03 agosto 2009

As nossas Cidades (In)visíveis












Évora

Lisboa, Mapa do séc. XVI




Velha Porta, Évora


Palácio e Quinta do Marquês de Pombal, Oeiras







Rossio, Lisboa




















Café no Quartier Latin, Paris




Vale de Alcântara, Lisboa



Paris

























Zocalo, Cidade do México















Rialto, Veneza

Recanto, Veneza


















Piazza del Campo, Siena















Marginal de Lourenço Marques











Recanto, Atenas
















Jerusalém, «cidade divina»





















Lisboa em hora de ponta










Jerusalém












Siena

















Cidade do México


Canal, Cidade do México















Cidade do México


















Catedral, Cidade do México












Mercado da fruta, Caldas da rainha












Baía de Cascais













Aveiro





Atenas









Parque, Caldas da Rainha














Recanto, Évora







Parténon, Atenas







Lisboa





Fachada, Lisboa
















Lisboa




















Lisboa Pombalina






Lisboa no início do séc. XVI
Funchal








«Samarcan é uma nobre cidade, adornada com formosos jardins e circundada por uma planície onde se criam todos os frutos que o homem possa desejar.», in O Livro de Marco Polo, Lx, Portugália, 1971
«O Viajante (...) não hesita em apontar Samarcanda e os seus jardins.», in Italo Calvino, As Cidades Invisíveis, Lx, Teorema, 2008

No decorrer da nossa animada e concorrida sessão de 31/07 e a propósito das cidades de I. Calvino, cada participante referiu a cidade/s que por motivos visíveis ou invisíveis guarda no coração. Passo a enumerá-las:


Para o Laurindo, a cidade tem o nome perfumado de Funchal e dispõe-se em presépio (a Lapinha) a partir das colinas, sobre o Atlântico, sempre com uma flor como pano de fundo, entre o céu e o mar;
Já muitos outros escolheram Lisboa, não uma, mas as suas Lisboas: a cidade fluvial dos ribeiros, regueirões e boqueirões que a atravessavam em tempos idos, que a tornavam fresca e hortícula e os estratos de história acumulados e encontrados a cada esquina, para o Manuel; a cidade dos telhados vermelhos vista da suspensão da ponte para a Cristina;também para a Filomena, o encantamento da cidade vista da ponte, refulgindo ao por do sol; o encanto de uma cidade redescoberta para a Teresa através dos percursos das suas águas; para a Odete, a Lisboa dos bairros das colinas e das praças ajardinadas, como a do Príncipe Real;para mim, cidade amada e detestada em simultâneo, mas que cativa ao ser descoberta, nos seus recantos e memórias históricas e encanta na luminosidade do seu céu, de um perfeito azul; para a Graça, o fascínio reside na Lisboa do constante movimento e tráfego; na confusão citadina que expressa o pulsar de uma vida intensa e nesse movimento initerrupto ilustra uma sensação de liberdade;
Cristina referiu ainda o seu gosto por Aveiro das linhas de água e tempos de estudante;
Para o Fausto, Cascais, é a vila perfeita, que se percorre com prazer e onde se contempla o mar;
Para Lurdes, a «sua» cidade é uma cidade do passado: Lourenço Marques, paraíso à beira do Índico;
Évora, a«princesa do Alentejo», é a cidade de eleição da Manuela, que passa bem sem o mar ou a beira-rio. Sendo uma mulher do sul, necessita dos espaços amplos da planície e da cidade branca e calma, cercada de muralhas que a contém, mas não limitam, cuja cor dos campos circundantes muda com a estação, plena de memória histórica, ilustrada na toponímia, seja a Rua das Gatas ou a das Cozinhas d'el Rei, onde também eu gostaria de morar e observar a linha do horizonte nos dias de fim de Verão, quando os pássaros regressam para o abrigo das velhas fortalezas espalhadas na planura;
Amélia parte da Bersabeia de I.Calvino para referir Jerusalém, cidade simultâneamente existente e não existente,terrena e celestial, afundada sob as camadas da história, marcada pelo sofrimento dos seus povos, dividida entre três religiões; ao mesmo tempo a cidade utópica, divina e celestial, do pensamento judaico/cristão, em que a cidade idealizada, medida, geométrica e funcional convive no imaginário com a realidade imperfeita da cidade dos «homens»;

