15 fevereiro 2012

Pela grafia dupla * (MEC)

«[É difícil de ler quem escreve segundo o Acordo ortográfico] e quem não segue? Claro que não. Habituemo-nos então às duplas grafias. Concordemos em discordar», escreve Miguel Esteves Cardoso na sua crónica publicada no diário português “Público”.

No “Público”de [8/02/2012], graças à Cláudia Carvalho e à Isabel Coutinho, estava a solução do desacordo ortográfico. Descobriram-nas nas palavras de dois inteligentes amigos meus: as de António Emiliano, da Universidade Nova de Lisboa, e as de António Feijó, da Faculdade de Letras de Lisboa. Os portugueses gostam tanto de obedecer como de pôr os outros a obedecer. Brigam muito, mas acham que abriga deve acabar por acabar.
Quando isso acontecer, uns ganham e os outros perdem. A partir desse momento, os que perdem devem obedecer aos que ganham. Numa coisa, secretamente sinistra, todos concordam: uma vez estabelecida a"norma" (pense na ópera de Bellini) todos devemos obedecer.
Porquê? É difícil de ler o Miguel Sousa Tavares no Expresso que segue o AO? Ou o Rui Tavares [no “Público”], que não segue? Claro que não. Habituemo-nos então às duplas grafias. Concordemos em discordar.
Nos dicionários registem-se as duas variantes, com a devida indiferença. Daqui a cinquenta anos, ver-se-á quais são as grafias mais e menos populares. É assim que a ortografia irá mudando: naturalmente, mas saudavelmente constrangida por apenas duas versões, ambas correctas ou corretas. Eu leio a última palavra como se rimasse com "forretas"e significasse quem corre e foge mal haja um problema. Mas percebo que haja quem leia "correcto" como analmente retentivo. E exija castigo correcional nas nádegas, somando o cu e o recto.
Vivamos em Desacordo Ortográfico.
Miguel Esteves Cardoso
* In crónica publicada no jornal Público do dia 10 de fevereiro de 2012, na coluna diária do autor, «Ainda Ontem»
Sugestão de publicação enviada pelo Leitor Helder Maia

14 fevereiro 2012

Namorados da cidade

“Lovers” - Marc Chagall
 
 
Namorados de Lisboa,
à beira Tejo assentados,
a dormir na Madragoa.
Namorados de Lisboa,
num mirante deslumbrados,
à beira verde acordados.
Namorados de Lisboa,
ao Domingo uma cerveja,
uma pevide salgada,
uma boca que se beija
e que nos sabe a cereja,
a miséria adocicada,
à beira parque plantada.
Namorados de Lisboa,
sempre, sempre apaixonados,
mesmo que a tristeza doa,
namorados de Lisboa.
Namorados de Lisboa,
na cadeira dum cinema,
onde as mãos andam à toa,
à procura de um poema,
namorados de Lisboa,
que o mistério não desvenda
até que o escuro se acenda.
Namorados de Lisboa,
a apertar num vão de escada
o prazer que nos magoa
e depois não sabe a nada.
Namorados de Lisboa,
a morar num vão de escada.
Namorados de Lisboa,
sempre, sempre apaixonados,
mesmo que a tristeza doa,
namorados de Lisboa. 
Ary dos Santos 
Poema enviado pelo nosso Leitor Helder Maia

03 fevereiro 2012

E também o filme...




O filme de Pinchas Perry que não sei se passou nas nossas salas de cinema, é, aparentemente, muito fiel ao livro, uma vez que teve a colaboração do próprio escritor Irvin D. Yalom.

Detalhes técnicos do filme  aqui!

A preto e branco


Lou Salomé, Paul Reé e Friederich Nietzsche (1882).

“ …Nietzsche estava tão entusiasmado com o nosso ménage à trois, que insistiu, uma tarde em Lucerna, em que posássemos para isso: a única fotografia da nossa profana Trindade.

Na fotografia que entregou a Breuer, estavam dois homens de pé em frente a uma carroça; ela estava ajoelhada dentro do veículo, brandindo um pequeno chicote.

- O homem da frente, de bigode a olhar para o céu, é Nietzsche – disse calorosamente – o outro é Paul.

Breuer examinou a fotografia com atenção. Perturbou-o ver os dois homens – gigantes patéticos e agrilhoados – domados pelo chicote daquela bela e jovem mulher.

- O que acha do meu estábulo Dr. Breuer? …»
 

In “Quando Nietzsche Chorou” de I.D.Yalon

“Quando Nietzsche chorou” de Irvin D. Yalom, Sexta-feira 24 de Fevereiro às 21h00


Romance que se desenrola entre a ficção e a realidade, parece ter tudo para nos prender da primeira à última página. Foi isso que senti a partir do momento em que o carrilhão de San Salvatore, em Veneza, bateu as nove horas da manhã e me deparei com o pedido de ajuda de Lou Salomé ao Dr. Josef Breuer, para curar um certo desespero de Nietzsche através da polémica técnica por si utilizada, terapia pela conversa…
Continuemos!

