28 maio 2013

A Comunidade na Biblioteca da Horta


Poster do encontro exibido no átrio da Biblioteca

No dia 24 de Maio e a convite do Director Luís Manuel Pita São Bento, fomos gentilmente recebidos na Biblioteca Pública e Arquivo Regional "João José da Graça", na Horta. O encontro das Comunidades de Leitores da Horta e de São Domingos de Rana  / Cascais, decorreu em torno do "Mau tempo no Canal" de Vitorino Nemésio. 
Deixo o repto ao nosso Coordenador MN para nos fazer a síntese da excelente sessão e à nossa paparazzi MA para publicar as fotos disponíveis.

26 maio 2013

A Arte de Amar: Engenho e Sedução III

MÓDULO 2-  Da conservação do amor

Ora, continuando o nosso plano formativo: «Não é necessário menos talento para manter as conquistas do que para as realizar: na conquista colabora o acaso; a conservação será obra da minha arte
Mas atenção, a empresa não é fácil como afirma o nosso formador:
«Medito numa grande empresa: mostrar por que artes se pode fixar o amor, esse menino que esvoaça pelo vasto universo. É rápido e tem duas asas que lhe permitem escapar-se e a quem é difícil regular os movimentos.».
Assim falharam as tentativas de Minos para reterem Dédalo e Ícaro, embora as asas destes também não tenham sido um dispositivo 100% seguro...


Para começar, nada de filtros e mistelas: são inoperantes e «(...) perturbam o espírito e engendram a loucura.».
A amabilidade é indispensável, pois o«look», «per si», não basta; há que cultivar o espírito, já que a beleza é levada pelo tempo como as ondas de Calipso levaram as construções na areia de Ulisses.
Palavras sempre encantadoras, especialmente para o amante desprovido de meios que compensem ofensas; nada de desfazer os cabelos ou rasgar a túnica do objecto amado (como afirma ter feito o nosso formador): «A guerra contra os Partos [e para os casais]; para a vossa amiga, a paz , a graça e tudo o que pode excitar o amor

Tudo suportar com uma perseverança heróica e ser infinitamente concordante e indulgente.
Vencer todos os obstáculos, correr perigos. É que « O amor é uma espécie de serviço militar. Afastai-vos indolentes; não são pessoas pusilânimes que devem guardar estandartes
Convém obter a boa vontade dos escravos; através dos «pequenos» acede-se ao que se deseja.

Presentear, mas obedecendo a um «plafond»; nada de extravagâncias. Prendas «(...) modestas, mas escolhidas com gosto.»: umas frutinhas, umas flores, talvez uns versos e a crença na sua superior influência. Acima de tudo, nada de críticas: tudo é belo e lhe fica bem, e muita dedicação e solicitude face a uma constipaçãozinha, a uma indisposição, mas sem exageros ou corre-se o risco de irritar a «bela».



Como o amor também se ancora no hábito, tornemo-nos «habituais», presença temperada, aqui e ali, com uma ausência tonificadora, mas breve pois « (...) com o tempo diminuem as saudades, o ausente deixa de existir, um novo amor se desenha.» Vejam a sina de Menelau, que assim perdeu Helena para Páris, hóspede de um anfitrião ausente.

Não é necessário ser-se fiel, mas sim discreto, pois uma mulher com ciúmes é uma potencial «arma  nuclear» e tende a vingar-se... Se as infidelidades forem descobertas, é muito simples:«Não sejas mais submisso nem mais acariciante do que habitualmente: são claros sinais de um coração culpado. Mas não poupes os rins(...)» e para que estes aguentem o esforço, nada melhor que uma cebola branca de Mégara, ovos, mel de Himeto ou pinhões.
Noutros casos, pois « Não é sempre o mesmo vento que permite à nave curva transportar os seus passageiros, porque, na nossa corrida, é tanto o Bóreas (...) como o Euro que nos impelem. As nossas velas são muitas vezes inchadas por Zéfiro, outras vezes pelo Nuto.», nada como suscitar o ciúme para espevitar o lume da paixão e «(...) assinar no leito um tratado de paz.» Isto faz parte da antiga  ordem natural do mundo: «Age portanto para acalmar a cólera da tua amante, emprega estes remédios enérgicos.»