Para o João, em viagem de deambulação pelo centro do país, a cidade de eleição é um poiso no percurso: Caldas da Rainha,local onde n/ foi feliz na vida militar, é agora um espaço onde respira em liberdade;
Teresa refere ainda Siena, a cidade medieval toscana, de telhados vermelhos e prédios coloridos, com a sua fascinante e oblíqua Piazza del Campo, também ela configurada segundo pontos e curso das suas águas;
A cidade da Custódia é a Paris, dos seus tempos de estudante: significou a abertura do mundo e das ideias, trocadas nas tertúlias dos seus cafés; cidade sentimental e apaixonante; também para ela um espaço de liberdade à beira do Sena;
A desmensurada urbe da Cidade do México, com os seus 30 milhões de habitantes ou mais, é a cidade da Maria José. Esta nova Babilónia, espécie de caos instituído, é um puzzle de cidades, construída sobre o lago e a capital azteca, dependente dos humores do vulcão. Nela se contém cantos, recantos e cheiros latinos; uma estreita ligação com a água; a cor intensa; a mistura de raças e tipos dos seus habitantes. Também ela pretenderia ser, à partida, a cidade ideal do conquistador espanhol, com a sua imensa Plaza Mayor (Zocalo); tornou-se uma tapeçaria de cidades onde tudo, os bairros coloniais, o caos e a arquitectura moderna, tem lugar;

Claúdia escolhe Atenas, paralelamente poética e feia, como a sua cidade, que é necessário viver para a descobrir, para lá do eterno Parténon;
Para mim são ainda motivo de encanto a opulenta e decadente Veneza dos canais sujos, que brilham como prata ao sol, palácios afundados e escadarias meias submersas onde apetece sentar e cismar. Ou a minha espraiada Oeiras das antigas quintas pombalinas, de terras férteis e jardins cuidados, para a qual é preciso recuperar a identidade escondida atrás do dormitório periférico.
E remato com uma outra citação de Calvino: «É desta onda que reflui das recordações que a cidade se embebe como uma esponja e se dilata.(...). Mas a cidade não conta o seu passado, contém-no como as linhas da mão, escrito nas esquinas das ruas, nas grades das janelas, nos corrimões das escadas, nas antenas dos pára-raios, nos postes das bandeiras, cada segmento marcado por sua vez de arranhões, riscos, cortes e entalhes.» (p. 15)
Está contida, igualmente, na vivência, admiração e paixão que por ela nutre cada habitante/visitante.


Paula

26 julho 2009

AS CIDADES INVISÍVEIS

DIOMIRA imaginada por Colleen Brannigan

Marco Polo descreve uma ponte, pedra a pedra.

- Mas qual é a pedra que sustém a ponte? - pergunta Kublai Kan.

- A ponte não é sustida por esta ou por aquela pedra - responde Marco, - mas sim pela linha do arco que elas formam.

Kublai Kan permanece silencioso, reflectindo. Depois acrescenta: - Porque me falas das pedras? É só o arco que me importa.

Polo responde: - Sem pedras não há arco.

AS CIDADES INVISÍVEIS


DIOMIRA imaginada por Mauricio Pettinaroli
Marco Polo contava a Kublai Kan aquilo que via, mas, sobretudo, aquilo que não via ou julgava ver. Era por isso que o imperador dos tártaros o escutava com tanta atenção.