29 janeiro 2012

Borges, o tango poema e o tango dançado



A noite era de Borges e de Ficções. Mas a literatura tem destas coisas e envolve-se facilmente com outras áreas. O mote havia já sido dado nos posts abaixo e assim as surpresas aconteceram. Primeiro um tango poema, serenamente declamado pela Dulce e depois um arrebatador Carlos à la Gardel  e a sua sorridente professora de dança com um tango que contagiou os agradavelmente surpreendidos leitores. Em seguida Borges não desiludiu e proporcionou mais uma noite de debate, rica em conhecimento e emoções.

24 janeiro 2012

O TANGO

O Tango

Jorge Luis Borges

Onde estarão? Pergunta a elegia
Sobre os que já não são, como se houvesse
Uma região onde o Ontem pudesse
Ser o Hoje, o Ainda, o Todavia.

Onde estará (repito) esse selvagem
Que ergueu, em tortuosas azinhagas
De terra ou em perdidas plagas,
A seita do punhal e da coragem?

Onde estarão aqueles que passaram,
Deixando à epopeia um episódio,
Uma fábula ao tempo, e que sem ódio,
Lucro ou paixão de amor se esfaquearam?

Procuro-os na lenda, na apagada
Brasa que, como uma indecisa rosa,
Conserva dessa chusma valorosa
De Corrales e Balvanera um nada.

Que escuras azinhagas ou que ermo
Do outro mundo habitará a dura
Sombra daquele que era sombra escura,
Muranã, essa faca de Palermo?

E esse Iberra (tenham dele piedade
Os santos) que na ponte duma via,
Matou o irmão, Ñato, que devia
Mais mortes que ele, ficando em igualdade?

Uma mitologia de punhais
No esquecimento aos poucos se desgasta.
E dispersou-se uma canção de gesta
Em sórdidas notícias policiais.

Há outra brasa, outra candente rosa
Dos seus restos totais conservadores;
Aí estão os soberbos matadores
E o peso da adaga silenciosa.

Embora a adaga hostil ou essa adaga,
O tempo, os dispersassem pelos lodos,
Hoje, p’ra além do tempo e da aziaga
Morte, no tango vivem eles todos.

Na música prosseguem, na mensagem
Das cordas da viola trabalhosa,
Que tece na toada venturosa
A festa, a inocência da coragem.

Vejo a roda amarela circular
Com leões e cavalos, oiço o eco
Desses tangos de Arolas e de Greco
Que vi bailar no meio da vereda,

Num instante que emerge hoje isolado,
Sem antes nem depois, contra o olvido,
E que tem o sabor do que, perdido,
Perdido está mas foi recuperado.

Os acordes conservam velhas cousas:
Ou a parreira ou o pátio ancestral.
(E por trás das paredes receosas
O Sul tem uma viola, um punhal.)

O tango, essa rajada, diabrura,
Os trabalhosos anos desafia;
Feito de pó e tempo, o homem dura
Menos que a leviana melodia,

Que é tempo somente. O tango cria
Um passado irreal, real embora.
Recordação que não pôde ir-se embora
Morta na luta, algures na periferia.


Jorge Luis Borges in Poemas Escolhidos. Edição bilingue. Selecção e Trad. Ruy Belo.Dom Quixote, Lisboa, 2003, pp.43-47

20 janeiro 2012

À descoberta de Borges

Confesso que não me está a ser nada fácil ler o “Ficções”. Embora sejam contos razoavelmente curtos e independentes uns dos outros, surge-me uma grande dificuldade de concentração neste universo fantasioso de imaginação ilimitada e tenho que recorrer a constantes pesquisas para compreender muitas das mensagens.
Não sendo nenhuma “estudiosa” de literatura, mas apenas uma apreciadora em termos mais lúdicos do que técnicos, apercebi-me de que tinha que conhecer melhor o escritor (de quem só conhecia um pouco de poesia). Acabei por conseguir emprestado, este pequeno livrinho da autoria de María Esther Vásquez, que é um verdadeiro tratado sobre Borges. 
O escritor, que tinha uma memória absolutamente fabulosa, utilizava o seguinte: 

“Método de Trabalho 
Borges tem uma maneira de trabalhar insólita. Dita cinco ou seis palavras, que iniciam uma prosa ou o primeiro verso de um poema, e manda-as ler imediatamente. O indicador da sua mão direita acompanha, sobre o dorso da mão esquerda, a leitura, como se percorresse uma página invisível. A frase é relida uma, duas, três, quatro, muitas vezes, até que encontra a continuação e dita mais cinco ou seis palavras. A seguir manda ler tudo o que está escrito, Como dita com pontuação, deve ler-se dizendo-a. Relê-se esse fragmento, que acompanha o movimento das suas mãos, até que chega à frase seguinte. Cheguei a ler uma dúzia de vezes uma passagem de cinco linhas.  Cada uma dessas repetições é precedida das desculpas de Borges, que, de certo modo, se atormenta muito com os supostos incómodos que provoca à sua escriba. Acontece assim que, após duas ou três horas de trabalho, consegue-se uma página que já não carece de correcções. Mas pode acontecer, quando se trata de notícias ou prólogos, que previna antes der começar “Vamos escrever de qualquer modo e depois corrigimos”. Neste caso, já pensou e repensou a forma que conferirá aos três ou quatro conceitos que vai exprimir. De um modo geral esse, “escrever de qualquer modo” é relido e corrigido, mas não com a minúcia atrás indicada, porque na realidade, ele tinha quase tudo memorizado antes de ditar…” 