Para ser bem sucedido é necessário seguir o lema de Apolo: conhecer-se e aproveitar os  pontos fortes. Que todo o processo não está isento de desgostos! Há tristezas a suportar, rivais a enfrentar e não valem a aflição as violentas  cenas violentas de ciúmes (nada se ganha e perde-se a amada, como Vulcano perdeu Vénus para Marte). Essas indignações ficam para os maridos.


Finalizamos com os conselhos de discrição absoluta: sigilo e decoro furtivo; aceitar os defeitos físicos da amada, ainda que tenha os pés grandes, seja vesga, seja cheiinha, ou um «palito»; esquecer a questão da idade. É que esta pode ser uma mais valia: « Não esqueçais que nesta idade as mulheres são mais sabedoras na matéria; possuem a experiência que faz os artistas.» As artes do prazer «(...) não os deu a natureza à primeira juventude; geralmente só se encontram depois do sétimo lustro[lá para os 35 anos]. Que as pessoas apressadas bebam vinho novo; para mim que uma ânfora cheia (...) me derrame um vinho feito pelos nossos antepassados.» Acertada analogia com um vinho de qualidade!

Ainda mais um tópico: prática nas coisas do amor. Já séculos antes do sisudo relatório Kinsey e das pesquisas muito científicas de Masters e Johnson, o nosso Ovídio põe tudo «preto no branco».


Acabam aqui os módulos dirigidos aos cavalheiros: impõem-se o reconhecimento ao esforçado formador:
«Homem, celebrai o vosso poeta (...). Forneci-vos armas (...), que os meus presentes vos dêem a vitória (...). Mas que todos aqueles que, graças ao gládio de mim recebido, triunfarem de uma Amazona, inscrevam nos seus troféus: Ovídio era o meu mestre».

O próximo e último módulo: destinatárias « (...) eis que as ternas donzelas me pedem conselhos. Sereis o primeiro objecto de que se vão ocupar os meus versos.» A ver/ouvir/ler vamos.

Ovídio, A Arte de Amar, LX, Editorial Presença, 1972, pp. 62, 66, 70, 73, 74, 79, 81, 82, 84, 85, 94, 95, 97 (por motivos alheios à minha vontade tive de mudar de edição :(  )

21 maio 2013

Bom Tempo no Canal

Para quem está já em preparativos para o Faial e o Pico, com o seu Nemésio debaixo do braço, aqui fica um aperitivo. Que tenham muito bom tempo no canal...

















"MULHER DE PORTO PIM"

O "spleen subtil" das ilhas convertido em tragédia.

18 maio 2013

MARATONA DE LEITURA

Hoje, Dia Internacional dos Museus, no Museu Ferreira de Castro, em Sintra, com participação activa dos nossos leitores. --- "Emigrantes", do grande romancista de Ossela.

15 maio 2013

Arte de Amar- Engenho e Sedução II

Módulo 1- A Sedução

Para começar, os objectivos do nosso percurso formativo são perfeitamente  passíveis de serem atingidos, como adverte o nosso excelso formador:

«Antes de mais, tem confiança no teu coração de que todas podem ser conquistadas;(...) basta que estendas as redes. Mais depressa, na Primavera, se hão-de calar os pardais,e, no Verão, as cigarras (...) do que resistirá a mulher ao jovem que com doçura a quer namorar.»

Portanto, uma atitude optimista impõe-se: todas estão dispostas e são alcançáveis. Mas cuidado, pois as paixões femininas podem ser violentas e irracionais :«(...) é mais intensa que a nossa e possuí fúria bem maior.». Veja-se o caso de Pasífae e o Minotauro (há gostos para tudo).



