio Dinis
22 Fevereiro – Viagens na Minha Terra de Almeida Garrett 
22 Março – A Tempestade de Ferreira de Castro
2º trimestre – Outras leituras
26 Abril – Satiricon de Petrónio
31 Maio – Predadores de Pepetela
28 Junho – A Arte de Amar de Ovídio
3º trimestre – Literatura estrangeira
26 Julho – Sputnik, Meu Amor de Haruki Murakami
30 Agosto – A Metamorfose de Franz Kafka
27 Setembro – O Estrangeiro de Albert Camus
4º trimestre – Contemporâneos portugueses
25 Outubro – Nenhum Olhar de José Luís Peixoto
29 Novembro – História do Cerco de Lisboa de José Saramago
27 Dezembro – O Retorno de Dulce Maria Cardoso

04 outubro 2012

"Seara Vermelha" de Jorge Amado, 26 de Outubro às 21h00



“Lá vem Lucas Arvoredo
Armado com seu fuzil.
O sertão treme de medo,
Já matou pra mais de mil...

Lá vem Lucas Arvoredo
Armado com seu fuzil...
Menina, não tenha medo,
Meu apelido é gentil...
…”

Assim canta Bastião, em noite de festa, os feitos de Lucas Arvoredo, em “Seara Vermelha” de Jorge Amado

26 setembro 2012

"ERASMO DE ROTERDÃO"

Não sou grande leitor de biografias, mas ando interessado nesta: Erasmo de Roterdão, de Stefan Zweig, tradução de Alice Ogando. Uma honesta edição de 1943 da Livraria Civilização-Editora.

20 setembro 2012

NOVO LIVRO DE MÁRIO DE CARVALHO

O Varandim, seguido de Ocaso em Carvangel, hoje apresentado na FNAC do Chiado. A matéria destas novelas tem que se lhe diga, assim o deu a entender António Mega Ferreira. Os nossos leitores, claro, estavam lá. A literatura não dá dinheiro, não trabalha para a redução do défice, mas mesmo assim a sala estava cheia. Só dos nossos éramos oito: aí  estão, na fotografia, duas leitoras que se deixaram apanhar.

15 setembro 2012