In “Eu, Borges – Imagens, Memórias, Diálogos” de María Esther Vásquez

"Ficções" de Jorge Luís Borges, 27 de Janeiro, 21h00

12 janeiro 2012

06 janeiro 2012

AGORA QUE VAMOS LER BORGES...

MORTOS QUE ESTÃO VIVOS*

(…) É puro sofrimento amoroso o que atormenta o estupendo gigante, quer ele lá saber se passam ou não passam o cabo as portuguesas naus.

José Saramago, O Ano da Morte de Ricardo Reis


Jorge Luís Borges está sentado num banco de jardim no Alto de Santa Catarina, diante da estátua do Adamastor, naquela posição que lhe é bem conhecida: o tronco erguido, a cabeça levantada, as mãos apoiadas no cabo da bengala. Tem do seu lado esquerdo Ricardo Reis, que segura a maleta de médico, desconhecendo-se se guarda nela os instrumentos da arte de Hipócrates ou se a usa para acomodar os seus escritos de poeta: odes sáficas e alcaicas, que o mesmo é dizer feitas à maneira de Safo e de Alceu, génios gregos, inspiradas nas musas Lídia, Cloe e Neera; Marcenda, outra musa, viria mais tarde. À direita do argentino senta-se uma figura menos conhecida: Herbert Quain, irlandês, autor do livro The god of the labyrinth, edição de 1933, um romance policial no género dos de Agatha Cristhie.
Por que razão se juntaram neste local tão extraordinárias personagens, é matéria que o narrador não sabe explicar. Sabe que, embora mortos, vieram os três por caminhos de vivos, por estradas e aeroportos, andando nas ruas, apanhando transportes públicos, pois não são fantasmas de atravessar paredes ou de esvoaçar sob lençóis, muito menos de arrastar correntes. São espectros civilizados, que se movem pacificamente entre os viventes, sem nenhum estrépito, poupando-os a todo o assombro ou tribulação. Borges veio de Genebra, do cemitério de Plainpalais; Reis do claustro do Mosteiro dos Jerónimos, em cujo túmulo lhe dá guarida Fernando Pessoa; Quain de Roscommon, na Irlanda. O banco onde se sentam ostenta um letreiro com um prudente aviso: PINTADO DE FRESCO. Ainda bem, assim não se sentará nenhum passante onde já estão acomodados estes viajantes do tempo. E depois, não consta que se agarre a tinta à roupa dos que já não são, como se neste lugar o Ontem pudesse ser o Hoje, o Ainda, o Todavia, tudo segundo o que pode ser lido e relido no citado Borges, poema "O Tango".
- Ó Fernando António – disse Borges, quebrando um silêncio que ameaçava tornar-se perturbador – alegro-me que tenha vindo. É sempre bom poder falar consigo.
- Por favor não me chame Fernando António – objectou Ricardo Reis vivamente incomodado – sabe bem que não tenho nome de santo da Cristandade, graças a Deus que sou ateu.
- Você é um cómico, meu caro Fernando – insistiu Borges – essa sua mania de se mascarar, essa sua ideia peregrina de nos fazer crer que é sempre o outro e nenhum… Homem, assuma-se! Agora que está morto e bem morto liberte-se de vez do labirinto em que se meteu em vida.
Ricardo Reis remexeu-se nervosamente na tábua do assento.
- Labirinto deve ser consigo e com a sua escrita. Não foi você que inventou essa figura de papel que está aí desse lado, o pretenso autor do livro The god of the labyrinth? Olhe que cheguei a pensar, quando o li já no Cemitério dos Prazeres, que a obra tinha existência real.
- Meu caro Fernando, tenha cuidado com o que diz, olhe que o Herbert é muito sensível. Ainda bem que ele não compreende o português.
- Volto a dizer-lhe que não me chamo Fernando. O meu nome é Ricardo Reis, nasci no Porto em 1887, estudei medicina, estive exilado no Brasil por ser monárquico, morri em Lisboa em 1936.
- Ó Fernando – tornou Borges – que eu saiba o único heterónimo que você matou foi o Alberto Caeiro, em 1915, coitado, um homem ainda tão novo, apenas com vinte e seis anos de idade. Não me consta que tenha dado um fim ao Reis, ou mesmo ao Campos.
Proferira estas palavras com sarcasmo, deixando enervado o poeta das Odes.
- Leia Saramago, o meu último biógrafo, e verá. Se calhar não leu, não podemos ler tudo… Ou será despeito seu por nunca ter recebido o Nobel? Ah!, agora me lembro, você é cego. Os cegos não lêem, embora, caso curioso, possam ser directores de bibliotecas… De bibliotecas cegas, foi você que o disse… No entanto, pelo que sei, não lhe faltaram os olhos dos outros para fazer as suas leituras.
Borges acolheu com bonomia as alfinetadas de Ricardo Reis. Dirigiu o rosto na direcção da estátua do Adamastor, pensativo, como se escrutinasse nas gavetas do tempo uma memória antiga. Trocou umas palavras incompreensíveis com Herbert Quain, possivelmente em algum dialecto celta, e virando-se para Ricardo Reis falou assim:
- Uma coisa acho extraordinária em si, meu caro Fernando. Bem, não será a única, mas é uma delas, e muito importante, que sempre me deu que pensar. É que você tenha tido a pretensão de se constituir em émulo de Camoens.
- Camões – emendou Ricardo Reis, já conformado com o nome que Borges lhe dava.
- Eu digo Camoens. Nunca assimilei convenientemente o vosso vocalismo nasal. Sabe bem que a minha língua materna é o inglês. O castelhano veio mais tarde, e, diga-se, é bem pobre em sons vocálicos… Mas adiante: você escreveu a Mensagem como quem escreve Os Lusíadas do século XX. Falou do Bandarra, não esqueceu o Conde D. Henrique nem D. Tareja, mas sobre Camoens nem uma palavra. A isso chamo eu uma desfiguração da História, como o seu biógrafo Saramago muito bem assinalou. Além disso, há uma diferença de reconhecimento entre as duas obras: o grande épico recebeu por Os Lusíadas uma tença anual de quinze mil réis, modesta, é certo, mas atribuída pelo rei de Portugal; você, com a sua Mensagem, não foi além de um prémio de segunda categoria do Secretariado de Propaganda Nacional de António Ferro, um intelectual que era funcionário do regime fascista e grande admirador de Salazar. Depois, lembrei-me disto há pouco, você nem fala do Adamastor, aquele que está ali em pedra. Camoens dedica-lhe vinte e quatro oitavas no canto V, tanto como cento e noventa e dois versos; você na Mensagem alude a um Mostrengo, e resolve o assunto de uma penada, em três estrofes de nove versos. Ora o seu Mostrengo nada tem a ver com o Adamastor do nosso grande épico. Digo nosso, repare bem, porque também eu tive nas veias o sangue português. Não sei se sabe, mas sou descendente dos Borges de Torre de Moncorvo. Até tenho uns versos feitos aos meus antepassados:

Nada o muy poco sé de mis mayores
Portugueses, los Borges: vaga gente
Que prosigue em mi carne, oscuramente,
Sus hábitos, rigores y temores…

- Já conheço, escusa de se dar ao trabalho de continuar – atalhou Ricardo Reis.
Borges levantou-se, e um pouco inseguro, batendo com a bengala a procurar orientação, foi até junto da estátua do Adamastor. Deteve-se ali durante uns minutos – se é que é possível falar de minutos, de horas ou de segundos para exprimir o tempo dos que não existem –, a boca entreaberta de admiração, os olhos vagos postos na massa de pedra do Gigante, como se não vissem nada e pressentissem tudo. Era aquela a visão do estatuário: o Adamastor apaixonado, sofredor, que revelara a Vasco da Gama o seu amor pela ninfa Thétis, o sentimento não correspondido. Não serve ao amor de uma ninfa a fealdade de um gigante – verdade tardiamente entendida pelo titã. E foi assim que tendo surgido assustador sobre a minúscula nau, figura robusta e válida, como diz o Épico, pressagiando naufrágios e perdições de toda a sorte, se apartou de ante os olhos do Gama em medonho choro, esmagado pelo sofrimento de quem não é servido pelo amor.
Quando voltou para o seu lugar no banco, junto dos companheiros, estes conversavam em inglês sobre o modelo de desenvolvimento da Irlanda, país pobre que se tornou rico, que sofreu a crise e começou a recuperar, e que bem poderia ser um exemplo para Portugal.
- Só quem amou poderia falar assim do Adamastor – disse Borges. Mas nem Reis nem Quain, enredados na sua conversa, entenderam o que queria dizer.
Calaram-se finalmente quando o ouviram recitar um poema:

A LUIS DE CAMOENS

Sin lástima y sin ira el tiempo mella
Las heroicas espadas: Pobre y triste
A tu patria nostálgica volviste,
Oh capitán, para morir en ella
Y con ella. En el mágico desierto
La flor de Portugal se habia perdido
Y el áspero español, antes vencido,
Amenazaba su costado abierto.
Quiero saber si aquen de la ribera
Última comprendiste humildemente
Que todo lo perdido, el Occidente
Y el Oriente, el acero y la bandera,
Perduraria (ajeno a toda humana
Mutación) en tu Eneida lusitana.