Diomira

Cidades (In)visíves

Aqui seguem algumas representações das cidades de Italo Calvino que descobri num blog de um jovem arquitecto brasileito, Lutero Proscholdt:ascidadesvisitadas.blobspot.com:




Cidades [in]Visíveis! busca uma nova interpretação, sem pretensões, são apenas estudos gráficos de uma obra repleta de multiplicidade que é “Cidades Invisíveis” do Ítalo Calvino, que é um completo exemplo de suas propostas para o novo milênio.





Valdrada




Isaura

















Andria



"As cidades invisíveis", de Calvino, é uma espécie de "bíblia" para o entendimento das cidades e, consequentemente, de quem as habita. Se desejamos entender algum discurso que explique as cidades, e não somente o discurso mas diferentes formas de interpretação, ler este romance é quase que fundamental. É um livro delicioso de ser lido, pois são vários textos curtos nos quais Marco Polo, o famoso viajante veneziano, descreve para o imperador Kublai Khan, diversas cidades que havia visitado. Todas têm nome de mulher e, em cada uma, a linguagem mostra que podemos percorrer as ruas como se estas fossem páginas escritas. Dependendo somente do que se procura em cada cidade. Por exemplo, quais são os lugares que desejamos ir, quem gostaríamos de encontrar, se é dia ou noite... são infinitas as possibilidades de leitura. Interessante também é perceber como uma cidade ajuda a ler outra, pois há conexões entre os meios urbanos, por mais distantes que estejam. As cidades também são duplas, e isso aparece em Calvino como "cristal e chama". O traçado da cidade moderna tenderia para o cristal uma vez que é o lado racional e ideal. Já a presença do homem, com suas experiência próprias e inter-relacionadas, a transforma em chama. Na cidade e no homem, o cristal não vive sem a chama. É a duplicidade da descrição, da vida e da percepção humana.O desejo do imperador Kublai Khan é que, após as descrições, fosse possível montar um império perfeito. Fato que não pode acontecer. As cidades nunca serão perfeitas porque nós, homens, não o somos e nunca seremos. Por mais que se tente."
Postado por Lutero



Paula

25 julho 2009

ITALO CALVINO: "As Cidades Invisíveis"

NORA STURGES: Travels with Marco Polo
Kublai pergunta a Marco, – Quando tornares ao Poente, repetirás à tua gente as mesmas histórias que me contas a mim?
– Eu falo falo – diz Marco, – mas quem me ouve só fixa as pérolas que deseja. Outra é a descrição do mundo a que dás benignos ouvidos, outra a que correrá os grupos dos estivadores e gondoleiros nos canais da minha cidade no dia do meu regresso, e outra ainda a que poderei ditar em tardia idade, se fosse feito prisioneiro pelos piratas genoveses e posto a ferros na mesma cela com um escrivão de romances de aventuras. Quem comanda o conto não é a voz: é o ouvido.

08 fevereiro 2009

20 DE FEVEREIRO: "AS BICICLETAS EM SETEMBRO" DE BAPTISTA-BASTOS



AS BICICLETAS EM SETEMBRO fala de trajectórias amorosas e de que todos os destinos sentimentais ocultam histórias subterrâneas. Fala, também, da beleza perversa das relações humanas, e de que as pessoas suportam tudo, menos a solidão, a separação e a perda. É uma parábola sobre perdedores - todos nós. Porque cada um de nós perdeu alguma coisa.

(Da contracapa do livro)

DOIS POEMAS COM BICICLETAS

I

As bicicletas de Setembro rolam
no asfalto quente (...)
........................................................
Vamos assim em roda livre
e os peixes mordem o isco
nas águas mais profundas. Bicicletas
voltam ao parque fechado. Vem
também habitar este palácio de ócio
onde o ópio transpira das paredes.
Risco maior não é a velocidade
mas o estilo bom da pedalada.