Metodologia a seguir:
A) Seduzir a criada, sempre tão íntima da ama, mas atenção : «Se ela (...) te for aprazível pelo corpo e não apenas pelo zelo [com que leva e traz as tabuinhas com os escritos amorosos], trata de possuir, primeiro, a senhora; ela seguir-se-á, depois, em sua companhia(...)»;

B) Escolher bem a ocasião: o tempo certo é de grande importância  para que o sedutor não incorra em gastos inconvenientes, sendo que em matéria de presentes as mulheres são mercenárias inexcedíveis ;

C) É preferível  cultivar as belas letras e enviar cartas/tábuas de amor: «Siga, portanto, a carta e leve inscrita palavras de ternura e toque fundo no coração e comece por desbravar caminho.» , mesmo que as esperanças que desvelam sejam enganadoras:« Trata de fazer promessas; pois que mal pode vir de prometer? Em promessas qualquer um pode ser rico.». Mas nada de retórica enfadonha: «Usa linguagem credível e palavras comuns, embora delicadas, por forma a parecer que estás ali a falar , em pessoa.» E persistência!



Outros aspectos da estratégia: estar sempre presente; cuidado com a aparência (nada de exageros efeminados pois «Uma beleza desarranjada é o que fica bem aos homens.»); o convívio gastronómico regado a vinho; a lisonja à beleza feminina, à qual nenhuma é imune; juras falsas, que muitas merecem; choro  («(...) se as lágrimas não aparecerem, pois nem sempre surgem no tempo certo, esfrega os olhos com as mãos molhadas.»); uso de força q.b., pois elas gostam; pro-actividade  temperada com retiradas estratégicas, perante casos mais difíceis; um certo tom de palidez que dá crédito à paixão.

Atenção- a concorrência está  perto: « Não é seguro gabares a um amigo o objecto dos teus amores; quando acredita em ti, que tanto gabas, ele próprio te passa a perna.».

É ainda necessário ser maleável pois « (...) são variados os corações das mulheres; mil corações, tens de apanhá-los de mil maneiras.(...) Aqui, apanham-se os peixes com tarrafa, ali com anzol, acolá as redes fundas os arrastam puxadas por cordas retesadas. E não te convém uma técnica, apenas, para todas as idades; de mais longe se apercebe da armadilha a corça velha, se te dás ares de sábio ao pé de uma ignorante ou de atiradiço ao pé de uma reservada, logo ela desconfia  de que estás a humilhá-la.»

Há, por conseguinte, o seu teor de dificuldade; é uma arte, como outra qualquer, como a metáfora piscatória ilustra certeiramente.

Seguindo estes passos e sendo eles bem sucedidos, «(...) é tempo de lançar âncora e fundear o meu navio.»

Avançaremos pois para um novo módulo: se alcançar o amor exige técnica e arte e considerável esforço, como conservá-lo, que âncora o prenderá?



Ovídio, Arte de Amar, Lisboa,Livros Cotovia, 2006, pp.37,39,41,43,45, 49,52 e 53

09 maio 2013

Arte de Amar- Engenho e Sedução

A preocupação com a pedagogia ou com o aguçar de técnicas e competências sempre existiu.Senão, sigamos Ovídio:

« Se alguém das nossas gentes não conhece a arte de amar, leia este canto; e, depois de o ter lido, entregue-se, com sabedoria, ao amor. É a arte e as velas e os remos que fazem mover as naus, é a arte que faz mover, ligeira, a quadriga. É a arte que deve reger o Amor.(...). Não vou mentir-te, ó Febo, e dizer que foi por ti que tais artes me foram dadas; nem sou inspirado pelo canto das aves que voam no ar(...) é a experiência que estimula este canto; prestai atenção a um poeta experimentado. É verdade o que canto!»

Conhecimento validado pela experiência, pois! Temos formador!