Foi então que um vento inopinado tomou conta das copas das árvores. No banco em frente foram pelo ar as folhas de um jornal que era lido por dois idosos. Saltou o boné da cabeça de uma criança. Brilharam as coxas duma rapariga sob a saia esvoaçante. Um sem-abrigo que fumava uma beata engasgou-se com o fumo e teve um ataque de tosse. Dois namorados que se beijavam junto à grade do miradouro vieram abrigar-se no bar do jardim. Num automóvel estacionado no largo disparou-se o sistema de alarme. E houve quem visse dois grandes rectângulos de papel elevarem-se no céu sobre as casas que descem para o rio.
Borges está agora sozinho no banco. Um dos idosos a quem o vento arrebatara o jornal, tocou no braço do companheiro e disse:
- Está ali um tipo que parece cego. Olha, vai levantar-se… Vamos perguntar-lhe se precisa de ajuda para atravessar a rua.
Diga-se porém que nada do que o idoso viu pode ser considerado seguro. De resto, nem é seguro que ali tivessem estado os dois idosos, e que o vento lhes tivesse levado o jornal, e que houvesse um banco de jardim com um letreiro a avisar que estava pintado de fresco. E que nele se tivessem sentado aqueles três viajantes do tempo, vindos de tão díspares lugares não se sabe porquê e para quê.

* Escrito em 2006. Agora revisto e actualizado.

04 janeiro 2012

A Comunidade na Agenda Cultural de Cascais


A Agenda Cultural de Cascais dedica-nos duas páginas no nº 54, relativo a Janeiro e Fevereiro 2012. 
Na rubrica "Ideias com cultura" e sob o título Com olhos de ler, é feita a apresentação da Comunidade, incluindo uma carta do nosso ilustre Mentor e Coordenador Manuel Nunes.
A Comunidade fica orgulhosa e agradece o destaque!
Para ler aqui!

31 dezembro 2011

MEMÓRIAS DO ANO

António Lobo Antunes. Fotografia de Pedro Loureiro

O livro de prosas enviesadas, relutantes, com um vago sabor a hortelã-pimenta e a ácaros fritos em óleo de palma, chega-nos pela mão duma leitora que de tanto lidar com números, experiências aleatórias, variáveis discretas e contínuas, funções de distribuição normais e hipergeométricas, resolve vir desassossegar um círculo mastigante de tias de Cascais, de senhores idosos suspirantes por damas de quarenta anos, de jovens e menos jovens um bocado à rasca, desses que se passeiam pela Avenida com todo o peso da filosofia ocidental às costas pedindo a demissão de governantes socráticos, também dos platónicos e dos aristotélicos.
– Nem com as tuas cartas fiquei, meu amor, voaram-me da gaveta como rolas enfáticas defenestradas duma gaiola a que se soltaram as barras de arame decrépito. Conservo apenas algumas fotografias metidas em álbuns castanhos de lombadas gravadas a falso ouro: uma em que te vejo na piscina de Malange, o volume dos teus seios a intimidar o frágil tecido sintético do maillot; outra na marginal de Luanda, lambendo um cone de gelado de manga, o carocha estacionado na berma e a menina brincando sob quarenta graus de desvario tropical. Não sei se te perdi ou se fui eu que me perdi.
Quem trouxe o livro para círculo tão selecto não imaginou os olhos doridos de quem está habituado a chamar as perspectivas e as linhas de fuga pelos seus nomes próprios, os olhos derramados sobre os paradoxos da escrita, qual parábola de Zenão de Eleia, qual discurso cavaquista numa qualquer cerimónia de tomada de posse, como se visse voar para fora do quadro os namorados flutuantes do aniversário de Chagall ou descobrisse um nu deitado de Modigliani risivelmente convertido em peça de arte efémera; nem imaginou o poeta que não leu o livro, o poeta que aliás nunca lê os livros (Ler é maçada, estudar é nada. Grande é a poesia, a bondade e as danças… Mas o melhor de tudo são as crianças. O mais que isto é Jesus Cristo, que não sabia nada de finanças nem consta que tivesse biblioteca…), o poeta ouvindo como dísticos ou haicai japoneses as sombras breves das demoradas impressões dos leitores; e muito menos a devoção bramânica, obcecada e lírica de quem agarra as palavras como quem cruza as pernas e se entrega aos iogas libertadores da vida dispersa de todos os dias; tampouco imaginou o atrevimento do escrevente aguado, que escreve mais do que pensa, e que às vezes até escreve aquilo que não pensa, o que quer dizer que erra mais do que acerta, verdade infeliz e crua como um ovo estrelado com a gema derramada no óleo da frigideira.
– Não me sobrou uma peça de roupa tua, meu amor. Teria desejado um sutiã, uma liga de meia, um casto lenço de cabeça, desses a que também chamam bioco e que te fazia o rosto tão bonito, ou os juvenis soquetes que usavas naquele dia em que nos beijámos sob uma acácia florida, depois desfeita à morteirada, em 1975, por um pelotão das fapla empanturrado de funje e cuca. Que afagador passa hoje a mão pela linha terna do teu seio? Que jóquei feliz te agarra as crinas de égua domada, disposta aos mais incríveis saltos nas barreiras do amor? Minha querida jóia, minha querida mulher, GTS, meu amor perdido, porque te perdi?
Obrigado, leitora das funções de distribuição normais e hipergeométricas, obrigado ó Lobo, obrigado ó Antunes. Só é lobo quem lhe veste a pele, só é Nunes quem não pode ser Antunes, obrigado pelo livro e pelas leituras possíveis, obrigado pelo chá, obrigado pelos bolinhos.
Memória da guerra colonial, dizem eles. Mais, muito mais!