EDUARDO GUERRA CARNEIRO
"Profissão de Fé"
Epígrafe do romance de Baptista-Bastos, "As Bicicletas em Setembro"

II

O CICLISTA

O homem que pedala, que ped' alma
com o passado a tiracolo,
ao ar vivaz abre as narinas:
tem o por vir na pedaleira.

ALEXANDRE O' NEILL
"Poemas com Endereço"

25 janeiro 2009

"Azul Cobalto" ("Ripley Under Ground") de PATRÍCIA HIGHSMITH

JACINDA BARRETT
(no papel de Héloïse no filme Ripley Under Ground)


No livro, Héloïse é uma personagem enigmática. Não se percebe bem o que andou a fazer lá pelas ilhas gregas no iate do milionário Zeppo. Em Belle Ombre tinha um quarto próprio, e embora o marido (o excitante Ripley) acreditasse na sua fidelidade, não deixou de estranhar a jaqueta da marinha americana que ela trazia sobre o corpinho no dia do regresso a casa. (Naquele tempo da Grécia dos coronéis, a armada dos States devia ter apreciável número de homens nas águas do Mediterrâneo…). Quase sempre dócil, houve um momento, porém, em que mostrou a sua fibra: quando obrigou o marido a escolher entre ela e o fou (Bernard ) – e saiu porta fora para casa dos pais. Gostei bastante desta personagem. E os meus companheiros de leitura?

M.N.

19 janeiro 2009

DIA 30 DE JANEIRO, 21 HORAS

É esta a leitura: Ripley Under Ground ou Azul Cobalto. Mas há alguém que resista à vertigem da intriga policial? Dizia o crítico do Times: "Os livros da série Ripley despertam maravilhosamente, insensatamente, o desejo de os ler."

11 dezembro 2008

Lista de Obras a Saborear em 2009

Aqui vai a lista das obras que pretendemos «saborear» no já muito próximo ano de 2009:

1-Janeiro, dia 30- Patricia Highsmith, Azul Cobalto

2-Fevereiro, dia 20- Baptista Bastos, Bicicletas em Setembro

3- Março, dia 27 - Sandór Márai, As Velas Ardem até ao Fim

4-Abril, dia 17 - José Riço Direitinho, Breviário das Más Inclinações

5- Maio, dia 29-Orhan Pamuk, Instambul

6- Junho, dia 26- Mário Cláudio, Camilo Broca

7- Julho, dia 31- Italo Calvino, As Cidades Invisíveis

8- Agosto, dia 28- Marguerite Yourcenar, Memórias de Adriano

9- Setembro, dia 25- Boris Vian, Outono em Pequim

10- Outubro, dia 30- Manuel da Silva Ramos, A Ponte Submersa

11- Novembro, dia 27- Dinis Machado, O que diz Molero

12- Dezembro, dia 18- Rosa Montero, A Louca da Casa

O nosso encontro mantém-se, sempre que possível, na última sexta-feira de cada mês, às 21h, no local de sempre. Bom Ano de novas e velhas leitura!

06 dezembro 2008

Sexta-feira, dia 19 de Dezembro, 21 horas

Nasceu em Boliqueime, berço de políticos da melhor extracção. Mas não é isso que nos interessa. Vamos ler o seu romance O Vale da Paixão. Como alguém disse, a literatura é a confissão de que a vida não basta.

16 novembro 2008

"O ÚLTIMO CABALISTA DE LISBOA" de Richard Zimler

Ano hebraico de 5266, dia 6 de Abril de 1506 para os cristãos: massacre, em Lisboa, de cerca de dois mil judeus.

Memorial erguido ao lado do Rossio (imagem copiada do blogue Abencerragem de Ricardo Alves)

29 outubro 2008

PRIDE & PREJUDICE - O livro e o filme

No princípio do filme, vemos Elizabeth (Keira Knightley) a ler um livro cujo título é First Impressions. Foi o primeiro título que Jane Austen atribuiu a Pride and Prejudice.