Planificação da Formação:

«Antes de mais, o que quiseres amar, trata de procurá-lo(...) logo depois, hás-de empenhar-te em fazer ceder aquela que te agradou; em terceiro lugar, farás por que dure longo tempo o amor. Estas são as fronteiras; esta é a pista que há-de assinalar a minha quadriga(...)»

Mosaico- Mérida

 Módulo Introdutório-Locais de «Caça»:

Fóruns e pórticos; o circo; cortejos;banquetes (mas cuidado com a iluminação enganadora); outros lugares:

«E os ajuntamentos de mulheres, tão propícios à caçada? (...) Que posso dizer-te de Baias e das praias à volta de Baias e da água que deita um fumo morno de enxofre?»



 Findo este tema introdutório: « Onde fazer a colheita, o que amar, onde lançar as redes, eis o que, até aqui, te ensinou Talia(...). Agora, com que artes deves conquistar aquela que te agradou, isso é o que preparo para enunciar; é o tema primeiro da minha Arte(...)».

Ovídio, A Arte de Amar, Lx, Livros Cotovia, pp.29, 30 e 37

Desta forma, segue-se, em breve, o Primeiro Módulo: A Sedução

Atenção leitores incautos: a avaliação deste percurso formativo será meramente teórica.


Objectivos:
Fantasia para um guarda-chuva vermelho, especialmente em local chuvoso, mas ameno. Senão Roma,pelo menos Açores.


06 maio 2013

"ARTE DE AMAR" de OVÍDIO - LIVRO DO MÊS - EXCERTOS CINEGÉTICOS


Se gostas de caçar,
é sobretudo nos anfiteatros
que a caça é abundante.
Oferecem-te os teatros
muito mais do que possas desejar.
Aí encontrarás
desde o divertimento inconsequente
à mulher a quem amas realmente,
desde a amada que desejas conservar
àquela a quem apalpas fugazmente.

Públio OVÍDIO Nasão, Arte de Amar, tradução de NATÁLIA CORREIA e DAVID MOURÃO FERREIRA, Lisboa, Vega, 1990, p. 21.

 
Se acaso te inquirir uma donzela
quem são aqueles reis,
que montanhas, que rios, que lugares
figuram nas imagens transportadas,
responde sempre,
responde mesmo sem que ela te pergunte;
fala como se a fundo conhecesses
o que nem pela rama tu conheces;

IDEM, Ibidem, p. 29.

 
Para quê enumerar tantas reuniões
propícias à caça das mulheres?
Os numerosos grãos de areia
mais facilmente contarei.

IDEM, Ibidem, p. 31.
 

28 abril 2013

À descoberta do canal e não só. Açores as Ilhas do encantamento ...


"... Os cedros tornaram a ramalhar bruscamente. Agora as guinadas de vento repetiam-se. Vinha certeiro no silêncio e experimentava fortemente as árvores, que durante um segundo descreviam um círculo cheio, como peões no torpor. Mas entre duas lufadas, a quinta cerrava-se outra vez; ficava tudo compacto, debaixo de um bafo. Um cheiro a lava salgada e a seiva de cedro inebriava ..."

in "Mau Tempo no Canal", capítulo A serpente cega, de Vitorino Nemésio 

Na antecipação da nossa viagem ao Faial e ao Pico, a Comunidade lê o  maravilhoso romance de VN. 

27 abril 2013

Recordação de viagem


Eis uma pedra de xisto gravada com palavras de amizade.
Veio de Miranda do Corvo.
Foi escrita, com muita paciência, em bom português de Miguel Torga.
Faz parte do acervo da Comunidade de leitores de SDRana.
Se bem me lembro...

25 abril 2013

"SATIRICON"- histórias dentro da história

História da matrona de Éfeso, plena de sugestões e ensinamentos, narrada por Eumolpo na parte V dos fragmentos de Satiricon. De grande perspicácia e pragmatismo a interrogação da serva para a sua senhora: “Irás tu própria combater um amor que te agrada?”.