(Texto lido na sessão de Março - Memória de Elefante de António Lobo Antunes)

29 dezembro 2011



Relato [...]: 4ª e última Jornada


Correndo o risco quase impensável de se atrasar para a ceia em casa do sobrinho, Mr Scrooge ainda se demorou um pouco a explicar o favor que pretendia.
- Amigos, o tempo urge: quando os Sinos de Ano Novo baterem as onze badaladas, serão visitados pelo Espírito Poético, e é nessa altura que há-de ser forjado o novo desenlace da minha história, mais a contento da minha maneira de ser e para que eu possa ter acesso à tranquilidade eterna. Basta que se mantenham atentos e cumpram tudo o que o Espírito vos inspirar. E agradecendo, sumiu-se no ar, perante a estupefacção geral.
Seguiu-se um grande rebuliço, pois se aproximava a hora esperada: Mrs Cratchit procurava as velas mágicas de Natal no fundo de todas as gavetas, com Bob Cratchit atrás, a refilar contra a falta de ordem naquela casa; Merry-Jo trauteava um fado que nunca tinha ouvido; Mc Charles ensaiava umas notas um tanto esganiçadas na sua gaita-de-foles, sob os protestos da mulher; as três amigas, com a tesoura de recortes de Carlile, iam cortando em todos os personagens dos contos de C.Dickens, e por pouco não estragavam irremediavelmente as histórias.
Quanto ao poeta Laurence, nem se fala: com a atrapalhação, tinha-se perdido por completo, e folheava desesperadamente os livros, que já não reconhecia, sem encontrar nenhum dos poemas anteriormente escolhidos. Parecia bruxedo!
Foi então que, vindas não se sabe de onde, as notas do carrilhão começaram a bater as onze badaladas, as luzes apagaram-se, as velas acenderam-se por si mesmas, os livros de poesia do poeta ergueram-se sozinhos no ar batendo as folhas, bem como todos os poemas avulsos escolhidos e o poema proposto por M. Dikens; e, perante o pasmo generalizado, cada livro ou folha com o poema mais adequado, foi poisar nas mãos de quem o devia ler! O Espírito Poético tinha chegado. A partir daí tudo correu lindamente: as vozes, mesmo as mais fanhosas, declamaram como se fossem de anjos e, no final, Mc Charles fez soar de forma divinal a sua gaita-de-foles.

Quando a sessão acabou o Espírito Poético ainda pairou por ali algum tempo, mas ninguém percebeu de que forma teriam contribuído para a salvação de Mr Scrooge.
Só no Natal seguinte, quando os temas da Quadra voltaram a ser notícia é que os nossos amigos da sessão poética compreenderam o que tinha acontecido: havia agora uma nova versão do Cântico de Natal, a partir de um manuscrito original, descoberto em Chatham, no Condado de Kent. O final desta versão era um pouco diferente do anterior: o que ressaltava era sobretudo um maior comedimento na mudança de atitude de Scrooge; alguns críticos até adiantavam que correspondia a um maior realismo, demonstrando que a redenção, tal como a utopia romântica a concebe, não existe. Enfim, não cabe aqui descrever a tremenda conjuntura polémica que se gerou à volta do novo Conto, envolvendo, de críticos literários a historiadores da revolução industrial e teóricos neo-marxistas.
A verdade é que, entre outros aspectos, se encontrava no texto uma descrição da ceia em casa de Fred, o sobrinho de Mr Scrooge, com a presença de Meg e Richard, provenientes do conto The Chimes. Sabendo que os dois queriam casar, mas não tinham meios suficientes, Fred, com a sua bondade natural, tinha resolvido ajudá-los e convencer o tio a participar. No entanto, depois de alguma discussão e cedências por parte do prestamista, este tinha acedido, não a dar, mas a emprestar-lhes o dinheiro para a compra da casa e... imagine-se, para os electrodomésticos - anacronismo este que lançou a maior confusão na comunidade científica.