22 outubro 2008

ORGULHO & PRECONCEITO

Keira Knightley

Confesso que estou a gostar do filme.
Um leitor devidamente identificado

21 setembro 2008

26 DE SETEMBRO, 21 HORAS - POESIA DE MIGUEL TORGA



LEZÍRIA

São duzentas mulheres, cantam não sei que mágoa
Que se debruça e já nem mostra o rosto.
Cantam, plantadas n`água,
Ao sol e à monda neste mês de Agosto.

Cantam o Norte e o Sul duma só vez.
Cantam baixo, e parece
Que na raiz humana dos seus pés
Qualquer coisa apodrece.

04 setembro 2008

26 DE SETEMBRO, 21 HORAS


Eu possuo preciosamente um amigo (o seu nome é Jacinto) que nasceu num palácio, com quarenta contos de renda em pingues terras de pão, azeite e gado.

EÇA DE QUEIRÓS, Civilização


A porta ficava ao fim do corredor, tinha uma chapazinha esmaltada, números pretos sobre fundo branco, não fosse isto um recatado quarto de hotel, sem luxos, fosse duzentos e dois o número da porta, e já o hóspede poderia chamar-se Jacinto e ser dono duma quinta em Tormes, não seriam estes episódios de Rua do Alecrim mas de Campos Elísios, à direita de quem sobe, como o Hotel Bragança, e só nisso é que se parecem.

JOSÉ SARAMAGO, O Ano da Morte de Ricardo Reis


Mas o palácio onde Jacinto nascera, e onde sempre habitara, era em Paris, nos Campos Elísios, nº 202.

EÇA DE QUEIRÓS, A Cidade e as Serras

17 agosto 2008

Poemas de MANUEL DA FONSECA, 29-8-2008, 21 horas

Poema da menina tonta
.
A menina tonta passa metade do dia
a namorar quem passa pela rua,
que a outra metade fica
pra namorar-se ao espelho.
A menina tonta tem olhos de retrós preto,
cabelos de linha de bordar,
e a boca é um pedaço de qualquer tecido vermelho.
A menina tonta tem vestidos de seda
e sapatos de seda,
é toda fria, fria como a seda:
as olheiras postiças de crepe amarrotado,
as mãos viúvas entre flores emurchecidas,
caídas da janela,
desfolham pétalas de papel...
No passeio em frente estão os namorados
com os olhos cansados de esperar
com os braços cansados de acenar
com a boca cansada de pedir...
A menina tonta tem coração sem corda,
a boca sem desejos,
os olhos sem luz...
E os namorados cansados de namorar...
Eles não sabem que a menina tonta tem a cabeça cheia de farelos.

.
Manuel da Fonseca

16 agosto 2008

FERNANDO NAMORA, 29-8-2008, 21 HORAS

Fernando Namora : romancista, ensaísta, poeta e também pintor (1919-1989). Detentor de uma obra vasta e multifacetada, iniciou-se na prosa em 1938 com As Sete Partidas do Mundo, ficção em moldes presencistas. Notabilizou-se com Fogo na Noite Escura (1943). Mais tarde, em 1948, escreveu a 1ª série de Retalhos da Vida de um Médico, e em 1963 escreveu a 2ª série. Trata-se de uma obra marcada pela vivência da sua profissão de clínico. Em 1954 saiu O Trigo e o Joio. Nessa mesma década sofreu Namora a influência do existencialismo, visível em obras como O Homem Disfarçado (1957) e Cidade Solitária (1959). O Rio Triste, publicado em 1982, é, porventura, um dos seus melhores romances.
(www.webboom.pt)

15 agosto 2008

DIA 29 DE AGOSTO, 21 HORAS


(...) tenha a juventude as perplexidades e as dúvidas que tiver, ela será sempre um fogo na noite mais escura!