24 abril 2013

EROS E PRIAPO

Um livrinho muito educativo, comprado em Pompeia há um ror de anos.

MÚSICA E CÂNONE

Sábado, dia 20, na Biblioteca Municipal de São Domingos de Rana, à conversa com António Pinho Vargas.

19 abril 2013

"QUO VADIS?"

Petrónio acordou cerca do meio-dia e, como de costume, extremamente moído: na véspera assistira a um festim no palácio de Nero. Há já algum tempo que a sua saúde deixava muito a desejar e que ao despertar não se sentia bem-disposto. Mas o banho matinal e uma boa massagem conseguiam sempre activar-lhe a circulação preguiçosa  do sangue e reanimar-lhe as forças, de modo que ao sair do oleothequium (a última sala do banho) parecia remoçado, os olhos brilhavam-lhe e o seu aspecto era tão vigoroso que nem o próprio Otão poderia com ele rivalizar. Merecia então, e muito justificadamente, o seu qualificativo de Árbitro das Elegâncias.

---- Já estou a ler. Nunca é tarde.

07 abril 2013

Da origem do bronze de Corinto ou outra pérola de Trimalquião. Do perigo de não partir garrafas diante do Imperador.




«(...) a taça foi-lhe servida  numa bandeja de bronze de Corinto. Como Agamémnon examinasse a bandeja com atenção, Trimalquião disse-lhe:
- Sou o único a possuir Corinto verdadeiro.
Eu esperava que, com a sua fatuidade habitual, ele mandasse que lhe trouxessem a baixela de Corinto. Mas fez melhor:
- Talvez perguntes a ti mesmo porque sou o único a possuir Corinto genuíno. Porque o mercador de bronze a quem o compro chama-se Corinto. Ora, a que se pode chamar coríntio senão  ao que vem de Corinto? Não julguem que sou idiota. Sei muito bem qual é a origem do bronze de Corinto. Quando da tomada de Tróia  Aníbal, um indivíduo astuto, autêntico camaleão, reuniu todas as estátuas de bronze, ouro e prata numa única pira e chegou-lhe fogo. Ao fundirem, formaram um bronze misturado. (...) Foi assim que nasceu o bronze de Corinto, de tudo um pouco, mas nem uma coisa nem outra.Perdoai-me o que vou dizer: eu prefiro o vidro, pelo menos não tem cheiro.»
[E a propósito do vidro]:«Houve (...) um operário que fez uma garrafinha de vidro inquebrável. Foi recebido pelo Imperador, com o seu presente; depois (...) atirou-a ao chão. O Imperador ficou horrorizado. Mas ele apanhou a garrafinha; tinha-se amolgado (...). Então tirou um martelinho do bolso e tranquilamente reparou a garrafinha. Depois disso convenceu-se de que poderia agarrar os testículos de Júpiter, sobretudo quando o Imperador lhe disse:- Há mais alguém que conheça esta receita para fazer vidro? (...) Quando ele disse que não, o Imperador mandou cortar-lhe a cabeça: é que, se a coisa se espalhasse, o ouro não serviria para nada.»


Seria esta obra, ou parte dela, uma crítica à corte do Imperador Nero, como Tácito defende nos Anais:« (...) debaixo dos nomes dos jovens sem pudor e das mulheres perdidas, ele traça a narrativa do deboche do príncipe e seus requintes mais monstruosos e envia-lhe esse escrito lacrado. Depois parte o selo, com receio de que este servisse mais tarde para fazer vítimas.»?