(Finished)

28 dezembro 2011

Relato [...]: 3ª Jornada


- Pois bem! - Suspirou Scrooge - lamento vir assim interferir na vossa noite de Natal, mas a verdade é que depois de muito ter reclamado junto de C. Dickens - já explico porquê -, soube que ele tinha enfim decidido convocar um Espírito mais conciliador e racional, o Espírito Poético, precisamente aquele que hoje ficou de aparecer na vossa sessão, assim que se dispuserem a recebê-lo, conforme me constou no cibercafé do Espaço Sideral.
- Sim, ouvimos até dizer que ele se predispunha a rescrever a sua história, disse Miss Carlile, a filha do casal, que entretanto já se tinha recomposto do espanto, e se sentia, diga-se em abono da verdade, um tanto atrapalhada, pois ainda não tinha acabado de ler o conto.
- Felizmente, C. Dickens criou-me sincero e frontal, e estas são qualidades que não cheguei a perder, apesar de tudo o que ele me fez passar e das atitudes radicais para que por fim me empurrou...
Aqui, já um tanto agastado, pois apreciava sobremaneira o autor, interrompeu-o o dono da casa:
- Mas, desculpe, tudo o que aconteceu depois das visitas dos Espíritos pareceu ser resultado exclusivo de decisões suas. Aliás, do que sei, por muitas gerações e actualmente, a sua mudança de atitude tem sido um manancial de lições de humanidade, de generosidade... E a inspiração...
- Ora aí está, a inspiração! - Scrooge não resistiu a interromper - e faz ideia do que eu, humilde prestamista de Londres até 1853, tenho sofrido, por causa dos protestos?
Entretanto, o poeta tinha emergido de debaixo da mesa e, mais à vontade, expressou a perplexidade estampada nas expressões dos presentes:
- Que protestos?
Quando o notável visitante se preparava para debitar as suas explicações, tocou a campainha da porta... Eram o casal Mc Charles, Merry-Jo, Etel Light e, logo a seguir, apareceu Airlet, muito afobada, porque se tinha perdido às voltas na Rotunda do Cemitério...
Passada uma primeira fase de natural estranheza em vista do inesperado conviva, o qual era conhecido de jingeira, quer dizer, do Cântico de Natal, todos se dispuseram ao reatar da história entretanto interrompida.
- Encurtanto então razões, como dizia, há mais de um século que sofro as afrontas dos injustos protestos do patronato, porque viram no meu gesto de generosidade compulsiva em relação ao vosso antepassado, meu amanuense, a origem de todas as cedências à classe operária: vejam-se os aumentos de salários, os bodos, os feriados, logo seguidos da semana-inglesa, do fim-de-semana, das férias pagas, enfim... uma torrente de regalias que a mesma classe dos trabalhadores nunca achava suficientes e, também para os sindicatos e associações de classe, nunca deixei de ser o mau da fita...
Scrooge estava a par dos problemas actuais, porque realmente lhe sobrava tempo para ver todos os canais de notícias do mundo; por pouco não estalava uma discussão brutal com Mr Cratchit, aficcionado do tema da política, a propósito da crise do Euro.
Foi então que Ebenezer Scrooge, até aí distraidíssimo com a conversa, reparou nas horas, se sobressaltou e, desculpando-se por ter de se ausentar sem participar na famosa sessão poética, explicou que não podia faltar à ceia de Natal na casa do seu sobrinho Fred.
Adiantou ainda que aquele tinha convidado, para a festa de Natal, um casal pobre que ele achava merecer ajuda... E Scrooge tremia só de pensar no montante da ajuda... Ainda por cima não os conhecia, pois vinham de outra estória... Tinha também um grande favor a pedir, antes de abalar...


(Tenham paciência, já não falta tudo)

27 dezembro 2011

Relato que se faz e apresenta da sessão que teve lugar poético em casa dos Cratchit, na noite de Natal do Ano da Graça de 2011: 2ª jornada