( NAMORA, Fernando - Fogo na Noite Escura )

22 março 2008

Mês de Março: Na América

Capa da 1ª edição americana de A um Deus Desconhecido, de John Steinbeck, 1933













Seguem-se algumas imagens da paisagem do sul da California, onde nasceu e que inspira a paisagem do romance:








Fotos de



Mapa da "região Steinbeck.
















A acompanhar Steinbeck, teremos Walt Whitman(1819/1892), nascido em Long Island, Nova York, o poeta de Leaves of Grass o tal do Captain my Captain. Em comum? Ora vejam o retrato de Whitman quando jovem (lembra o protagonista de Steinbeck) e sua casa em N. York:






Veríssimo e Keats



Em Janeiro quando lemos Clarissa de Érico Veríssimo, o personagem melancólico, Amaro, poeta e pianista é um amante da poesia do inglês John Keats (1795/1817) poeta da geração de românticos ingleses como Shelley, Byron. Dele cita «A thing of beauty is a joy forever» do Livro I da sua obra Endymion (1818):




A thing of beauty is a joy for ever: Its loveliness increases; it will never Pass into nothingness; but still will keep A bower quiet for us, and a sleep Full of sweet dreams, and health, and quiet breathing. Therefore, on every morrow, are we wreathing A flowery band to bind us to the earth, Spite of despondence, of the inhuman dearth

Uma coisa bela é uma alegria para sempre:
A sua graça aumenta; nunca
Desaparecerá; mas sempre manterá
Um abrigo sossegado para nós, e um sono
Cheio de doces sonhos, e saúde, e calma respiração.
Portanto, em cada dia, entrelaçamos
Uma fita florida que nos liga à terra,
Apesar do desânimo, da inumana penúria


Outra obra citada de Keats é A SONG ABOUT MYSELF (c.1818), da qual reproduzo a 1ª parte:

I.
There was a naughty boy,
A naughty boy was he,
He would not stop at home,
He could not quiet be —
He took
In his knapsack
A book
Full of vowels
And a shirt
With some towels,
A slight cap
For night cap,
A hair brush,
Comb ditto,(idem)
New stockings
For old ones
Would split O!
This knapsack
Tight at’s back
He rivetted close
And followed his nose
To the north,To the north,
And follow’d his nose
To the north.

O poema que escolhi para ilustrar a sua obra foi o sugestivo

La Belle Dame Sans Merci, John Keats, 1795-1821

(A Bela Dama sem Piedade)(1819)


Oh, o que te pode torturar, triste criatura ,
Vagueando solitária e desoladamente?
O junco do lago murchou
John William Waterhouse, 1893E o canto dos pássaros cessou.

Oh, o que te pode torturar, triste criatura,
Tão desalentada e desditosa
O esquilo fechou o seu celeiro,
E a colheita foi feita.

Vejo um lírio na tua fronte,
Com angústia orvalhada e gotas de febre,
E na tua face uma rosa esmaecida,
Também cedo definhada.

Encontrei uma dama nos prados,
Tão bela, uma criança das fadas:
O seu cabelo era longo, o andar leve,
E os seus olhos selvagens.

Segui-a a passo no meu cavalo,
E nada mais vi todo o dia;
Pois ela inclinava-se de relance, e cantava
Uma canção de fadas.

Fiz uma grinalda para a sua fronte,
E também pulseiras, e fragrâncias do local;
Ela fitou-me como se de verdade amasse ,
E gemeu docemente.

Ela descobriu raízes de doces delícias,
E mel selvagem, e orvalho como maná,
E numa língua estranha certamente disse,
‘Amo-te de verdade!’

Conduziu-me à sua gruta de elfos,
E ali mirou-me e profundamente suspirou,
E ali fechei-lhe os olhos selvagens e tristes--.
Beijado até adormecer.

E ali descansamos no musgo,
E ali sonhei, oh! Maus desígnios,
O último sonho que jamais sonhei
Na fria colina.
Vi reis pálidos, e também príncipes,
Pálidos guerreiros, todos pálidos de morte;
Que gritavam--.’A bela Dama sem piedade
Mantém-te em servidão!’.