03 abril 2013

Das iguarias bizarras e da Ilíada em nova versão ou a extravagante ceia de Trimalquião



«(...) foi servido um conjunto de acepipes muito variados(...) sobre a baixela das entradas estava colocado um burro de bronze de Corinto com um duplo cabaz, contendo, um azeitonas verdes e, o outro, azeitonas pretas. Por cima do burrinho, duas travessas, dispostas em tecto, com o nome de Trimalquião e o seu peso em prata gravados nos bordos. Pranchas ligadas suportavam leirões polvilhados de mel e dormideira. Havia também salsichas ferventes numa grelha de prata e, por baixo da grelha, ameixas da Síria com bagos de romã.(...).»
«A estas palavras, quatro dançarinos avançaram ao som de música e tiraram a tampa da baixela. Vimos então, no fundo, aves de capoeira , tetas (sic) e, no meio, uma lebre ornamentada de penas, que a tornavam parecida com Pégaso. (...) nos cantos da baixela, quatro Mársias[ sátiros], segurando pequenos odres donde se escapava uma salmoura apimentada que escorria sobre peixes que nadavam nessa espécie de euripo. (...)»
« Um grupo de declamadores entrou imediatamente (...). Trimalquião sentou-se numa almofada e, enquanto os homeristas dialogavam em versos gregos (...) ele lia  o libreto latino, salmodiando. Depois, pedindo silêncio, disse:
- Sabeis que história estão eles a declamar? Diomedes e Ganimedes  eram irmãos. A sua irmã era Helena. Agaménnon raptou-a e ofereceu em troca, a Diana, uma corça. E agora Homero conta como os Troianos e os Parentinos andam em guerra. Naturalmente o vencedor foi Agaménnon e casou a sua filha com Aquiles.(...)»
[Um pouco mais tarde, após outros efeitos cénicos de grande impacto]:« (...) olhei para a mesa. Já aí tinham colocado uma bandeja com bolos; no meio erguia-se um Priapo de pastelaria, cuja veste (...) estava carregada de frutas de toda a espécie e de cachos de uvas.(...) Todos os bolos e todos os frutos, assim que foram tocados, começaram a deitar suco de açafrão e o jacto importuno chegou mesmo até nós.»

Petrónio, Satíricon, s.l., Europa América, 1973





01 abril 2013

A HORA DA ESTRELA

  

"Três décadas e meia após a morte de Clarice Lispector, a Fundação Gulbenkian apresenta a exposição A hora da Estrela, integrada nas comemorações do Ano do Brasil em Portugal. Divulgar a obra de uma das mais destacadas vozes da literatura brasileira é um dos objetivos desta exposição, que ocupará a Galeria de Exposições Temporárias do Museu Calouste Gulbenkian entre 5 de abril e 23 de junho.
Aproximar as gerações mais novas da sua obra é um dos objetivos da exposição, que tem a coordenação e curadoria de Júlia Peregrino (a mesma coordenadora de Fernando Pessoa, Plural como o Universo), mas também do escritor Ferreira Gullar, Prémio Camões 2010. A exposição já foi apresentada no Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, no Rio de Janeiro, em Brasília e em Bogotá, tendo sido visitada por mais de 700 mil pessoas.
A galeria de exposições temporárias do Museu receberá a mostra tal como foi vista no Brasil, dividida em seis núcleos, e onde se pretendem recriar ambientes dos seus livros ou passos da sua existência. Textos, fac-símiles, fotografias e documentos pessoais são mostrados nesta exposição, que também recria ambientes e cenários que inspiravam a escritora. Cartas de Erico Veríssimo, Carlos Drummond de Andrade, Lygia Fagundes e muitos outros, ajudam a conhecer melhor a personalidade de Clarice.
Nascida na Ucrânia, em 1920, Clarice Lispector chegou ao Brasil com menos de dois anos de idade. Antes de se mudar para o Rio de Janeiro, em 1937, viveu em Alagoas e em Pernambuco. Passou muitos anos fora, acompanhando o marido diplomata, mas nunca se desligou do Brasil, onde morreu em 1977. Perto do coração selvagem foi o primeiro dos seus 26 livros, hoje publicados em mais de 20 línguas."