Na verdade, a campainha tocava de uma forma diferente, inaudita, como se fossem os sinos de um carrilhão ao longe, entoando jingle bells, jingle bells... Bob Cratchit franziu o sobrolho e perguntou à mulher:
- Estamos à espera de alguém tão cedo? A esta hora os convidados do Natal Poético ainda estão a desenvencilhar-se das espinhas do bacalhau... Quem será?
- Bem, não sei, o melhor é ir ver...
- Quem é? Perguntou Mrs Cratchit, depois de, confiadamente, ter accionado o trinco.
Ninguém respondia, mas uma estranha figura deslizou, sim, deslizar é o termo, através do portão entreaberto, e aproximou-se da porta, sendo dificilmente reconhecível à luz fraca do exterior.
Mrs Cratchit não é de se assustar, mas o caso estava a tornar-se, no mínimo, estranho.
Foi então que ela reprimiu um grito: era Mr Scrooge, só podia ser! Eram os chinelos mal enfiados nos pés, uma indumentária que combinava casaca e pijama, mas, sobretudo, o inconfundível barrete de dormir com a borla caída às três pancadas sobre o nariz adunco, que o denunciavam.
Se de fantasma ou espectro se tratava, tinha um aspecto bastante sólido e real; estava bem conservado, pensou Mrs Cratchit.
- Mas, senhor, o que faz aqui, a estas horas, tão deslocado do seu tempo e da sua cidade? Perdeu-se nos Circuitos Eternos? O que procura?
- Minha cara senhora, mil perdões pelo incómodo: esta não é por acaso a casa de Bob Cratchit, o meu empregado?
- Cratchit, sim, é o apelido de família... Mas entre, que está frio aí fora, e o senhor não está agasalhado – ainda apanha uma gripe!
Enquanto lhe dava passagem e indicava o caminho para a sala, onde o lume crepitava na lareira, ia pesando a quanto o espírito do Natal obriga, pois se via na contingência de acolher quem lhe batesse à porta, ainda que fosse- que arrepio!- um espectro!
Quando entraram na sala, uma corrente de ar gelado varreu o espaço e quase apagava o lume. Mas o acolhimento que todos dispensaram a Mr Scrooge, em atenção à sua edificante história, recentemente relembrada, rapidamente repôs o ambiente familiar.
- Edificante, dizem vocês? Bah! Scrooge quase vociferava, apoplético, quando alguém o sugeriu, mais para fazer conversa que outra coisa.
- Ó Sr Scrooge, por favor, deixe de pairar por aí, que nos faz vertigens, disse Bob Cratchit, sempre muito pragmático. Sente-se aqui à mesa connosco, e desembuche, que todos já perceberam que está mesmo a precisar!
Entretanto, convém referir que nem todos encaravam com tanta fleuma o estranho visitante. O poeta Laurence, aqui para nós, tremia como varas verdes, prenúncio de um ataque de taquicárdia, e aproveitou a desculpa de tratar dos poemas celtas por escolher, para se enfiar por debaixo da mesa (onde ainda assim podia ouvir a história que Ebenezer Scrooge se preparava para contar...).

(Recomendação: não perca o próximo episódio)

EUTERPE, musa da Música

Autor: Camille Roqueplan (1802-1855)

26 dezembro 2011

Relato que se faz e apresenta da sessão que teve lugar poético em casa dos Cratchit, na noite de Natal do Ano da Graça de 2011: 1ª jornada

Passada a epítome das festas, com a celebração familiar do Natal, repartido ou não entre a noite e o dia propriamente dito, sempre à volta de muitas vitualhas apropriadas à tradição e de não menos alcoólicos néctares, é tempo de cumprir a promessa de narrar, aqui, para que fique registado nos anais imorredoiros deste prestimoso blogue, a crónica da sessão dita poética, inspirada pelo respectivo Espírito que, como é do conhecimento universal, surgiu da síntese feliz que C. Dickens resolveu em boa hora fazer dos três Espíritos de Natal, num rasgo genial de re-escrita do seu Conto.
Convém dizer que a sessão em casa dos Cratchit, na sala pobremente guarnecida, mas especialmente preparada para o acontecimento, foi precedida de alguns preparativos: em primeiro lugar, havia o convite ao poeta Laurence, o qual tinha ficado com a incumbência de seleccionar material alusivo à Quadra; depois, foi pedido a M. Dikens um poema por ele escolhido, para ser incluído na sessão e também integrar a ementa da consoada dos que não pudessem estar presentes em casa dos Cratchit.
Era expectável que este evento pudesse ajudar a renovar o próprio Espírito do Natal, cansado e erodido por tanta repetição: sempre a mesma fórmula sócio-familiar, em crescendo de aborrecimento, com o mesmo tipo de filmes televisivos, publicidade e mais publicidade; cheio de luzes pisca-pisca, de ausência tácita de denúncia e de protestos de bondade faz-de-conta-que-é-para-sempre.
Um pouco depois da hora aprazada, apresentou-se, na casa de St George Avenue, devidamente enfarpelado, o poeta Laurence, a tempo de participar do repasto natalício, o qual, por um deslocamento geográfico do epicentro da estória, não constaria nunca de ganso assado, podendo, remotamente, incluir peru recheado, mas constaria sim, impreterivelmente, de bacalhau com todos, como manda uma tradição de origens vagamente vislumbráveis, relacionadas com um gosto local enraizado a partir da prática gastronómica de muitas sextas-feiras quaresmais, (ou qualquer outro motivo à escolha de melhores investigadores).
Voltando à vaca fria, que é como quem diz, ao bacalhau cozido, à ceia de Natal, acolitado aquele por tinto de Portalegre, temos à volta da mesa a família Cratchit em versão reduzida (não porque tivesse acontecido algum mal ao Tim ou a qualquer outro membro, note-se) e o poeta, que faz as delícias da dona da casa por tão bem se bater com a refeição.
Mal tinham os comensais engolido a terceira dose de sobremesa, retine a campainha da porta... Olá! Será gente ou será espírito?
...
(Nota: a continuar com mais episódios só se houver adesão de leitores)