Vi os seus lábios esfomeados no crepúsculo,
Com horríveis bocas que abertas me avisavam,
E acordei e ali me encontrei,
Na fria colina.

Por isso aqui permaneço,
Vagueando solitária e desoladamente,
Apesar do junco do lago ter murchado,
E o canto dos pássaros ter cessado.

Na obra de Veríssimo, Um Lugar ao Sol, o nosso Amaro, amante dos românticos ingleses, resolve a sua vidinha de forma bem prosaica abdicando da beleza em prol do estômago e do aconchego da carne... Os tempos estavam difíceis. Como sempre estão...

15 março 2008

MÁRIO DE CARVALHO ( II )



















MÁRIO DE CARVALHO

Agora que saiu o romance "A Sala Magenta", recuperamos estas imagens do encontro com o escritor e amigo, em Outubro do ano passado, numa das sessões da nossa Comunidade de Leitores.


Dantes, tudo era um peso ancestral de quietação e vagar pelas matas de sobreiral e pinho em redor das águas represadas a que chamam Lagoa Moura, havendo perto umas ruínas que a memória popular não assinala além dos mouros. Então, carregavam-se de silêncio as formas, pasmavam lassos os ramos, pendiam restos de carumas, tombavam as pinhas de velhas, empastavam-se as folhas mortas, deixavam-se as portadas entreabertas. Em chegando a noite, com o rarear dos pássaros, alteavam-se as sombras, delineavam-se os contornos, adensava-se o espaço, vibrava subtilmente o ar e milhentos pequenos rumores emergiam do solo num restolhar de sobrevivência. Na dobra do século, as brisas, mais rijas de ano para ano, entraram a balancear as copas, a revolver os gravetos, a frisar as águas, a desinquietar o silêncio e a fazer a demonstração prática e local de que o clima desvariava.

(Incipit de A Sala Magenta, romance de Mário de Carvalho, Lisboa, Editorial Caminho, 2008)

9 DE MARÇO DE 2008: ANTIGUALHAS DE LISBOA



No Panteão de Santa Engrácia: e o céu mesmo ali ao pé.








































Sé de Lisboa:


Do alto de uma das torres foi atirado em 1383 o bispo D. Martinho (é o que o João está a tentar explicar). Os circunstantes parecem divertidos com a enormidade do sucesso!

10 março 2008

O prazer de Lisboa antiga ao Domingo

Outro passeio memorável em saudável convívio. O palco: novamente a velha Lisboa. Calcorreámos o Largo do Carmo; subimos à vetusta Sé; visitámos as velhas ruínas do Teatro Romano. Seguiu-se S. Vicente de Fora e a encantadora igreja, com o seu elegante trabalho de mármore de Stª Engrácia, Panteão Nacional, panteão ao qual o nosso Aquilino lá conseguiu ascender (o seu Banaboião talvez não temha alcançado o panteão dos santos mas a carne é fraca...). Depois regresso por Alfama, onde deparámos com a igreja de S. Jorge(?), cujo interior é um relicário de talha dourada. Ao fundo, sempre o rio a brilhar ao sol... e umas nuvenzitas atrevidas de vez em quando.
Espero que a nossa fotógrafa de serviço adicione os registos do passeio.
Paula leitora

S. Banaboião, o inevitável Anacoreta e Mártir

Foi delicioso rever Aquilino Ribeiro, com a sua malícia e ironia escondida na sua rica linguagem vernácula e cheia de arcaísmos (pelo menos é o que eu acho...). Mas a história do pobre S. Banaboião, dividido entre o céu e a terra; entre o divino e o carnal; entre o ideal e o concreto, com o seu desconcertante final, foi interessante e divertido. No fundo , trata a questão do eterno desacerto entre homens e mulheres, entre o viver e a aspiração à perfeição que n/ cabe neste nosso pobre mundo...