(Do "site" da Fundação Calouste Gulbenkian)

29 março 2013

A tempestade conjugal e Ferreira de Castro



Acabámos, alguns com certo alívio, a nossa «viagem»  literária mensal em torno da tempestade interior que fustiga o protagonista do romance homónimo de Ferreira de Castro, o pequeno burguês Albano, homem de extracção rural que faz o percurso penoso e tão habitual, da província para Lisboa, à procura de uma vida melhor, onde serve como marçano nos seus verdes anos, sofrendo humilhações e duros esforços físicos (veja-se a descrição destes anos de aprendizagem nas Marés de Alves Redol).
Desta vida de subalternidade, Albano emerge, graças a estudos nocturnos, a um lugar melhor como empregado bancário,subindo a chefe da sucursal(?). Mas nunca se conseguirá reconciliar com a imagem que de si tem.
Após a morte da primeira esposa, toma uma nova mulher, com um passado, que não o ama e que também ele não conseguirá amar. Dois seres perdidos nas suas contradições, num engano mútuo,  que redunda em desavença, procurando um lugar ao sol, social e emocional: ela procura uma solução para o empobrecimento não compatível com uma anterior posição social; ele desejando e  desposando uma mulher mais sofisticada, espécie de troféu, símbolo da desejada ascensão social e possível compensação para as suas penas antigas, emulação para a sua imagem e vaidade.
Mas face a uma possível traição, que se revelará no seu abandono efectivo pela mulher, a história gravita em torno do seu desespero, do seu orgulho ferido, da vergonha social e medo do ridículo e da humilhação pública: «Agora, os outros rir-se-iam ainda mais. Ela não só o atraiçoara, mas também lhe fugira, demonstrando que não tinha (...) absolutamente nenhuma consideração por ele. Era o pior que se podia fazer a um homem! Quando ela o enganava às ocultas, com medo que ele soubesse, ainda havia nisso algum respeito... Mas assim, fugir...Iam rir-se à farta!»
A questão é como «lavar a sua honra», castigar a «aleivosa» e o que fazer , a seguir, consigo. Centrado em si, o personagem esquece que pratica o mesmo tipo de comportamento egoísta com outras mulheres (Genoveva) para fins «higiénicos». E apesar do reparo de seu amigo, Adriano, «Elas, às vezes  também têm as suas razões (...). Tudo isto está mal feito: o que fizeram os homens e até o que a natureza fez. era preciso fazer tudo de novo...», a sua preocupação rodará sempre em torno de si, até ao final.
Retratando a atmosfera sufocante, mesquinha, fechada e bafienta de Lisboa dos inícios do Estado Novo, deparamos com uma sociedade paternalista, subserviente, em que impera o duplo padrão na consideração das relações entre homens e mulheres.

De resto, a problemática da incompatibilidade de parceiros no interior do casamento; do ciúme e da insegurança masculina face ao receio do «desconhecido» feminino e à sua não adequação a quadros esperados; o desconcerto e revolta face ao desejo inspirado pela mulher, como uma força dominadora à qual o homem se quer subtrair; a visão da mulher como propriedade do homem e a indignação pela sua não resignação/agradecimento ao macho zeloso, além da imemorial tolerância do uso da violência contra a mulher, estão patentes em numerosos escritos da literatura ocidental. Do clássico Otelo, de Shakespeare ao D. Casmurro de Machado de Assis, da Sonata a Kreutzer de Leão Tolstoi ao conto O Vestido Cor de Fogo de José Régio, a ofensa, suposta ou verdadeira, do orgulho masculino, desembocam no afastamento, violência ou assassínio.
Também as mulheres terão os seus meandros...mas são outras histórias. Ainda bem que esta acabou...no livro, pelo menos. Viremo-nos pois, para os clássicos latinos... Outras épocas...outras histórias, talvez.

Kreutzer Sonata, por René François Xavier Prinet

A Morte de Desdémona- Eugène Delacroix